O Preço da Magia
16 Episódio 16: Se Há Um Prêmio Por Julgar Mal...
Notas iniciais
Os dedos finos e cianóticos de Hades massageavam suas têmporas em movimentos circulares morosos, pouco condizentes com a irritação que fazia a chama no topo de sua cabeça atingir tonalidades mais incandescentes. Inflamável, tal qual seu temperamento. Os olhos estavam fechados numa tentativa infrutífera de que ele conseguisse se concentrar melhor nas próprias conjecturas, disposto a não se deixar levar pelas reais vontades que possuía.
Aquele ritmo da massagem, contudo, que tencionava se propagar em movimentos calmantes, somente fez crescer o sentimento de opressão que dominava o deus da morte naquele instante.
— Recite de novo. — Ordenou num tom prático e baixo, ainda mais amedrontador do que seus berros mais exaltados. Pânico engoliu em seco, relanceando um olhar preocupado para Agonia, que o correspondeu com a mesma expectativa alarmada. Hades, mesmo que de olhos ainda fechados, percebeu a hesitação temerosa dos asseclas, e o medo das indignas criaturas quase foi capaz de melhorar um pouco seu humor — Dessa vez na ordem cronológica.
O rei do mundo inferior finalmente ergueu as pálpebras, intensificando a níveis mais profundos sua expressão desagradada, para o horror de seus subordinados.
— Começamos com Rasputin, vossa malvadeza... — Pânico deu um passo incerto à frente, listando uma a uma suas fracassadas tentativas de cumprir a profecia das moiras — Depois ouvimos rumores de um homem que trabalhava com voodoo, um mortal chamado doutor Facilier... Esse era da pesada, não sei como não o agradou!
— Espero que ele mantenha contato, quando puder! Que humano bacana! Tínhamos até o codinome de seus amigos do outro lado*... Um feiticeiro do balacobaco, e que balanço! Tinha encantos e mandingas, tinha o bom e mau olhado — Agonia divagou, parecendo lamentar o destino do homem.
Hades, como se ainda fizesse um esforço excruciante para se conter, começou a brincar com o anel de gema azul em seu mindinho, rodeando-o em movimentos compulsivos sobre o mesmo dedo, aquele gesto simples relembrando o foco de toda sua árdua busca. Seu timbre soou um pouco mais ameaçador, muito perto do descontrole.
— Esse seu feiticeiro notável foi derrotado por dois sapos! E claro, não vamos nos esquecer do grande cúmplice, o vagalume! — Rugiu, mais uma vez fechando os olhos numa tentativa penosa de se acalmar. Não podia sucumbir à fúria, não ainda. Deixaria que ela se alimentasse um pouco mais com a incompetência incorrigível de seus imprestáveis servos, para que só então a lançasse sobre eles sem qualquer clemência — Continuem.
— De Nova Orleans fomos até a Arábia... — Prosseguiu Agonia, sendo interrompido por uma cotovelada camarada de Pânico.
— Ouvi dizer que por lá tem orgias demais... — Levantou as sobrancelhas num breve rompante de empolgação, testando com ainda mais fervor os limites já perigosos de Hades.
“Ainda não! Só mais um pouco!”
— Aquele que tornar a interromper será chutado ao rio das almas. Falem-me do próximo. Rápido!
— Era Jafar, vossa ruindade! — Agonia relatou no mesmo instante, ajoelhando diante de seu mestre como se já implorasse pelo perdão que sabia não merecer — Ele conseguia fazer coisas espantosas com aquele bastão dourado de cobra, achamos que fosse mesmo o escolhido!
— Vocês tiveram acesso à criatura mística da lâmpada, um ser de poderes cósmicos e fenomenais, e decidiram apostar num mero... ilusionista? Alguém medíocre com uma motivação tão medíocre quanto? — Hades questionou, embora tivesse plena consciência de que o Gênio não era quem procurava. Precisava de uma alma corrompida. De um coração tão decomposto quanto o seu, familiarizado às profundezas mais obscuras da magia — Mas por favor, prossigam. Estou realmente muito curioso pelo que está por vir!
— Depois que vossa esperteza rejeitou Jafar, nós saímos em busca de um tal de Merlin na Inglaterra... Mas chegamos tarde, ele já tinha se mandado para as Bermudas, e não quisemos atrapalhar suas férias.
O deus dos mortos novamente fechou os olhos com força, os dedos agora apertando com intensidade o osso adunco que dava início ao nariz, entre as órbitas. Não podia ser verdade que estava preso no mundo inferior com as duas criaturas mais absurdamente estúpidas e incompetentes do universo. Era infortúnio demais para um único ser ter que lidar.
Ignorou o relato de Merlin, não se importando com aquele fracasso vergonhoso por saber que aquele homem, além de não possuir a destreza mágica necessária, também não detinha a índole ideal para seu intuito.
Focou-se, então, nas últimas notícias que os dois lhe trouxeram há pouco sobre aquela busca, esta conseguindo superar todos os seus fracassos mais espetaculares. Conseguindo superar até mesmo as expectativas já bem altas de Hades quanto à incapacidade de seus servos.
— Esse último... grande achado... — O deus da morte tremeu de raiva, sabendo que logo se descontrolaria, notando o quanto estava ansioso para o momento de finalmente descarregar sua ira naquelas duas criaturas imbecis — Vocês disseram que é o quê?
— Um... Um babuíno, mestre... — Agonia se encolheu ao responder, já aguardando a fúria de seu senhor recair com toda potência sobre si.
— Um mandril, na verdade. — Pânico abaixou o olhar, seu pequeno corpo já tremendo ao antever o próprio castigo — Seu nome é Rafiki, e diante da nossa falta de opções, ele nos pareceu muito promissor, vossa atrocidade! — Desembestou a falar o máximo que pôde, antes que o deus dos mortos o atingisse com sua impaciência explosiva — A cada rejeição sua fomos ficando sem alternativas de novos candidatos, e quando ele nos encontrou vagando sem esperança nas savanas da África, bateu com força um cajado nas nossas cabeças e, em suas palavras, nossa busca não teria sucesso até que começássemos a olhar além do que éramos capazes de ver. No começo ficamos sem entender... Até que a dor de cabeça e a visão dupla da pancada passou e nós finalmente percebemos. Olhamos além dos pelos selvagens e da bundinha de fora, e cogitamos que ele pudesse ser o procurado... Talvez o senhor deva levar uma cajadada daquelas, as coisas parecem mais claras depois de um tempo...
— A bundinha de fora era mesmo um charme, mas o que chamou nossa atenção foi que... — O patético ser diminuiu o tom de voz, como se segredasse algo completamente proibido e extasiante ao senhor do submundo — O animal era capaz de conversar com o rei morto, mestre! — Agonia revelou num tom toscamente deslumbrado, ainda tentando se justificar naquele discurso incoerente — O senhor já conseguiu se imaginar mantendo contato com quem é finado?
— EU COMANDO O REINO DOS MORTOS, IMBECIL! — Hades replicou num urro indomado, o fogo se espalhando por todo o corpo num conjunto contundente com os olhos que também flamejavam. Escancarando, naquelas chamas que se proliferavam por si, todo o ódio que veio tentando controlar até aquele instante — Vocês acham que eu quero amadores? — A divindade mórbida projetou uma labareda sobre sua mão direita, lançando-a próximo aos inúteis serviçais, que correram desajeitados para longe daquela investida, suas pernas curtas e estabanadas dando um tom tragicômico à situação — Truques como esse eu mesmo faço, ainda que sem minha centelha divina! Eu preciso da fonte do poder. Da magia negra intrínseca, a verdadeira! Só posso retomar minha força se encontrar um feiticeiro digno, mas estou preso a esse cativeiro esdrúxulo, porque o futuro dos meus poderes está nas mãos dos maiores boçais que já tiveram a infelicidade de respirar o enxofre do submundo!
— Na verdade, mestre...
— O QUÊ? — Hades já preparou uma nova chama projetada acima da palma azulada de sua mão, tentado a lançá-la sobre os arautos de sua iminente derrota.
Pânico se retesou, temeroso da ira do chefe, contudo mesmo assim encontrou coragem para prosseguir em sua fala.
— Não depende apenas de nós. O senhor parece ter pulado uma parte importante da profecia, vossa malignidade... Deve ser por isso que estamos até agora sem sair do lugar... — Discorreu, tentando soar humilde em sua colocação.
Hades fez perecer por um momento o ataque já formado, franzindo o cenho na direção do serviçal, que se aproveitou daquele momento de quietude duvidosa para se aproximar mais alguns passos, o silêncio questionador de seu mestre o instigando a dar continuidade àquele discurso. Pânico adotou a forma exata de uma das senhoras do destino, reproduzindo a mesma voz caquética que deu início àquela busca até então infrutífera.
— Deve, por começar, buscar por uma alma em tormenta, a se estragar. Encontre um poderoso mago do lado de lá, e sua força se regenerará. — Citou os versos com perfeição, logo em seguida retomando sua forma de demônio, ainda acabrunhado, embora um pouco mais confiante de suas palavras — Elas não disseram que o feiticeiro e a alma atormentada são necessariamente a mesma pessoa. Podemos ter pulado uma etapa importante sem perceber, chefe.
— Até porque, para nossa essência é muito mais natural encontrar uma alma torturada do que um mago talentoso. — Agonia deu sua contribuição àquela teoria, também se permitindo aproximar de modo vacilante de Hades, esperançoso de que pudessem convencê-lo e, se tivessem muita sorte, escapar das tormentas que os aguardavam — Fomos criados para localizar os atormentados, mestre, nisso nunca falhamos!
O deus dos mortos analisou os dois com cuidado, por mais que o desagradasse vendo sentido naquela observação. Não eram de todo imprestáveis, afinal.
— Faremos o teste então. Depois que me indicaram um macaco...
— Mandril... — Pânico corrigiu, imediatamente se arrependendo de tê-lo feito após receber um olhar mortífero de seu mestre.
— Que seja. Depois dessa estupidez sem tamanho, não posso mais confiar em suas capacidades para esse serviço. O mago da profecia poderia cair diante de vocês, e nem assim os dois o reconheceriam. — Hades sentou-se em seu trono, negro e melancólico como tudo no mundo inferior. Esboçou um sorriso que dava uma visão incômoda de seus dentes pontiagudos e bem afiados quando voltou a falar — Tragam-me notícia do ser mais perturbado que vaga pelo mundo mortal. E só venham me falar desta criatura quando estiverem certos de que é o escolhido de alma perdida! Mais um erro, e a próxima refeição do Cérbero será a cabeça oca de vocês — Decretou, deixando que sua esperança se reavivasse diante daquela nova perspectiva, assim como os patéticos demônios, que podiam ao menos por ora respirar com alívio por terem se safado da ira de seu mestre.
Hades voltou a rodear o anel de gema azul em seu dedo menor, dessa vez não por fúria.
Agora ansioso como há tempos não se percebia.
Agonia caminhou titubeante em direção ao comparsa, murmurando próximo ao ouvido do demônio quando percebeu o deus dos mortos se enfurnar em suas próprias considerações, ocupado demais com seus planos para dignar qualquer atenção aos asseclas do mundo inferior.
— Mandou bem, Pânico! — O demônio rechonchudo abriu os lábios num sorriso vil, assim como sua existência — Por que não me contou essa teoria antes?
— Pensei nisso agora... — Pânico respondeu em meio a uma risadinha excêntrica — Assim achamos outro idiota para ser castigado em nosso lugar quando falhar nessa busca!
— Não entendo o que deu errado dessa vez... O macaco foi nosso melhor palpite!
— Mandril. — Corrigiu novamente, e num passo tão silencioso quanto aquela breve conversa, afastaram-se de seu mestre, deixando-o a sós com pensamentos que o consumiriam por um longo tempo.
Assim como sempre ocorria quando dedicava alguma atenção àquele misterioso anel.
Na exata extremidade oposta da existência divina, o Olimpo se revolvia em enorme tumulto. Os deuses, embasbacados, testemunhavam Zeus correr raivoso numa direção bem traçada, resvalando fúria em plena festividade de boas vindas ao seu filho Hércules — que recém conquistara sua condição divina —, de um instante a outro parecendo colérico com algo.
— Zeus agrediu Hera mais uma vez. — Artemis, a deusa da caça, murmurou aquilo que todos ouviram por si mesmos dentro da morada divina. Após testemunharem os berros exaltados que fizeram tremer as nuvens do Olimpo, não restara dúvida de que o líder novamente machucara a parceira. Ela ajeitou seu arco às costas numa expressão descontente, como se tencionasse fazer algo a respeito — O deus do Olimpo nem ao menos se incomoda em dissimular sua covardia com a esposa. Brada-a aos quatro ventos com sua voz de trovão, sem se importar com as implicações de seus atos.
— Não é sábio discutir isso em voz alta, tão próximo de sua presença. — Atena respondeu no mesmo tom comedido, observando o deus que os liderava se afastar numa rapidez concentrada, levando nos olhos propósitos que certamente seriam assustadores a qualquer um que tivesse por alvo — É nosso dever nos posicionar a favor de Hera, entretanto não devemos agir por impulso, sem ao menos considerar e planejar todos os caminhos que podem ser traçados. Querendo ou não, ainda lhe devemos fidelidade e obediência.
— A deusa da guerra dispensando batalhas? Por esse seu recuo eu não esperava, Atena. — Acusou com indisfarçada rudeza, sua expressão grave se voltando novamente a Zeus — Não posso me submeter a um deus que nos vê como seres menores. Já se atentou aos olhares? Fica evidente que para Zeus as deusas existem para seu próprio deleite.
— Não o defendo, Artemis, sabe disso! E tampouco fujo a uma luta. Apenas digo que carecemos esperar um pouco mais. Pelo momento ideal. E quando ele chegar, minha querida, deixaremos claro que foi um grande erro nos subestimar.
Encerraram aquele assunto por enquanto, mantendo uma atenção sisuda na direção de Zeus — que logo sumiu daquele alcance visual, preso nos próprios propósitos para destinar qualquer atenção aos convidados daquele festejo.
Seu filho, Hércules, portou-se como um traidor. E se tivesse tempo de alcançá-lo, o trataria como tal.
Tempo. Era essa a chave de todo o problema.
Rugindo numa corrida afoita, bem amparada por seus músculos preparados a qualquer esforço, o deus do trovão logo alcançou seu destino, aliviado com a cena presenciada.
“Ainda posso mudar o rumo das coisas!”
Cronos já evocava um vórtice temporal, ao lado de um Hércules que segurava com firmeza o coração dourado-rubi do avô, completamente iludido por aquela demonstração do poder divino. Ainda sem perceber a presença de Zeus quando se encaminhava numa lentidão contemplativa ao portal que o conectava à sua amada humana, num tempo e local totalmente distintos ao que ela pertencia. Fascinado por aquele artifício, encarava embasbacado a inusitada passagem, se permitindo novas esperanças de rever Mégara.
Entretanto, elas não tardaram a esmorecer.
— HÉRCULES! — Zeus urrou, atirando no rapaz um raio certeiro assim que ele se virou para olhar. Alcançando seu alvo com perfeição, o deus jovem caiu de imediato, imobilizado pela corrente elétrica que logo dominou cada um de seus músculos.
Encarou com desalento o seu destino final, a poucos passos de si e ao mesmo tempo tão inatingível em sua paralisia.
“Meg... Eu falhei com nós dois...” — Lamentou, ainda fitando com desalento a abertura mística inalcançável, apesar de próxima. O que apenas aumentava sua angústia ao se perceber pego tão perto de finalizar seu intuito. Usou de um esforço absurdo para sair do controle cativo daquele maldito raio, porém seu corpo se manteve estático. Como se fosse o mais fraco dos mortais, tomado por impotência — “Me perdoe, meu amor! Não sou tão forte quanto você pensava...”
Zeus chegou até o filho, arrancando com brutalidade o coração pertencente a Cronos da mão rígida, seus dedos se mantendo contorcidos na mesma posição de quando o segurava, sem conseguir relaxar os músculos que se contraíram por completo no momento em que fora atingido.
Apenas capaz de direcionar os olhos para o pai tirânico quando este voltou a falar.
— Pensou que poderia enganar a mim, o deus supremo do Olimpo? Um garoto estúpido que mal deixou a infância para trás? — Rugiu, mirando-o com a expressão mais furiosa que Hércules já vira em seu semblante. Traços que antes lhe pareciam tão bondosos, mas que a cada novo segundo se revelavam um pouco mais na sua forma verídica... O rosto do pai se contorceu numa satisfação doentia em meio ao brilho louco de suas íris, mas mesmo diante daquele risco em que se colocara, o rapaz não chegou a sentir nada que chegasse próximo ao medo. Não quando sua Mégara estava a mundos de distância, sozinha na adversidade do desconhecido. Apenas continuou fitando o pai em seu discurso de ódio, experimentando o sabor adstringente da perda — Me envergonha ser seu pai! Passou tanto tempo entre os humanos que agora não consegue largar o lado vil dos mortais... Já corre em suas veias o vício à mediocridade. Está impregnado em si, como uma doença. Não é merecedor de seu título, Hércules. Não merece ser meu filho, e não merece a posição de herdeiro do Olimpo... — Zeus rangeu os dentes, erguendo o recém-consagrado deus pelo braço, como se não pesasse mais do que uma criança mirrada. Olhou-o fundo nos olhos, e ali Hércules testemunhou mais do que puro sadismo. Viu também a profundidade de uma vasta loucura, esta diariamente alimentada pelo poder de reinar no Olimpo — ...Merece ser tratado como o traidor que se provou hoje. Amaldiçoo o dia em que reconquistou sua divindade.
Após aquele flagrante, Zeus aprisionou o próprio herdeiro na masmorra divina. Confeccionada não das nuvens alvas que davam uma sensação acolhedora à morada olímpica, mas de nuvens negras e tempestuosas, que não eram carregadas de águas pluviais, e sim de potentes raios que diariamente eram alimentados pelo deus do trovão. Criando fortes correntes elétricas ao longo de toda a extensão diminuta do cárcere, drenando a força de qualquer deus que se aventurasse a viver ali. Sem grades e grilhões, a própria força dos raios se encarregava de garantir aquela clausura.
Não tardou para que Hércules perdesse seu entusiasmo e visão otimista de mundo. Tornou-se apático ali, e a noção da longínqua distância — tanto física quanto temporal — de Mégara, apenas nutria seu mais novo estado de espírito abatido.
Contudo, o destino de Hércules, apesar de todas as desesperanças, foi brando. Ouso dizer que houve um ainda pior. Ainda mais sofrido e despedaçado no convívio de tantas agruras.
Hera.
A esposa de Zeus, que contra todos os seus maiores receios, ainda tentou dar ao filho a vida que ele escolhera. Ainda mais rebaixada do que já era no convívio com o esposo, a deusa foi condenada a servi-lo como uma escrava. Seus pulsos e tornozelos eram rodeados por grilhões eletrificados, que também sugavam aos poucos sua força. Apenas o suficiente para que ela não ousasse reagir.
Apesar de sua nova condição decretada por Zeus, não deixou de ser a rainha do Olimpo, o que apenas tornava tudo ainda mais degradante à sua imagem ambígua.
Ofensivo não só para Hera, assim como para todas as deusas que ali habitavam. E que também acabaram sofrendo as consequências das novas atitudes de seu soberano.
— Sirva minha convidada, Hera — Zeus ordenou quando a esposa abriu a porta de seu antigo quarto, que não mais compartilhava com o deus, para servir-lhe o desjejum. Ao menos isso se tornara algo para agradecer em meio a tantas angústias. Mas não por muito tempo — Depois de nossa noite, creio que esteja faminta. Eu sei que estou!
Zeus sorriu malicioso para a deusa que tentava encobrir sua nudez com os braços, lançando um olhar culpado para Hera. O deus do Olimpo, também despido, fez a deusa que o acompanhou por anseios tórridos naquela noite se erguer, tirando de si a postura encolhida que denotava vergonha.
— Não se esconda, Afrodite. Não há porque fazê-lo. É muito mais bela do que minha esposa. — O deus provocou, parecendo desagradado quando Hera lhe lançou um olhar indiferente, em nada afetada por aquela tentativa de injúria.
— O que gostaria de comer, Afrodite? — A rainha perguntou à súdita, sem mais nenhum resquício de orgulho para engolir. Assim como seu filho Hércules, percebia-se vazia por dentro.
— Nada, minha senhora! — Respondeu de pronto, não sabendo lidar com a situação em que fora colocada — Não tenho fome!
— Besteira! — Zeus expeliu uma de suas ruidosas gargalhadas, passando uma mão lasciva sobre o corpo exposto da deusa, que baixou o olhar, acanhada por apenas naquele instante se dar conta do papel que fazia — Com o cansaço que lhe dei esta noite, deve se alimentar. Quero provar de suas energias novamente, e não poderei fazê-lo se estiver fraca. Coma. — Seu timbre mudou para algo mais próximo do ameaçador, e Afrodite teve que ceder.
A deusa da beleza se encaminhou até Hera, ainda incomodada com a exposição de seu corpo, sentindo Zeus devorá-la com o olhar. Quando ficou próxima o suficiente de sua rainha, pegou uma fruta qualquer da bandeja que ela carregava, sem nem prestar atenção em qual. Fitou-a rapidamente, logo voltando a desviar seu olhar envergonhado.
— Eu sinto muito... — Ela sussurrou, tão baixo quanto possível, tentando escapar da atenção de Zeus — Peço o seu perdão, minha rainha. Fui tola. Achei que Zeus me queria ao seu lado para governar, mas só agora percebo que fui usada como uma peça para enciumá-la.
— Os planos de meu esposo foram frustrados então. Eu não me importo com quem esquenta sua cama, desde que não seja eu. — Avisou no mesmo tom quase emudecido, tão gélida quanto se sentia por dentro — Apenas espero que ele não tenha lhe forçado a nada.
— Para a minha eterna vergonha, fui coagida de outras formas, minha senhora...
— Deixem para depois as intrigas! — Zeus cortou a rápida troca de palavras, irritadiço com a interação que percebeu ali, longe de seu alcance — Não suporto seus mexericos. Agora saia, Afrodite. Tenho assuntos a tratar com minha esposa, e nenhum deles é de seu interesse. Quando a quiser de novo, mando chamá-la.
Afrodite se permitiu algum grau de frieza no novo olhar que lançou a Zeus, e antes de deixar os aposentos privados do soberano, pousou a fruta intocada na bandeja ainda sustentada por Hera, em seguida recuperando suas vestes, apressada por abandonar aquele lugar.
Quando a deusa se afastou dos aposentos, Zeus voltou a se acomodar no leito ainda bagunçado, gastando alguns segundos numa contemplação carrancuda de sua consorte.
— Sirva-me.
Hera, dotada de uma postura subserviente cheia de insensibilidade, pousou a bandeja ao lado do deus sem qualquer olhar ou palavra, preparando-se para deixá-lo a sós com seu desjejum. Contudo, quando fez menção de partir, a voz destemperada de Zeus a freou, aquele timbre odioso causando calafrios por todo o seu corpo, apenas pela anunciação de sua desagradável presença.
— Não permiti que se fosse. Há realmente um assunto que devemos resolver.
— Se tenciona me diminuir ainda mais por seu caso com Afrodite, peço humildemente que poupe meu tempo. — Virou-se em sua direção, mais desafiadora do que de costume — Como disse àquela pobre e iludida criança, não me afeto em nada com suas amantes. Pouco me importa quem deita a seu lado nesta cama, tanto melhor que não seja eu. O único assunto que me interessa discutir é a soltura de Hércules. Fora isso, não há mais nada a dizer um para o outro.
Hera manteve firme o olhar sobre ele, e sequer temeu quando sua resposta inesperada causou um arroubo de fúria em Zeus, que arremessou a bandeja cheia de alimentos para longe de si e caminhou a passos pesados até ela, constringindo o braço da esposa num aperto furioso.
— Nada a tratar? — Seus olhos faiscaram, porém os orbes da deusa mantiveram-se impassíveis — Não me desafie ainda mais, Hera. O que fez a mim não tem clemência, e ainda assim insiste em destratar-me com sua nova postura ousada. Eu poderia matá-la por sua traição! — Alertou, o semblante de todo ameaçador, apenas as íris denunciando o quanto ainda a desejava. A única razão pela qual ela ainda era capaz de respirar.
— Então faça de uma vez. Mate-me, e perpetre esta sua justiça cínica, Zeus. É um favor que me faz... — Permitiu-se sorrir de leve, notando-o enfurecer ainda mais pelo atrevimento — Até por que, eu confesso que estou curiosíssima para saber o que seria da minha alma depois de morta. Não te tira o sono imaginar todas as possibilidades? — Inquiriu, abusando de um sarcasmo velado. Zeus a fitou como se não pudesse reconhecê-la, deixando um pouco da raiva esmorecer ao perceber Hera inabalável à sua tentativa de incomodá-la com Afrodite.
— Eu fiz de você minha rainha! Podia possuir qualquer deusa do Olimpo, bastava manifestar meu interesse, mas a escolhi, e a amei por cada minuto depois de nossa união. É dessa forma que me retribui?
— Não, Zeus. Fui coagida a ser sua rainha por seus próprios ardis covardes. Nunca ansiei nada disso... Nunca o quis como companheiro. E nossa união só serviu para fazer crescer meu asco à sua presença. Que Afrodite seja mais feliz ao seu lado, embora eu guarde minhas dúvidas.
— Insolente! — Os dedos de Zeus se enterraram com força no braço da esposa, arrancando de seus traços uma breve expressão de dor, por aquele rápido instante fugindo da impassibilidade — Posso obrigá-la a ficar ao meu lado, assim como fiz com Cronos! — O rei do Olimpo tentou projetar sua mão para dentro do peito de Hera, em busca da posse de seu coração. Em busca de qualquer resquício que ainda restasse do livre arbítrio da esposa. Contudo, quando tentou, seus dedos foram barrados pelo próprio espaço físico de seu corpo, impedindo-o de avançar naquela pretensão simples.
— Deve julgar-me o ser mais tolo do Olimpo, Zeus... Achou mesmo que eu não tomaria minhas providências depois que você arrancou o coração do próprio pai? O meu está protegido por magia, e não pode ser tirado. Até porque... O coração que você procura nunca lhe pertenceu.
O deus prensou-a contra a parede com violência, mais uma vez dando vazão a uma fúria indomada. Jamais permitiu que qualquer um de seus planos fosse frustrado, e não seria Hera a primeira a fazê-lo.
— Não se engane, minha amada esposa. É, de fato, a criatura mais tola do Olimpo. Ouso dizer que até dentre os mortais. — Prensou o corpo despido contra o dela, agora murmurando com gravidade contra o ouvido da deusa — Posso provar que é tão patética quanto qualquer humano. Assim como eles, é cheia de fraquezas que eu sempre soube explorar a meu favor. — A mão que a apertava pelo braço desceu até a cintura, fazendo Hera engolir em seco, imaginando se teria ido longe demais na franqueza de suas palavras — E não é diferente agora, minha deusa. Não preciso de seu coração para dominá-la. Nunca precisei! — Mordeu a lateral de seu pescoço, o mero toque daquela barba espessa contra a pele de Hera fazendo nascer um desespero profundo dentro de si — Irá me saciar por sua própria vontade, e sabe por quê? Porque tem ciência do que eu posso causar a Hércules se não obtiver de você exatamente o que desejo.
— Ele é seu filho! — A deusa arfou, incapaz de acreditar naquela ameaça — Não ousaria machucá-lo!
— Ele é um traidor, que teve seus sentidos infectados pela humanidade graças ao tolo do meu irmão. Graças ao seu encorajamento também. Não reconheço um filho que se vira contra o pai. Hércules é apenas meu prisioneiro, e não me custaria absolutamente nada tirar mais esta cobra do meu ninho.
— Você é um monstro! — Hera sentiu lágrimas subirem aos olhos, incapaz de conter-se. Voltaria a ser manipulada por aquele horrendo deus, que tão facilmente a tinha na palma de sua mão.
— Monstro ou não, a escolha é sua. — Sorriu, deslizando a alça de seu vestido num movimento vagaroso, parecendo degustar do momento — Posso despi-la, minha querida esposa, ou devo chamar Afrodite de volta a esta cama?
Ainda com traços incrédulos, lágrimas rolaram em seu rosto, sua expressão agora nada indiferente ao que lhe acontecia.
— Faça o que quiser.
— Ah, mas não sou eu quem tem que querer, meu amor. Se me desejar de volta, deve pedir. Com a humildade de uma serva.
Hera mordeu o lábio por um instante, fechando os olhos com força para evitar o soluço desesperado que quase lhe escapou. Forçou-se a pensar em Hércules, a única dádiva que possuía em toda a eternidade de sua vida, e obrigou a recompor suas angústias por aquele instante. Lamentaria depois, quando Zeus não pudesse se deliciar daquela cena.
— Eu... Eu o quero de volta a meu lado, Zeus. — Compeliu a frase dolorosa e isenta de verdade para fora de si, detestando o som de cada palavra proferida — Por favor.
— Eu sei que quer, meu amor. — Beijou de leve os lábios da esposa, passando a encará-la com uma intensidade que parecia divertida — Mas só posso aceitá-la de volta se demonstrar arrependimento por sua traição. Convença-me de que é seguro tê-la como minha rainha, e tudo será perdoado.
— Hércules ficará livre?
— Hércules ainda tem uma lição valorosa a aprender. Posso prometer apenas que ele estará seguro. Já não é bom o bastante, querida?
Ela respirou fundo, exausta. Manteve firme o contato visual quando começou a proferir tudo o que o rei do Olimpo ambicionava escutar, cada um daqueles dizeres a açoitando por dentro.
— Peço perdão se traí sua confiança, Zeus. Ao invés de cumprir com minhas obrigações como sua companheira, voltei-me contra sua liderança por amor ao meu filho, um erro que não tornará a se repetir... se puder me aceitar de volta.
— É evidente que posso, minha amada rainha... — Num movimento rápido de sua mão, os grilhões que a prendiam desapareceram. Zeus segurou os dedos agora libertos da esposa, acariciando-os com cuidado enquanto ainda a encarava com crescente luxúria — Agora prove a essência de suas palavras. Mostre-me que seu anseio é real.
Hera teve vontade de agredi-lo com o peso de todas as suas verdades, contudo precisou novamente rebaixar-se, pelo amor incondicional que tinha por Hércules. A deusa despiu-se com lentidão, tentada a prorrogar ao máximo o que se seguiria. Quando finalmente terminou, percebeu os olhos afoitos de Zeus sobre si, somente esperando que ela tomasse aquela próxima iniciativa. Apenas para humilhá-la um pouco mais depois de tudo o que fora dito.
Tentando ao máximo não se permitir raciocinar, envolveu-o nos braços, dando início ao beijo asqueroso que tinha o sabor de sua mais íntima derrota. Amargo, assim como tudo em Zeus. Ele a pressionou ainda mais contra seu corpo de músculos protuberantes, e Hera se perguntou se ele seria capaz de sentir o retesar enojado de seu corpo assim que o toque entre eles se intensificou.
O deus do Olimpo passou a conduzir o beijo com mais urgência, as mãos explorando as curvas luminosas de sua esposa, aquela por quem ele mataria e até mesmo morreria. A única divindade a lhe despertar um desejo além de seu próprio controle.
O único tipo de amor que conhecia em todos os seus milênios de existência.
Extasiado e já sem conseguir mais se controlar, os lábios úmidos de Zeus migraram ao ouvido de Hera, sussurrando de uma forma que devia julgar sedutora.
— Peça, minha deusa!
Ela estremeceu, e em seu egocentrismo Zeus achou que por prazer, quando Hera na verdade sentia apenas ojeriza, além da raiva de si mesma.
Zeus repetiu, o tom um pouco mais imperativo.
— Peça!
— Me faça sua, Zeus. — Mais uma lágrima escapou de seus olhos, porém o rei do Olimpo estava ocupado demais para notar — Me tome como esposa agora.
Rugindo, o divino monarca obedeceu à falsa demanda.
— Será para sempre minha, Hera! — Arfou aquela terrível sentença enquanto sentia seu membro pulsar dentro da deusa, entregando-se por completo ao deleite de possui-la — Jamais poderá fugir disto.
Hera, a deusa conhecida como protetora do casamento, da vida e da mulher, indagou-se como aqueles três dons acabaram se convertendo em maldição se tratando de si mesma.
E por mais que quisesse, não conseguiria se libertar. Zeus estava coberto de razão.
Jamais seria capaz de fugir de seu controle possessivo.
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