O Preço da Magia
5 Episódio 05: Brilhou No Céu!
Notas iniciais
Mégara segurou com força o braço de Hércules conforme seus corpos levitavam em direção ao Monte Olimpo, sustentados por uma nuvem que não conferia qualquer estabilidade e confiança à humana.
O filho de Zeus, percebendo a aflição da mortal que roubara seu coração, rodeou a cintura da mulher com os músculos protuberantes de seu antebraço, fornecendo a ela toda a sustentação que parecia perdida naquela estranha sensação de flutuar.
Pégaso relinchava alegremente, voando em círculos em torno dos dois e criando fortes rajadas de vento com suas asas potentes, largas e brancas como o resto de seu corpo robusto, apenas a crina e o rabo azuis em contraste ao tom alvo de seu pelame.
— Ei, rapaz, cuidado! — Hércules sentiu a asa do cavalo alado estalar contra um de seus ombros, algumas penas se desprendendo do animal e caindo bem nos olhos daquele que teve sua imortalidade roubada...
...E agora, novamente regenerada pelas ações heroicas que exaltavam toda a Grécia, sua divindade se comprovando pela aura dourada que o contornava.
Mégara olhava para o chão cada vez mais distante abaixo de seus pés, a cada segundo se sentindo ainda mais deslocada conforme se aproximavam da morada milenar dos seres divinos. "Eu não devia estar aqui... Eu não devia estar aqui...", a acusação se repetia como um mantra em sua mente, abrindo espaço para desconfortáveis ondas de pânico dentro da mortal.
Hércules, completamente fascinado com o cenário divino que se abria a si, não chegou a perceber a aflição pungente da mulher ao seu lado, que a cada segundo tomava ciência do quão opostos seus destinos eram.
"Eu vou te perder, garotão... Essa coisa dourada em você é o fim! Não existe espaço para nós dois no Olimpo..." — Mordeu o lábio enquanto o encarava com tristeza declarada, aproveitando os últimos instantes que tinha para admirar cada traço honesto do homem. Sentiu-se culpada quando tudo o que viu em Hércules foi um sentimento infinito de exultação, por saber que jamais poderia ficar plenamente feliz pela conquista de seu amante.
Que jamais seria capaz de se alegrar por vê-lo buscando um caminho que, obrigatoriamente, a excluiria de sua vida.
Desviou o olhar quando finalmente ascenderam ao Olimpo, não suportando o brilho aceso que iluminou os olhos daquele que aprendeu a amar com surpreendente intensidade. Como jamais sonhou em ser novamente capaz.
— Hércules! — Zeus bradou, e no mesmo instante o abraço em Mégara se desfez, deixando-a ainda mais vazia por dentro.
"Estúpida! Você sabia que seria assim!" — Praguejou, dando alguns passos em ré conforme Hércules avançava de encontro aos senhores do Olimpo.
— Você conseguiu, meu garoto! — Zeus deu uma risada escandalosa quando o filho se aproximou, apertando-o num abraço tão forte que certamente lhe quebraria os ossos se ainda fosse um mortal. Hera pôs-se a beijá-lo por todo o rosto, segurando a mandíbula do jovem com uma delicadeza díspar do carinho bruto de Zeus.
Pégaso trotou com elegância até os três deuses, e quando chegou perto o suficiente da trinca divina, toda a pompa de seus passos se perdeu à medida que o cavalo afastou os membros posteriores, relinchando numa alegria infantil enquanto fez questão de também demonstrar seu carinho por Hércules, para tal dando-lhe uma forte cabeçada que pareceu estalar o crânio do novo deus.
O rapaz gargalhou diante da empolgação de todos, ele mesmo sentindo-se o ser mais feliz de toda a Grécia. Faltava apenas Mégara para partilhar com ele aquele momento vitorioso.
Procurou-a com o olhar, sentindo o peito apertar quando a viu beirando os limites do Monte Olimpo numa postura perigosa, encarando o chão a vários quilômetros de distância como se refletisse sobre a melhor maneira de chegar até ele sem que fosse aos pedaços.
Hércules soltou-se com delicadeza dos pais, indo até Mégara a passos contidos, silenciosos, naquele instante se dando conta de que precisaria fazer uma escolha. Uma escolha fácil, até mesmo quando era algo tão precioso quanto sua imortalidade que estava em jogo.
Chegou próximo a ela, que ainda cogitava a melhor estratégia de descer e sequer o percebeu ali. Tomou um enorme susto quando o herdeiro do Olimpo a segurou pelos dois braços, e o sobressalto fez com que a mortal se desequilibrasse naquela posição que por si só já era favorável a uma queda fatal.
Mégara soltou uma exclamação de espanto ao sentir que escorregava, e um olhar agradecido e complexo se firmou em Hércules ao perceber que ele a amparava, incapaz de não sorrir nos braços do deus.
— Vejo que continua com os tornozelos mais fracos de toda a Grécia, minha donzela... — Ele comentou com humor, puxando-a para longe do abismo.
— É um problema antigo! Mas eu tenho sorte... Um certo herói vive se metendo entre mim e minhas quedas... — Replicou, os olhos semicerrados numa de suas recorrentes expressões espertas que Hércules tanto adorava. Que tanto o tirava de si.
Levou seus lábios até os dela, sentindo sua amante tensa conforme não se negava a corresponder o beijo, ao mesmo tempo se entregando a ele de uma forma mais aberta, intensa à medida que se solidificava em si a premonição de que aquela seria a última carícia que compartilhariam.
— Venha. Eu te ajudo a chegar inteira até meus pais. — Ofereceu o braço, que pendeu no ar por vários segundos, solitário.
— Eu acho melhor não...
— Não pode ser verdade... Logo você, tímida? — Sorriu, desacreditado — Será mesmo que meus pais são ainda mais assustadores do que o centauro que te ameaçava quando a conheci?
— Você não faz nem ideia, garotão! — Respondeu com uma sinceridade tão genuína que o fez rir, agradado.
— Não vai ser tão ruim assim, eu prometo! — Reiterou, e sem muita escolha Mégara aceitou o braço que ainda estava a postos no ar, acompanhando o deus com uma angústia que não soube disfarçar. Caminhando com um ânimo que apenas se apagava, logo viu-se diante dos deuses, e o raro sentimento de não saber como agir a dominou com força. — Mãe, pai... Esta é Meg.
— A jovem que roubou o coração do nosso menino! — Hera cumprimentou com gentileza ímpar, diferente de Zeus, que a analisava sem qualquer interesse — É um prazer, querida!
— Meu também... — Mégara sorriu com nervosismo, não estando muito certa se de fato era. Ainda mais se tratando do deus que comandava os trovões, que até então só tinha lhe lançado olhares frios.
— Voltar para o Olimpo foi um momento com o qual eu sempre sonhei — Hércules anunciou, fitando os pais com uma sabedoria rara aos poucos anos vividos, e em seguida ficou de frente para a humana, segurando seus braços delicados com verdadeira adoração —, mas... Uma vida sem a Meg, até uma vida imortal, seria apenas... vazia... — Concluiu, hipnotizado pelo sorriso magnífico que tomou conta dos lábios humanos.
Os olhos de Zeus de imediato se enrijeceram, seus volumosos músculos agora tensionados.
— O que está dizendo, meu filho?
— Eu quero passar minha vida com ela, pai — Explicou, e a mortal notou a expressão enfurecida que Zeus tentava controlar sem grandes sucessos. Segurou Hércules com mais firmeza, naquele instante temendo o deus dos raios como nunca chegou a temer o próprio deus da morte — Por toda minha vida eu busquei o meu lugar, e finalmente o encontrei.
— Humanos não podem viver no Olimpo, Hércules! — Tentou falar com diplomacia, porém o sorriso era perigoso. Hera empertigou-se, conhecendo o suficiente o humor explosivo do esposo para saber que o rumo daquela conversa apenas o faria ainda mais intratável.
— Eu sei que não. Por isso decidi que quero viver como um mortal na terra — Explicou com calma, ainda parecendo não perceber a perigosa mudança de humor no senhor do Olimpo.
Zeus analisou longamente a situação, as íris faiscando com a periculosidade de seus trovões. Um sorriso programado se formou em seus lábios embora os olhos se mantivessem cruéis.
— Como quiser, meu filho. — A expressão antes tensa se abrandou, porém em momento algum Mégara se sentiu menos desconfortável — Contudo, o Olimpo está em festa. Os deuses se reuniram para recebê-lo em nossa morada. Seria uma enorme desfeita não agraciá-los com sua presença. — Sorriu, batendo no ombro do jovem com afeto — Pode sustentar sua imortalidade por algum tempo a mais? Pelo seu velho pai?
Hércules assentiu, fitando Zeus com um afeto inocente.
— Obrigado, pai! — Novamente o abraçou, sem ao menos se dar conta do breve olhar incisivo e ameaçador que Zeus lançou à humana, capaz de causar calafrios na mulher.
— Por que não leva Hércules aos seus aposentos, Hera, para que possa aprontá-lo de modo apropriado à presença dos outros deuses? — Questionou de modo desinteressado, referindo-se aos trajes mortais que não condiziam com a morada divina — Enquanto isso, eu mostro a esta bela jovem as belezas do Olimpo.
— Zeus... — Hera principiou, desconfortável em deixar a pobre humana a sós com a intolerância do esposo.
— Vá, Hera! Não quero que nos atrasemos na recepção dos outros deuses! — Ordenou, seu tom demonstrando uma indisposição para maiores discussões, a autoridade tão nata em seu timbre que de imediato calou a deusa, aquele sendo apenas mais um dos episódios tão recorrentes em que se via obrigada a submeter-se ao deus.
Sem mais protestar, Hera anuiu, levando Hércules consigo apesar da expressão descontente de Mégara. O silêncio se prolongou quando ficaram sozinhos, Zeus mantendo a rigidez do olhar sobre a mortal que, com surpreendente insolência, mantinha o contato visual, sem saber o que esperar.
— Siga-me. Quero lhe mostrar uma coisa — Avisou, caminhando à frente sem esperar por qualquer reação da mortal, já sabendo que sua ordem era acatada quando ouviu a leveza de seus passos bem atrás de si.
Meg entrelaçou os dedos, o nervosismo de pronto se tornando receio, medo pelas expressões hostis do deus do Olimpo. Conforme ele ainda a guiava sobre as nuvens espessas, voltou a falar, o tom de voz parecendo ligeiramente contemplativo, quase distante.
— Por acaso sabe como Hércules se tornou mortal?
— Hades... — Respondeu simplesmente, como se aquele único nome carregasse em si todas as explicações necessárias àquela pergunta.
— Hades. — Concordou, o desprezo ainda mais evidente na voz — E quando meu irmão roubou de mim aquilo que me era mais precioso, uma verdade inconveniente se abriu aos meus olhos. Ao menos por isso eu devo agradecê-lo. Sem tamanha traição, talvez eu não tivesse tomado as precauções necessárias para lidar com os infortúnios vindouros... — Abstraiu, contando aqueles fatos para Mégara como se apenas divagasse consigo mesmo — Até o sequestro de Hércules, eu tinha o controle sobre tudo o que desejava, com exceção de uma única coisa.
O deus se calou brevemente antes de responder a própria consideração.
— O tempo. — Elucidou, encarando a humana de soslaio — Todo o universo, se eu assim quiser, está sob meu comando, com exceção dos acontecimentos transcorridos. Por mais que eu desejasse, não dispunha dos meios para trazer Hércules de volta à sua condição de deus, e a sensação de impotência é algo que eu não admito.
— Eu imagino... — Comentou, sem saber como contribuir com aquele discurso que em nada lhe agradava.
— Talvez também imagine que não aprovo sua relação com meu filho. E que não posso permitir perdê-lo uma segunda vez ao mundo dos mortais.
— Não pode? — Estreitou os olhos, a raiva agora se mostrando presente onde antes reinava apenas apreensão. Mégara freou os passos, recusando-se a continuar seguindo o deus, que passou a encarar o rosto humano com infindável desprezo. — Com todo respeito, essa é uma decisão que cabe apenas ao seu filho.
— Creio que não. Hércules é jovem e tolo. Superestima os mortais porque foi criado nesse meio inferior à sua verdadeira condição, ainda não compreende que humanas como você servem apenas para uma diversão momentânea, quando muito. — Disse, a agressão verbal produzindo um efeito de profunda humilhação em Mégara, que afastou-se alguns passos, a expressão em choque.
— Hades foi um herói...
— O que disse?
— Hades fez um favor a Hércules... Se ele fosse criado no Olimpo, não teria se tornado o homem gentil e de bom coração que se doa pelo bem dos outros. Ao invés disso, se tornaria um deus tão mesquinho e cruel quanto o pai, e pobres dos mortais que adorassem dois tiranos de uma única vez.
— Humana insolente! — Zeus rugiu, lançando sobre ela faíscas elétricas que se propagaram por todo o frágil corpo humano, fazendo-a arfar de dor. Mégara caiu com a força do golpe, e para seu profundo horror percebeu que não era capaz de mover-se, mesmo que seus músculos se mantivessem trêmulos com a inesperada descarga elétrica — Assim que terminarmos aqui, você vai dispensar Hércules, entendeu? Vai dizer que não o ama e que não quer que ele a siga para a desgraça que é seu mundo!
Mégara gemeu, não conseguindo articular palavra alguma por conta da eletricidade ainda paralisando seu corpo, um pânico profundo incutido nos olhos à medida que o choque não cessava. Zeus recuou aquele poder para permiti-la falar, e o que ouviu fez com que todo o seu plano se desestruturasse.
— Para com isso! — Berrou com desespero — Eu estou grávida! — Contou, agora aos prantos, temendo pela vida imatura de seu filho diante daquele ataque. Levou as mãos trêmulas ao ventre, como se pudesse proteger a criança do atentado vindo do próprio avô.
Zeus gastou longos segundos apenas se dedicando a fuzilar a mortal com o olhar, refletindo sobre como agir naquelas circunstâncias inesperadas.
— Hércules sabe? — O tom era rude, perigoso. De um cálculo assustador, que fez a mortal compreender que o deus do Olimpo repudiava o neto assim como repudiava a própria Mégara.
— Ainda não. Eu não queria que a notícia influenciasse na decisão dele, caso Hércules quisesse viver no Olimpo. — Soluçou, ainda apertando a barriga como se pudesse abrandar a enorme dor que se instalara ali, bem no lar de seu filho. "A criança é forte, veio de Hércules! Vai sobreviver! Tem que sobreviver!"
— Ótimo! — Aprovou, parecendo menos irritado — Isso muda um pouco meu modo de agir, mas ainda posso consertar essa estupidez.
— Do que está falando?
— Espero que tenha aproveitado bem o tempo que passou com meu filho, humana. Não o verá nunca mais.
— Não! Eu não vou dizer a ele nada do que me pediu! Não vou abandonar Hércules! — Desafiou-o, pouco se importando se não passava de uma mera mortal confrontando o deus mais poderoso da Grécia — E mesmo que eu diga... Hércules vai saber! Uma hora ou outra ele vai perceber que esse filho é dele! — Arfou, a dor em seu ventre cada vez mais impossível de ignorar.
— Exatamente. Por isso meus planos mudaram, menina tola, e eles não dependem mais da sua boa vontade. Melhor assim, acabamos de vez com isso.
— O que vai fazer comigo?
Zeus abriu um sorriso cruel, afinal se mostrando como de fato era.
— Toda essa história que lhe contei sobre o desenrolar do tempo, sobre esse ser o único elemento que eu não era capaz de controlar teve, afinal, um motivo... — Elucidou, o sorriso maldoso ainda mais vivo em sua face quando mostrou à Mégara algo que lhe pareceu um coração, este vívido numa mescla de cores dinâmicas entre o vermelho e o dourado — As circunstâncias mudaram!
De imediato, uma figura ainda mais idosa surgiu, se juntando aos dois ao chamado de Zeus. A barba farta caía longa pelo peito daquele que por certo também era uma divindade do Olimpo, as longas madeixas, tão grisalhas quanto a barba, chegando até abaixo do ombro largo em ondulações irregulares. Era ainda mais alto do que Zeus, de feições ainda mais endurecidas, e os olhos descorados fizeram um frio agourento percorrer a espinha da humana.
— Este é Cronos, meu pai e primeiro titã. Tivemos nossas diferenças no passado, mas finalmente aprendi a lidar com elas — Exibiu ainda mais orgulhosamente o coração do pai entre os dedos grossos, exultado com o medo que via mais claramente nos olhos da mortal — Cronos, como deve saber, é o deus do tempo. O único capaz de quebrar essa barreira invisível e impenetrável, e que me serve sem muita escolha, na verdade — Sorriu, ainda admirando o coração divino que lhe conferia total controle sobre o pai.
— Você é louco! — Exclamou com honestidade, o suor que descia farto pelo rosto agora já mais controlado, ela finalmente sentindo-se apta a novamente se erguer ereta. Zeus gargalhou, e o som era horrível.
— Eu não espero que uma reles mortal entenda a forma que administro as questões divinas. — Virando-se em seguida para o pai, ordenou: — Leve-a para bem longe daqui. Em tempo e espaço.
Cronos, sem qualquer instante de hesitação, girou o pulso direito com rapidez, criando bem à sua frente um vórtice negro que se alongava pelo ambiente. O portal chiava um agudo fino e baixo, e Mégara, tomada pelo desespero, tentou correr, porém a tentativa mal passou de um pensamento de intenção. Zeus segurou com agilidade sobre-humana o antebraço da mulher, como se previsse a tentativa, trazendo a mortal para perto de si.
— Espero que saiba usufruir o futuro, minha querida. Desejo boa sorte, e antes que parta, aqui vai um pequeno presente meu ao bastardo de Hércules, para que todos saibam que os deuses o amaldiçoam. — Zeus encostou os grossos dedos no ventre ligeiramente inchado de Mégara, e uma dor ainda mais profunda do que a primeira se propagou por dentro da humana, arrancando dela um grito aflito, cheio de dor e desalento — Adeus, Meg! — Disse, sorridente, antes de empurrá-la em direção ao vórtice, que após a passagem da mortal se fechou no silêncio, como se jamais tivesse existido.

O baque surdo que se seguiu à queda da mulher foi compatível ao grito que a acompanhou por todo o trajeto desconcertante. Mégara, ainda sem abrir os olhos, chorava compulsivamente sobre o chão frio que a sustentava.
As costas ardiam com a dor do baque, contudo era o abdômen que mais a preocupava. Pontadas afiadas o atravessavam em golpes, e posição alguma era capaz de abrandar a dor. Perderia seu filho, podia sentir. A única coisa que lhe restava, a única lembrança palpável que podia sustentar de Hércules.
"A criança é forte, tem que ser!" — Repetiu o pensamento, finalmente se permitindo abrir os olhos para o novo mundo em que fora lançada.
Conseguiu sentar apesar da aflição gritante, observando com estranheza o ambiente ao seu redor. Nada lhe soava minimamente familiar. As casas apinhadas e de uma estrutura totalmente diferente àquilo que ela estava acostumada tiraram seu fôlego por um instante. As pessoas, andando em trajes estranhos, faziam questão de passar encarando-a com olhares confusos e interrogativos, assim como ela, também estranhando o que viam.
Um dos homens que passava foi até Mégara, deixando cair uma espécie diferente de metal e falando algo que a mulher foi incapaz de compreender pelo dialeto. Olhou ao redor, a respiração acelerada tanto pela dor que ainda perdurava em seu ventre quanto pela horrível sensação de se ver completamente perdida num lugar que não era o seu...
...Num tempo que não era o seu.
Ergueu-se de um salto, deixando a esmola do parisiense intocada bem no lugar em que as moedas caíram. Caminhou sem rumo pelas ruas apinhadas, deixando seus olhos embasbacados pairarem sobre tudo que não era capaz de entender.
— Olha por onde anda, cigana! — Um cavaleiro montado num corcel negro gritou quando sua montaria esbarrou na estranha mulher com a velocidade em que trotava. Mégara nada entendeu da bronca direcionada a si, porém saiu do meio da rua, percebendo o contexto.
Parou de caminhar a esmo, apoiando-se com a mão numa das casas e sentindo o corpo tremer de frio. Os olhos, marejados, decidiram expulsar as lágrimas numa onda que lhe pareceu interminável. A outra mão se firmou no pequeno inchaço que já despontava de sua barriga, os soluços dando voz à angústia inarticulada que a dominava.
Estava só. Como nunca antes esteve ao longo de toda sua vida.
— Me perdoe, Hércules! — Lamentou, deslocada de todo aquele cenário — Me perdoe! Não sei o que fazer...
Abrigou-se numa viela deserta, encolhendo-se em seu próprio corpo para despistar os tremores. O céu, escuro e limpo, foi a última visão que teve antes de adormecer um sono sem sonhos, tão vazio quanto ela mesma se sentia.
Acordou na manhã seguinte com o nascer do sol, a luminosidade batendo forte em seu rosto e fazendo arder seus olhos com um despertar pouco acolhedor. Sem se permitir pensar muito no assunto, voltou a andar pela cidade, sentindo-se imunda pela noite que passara no chão.
E, por mais que já detestasse aquele lugar, se manteve andando, sem quaisquer perspectivas.

Vagou durante semanas na terra desconhecida, a cada dia se esgueirando mais para longe das multidões. A cada dia sentindo que suas reservas de energia se esgotavam com mais intensidade. Seu corpo implorava por alguma comida que não fossem os restos insuficientes que encontrava. A sede, sanada apenas quando chovia, fazia arder sua garganta na maioria do tempo.
Mégara se aventurou para as regiões mais distantes da cidade, seus passos cada vez mais mecânicos e sem forças, a barriga crescendo apesar das adversidades. A mulher piscou, tentando despistar a visão dupla cada vez mais frequente em seu corpo desidratado e subnutrido, nem se dando conta do momento exato em que suas pernas falharam de vez, quase na mesma hora em que sua consciência se perdeu e Mégara desmaiou, sempre tocando o ventre inchado.
Quando acordou, a mente parecia ainda mais atordoada.
Estava sobre uma cobertura macia, que se moldava bem ao seu corpo qualquer que fosse a posição escolhida, os músculos já não doendo mais com a mesma insistência. A cabeça, contudo, latejava.
— Água! — Mégara pediu num sussurro, fraca até mesmo para emitir aquele baixo ruído.
Para sua surpresa, uma mulher de traços gentis apareceu no seu campo de visão. Carregava no colo um bebê todo enrolado em panos, dormindo com profundidade no aconchego do colo da cigana. A cena fez com que Mégara instintivamente lembrasse da criança que carregava dentro de si, e rezou em silêncio para que ela ainda estivesse viva e saudável.
Mas rezar era inútil. Porque os deuses de suas preces eram os mesmos que destruíram cada aspecto de sua vida.
A mulher morena trouxe uma cumbuca simples aos lábios de Mégara, que a fitou com apreensão, visivelmente desconfiada. Contudo, o odor quente e convidativo que vinha de dentro da improvisada louça a fez ceder, e quando o líquido viscoso escorreu para sua garganta um intenso alívio a dominou, tanto pela temperatura da sopa quanto pelo prazer de sentir a comida preencher seu estômago.
— Água... — Meg pediu uma segunda vez, desanimada com a confusão no rosto de sua anfitriã. Apontou para a jarra com o líquido que descansava sobre uma pequena mesa de madeira, encarando-a cheia de expectativa.
A mulher, entendendo o pedido, encheu um generoso copo com o líquido translúcido, levando até Mégara com um sorriso meigo no rosto.
— De l'eau. — A cigana disse devagar, indicando a água que segurava, ensinando Mégara como pedi-la em francês.
— De l'eau... — Repetiu, recebendo um olhar aprovador e engolindo em longos goles o conteúdo do copo, tão afobada que alguns filetes chegaram a escorrer pelos cantos de seus lábios, causando arrepios agradáveis quando a água desceu por sua nuca — Obrigada! — Suspirou, finalmente confortável, deixando que os olhos novamente se fechassem.
Os dias que se seguiram foram uma repetição daquele primeiro em que passou na modesta casa. A cigana a ajudava nas suas mais diversas necessidades, revezando-se com bondade entre a enferma e o bebê de colo, que Mégara logo descobriu tratar-se de uma menina em seus primeiros meses de idade.
A cada por do sol que passava sob os cuidados da cigana, Mégara ficava mais forte. Com o passar dos meses, foi aprendendo aos poucos como se comunicar com mais facilidade, seus movimentos se tornando mais firmes e independentes a cada dia transcorrido.
Contudo, a dor incômoda em seu abdômen nunca chegou a cessar por completo, não importando o quão cuidadosa a parisiense fosse. A dor, no entanto, era suportável à medida que Mégara presenciava o volume crescente e saudável em sua barriga.
A criança dentro de si fora capaz de sobreviver às agruras mais diversas, e conforme os meses de gravidez avançavam, Mégara se sentia ainda mais confiante de que seu filho viria ao mundo com tanta saúde quanto possível...
...Até que chegou o momento do parto, e todas suas certezas ruíram.
— Chantefleurie! — Mégara gritou pela cigana de nome longo, sustentando a base do ventre com ambas as mãos, em completo desespero com as terríveis dores que a atravessavam.
— Vai nascer, Meg! — A cigana avisou num francês que já era de leve familiar à Mégara, colocando a bela filha de grandes olhos verdes no berço e indo ao auxílio da gestante — Vamos, deite-se aqui, e respire o mais fundo que conseguir. — Orientou, levantando o vestido até os seios da mulher e separando suas pernas, de modo que pudesse ver melhor o parto.
— Chante, isso dói! — Arfou num francês medíocre enquanto apertava a mão da amiga, tentando ao máximo não se deixar levar pela sensação desesperadora que lhe causava a dificuldade em respirar.
— Eu sei, querida, eu sei. Você precisa ser forte. Vai acabar logo, confie em mim! — Disse, sem saber que estava absolutamente certa naquele aspecto. Tudo acabaria mesmo rápido, muito mais rápido do que ambas gostariam.
Mégara urrou com a contração que veio de repente, assustando Chantefleurie pelos respingos insistentes de sangue que começaram a escorrer pela vulva da mulher em trabalho de parto.
— Empurre, Meg! Quando a dor vier, empurre com força!
— Eu não consigo... — Reclamou com sinceridade e, acima de tudo, medo, a dor das contrações sendo apenas uma coadjuvante se comparada à sensação de que seu útero era esmagado e esgarçado conforme o bebê tentava abrir passagem — Quando empurro parece que tudo se retorce por dentro de mim!
— Mégara, fique calma. — Pediu num tom brando de voz, acariciando as longas mechas já molhadas de suor de sua hóspede — Concentre-se na respiração, eu te ajudo com o bebê!
— Eu não posso perdê-lo! Por favor, não deixe que meu bebê morra!
Mais sangue jorrou por entre as pernas da mulher, levando à expressão de Chantefleurie traços que se traduziam em perfeito assombro. Não gostou nada da palidez de Mégara, e menos ainda dos soluços que, a cada segundo, perdiam a força, quase desistentes da própria vida.
— Seu bebê vai nascer, eu prometo! — Garantiu, decidindo agir em favor da criança. — Aguente firme, Meg! — Antes que a grega pudesse se dar conta, uma mão fina penetrou para dentro de sua vagina, forçando a entrada com o braço. Chantefleurie sentiu uma contração reflexa enquanto explorava o caminho de saída do bebê, dificultando o avanço de sua mão — Tente relaxar o máximo que puder. Eu acho que estou perto da cabeça!
Mégara fez o que lhe foi pedido, sentindo um súbito frio arranhar toda a extensão de sua pele. Tremeu de frio, as lágrimas quase secas em seu rosto tão estagnadas quanto o próprio corpo, que a cada segundo perdia um pouco da já escassa vitalidade.
— Não empurre! — Uma voz alarmada e distante chegou ao ouvido de Mégara, contradizendo ordens antigas — A criança está enroscada pelo pescoço, ela vai sufocar!
Chantefleurie forçou o alcance do braço um pouco mais, conseguindo o espaço necessário para intervir no problema. Mesmo no espaço apertado, os dedos finos foram capazes de tirar o cordão umbilical do pescoço da criança, que tentava a todo custo vir ao mundo.
— Mégara, abra os olhos! — Ordenou, incisiva, ao perceber a amiga se rendendo à inconsciência convidativa — Agora eu vou precisar da sua ajuda! Empurre o quanto aguentar, eu vou conduzindo a cabeça do bebê com a mão — Instruiu, sentindo um enorme aperto no peito quando a viu desacordada — MÉGARA! — Gritou, apenas assim conseguindo despertar a mulher extremamente pálida. A filha de Chantefleurie começou a chorar, assustada.
Meg juntou o que restara de suas parcas forças, empurrando da forma mais intensa que conseguiu ao som dos próprios gritos fracos, embora potentes em dor. Chantefleurie foi tirando o braço de dentro da parturiente, e logo a cabeça da criança já despontava para fora, ansiosa por sair. Tanto sangue se perdia que era difícil crer que Mégara ainda estivesse consciente quando o bebê finalmente nasceu.
A parteira limpou e desobstruiu as vias aéreas da criança, e de imediato um choro irregular, quase desengonçado, preencheu o ar.
— Por Júpiter! — A cigana exclamou, um olhar arrebatado pelo asco ao vislumbrar a deformidade que tinha nas mãos — Ele é... — Calou-se, sem palavras.
— Meu filho! Me dê ele aqui, eu quero ver meu filho! — Pediu, levantando os braços o máximo que pôde, aliviada por ouvir o choro firme da criança. "Ele conseguiu! Forte feito o pai!"
Chantefleurie, sem nada dizer, pôs o menino no colo da mãe, e Mégara viu de imediato os vários calombos que tornavam assimétricos os traços do recém nascido. Um caroço protuberante marcava a coluna do bebê, os olhos fechados não pela imaturidade natural, mas pelas feias verrugas que empurravam suas pálpebras para baixo. A pequena boca torta reclamou, intensificando o choro, como se já soubesse ser um monstro.
"Desgraçado!" — Praguejou, pensando em Zeus e na maldição que lançara à pobre criança, inocente de tudo e, ainda assim, aquela que mais pagaria o preço.
Beijou a testa ensanguentada de seu menino, chorando por sua própria sorte.
— Você está perdendo muito sangue... — Chantefleurie avisou, sem saber como lidar com a situação.
— Sinto muito, Hércules. Me perdoe... — Mégara disse, antes que o fio de sua vida fosse cortado pelas três moiras, e morreu ainda com o pequeno corcunda aconchegado em seus braços, berrando as mesmas injúrias de todo recém nascido.
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