O Preço da Magia

17 Episódio 17: Ange Noir De Ma Vie


Notas iniciais
*Anjo negro da minha vida Boa noite (ou dia/tarde, dependendo da hora que você estiver lendo essa bagaça =P), minhas lindas! Como estão todas? Eu estou meio chateada comigo mesma, tinha me cobrado postar esse capítulo em fevereiro (como prometi à Elvish Song, inclusive... mals aí, gatona), mas duas coisas me atrapalharam terrivelmente: 1ª) O carnaval foi mais pesado do que eu achei que seria, saí dele espancada; 2ª) Acreditem ou não, esqueci que fevereiro tinha 28 dias (otária mesmo, hahaha). Mas tudo bem, o importante é que saiu =D Dedico esse episódio à Elvish Song, leitora nova fofíssima que comentou em praticamente todos os capítulos! Muito obrigada por dar uma chance à fic, sua linda! Espero que continue gostando e acompanhando ♥ E também dedico à Bia, essa cretina que provavelmente já foi minha irmã em outra vida e mandou uma recomendação fodalhona pra história *-* MUITO OBRIGADA, JACU! Sabe que eu amo todo o reconhecimento que sempre me deu, né? ^^ Enfim, falo mais com vocês lá embaixo, antes que desistam de ler o capítulo, hesuhuehuseh

Um estrondoso trovão retumbou, brusco, como uma anunciação dos maus presságios que aquele juvenil dia guardava já nas suas primeiras horas. Propagando por cada viela escura da Ile de la Cité o agouro que se estenderia num malogrado alvorecer.

Outro golpe enérgico se anunciou sobre a elegante entrada da catedral, confundindo-se com os clarões que logo vinham acompanhados de estouros potentes. A promessa das águas pluviais parecendo disposta a competir com o estardalhaço que se criava naquele lugar que simbolizava ensinamentos de paz, porém que apenas soube trazer guerras e tornar ainda mais discrepante a miséria dos proscritos...

...Daqueles mesmos homens e mulheres que vinham em busca de justiça, tão renegada aos ciganos. E que agora seria clamada ao som de seus gritos.

Esmeralda e Frollo, novamente vestidos, dividiram a visão da janela circular que se abria na lateral de Notre Dame, buscando pela confirmação de suas suspeitas e não tardando a encontrá-la. Clopin e vários outros ciganos compartilhavam entre si o peso de uma enorme tora de madeira, forçando-a sobre os portões da catedral em baques brutos.

— São eles... — A estrangeira sussurrou num pesar desamparado, sentindo como se o sangue abandonasse seu corpo de uma só vez. Por mais que estivesse ciente do conflito que estava por vir, até aquele momento não conseguira se desprender da esperança tola de que os egípcios desistiriam daquela investida alucinada. E agora, completamente dividida, temia profundamente pelos dois lados — Meus irmãos... Se eles conseguirem entrar... todos nós estaremos perdidos!

— Não se preocupe, Esmeralda. Jamais serão capazes de romper a entrada da catedral desta forma. Estaremos seguros aqui. — O sacerdote asseverou num tom calculista, conhecendo a força inabalável daquela construção. Percebeu um ímpeto raivoso dominá-lo, de repente ansiando por um confronto mais aberto com os ciganos.

Por ousarem desafiar as leis divinas que o próprio Frollo já abdicara.

Por ousarem interromper a consumação de seu desejo pela menina pagã que o enfeitiçou.

E, acima de tudo, por ousarem colocar em risco sua Esmeralda naquele ataque desprevenido e impensado.

“Se a virem aqui...” — O arquidiácono principiou aquele pensamento, incapaz de desenvolvê-lo rumo às consequências.

— Ninguém entrará! — Reafirmou sua convicção, talvez como uma forma de acreditar plenamente em suas próprias palavras duvidosas. Afastou Esmeralda da janela, envolvendo-a em braços protetores — Está segura, minha menina. Eu prometo.

— Não sou eu quem está correndo algum perigo real aqui. Por pior que minha traição possa parecer a eles, essas pessoas me conhecem, me viram crescer... eu faço parte da mesma comunidade que elas. Nada seria feito a mim antes de um julgamento. Já com vocês... — Deixou a frase perecer, fitando-o de modo sugestivo. Segurou as mãos do arquidiácono com firmeza entre as suas, sem se atrever a desviar sua visão dos orbes castanhos, íris revoltosas que desde o princípio a encaravam com tanta intensidade — Precisamos nos juntar a Quasímodo e encontrar alguma forma de deixar a catedral o quanto antes, Frollo. Foi estupidez ficar aqui sabendo o que nos aguardava...

— Não há maneira de sairmos despercebidos com os ciganos bem à porta. — Segurou-a pela nuca como um afago — Ainda dispomos de alguma vantagem, ma belle! Permanecer sob o teto de Notre Dame é nossa melhor chance no momento...

— Não exatamente. Só estamos numa situação desfavorável um pouco melhor do que a deles, e isso logo pode mudar. Deve haver algum outro jeito... — Fitou a janela com pesar, engolindo em seco — Talvez, se eu sair e falar com eles... Se conseguir fazê-los entender tudo o que aconteceu desde o início, que você e Quasímodo me ajudaram por todo esse tempo...

— Nem pense nisso, Esmeralda! — O arquidiácono contestou incrédulo, e a cigana compreendia bem a razão de seu temor. Aquele medo também lhe pertencia — Você, muito melhor do que eu, conhece as leis ciganas. Será castigada se a encontrarem aqui, tomando o partido oposto.

— Eu sei... — Baixou a face, tentando encontrar alguma solução cabível — Mas se eles conseguirem entrar, minha situação será ainda pior. Eles correm o risco de sofrer algum ataque lá fora, e eu terei me calado diante disso.

— Confie em mim! Ninguém vai entrar, e duvido que haja algum conflito direto. Logo os ciganos desistirão dessa tolice! Voltarão ao Pátio antes que o sol nasça e os soldados assumam seus postos. Espere um pouco mais, Esmeralda... Não se coloque nesse risco desnecessário. Pode fazer isso?

A egípcia sorriu de leve para o homem, aceitando por ora acatar sua sugestão. Por mais que lhe desagradasse não agir, sabia que havia certa lógica no raciocínio do arquidiácono.

— Posso esperar um pouco mais... — Murmurou, disposta a fazê-lo apesar da impaciência.

— Nada vai acontecer, menina. Eu prometo!

— Menina... — A boêmia riu, parecendo de leve divertir-se, aceitando de bom grado alguma distração para lhe afastar daquele mar de más expectativas — Continua a me chamar assim, padre, mesmo depois de lhe provar que sou mulher. — Provocou com um olhar lascivo, fazendo questão de se colocar a irrelevantes centímetros de Frollo em meio àquele encarar irreverente.

— O mesmo posso dizer de você, cigana. Insiste em me titular de padre, ainda que já tenha demonstrado ser um pária dessa fé. — Como que para comprovar seu ponto, Claude a beijou, sentindo o peso daquelas palavras recair sobre os próprios ombros, assustado por perceber que de fato não conseguia mais se considerar um sacerdote...

...Deixara, em seu coração, este ofício para trás no instante em que pousou os olhos em sua Esmeralda.

Mestre! — Quasímodo entrou com afobação no aposento do arquidiácono, sem sequer preocupar-se em antes anunciar sua presença. O semblante torto inicialmente surgira repleto de terror, porém aquela expressão logo se transformou numa dor íntima quando percebeu a proximidade tão pessoal entre a cigana e o padre. Seus olhos se demoraram desconcertados sobre os dois, já afastados, sem notar a ira legítima no olhar de Claude.

Ainda mais intensificada quando Esmeralda foi de encontro ao corcunda, preocupada com o medo que era capaz de ver na contrição de seus orbes. Ela mesma já preparada para o pior.

— Quasi... — Segurou as mãos calosas sobre as suas com gentileza, os verdes olhos bem fixos sobre o sineiro de uma forma que fez seu rosto corar no mesmo instante — O que houve?

— Eu não... Não queria atrapalhar... — Relanceou um olhar tímido ao tutor, incapaz de lê-lo em sua postura rígida — Me perdoe, mestre...

— Fale, meu amigo! Qual o problema? — A egípcia o incentivou, cada um de seus sentidos um tanto alarmados diante do ataque já esperado.

— Os ciganos... Não estão conseguindo passar por nossos portões...

— Nada além do esperado, Quasímodo. Por que o espanto? — Frollo questionou com algum traço de rudeza, ainda contrariado com a interrupção que aparentemente fora gerada por banalidades.

— Porque eles mudaram de tática, mestre. Agora parecem dispostos a incendiar Notre Dame. Deixaram de lado o saque assim que perceberam infrutíferas as tentativas de invadir a catedral. — Contou com enorme preocupação, e quase no mesmo instante Esmeralda foi capaz de sentir os primeiros odores de fumaça invadir suas narinas. Perguntou-se, surpresa, como não notara antes.

Quasímodo percebeu os dedos da boêmia se afrouxarem após um breve tremor, e seus belos olhos de cigana se focaram em nada específico.

— Então estamos presos aqui... — Ela atestou num murmúrio quase sem vida, tão apático e derrotado que não parecia pertencer àquela mulher.

Um novo e escandaloso trovão cortou sua fala, como se concordasse com suas elucubrações mais sombrias.

— Não foi o que eu quis dizer... — O sineiro contrapôs cheio de pressa, e um amargor enorme pareceu se depositar sobre o rosto do rapaz — Tentei lidar com o fogo... Apagá-lo antes que se espalhasse e causasse maiores estragos, mas era apenas eu contra o próprio Pátio dos Milagres, e não pude frear o incêndio... — Admitiu, parecendo envergonhado daquela incapacidade — Por isso desisti... precisei vir alertá-los... Notre Dame logo será consumida pelas chamas. Temos que deixar a catedral o quanto antes, se não quisermos o mesmo destino.

— Como? — Esmeralda parecia cética quanto às suas possibilidades de escapar, por aquele instante esquecendo um dos grandes talentos de seu valioso amigo. Caminhos convencionais, afinal, nunca constituíram as primeiras opções do sineiro — Como podemos sair ilesos, sem encontrar o grupo de ciganos?

— Pelos telhados! — O corcunda deu um sorriso melancólico, em nada agradado por abandonar Notre Dame e suas damas douradas, porém ao mesmo tempo arrebatado pela esperança que nasceu no semblante de Esmeralda — Nossa única chance é escalar, mas precisamos ser rápidos.

— Devia ter nos chamado enquanto o fogo ainda podia ser detido, Quasímodo! — Frollo asseverou, ainda dominado por uma irritação que não era capaz de compreender plenamente, embora conhecesse sua origem. Detestava, por mais ilógico que fosse, o companheirismo tão genuíno que existia entre sua cigana e o rapaz que era seu protegido desde criança. O arquidiácono pôs-se à frente sem esperar resposta, travando passos pesados para fora dali e indicando o caminho a ser seguido.

Ao descerem até a nave da catedral, imediatamente perceberam vários pontos já dominados pelas toras incandescentes, jogadas para dentro do local sagrado pelas janelas circulares que agora tinham os vidros quebrados. Os bancos de madeira — que antes serviam para acomodar os fiéis que vinham em busca da palavra de Deus — agora serviam como combustível ao fogo cada vez mais elevado, crepitante em seu propósito destrutivo.

Tentando prender a respiração o quanto puderam ao atravessar a densa fumaça, Frollo sentiu-se estranhamente estagnado diante daquela visão incomum. O altar, ardendo em chamas, parecia chamá-lo no ponto em que se elevava a imagem de seu antigo messias, iluminado pelos tons laranjas e rubros de extermínio.

A estranha voz chegou até ele, como uma promessa.

“Fique, Frollo. Purificar-se com esse fogo é a única esperança de salvação à tua alma desgarrada! Ultrapasse essa linha, e até eu desistirei de ti, meu filho.”

O corcunda e a cigana, totalmente submersos na necessidade de fugir daquele caos, não perceberam de imediato que o sacerdote ficara para trás. Agora sozinho diante do altar, o arquidiácono se aproximou brevemente da imagem de Cristo pregado, num estado quase hipnótico de contemplação.

— Já não me abandonaste, afinal? Desde que passou a ignorar minhas preces e súplicas mais desesperadas em busca de salvação? — Frollo sussurrou num tom imperceptível, quase um pensamento um pouco mais alto do que o habitual.

Nada lhe veio em resposta, como se seu deus recuasse diante daquela disfarçada acusação. Tomado por um instante brutal de cólera, Frollo aproximou-se com mais vontade, quase inconsciente do ar carregado e tóxico que respirava. Nem mesmo reparou na viga solta que ameaçava cair bem próximo de si. Todo o ambiente à sua volta parecia secundário, trivial. Quando tornou a falar, sua voz saiu mais altiva, apesar de ainda baixa.

— Nunca esteve aqui por mim, e agora clama por minha alma, como se possuísse sobre ela algum direito. Eu o renuncio, filho de Deus, assim como a teu pai. — O arquidiácono arrebentou num puxar rápido o cordão que pendia em seu pescoço, o crucifixo que tanto buscara (em vão) como amuleto, agora para sempre distante de seu peito, tal qual sua fé. Jogou-o na direção do fogo, e no mesmo instante provou um verdadeiro êxtase por testemunhar aquele incêndio. Por deixar que ele seguisse seu rumo até o total aniquilamento.

Por se deliciar com os destroços de sua maior prisão, que logo se resumiria a ruínas bem distantes de sua antiga grandiosidade.

— Eu não sou seu filho! Nunca fui. — Completou enraivecido, e no mesmo instante, como uma punição, a viga se desprendeu por completo do alto da catedral, atingindo Claude com força arrebatadora no terço final da coluna.

FROLLO! — Esmeralda o chamou do topo da escada ao se dar conta de sua ausência, já querendo descer novamente os degraus em busca do padre.

— Estou a caminho... — Ele conseguiu gemer de volta, envolvendo a ferida sangrenta com uma das mãos enquanto mantinha o olhar perigoso sobre a imagem morta de Jesus. Sem mais qualquer dúvida a lhe travar, deu as costas para o principal símbolo daquela religião já tão falida em seu atormentado coração, seguindo em frente.

Chegou ao topo do campanário, recebendo com satisfação o alívio da cigana ao contemplar a visão de si. Sem reparar em maiores detalhes, Esmeralda voltou sua atenção para o corcunda, já preparado para sair dali.

— Leve Esmeralda em segurança, Quasímodo! — Frollo ordenou, não dando tempo para os protestos da egípcia — Depois pode voltar e me ajudar.

O sineiro prontamente o obedeceu, auxiliando o caminho da estrangeira com sua própria experiência por aquelas rotas nada comuns. O sacerdote esperou junto à janela, se permitindo respirar um ar mais saudável. Mais rápido do que calculou que o corcunda fosse capaz, Quasímodo já estava de volta lhe oferecendo uma mão calosa em assistência. O padre segurou-a, tentando mudar o foco de sua concentração da dor que o atingia, percebendo o sangue se esvaindo fora de seu controle, por mais que seus dedos tentassem contê-lo.

Os trovões deixaram de soar apenas como uma ameaça à Cité, e logo uma chuva forte se abateu sobre Paris, como se as próprias divindades cristãs tentassem reverter aquela afronta à sua casa mais bela. Contudo, nem mesmo as águas vindas do céu seriam capazes de frear as destruições já iniciadas.

O sineiro pousou o sacerdote com delicadeza no chão ao lado da cigana, porém Quasímodo não desceu de cima das telhas. Com olhos marejados de tristeza, vislumbrou uma das grandes paixões de sua vida ser devastada. Quando o maior dos sinos — a dama de ferro que mais amava, a quem ele batizara de Marie — cedeu e caiu num estrondo ensurdecedor pela catedral, a dor pulsante em seu ser ficou um tanto quanto mais difícil de se ignorar. Sem pensar no que fazia, correu para longe de seu mestre e sua amada, vencendo a distância pelo caminho elevado dos telhados, logo sumindo de vista e indo chorar suas profundas feridas ao longe.

— Quasi! — Esmeralda chamou sem querer gritar, percebendo o próprio coração se partir com a tristeza arraigada de seu amigo tão querido. Tão forte, e ao mesmo tempo tão frágil.

— Deixe-o... — Frollo arquejou, não mais conseguindo dissimular o tormento daquela lesão. Escorou-se junto a uma parede, temendo tombar — Ele precisa de um tempo a sós... Notre Dame era mais do que um lar para Quasímodo... Era um refúgio às suas dores...

— Você se feriu... — A cigana constatou com pesar, ajudando-o a permanecer ereto, notando o sangue profuso na mão do homem sendo lavado pela chuva que já os encharcava.

— Não foi nada, menina... — Segurou-a num gesto incerto pela nuca, em perfeita veneração de seu rosto — Poderia ser muito pior se não viesse nos avisar desse ataque. Provavelmente morreríamos dormindo, desavisados desse incêndio.

Esmeralda sorriu, convencida, toda dominada pelo alívio de saber que os dois homens estavam a salvo apesar de tudo.

— Estaria mesmo perdido se não fosse por mim, monsieur... — Troçou, porém seu bom humor logo se apagou quando virou de leve o tronco do sacerdote e percebeu o tamanho do corte que vertia sangue. “Talvez ainda esteja perdido...”, pensou, alarmada — Por Júpiter, Frollo, isso está horrível... Acha que consegue andar?

— Acredito que sim... — Anuiu sem muita firmeza, ele mesmo duvidoso daquela afirmação, porém não havia outra escolha. Se ficasse ali, acabaria cedo ou tarde sendo descoberto pelos ciganos que ainda atacavam Notre Dame, dispostos a destruí-la até que não restasse mais nada.

Dedicou um olhar mais minucioso sobre seu antigo lar, embora a visão se embaçasse tanto pela forte chuva quanto por sua desfavorável condição. Um arrepio deleitoso o dominou ao prestar atenção no jogo de sombra e luz que se criava ali, bem diante de seus olhos sedentos por aquela imagem. Se não fosse a terrível dor em suas costas, sabia que sucumbiria à vontade insana de gargalhar. Vislumbrar a catedral arder daquela forma tão libertadora acendera em si uma necessidade alucinada de rir, até que seu fôlego se esgotasse.

Era o tipo de espetáculo que merecia ser apreciado...

— Vamos para a minha casa! — Ela anunciou, arrancando uma tira generosa da barra de seu vestido para improvisar uma atadura que aguentasse apenas ao longo da caminhada. Prendeu o tecido ao redor do corpo do arquidiácono por baixo de sua veste, mais apressada do que nunca — Lá poderemos cuidar melhor disso. — Disse, e deram início à caminhada silenciosa.

Aquele foi um trajeto cheio de desafios.

A cada novo passo, Frollo mancava num trejeito mais acentuado, e a lividez de seu rosto deixava clara uma preocupante propensão ao desmaio. Esmeralda vez ou outra relanceava olhares incertos para o homem, por vezes jurando encontrar um sorriso incoerente em seu rosto. Começou a preocupar-se não só com o sacerdote, mas com o tempo perdido naqueles passos lentos. Precisava chegar ao Pátio antes dos demais ciganos se quisesse manter o arquidiácono vivo.

Frollo estava aguentando bem, mas ainda não era suficiente.

Num determinado trecho, ele caiu de joelhos, ofegante, e só não tombou de vez porque a cigana o amparou a tempo, segurando-o com firmeza pelos ombros e também ajoelhada à sua frente, como se lhe suplicasse.

— Só mais um pouco, padre, s'il vous plaît! — Beijou-o, e tremeu ao sentir os lábios gélidos do homem — Vamos, levante! Eu ainda o quero vivo, monsieur...

Claude forçou o olhar anuviado sobre ela e, sem saber como, conseguiu reunir o pouco que restara da própria força de vontade para atender ao pedido da egípcia, percebendo o corpo bambear sem muito controle quando se ergueu, todo o seu organismo reclamando com avidez pelos vários esforços.

Conseguiu andar um pouco mais, mas suas pernas se habituaram à fraqueza.

Esmeralda praticamente o carregou sozinha pelos últimos metros até sua casa, e por mais que aquele peso extra do arquidiácono testasse cada aspecto de suas forças, conseguiu arrastá-lo a passos vacilantes até a segurança de seu lar. Num estado semiconsciente, o homem pouco a ajudou naquele trajeto final.

A cigana, já ofegante pelo esforço, atravessou a simplicidade de sua modesta casa, conduzindo-o ao próprio quarto para que pudesse tratá-lo com mais cuidado. Já bem mais tranquila por escondê-lo junto consigo, ela o secou o melhor que pôde e o deitou em sua cama, percebendo o olhar castanho um pouco vacilante sobre si.

— Eu volto já. Tente não se mexer! — Alertou, saindo numa pressa que ainda parecia um tanto graciosa e sedutora aos olhos imprecisos do sacerdote.

Retornou ao aposento no que pareceu o segundo seguinte, trazendo consigo objetos que não chamaram a atenção de Frollo. Apenas conseguia se manter ainda desperto ao olhar o rosto egípcio de sua bela menina, encantando-se com a doçura que havia nele, parecendo vislumbrá-lo pela primeira vez.

— Isso vai doer... — A voz soou como um pedido de desculpa, embora houvesse uma determinação inabalável em seu timbre — O que provavelmente é bom. Irá despertá-lo, creio.

Ajoelhou-se ao lado de Claude no colchão, tirando de seu corpo o manto sacerdotal. Posicionou-o de bruços, usando um trapo junto ao corte para impedir o sangue de passar para seu lençol, apesar de já haver uma longa trilha rubra pelo colchão. Destampou com os próprios dentes uma garrafa de vinho, despejando o conteúdo no ferimento largo do padre, capaz de arrancar do homem um urro bem consciente de dor.

Ele ergueu o tronco que se sustentou pelos cotovelos firmados na cama, dispensando um olhar mais desperto e analítico ao que Esmeralda fazia.

— Sinto muito... — Ela lhe deu um meio sorriso de teor culpado — Aqui no Pátio os recursos são escassos... Nos viramos com o pouco que temos... — Fitou com preocupação o sangue que ainda vertia da ferida, não querendo mais perder tempo em fechá-la — O corte se aprofunda um pouco quando chega à lateral do corpo. Terei que costurá-lo, antes que perca ainda mais sangue.

Frollo, ainda com uma reserva duvidosa de autocontrole, apenas assentiu numa concordância fraca, ajeitando o corpo da maneira que pôde para facilitar aquele serviço que se provou um tanto desagradável. Sua respiração tornou-se mais pesada à medida que a cigana perfurava as bordas do corte com a agulha, tratando-o com o máximo de delicadeza que a situação permitia.

— Vou tentar terminar o mais rápido possível... — Ela o consolou, pesarosa como se sentisse na pele as dores do arquidiácono, ao mesmo tempo tentando atrair sua atenção para mais perto da consciência — Você provavelmente faria um trabalho melhor, mas duvido que conseguisse alcançar o ferimento...

— Está se saindo muito bem, Esmeralda! — Disse em meio ao entrecortar de sua voz, finalmente capaz de se manifestar.

A cigana sorriu, satisfeita e aliviada por percebê-lo mais responsivo. Avançou, compenetrada, naquela costura da carne pálida, fazendo o possível para concluir os pontos simples com rapidez e competência, demonstrando alguma habilidade naquela tarefa.

— Pronto! — Ela anunciou aliviada, usando os dentes para cortar o fio sobressalente. Passou um pano sobre o local lesionado, tirando dali os últimos vestígios de sangue e cobrindo-o com uma bandagem limpa — Foi preciso costurar uma camada de músculo além da pele. Eu desinfetei a linha com um pouco do vinho, não acho que terá de se preocupar com nenhuma infecção.

— Parece que hoje nossos papeis se inverteram... — Ele conseguiu erguer-se no leito, agora sentado de frente para a cigana, analisando-a com cuidado, procurando por qualquer indício que comprometesse a integridade da menina que venerava, acima de tudo. Muito mais intensamente do que um dia chegou a adorar seu Deus — Você se machucou, ma belle?

— Nada que precise de atenção. Alguns cortes pequenos, apenas. Trouxe também alguma comida — Pousou uma vasilha modesta no colo do homem, junto a um jarro de água — Malay* e brynza**. Queria ter carne e legumes para oferecer, mas nossos animais adoeceram e nossa plantação foi destruída pelos soldados... — Contou, parecendo já bem habituada à escassez, sorrindo ao notar a hesitação do arquidiácono — Eu não vou passar fome por te dar algumas migalhas, Frollo. Coma. — Insistiu, satisfazendo-se apenas quando o padre desertor de sua fé dedicou alguma atenção ao alimento precário, porém bem vindo. Engoliu longos goles de água antes de dar bocadas generosas na refeição improvisada.

A cigana ficou até que ele terminasse, logo em seguida se afastando.

— Vou deixá-lo descansar em paz. Algumas horas de sono devem ajudar! Minha cama é muito mais modesta do que a sua em Notre Dame, mas vai servir... Estarei bem aqui ao lado, caso precise de algo. — A cigana levantou-se, ameaçando partir.

— Esmeralda... — Ele ergueu-se com alguma dificuldade, colocando-se de frente à menina com um de seus olhares suplicantes, impedindo seu afastamento. Os dedos frios seguraram a mão delicada da cigana, num aperto que intensificou o pedido — Fique! Por favor!

— Eu gostaria, mas é melhor não, acredite... — Soou desapontada, assim como o próprio arquidiácono. Acariciou a mão que segurava a sua, seu timbre brando querendo se embargar — Você se cansou demais vindo até aqui. Realmente precisa de um descanso, até para poupar os pontos que acabei de fazer. — Esmeralda lhe deu um beijo delicado nos lábios, em algum nível extravasando suas próprias tensões naquela troca de carícias. Quando se afastaram, Claude percebeu os belos olhos marejados — Eu aqui seria uma péssima distração. Duvido que conseguiria deixá-lo em paz...

Ma belle... O que houve? — O arquidiácono inquiriu, afetado por aquelas lágrimas presas às pálpebras de sua cigana, incapaz de compreendê-las. Secou os olhos verdes de sua menina que ameaçavam se inundar em lágrimas, ainda a inquirindo com o olhar.

— Isso? — Ela mesma tirou o restante da umidade com o dorso da mão, soltando um riso curto e desinteressado — Alívio líquido, eu acho... Estava certa de que não conseguiria trazê-lo até aqui... que fosse tarde demais! — Respirou fundo, tentando acalmar os ânimos — Só estou um pouco tensa ainda, logo passa.

Frollo de imediato demonstrou uma legítima surpresa por aquele temor confidenciado da boêmia, e seu semblante se tornou um pouco mais fechado naquela conduta pensativa, agora repleto de dúvidas antigas. Que já o atormentavam desde o primeiro beijo que trocaram em Notre Dame. Esmeralda percebeu aquela súbita mudança, também adotando uma postura curiosa.

— Disse algo errado? — Ela o questionou, os verdes orbes vibrantes ansiosos por desvendá-lo sempre que pudesse. Frollo negou com um meneio ainda incerto de cabeça, incapaz de despistar aquele ar mais introspectivo.

— Apenas prossigo me torturando com minhas próprias dúvidas... — Disse, vago, e como o olhar curioso de Esmeralda apenas se intensificou, Claude se permitiu a sombra de um sorriso, tocando com suavidade o belo rosto de sua menina e lhe explicando o que ela queria entender — Jamais serei capaz de compreender o que viu em mim. Por quais razões me corresponde dessa forma... Sou um homem velho, Esmeralda, tomado de incertezas e angústias. Por que se importa?

— Você não pode estar falando sério... Por que eu me importo? — Esmeralda sobressaltou-se, não camuflando o espanto que a invadiu com tal questionamento — Preciso deixar bem claro então, monsieur, para que não lhe restem mais dúvidas a esse respeito... — Pousou uma das mãos na nuca do sacerdote, encarando-o com uma intensidade desconcertante que mais uma vez o tornou prisioneiro daquelas duas gemas verdes, tão chamativas. Ao mesmo tempo sedutoras e gentis — Quando o conheci, vi um homem que de início me assustou, pois cometi o erro de julgá-lo intolerante com meu povo. Alguém que me alarmava por sua conduta sempre rígida, seus modos fechados numa amargura que parecia impenetrável a qualquer um. Contudo, tive a sorte de conseguir conviver um pouco com esse mesmo homem, e logo descobri que tudo aquilo que eu achava que sabia sobre ele estava errado, desmentindo minha ignorância. — Esmeralda passou a descansar a mão livre na lateral do quadril de Frollo, sem perceber se aproximando um pouco mais do padre — Comecei a ver muito mais nele desde então. Seus muitos mistérios me intrigavam, e conforme eles iam se revelando bem aos poucos para mim... — Diminuiu o tom de voz, como alguém que revela um segredo — ...eu me fascinei, confesso. Talvez até mais do que o permitido a uma cigana já calejada pelas dificuldades da vida. A partir disso, passei a enxergar com clareza o homem bondoso que salvou uma criança deformada da morte certa... — Esmeralda não conseguiu se conter, unindo novamente seus lábios num beijo que, apesar de rápido, foi afoito — ...que se arriscou por uma cigana e a salvou de um destino ainda mais terrível do que aquele que ela viveu... — listou, fazendo uma pausa um pouco mais longa do que a última quando novamente se propeliu aos lábios do arquidiácono, cada vez mais incontrolável naquele desejo. Querendo, acima de tudo, deixar transbordar seu consolo por tê-lo ali, saudável apesar das adversidades — ...vi um homem gentil e amoroso que foi capaz não só de cuidar das feridas corpóreas dessa cigana, como também vem tratando de seu espírito quebrado... — Beijou o atônito arquidiácono por mais tempo dessa vez, insinuando o corpo junto ao dele à medida que sua boca se aprofundava sem mais pudor contra a do arquidiácono. As gemas verdes se cravaram nos olhos amêndoas com gravidade, sem se largarem por nada naquele contemplar mútuo — Talvez, monsieur, num mundo que fizesse algum mínimo sentido, uma cigana jamais devesse se apaixonar por um sacerdote, mas o destino parece ter uma predileção cruel por fatalidades desse tipo.

Frollo estagnou por um instante que pareceu perder a coerência, incapaz de acreditar ser ele o alvo de tais palavras. Logo ele. Um homem que há pouco tempo sequer imaginava ter sua fé posta à prova, e que agora agradecia pelo fato de não ser mais um prisioneiro de suas próprias crenças. Finalmente conseguindo esboçar alguma reação, o arquidiácono segurou o rosto de expressões firmes de sua menina, ele mesmo sentindo que devia transparecer o mais embasbacado dos homens, chegando a cogitar se poderia estar sofrendo algum tipo cruel de alucinação pelas dores de seu ferimento.

Delírio ou não, Esmeralda ainda merecia uma resposta. A garota, naquele instante, destruíra por completo o poder de sua enaltecida eloquência, portanto Frollo redarguiu da única maneira que achou ser sensata.

Curvou-se em direção a ela, prendendo-a na sincronia de seus lábios à medida que a erguia pela cintura para desfazer o desfalque daquela diferença de altura. Esmeralda cingiu as pernas ao redor do quadril de Frollo — ligeiramente acima dos pontos recém costurados — sentindo as mãos do homem a sustentarem pela parte de trás de suas coxas, sua força antes escassa parecendo agora redobrada, repleta de um novo vigor. A egípcia intensificou o contato do seu corpo contra o do padre, ainda dominada pela ardência de seu toque, que por ela permaneceria ininterrupto.

O sacerdote, contudo, distanciou sua boca o mínimo possível da menina pagã, fitando-a com um traço de diversão, tão inesperado à sua personalidade, e por isso mesmo tão valioso a ela quando se mostrava.

— Ainda deseja partir, por achar que o esforço desfará meus pontos? — Ele sussurrou, mordendo de leve o queixo da egípcia, enlouquecido pela brasa esverdeada que contornava seus olhos cobiçosos.

— Não se preocupe... Ainda tenho bastante linha! — Sorriu, tentada pelos toques já iniciados, conduzindo os lábios pelo pescoço de Frollo até repousar junto ao ouvido do homem — Acho que estaria mesmo preocupada com sua saúde se não demonstrasse esse interesse... Se, de alguma forma, suas pretensões para comigo fossem afetadas — Esmeralda riu, percebendo o semblante do homem se intensificar de maneira um tanto desconcertante a ela, que sempre acabava se perdendo no ardor irrestrito do arquidiácono.

— Quando esse dia chegar, já estarei morto, minha cigana... — Advertiu, retomando com maior brusquidão os lábios da egípcia para si.

Claude a conduziu até o leito, dispondo-se sobre o corpo agora deitado da menina que de tantas formas o ludibriava. Perdido e enredado por cada um de seus muitos feitiços, dos quais sequer queria escapar.

Je t’aime, ma belle! — Frollo confidenciou baixo, junto aos lábios da estrangeira, e Esmeralda se sentiu estremecer em seus braços, aflita por mais uma vez provar cada sensação que ele lhe despertava.

Virou-o de modo que agora ela estivesse por cima, embalando-o num beijo quase violento, seus volumosos cachos caindo ao redor dos rostos que se tocavam cheios de veemência. Tomados por uma mesma volúpia e tantas necessidades iguais. Esmeralda foi se afastando, beijando agora uma longa trilha que se estendeu do pescoço até o abdômen resfolegante do sacerdote. Parou apenas ao se deparar com o inconveniente tecido negro de sua calça.

Sentou-se sobre as pernas do padre, desafivelando o cinto igualmente escuro e desabotoando a veste sacerdotal. Despiu-o, ela mesma se dando conta de que ainda estava coberta por camadas indesejadas de panos. Quase praguejando pela pausa inconveniente, a cigana desamarrou o vestido que há poucas horas haviam tirado para aquele mesmo intuito. Sorrindo com a roupa já larga sobre o seu corpo, acomodou-se sobre o tórax de Claude, percebendo sua respiração sôfrega à medida que deslizava a vestimenta para longe em movimentos sensuais. Como se fizesse questão de zombar de forma declarada do efeito arrebatador que naturalmente já possuía sobre o homem, de todo tentado pelos artifícios da cigana.

Ela fez um leve contorcionismo para retirar de si cada indigno tecido, dando à Frollo aquela mesma visão abrasadora da pele vários tons mais escura do que a sua, formada em curvas chamativas que, ao toque e ao mero olhar, tinham a capacidade de inflamar.

A estrangeira realojou-se junto ao quadril do homem, segurando com cuidado o membro já rijo e se encaixando aos poucos nele, num novo consumar de seus desejos febris. Esmeralda iniciou aquele mesmo sincronismo do sexo, aquela coreografia parecendo ao padre tão bela quanto suas danças mais inspiradas, tirando-o de si não só por sentir sua cigana da maneira mais íntima permitida, mas também pela visão privilegiada daquele corpo que se insinuava em movimentos repetidos acima do seu.

Sem mais conseguir lidar com a fúria indomada de seus próprios sentimentos, o arquidiácono ergueu o tronco com ímpeto para junto de sua egípcia, notando com prazer redobrado a satisfação notória que a menina demonstrou ao tê-lo mais perto. Completamente ao seu alcance.

Enlaçaram-se não apenas em carne, mas em alma.

Seus corpos, naquele instante dependentes do calor que emanava do outro, procuraram-se na proximidade que o oscilar do sexo permitia. Esmeralda aumentou a velocidade com que o buscava, envolvendo-o com os braços num momento de satisfação plena.

— Frollo... — Sussurrou de forma ofegante, toda entregue ao deleite assim como seu parceiro, que estremeceu ainda mais ao ouvir a voz de Esmeralda clamando por si enquanto seu timbre transmitia uma nota aguda de prazer.

Buscaram pela boca um do outro ao mesmo tempo, partilhando a mesma necessidade de aprofundar aquela união o quanto pudessem. A boêmia insinuou o corpo com mais força contra o homem, parecendo disposta a escavar por entre seus lábios em busca do toque úmido de sua boca. As mãos o cobriam em afagos afoitos, não mais compreendendo se havia algum limite que ousasse separá-los. Claude puxou-a ao novamente se deitar, dominando agora as estocadas contra sua cigana, ambos arfando sem qualquer domínio sobre a respiração rude. O homem gemeu quase no mesmo instante em que Esmeralda, agora abaixo de si, tanto o padre quanto a egípcia testemunhando em conjunto o ápice de mais aquela união.

A mulher rodeou mais uma vez as pernas ao redor do arquidiácono, mergulhando nos níveis mais profundos de qualquer gozo já sentido. Quase assustada por vivenciar tamanha intensidade. Arqueou o ventre para junto do homem, ofegando com ainda mais ênfase quando ele se pôs a beijar seu seio direito, o rastro molhado da língua sobre o mamilo sensibilizando-a ainda mais aos comandos do prazer.

Segurou a nuca do padre, mordendo com força o lábio inferior sem que percebesse. Incontroláveis, os arfares se desprendiam tanto do sacerdote quanto da cigana, ainda tomados pelo ritmo ousado de seus quadris — que apesar de menos frequente, em momento algum perdendo na intensidade.

O arquidiácono retornou à altura do suntuoso rosto egípcio, murmurando dizeres que exaltavam a beleza da estrangeira, cheio de sinceridade em suas asseverações. Bem diferente dos discursos vazios e das lisonjas vagas de homens que apenas queriam levá-la para a cama, Frollo de fato a convencia em sua autenticidade singular. Esmeralda se deixou inebriar pelos lábios que tornaram a buscá-la naquela sede insaciável, reproduzindo junto a ele as vigências de seu desejo.

O beijo se estendeu por mais tempo ainda do que o próprio sexo, angariando no roçar daqueles lábios um ritmo mais ameno — ainda que se mostrasse tão vivo quanto as carícias mais forçosas.

Ainda por cima dela, o sacerdote passou uma mão pelas costas de sua menina, conduzindo-a a deitar de lado, posicionada de frente a ele em mais aquele apelo de suas enraizadas vontades. Frollo alcançou sua coxa farta, seus dedos subindo ao longo da pele morena até descansarem sobre a cintura da menina pagã, experimentando as mesmas sensações que levavam o próprio corpo a ainda arder a cada toque, a cada olhar de sua egípcia. Esmeralda segurava o rosto do padre da forma mais carinhosa que ele já havia experimentado, ainda usando de seus próprios encantos para manter acesa a vivacidade daquele beijo que tomava para si o fôlego de ambos.

O peito da cigana, comprimido intimamente contra o seu, forçava-se num respirar inquieto que de nada parecia ajudar na busca pelo ar. Beijou-o pelo traçado bem demarcado de sua mandíbula, apreciando a sensação da barba imatura que agora despontava ao longo do rosto masculino.

Mantiveram-se silenciosos por alguns instantes, dando o tempo necessário para que seus pulmões se contentassem com o ar disponível. Esmeralda ergueu de leve o rosto, percebendo Claude de olhos fechados, dono de uma expressão estranhamente endurecida, e compreendeu de imediato o que aquilo significava. A boêmia sentiu um meio sorriso triste arquear o canto de sua boca, já capaz de entender muito bem o teor do que lhe afligia.

Permitiu-se respirar um pouco mais, só entrando no assunto quando o ar a preencheu com mais firmeza.

— Realmente crê que nós dois estamos condenados a uma eternidade no inferno? — Indagou num tom calmo, intuindo pelo espanto de Frollo que acertara com precisão bem no alvo de suas dúvidas.

— Pensei que não acreditasse nesses conceitos cristãos... — O homem tentou desconversar ainda sem encará-la, nitidamente incomodado com o assunto — Por que a pergunta?

— Eu não acredito. Mas também não posso deixar de notar que a culpa o persegue sempre que estamos juntos. Desde o começo foi assim, mesmo em nossas conversas mais inocentes... — Comentou, os lábios entreabertos como se quisesse dizer algo a mais, mas não soubesse exatamente como. Pareceu desistir, meneando de leve a cabeça — E eu tento, mas juro que não consigo compreender isso...

Frollo se manteve silente, apenas vislumbrando o teto. Esmeralda ergueu o tronco usando o braço direito como apoio, fitando abertamente o sacerdote antes de prosseguir.

— Não consigo entender por que, na sua cultura, o prazer é um pecado dos mais condenáveis enquanto guerras são divinas. Por que a felicidade é herege e o sofrimento é tão valorizado entre seus costumes...

— A dor é uma forma de expiar a pequeneza de nossas almas. De lembrar a nós mesmos o quanto somos insignificantes diante da grandeza de Deus. — Seu tom soou mais baixo, recordando-se do momento em que renegou de vez sua crença dentro da própria catedral, sem ter mais certeza de nada a respeito do que era certo e do que era errado. Um calafrio o percorreu por perceber que se colocara num caminho sem volta.

— Cultivar a dor e usá-la como uma muleta para se amparar na vida só nos faz alimentar nossas próprias angústias... Podemos aprender e crescer com nossas tristezas, porque esta é uma condição intrínseca da humanidade, mas eu não posso acreditar que nosso único propósito aqui, na Terra, seja simplesmente sofrer e ainda achar bela essa condição. Frollo... — A egípcia o chamou com leveza, só voltando a falar quando o homem finalmente a encarou, seus dedos macios repousando sobre o rosto do homem mais velho — Também se pode aprender muito com os momentos alegres... Você pode ser feliz sem nenhuma punição. Não existe pecado no sorriso, na dança, no corpo!

— É nisso que eu mais quero acreditar, ma belle... — Deixou que seus dedos se perdessem em meio à fartura de fios cacheados, trazendo-a novamente para si com gentileza. Explorou com lábios e língua a curva de seu pescoço escuro, notando cada centímetro de sua pele convidativa arrepiar diante de seus toques.

Rezou — sem saber para quem destinava aquele breve pedido — para que a jovem cigana em seus braços estivesse com a razão, por mais que sua antiga fé o condicionasse a duvidar.

Claude sentiu-se ser rodeado pelos braços ambiciosos da menina, toda entregue e correspondente como Frollo jamais poderia imaginar para além dos limites de seus sonhos. As pernas se intercalaram às suas como se não quisessem mais se afastar, as mãos sempre o trazendo no sentido de se aprofundarem. Porém, de súbito, os toques cessaram, impelidos para longe ao serem pegos de surpresa com o estrondo que, numa única batida, escancarara a porta. Parado junto ao batente estilhaçado, um homem alto e negro como o ébano fitava os dois, dominado por um misto complexo de fúria e angústia.

Clopin! — A egípcia sobressaltou-se, esforçando-se para esconder sua nudez evidente.

— Então era verdade, Esmeralda... — O líder do Pátio parecia tentar controlar a própria raiva, seu tom de repúdio direcionado à estrangeira, embora seus olhos permanecessem totalmente focados em Frollo, ainda tentando conter a vontade de matá-lo com suas próprias mãos — Você nos traiu... — Virou o olhar decepcionado para a menina que tinha como filha, sentindo aquele golpe ainda mais forte em seu peito — Deu as costas para seu povo. Atraiçoou cada um de seus irmãos.

O cigano segurou com ainda mais certeza o punhal que usara para presentear Esmeralda, disposto a usá-lo independente das consequências. Atrás de Clopin, Artemio observava a cena sem qualquer indício de surpresa.

Notas finais
*Malay: Pão de milho **Brynza: queijo de cabra Como o prometido, a aesthetic que a Bia fez para o lado francês da história. Tem o lado grego também, cara amiga, além de OUaT que logo mais vai aparecer, fica a dica =P (aquela pessoa folgada que sabe que é folgada e nem liga, hesuehsuheuseh) Próximo capítulo teremos (muito provavelmente) a visão dos ciganos durante o ataque à catedral, além do desfecho desse início de treta. Espero que tenham gostado, e que não esteja cansativo todo esse enfoque em "Frollesme", mas eu juro que é necessário não só pelo desenrolar do enredo, mas também por se tratar de um personagem TÃO obcecado quanto o Frollo. Beijos, suas lindas! ;* Espero ver vocês nos comentários xD