O Preço da Magia
4 Episódio 04: Lentement Je M'y Noierai
Notas iniciais
O menino estava prestes a completar seis anos de idade quando a vida de toda a sua família se afundou numa reviravolta.
A vivacidade infantil que ainda não o abandonara contagiava todos ao seu redor, a gargalhada sempre presente resplandecendo ainda mais o rosto de traços miúdos, que ainda tardariam a solidificar expressões adultas. Os grandes e brilhantes olhos castanhos perscrutavam ao redor de todos os ambientes, sempre curiosos e interessados. Acima de tudo, olhos espertos, que já chamavam atenção até mesmo naquela tenra idade pela sugestão tão forte de sua inteligência.
O garoto de bochechas protuberantes brincava com toras de madeira tiradas da singela lareira de sua casa, empilhando-as de forma a fantasiar em sua imaginação fértil tratarem-se da catedral Notre Dame, conseguindo até mesmo reproduzir as duas torres que se elevavam em maior altura, altivas, no contexto da valiosa igreja.
O menino adorava as luzes da cidade. Encantava-se com a arquitetura elaborada e cheia de detalhes bordados no centro de Paris, fascinava-se, ainda que jovem, com os hieróglifos e altos relevos encravados nas paredes de Notre Dame, como se mensagens secretas se escondessem nelas, esperando apenas por alguém hábil a desvendá-las.
Nem mesmo as gárgulas, tão aversivas às outras crianças, o assustava.
De forma contraditória, elas (assim como toda a catedral) o instigavam a buscar o segredo que se escondia em suas carrancas ameaçadoras, cheias de um mistério que facilmente vingava no terreno fértil de mentes infantis, sedentas por aventuras imaginadas.
Contudo, eram apenas sonhos. Sonhos que logo se perderam no mar de realidade que não tardou a engolfá-lo.
O menino de fartas bochechas e intensos olhos castanhos estava fadado a um destino de misérias, distante de todos os momentos áureos que marcavam o centro da Cité. Condenado a viver no Pátio dos Milagres, antro de bandidos, ciganas, assassinos, ladrões, mulheres de vida fácil. Crianças que, já naquela pouca idade, tornavam-se pedintes de esmolas, dependentes da caridade alheia.
No Pátio dos Milagres, todos valiam nada. Escória e elite se fundiam nas periferias de Paris, e tanto o vinho quanto o sangue tinham a mesma cor. O mesmo sabor.
O menino estava rodeado de faltas, porém mesmo em meio à desfavoralidade do ambiente, o brilho astuto em seu olhar continuava apostando num futuro promissor. Foi dessa forma inocente que Claude Frollo passou o início de sua infância. De toras de madeiras, imaginando reis, castelos, dragões e catedrais.
Imaginando-se príncipe em seus trajes de plebeu.
Entretanto, a vida no Pátio dos Milagres nunca foi doce como os sonhos da criança, e logo o amargor tratou de se instalar na vida daquele menino, tirando à força e com cruel precocidade os seus primeiros raios de juventude. Uma infância que mal começara e já predestinada a um fim.
Anoitecia. Claude, completamente submerso na fantasia criada, mal dava-se conta da ausência prolongada de seu pai, que já deveria ter retornado à casa há algumas horas. Sua mãe esporadicamente relanceava um olhar irritado pela janela, buscando por qualquer indício do marido, já farta das noites de bebedeira que sempre delegavam todas as obrigações a ela.
O pequeno Frollo percebeu a mãe passar por si e abriu um enorme sorriso à mulher, um gesto que não foi correspondido, sequer percebido. Claude largou seu improvisado brinquedo sobre o chão, as perninhas curtas empertigando-se a seguir a bela mulher, aquela que ele tanto adorava acima de tudo.
Ela finalmente percebeu a criança que agora segurava sua longa saia com devoção, alisando o tecido de forma carinhosa. A mãe desanuviou uma parcela da irritação que antes imperava em seu semblante, pegando o filho no colo com olhos cheios de ternura. Olhos verdes, que contrastavam de forma magnífica com o bronzeado marcante de sua pele.
— Ugh! — Ela arfou ao erguê-lo do chão, simulando uma careta exagerada que o fez rir com gosto — Você está ficando pesado demais para colos, mon petit! Se continuar crescendo assim, logo eu que serei carregada por você! — Avisou, apertando uma de suas bochechas macias num beijo estalado que novamente o fez rir, deliciado.
Como era fácil arrancar gargalhadas daquele doce menino! Tão fácil, que tornou a decisão que a mulher vinha amadurecendo dentro de si ainda mais penosa. A pequena criança percebeu a súbita aflição que transbordou dos olhos intensos da mãe, pousando a gorducha mão no queixo da mulher num de seus gestos sempre solícitos e maduros demais para a idade.
— Não se preocupe, mamãe! O papai já deve estar voltando pra casa. — Disse com sua voz doce, sua mentalidade ainda otimista demais para acreditar que algum mal pudesse recair sobre as pessoas que amava.
Para o completo espanto do menino, a mãe limitou-se a assentir, evitando falar para não dar vazão às lágrimas que já deixavam seus verdes olhos rasos d'água, uma grossa película que refletia a tristeza concentrada naquele rosto, o mais belo rosto que Frollo já vira. Sua expressão infantil ficou confusa com a reação da mãe, não entendendo o que a afligia.
— Vá para o seu quarto, Claude. — Arriscou falar, colocando-o de volta ao chão antes que não conseguisse mais soltá-lo. Os olhos marejados deixaram escapar uma lágrima que ela com pressa secou — Já passou da sua hora de dormir. Seu pai vai ficar bravo se o encontrar ainda acordado!
O menino a encarou sem compreender, intimamente ferido pela dor súbita que percebera na mãe, a mais bela cigana do Pátio dos Milagres, sempre esbanjando uma alegria contagiante que, nesses últimos dias, parecia cada vez mais apagada e apática. Ao vê-lo hesitar ante seu comando, a voz da mulher se endureceu, angariando maior autoridade.
— Vá, Claude! — Ordenou, seu coração se partindo quando seu filho lhe lançou um último olhar triste, quase tão inconformado quanto terno. Seu filho era um garoto incrivelmente intenso. Ele era capaz de viver os sentimentos mais profundos já aos cinco anos, algo que muitos adultos jamais sonharam em experimentar sentir...
...E justamente por essa característica tão marcante de seu menino, ela sabia que ele jamais a perdoaria pelo que estava prestes a fazer.
Claude parou diante da porta de madeira levemente comida por traças do quarto que compartilhava com os pais, virando o rosto que se fixou na mulher mais linda aos olhos do menino. A pele morena sempre aconchegante e tão diferente da sua, os cabelos que caíam em cascatas negras e onduladas, cachos que ele adorava apertar entre os pequenos dedos. E os olhos, que ele tanto amava e que tanto lhe despertava segurança e alento, mas que hoje pareciam transtornados.
O menino tentou um último sorriso.
— Até amanhã, mamãe! — Despediu-se, causando de forma não intencional uma nova e mais forte onda de tristeza na mulher, que virou-se de costas para evitar que o filho visse as lágrimas, agora livres por seu rosto. O sorriso no rosto de Claude desmanchou, e o menino entrou cabisbaixo no quarto, ainda mais confuso.
Claude Frollo deitou sobre o colchão duro, mas foi incapaz de dormir.
Permaneceu deitado, os olhos castanhos bem atentos conforme os minutos se arrastavam e se transformavam em horas. Ficou naquela mesma posição por um tempo que pareceu incalculável, e quando afinal o torpor do sono chegou para enevoar seus pensamentos, o menino foi totalmente desperto pelo sonoro ruído da porta de sua casa batendo com força.
— Jehan! Pensei que dormiria nas ruas! — A cigana audivelmente reclamou, notando o estado ébrio lamentável de seu marido, esses episódios tornando-se cada vez mais frequentes. O homem entrou a passos bamboleantes, parecendo destituído de seu centro de gravidade — Embriagado, de novo! — Ralhou, recusando-se a ajudá-lo a se equilibrar quando ele tentou encontrar um apoio em seu braço.
O menino pulou para longe da cama, indo até a porta do quarto e abrindo uma pequena fresta que lhe permitiu espiar a discussão que se iniciava entre os pais.
— Me ajude aqui, mulher! — Pediu com aquela voz arrastada que tanto a irritava, sinal de sua bebedeira, que cada vez mais consumia os escassos parisis que tão arduamente arrecadavam.
— Ajude-se sozinho, Jehan. Não suporto mais isso! — Deu-lhe as costas, as várias pulseiras tilintando conforme passava a mão por seus cabelos em meio a um suspiro exausto — Aliás, acostume-se a fazer tudo sozinho daqui por diante, como eu tenho feito.
— Não encha minha cabeça com suas lamúrias! — Replicou, conseguindo unir o pouco equilíbrio que tinha para sentar-se numa cadeira de madeira, apoiando os cotovelos na mesa em que se serviam as refeições. Sua cabeça tombou para os pulsos, a boca semiaberta exalando o odor rançoso do álcool — Tive um dia difícil.
A cigana virou um rosto de expressão fulgurante, os olhos brilhando em labaredas esverdeadas perigosas.
— Seu dia foi difícil? — Sua voz soou baixa e periculosa — Passa os dias bebendo e as noites cambaleando pelos cabarés de Paris, enquanto eu me desdobro com um filho que também é seu! Claude mal conhece o pai que tem, e ao menos por isso eu preciso agradecê-lo. Já chega. Não aguento mais!
— Do que está falando? — Jehan levantou olhos mais sóbrios em sua direção, o rumo daquela conversa afastando boa parte de sua bebedeira, um pouco mais desperto pela atitude rebelde da mulher. Faria-a pagar por tamanha insolência!
— Eu vou embora. — Disse simplesmente, fitando-o com asco, percebendo naquele decisivo instante que nada restara do amor que um dia nutrira por aquele homem. Deu passos curtos para mais longe do marido ao perceber o ódio que se apoderou de seu rosto.
— Você não se atreveria!
— Pois fique olhando se não! — Girou a maçaneta de forma decidida, o coração batendo um pouco mais forte pela perspectiva da liberdade tão prezada pelos ciganos, e que lhe fora completamente arrancada naquele relacionamento problemático.
A egípcia sentiu um aperto rodear seu braço, machucando-a. Jehan, mesmo inebriado pelo efeito do álcool, ainda fora capaz de alcançá-la com admirável rapidez, rodeando a pele bronzeada da mulher com surpreendente força para alguém naquele estado de sentidos limitados.
— Você não vai a lugar algum! — Alertou, o hálito insuportável rodeando-a e empesteando todo o ambiente.
Nesse instante, o garoto já escancarara a porta do quarto, olhando os pais com olhos chorosos. Seus grandes orbes castanhos revelavam o quanto parecia assustado, e grossas lágrimas silenciosas finalmente banharam o belo rosto infantil que apenas observava. Jehan, percebendo o filho ali, apertou com ainda mais força a carne da cigana, encarando o menino com um olhar enlouquecido de fúria.
— Veja bem esta mulher, Claude! — O homem bêbado gritou, chacoalhando-a com tamanha força que a fez tropeçar, caindo de joelhos no chão — Olhe esta cadela bem nos olhos, e nunca se esqueça do que uma cigana é capaz! Veja, Claude. — Ordenou quando percebeu o filho desviar o rosto, este profundamente magoado — Não passa de uma gata no cio, pulando de telhado em telhado, disposta a abandonar o próprio filho para satisfazer as luxúrias de seu sangue egípcio maldito...!
A mulher ergueu-se num salto vigoroso, desferindo no bêbado um soco potencializado por todas as humilhações já vividas. Odiava-o. Naquele instante, esqueceu tudo o que a levou a se encantar por aquele decrépito homem, e a brutalidade do golpe fez jorrar um jato de sangue de suas narinas. Ele a soltou, atordoado, demorando a acreditar na ousadia da cigana. Levou os dedos ao nariz, encarando o sangue como se não pudesse acreditar no que via.
— Nunca torne a falar assim de mim na frente do meu filho, seu bêbado! — Agora foi ela quem gritou, rugindo com a fúria de uma leoa que protege seu filhote com as próprias garras. Direcionou-se em seguida a Claude, ainda mais assustado do que antes, e abriu os braços, chamando-o para seu colo.
O menino foi correndo aconchegar-se àquele abraço de alento, e mãe e filho choraram copiosamente, ambos dispensando carícias ao outro, sem saber que seriam as últimas. A cigana tornou a falar, sua voz parecendo mais embriagada do que a de Jehan.
— Eu volto por você, mon petit! Mamãe vai precisar ir embora por um tempo, mas eu venho te buscar.
— Não me deixe aqui, mamãe! — Implorou, lançando olhares assustados para o pai, que apenas observava a cena com tanto ódio que chegou a causar um forte calafrio no menino de belos olhos castanhos — Eu vou com você! — Acariciou as maçãs bronzeadas de seu rosto, disposto a jamais sair do alcance daquele colo.
— Escute, meu menino! — Tentou sorrir, secando o rosto do filho, porém ele logo tornou a se molhar ao som de fungadas tão profundas e doloridas que foram uma verdadeira punhalada no coração da mãe — Mamãe não vai conseguir te sustentar agora. Antes de te levar comigo, eu preciso juntar algum dinheiro, encontrar um lugar para morar... Você compreende?
Ele respondeu intensificando o choro, desconsolado. Não, não entendia. A egípcia carinhosamente segurou uma de suas gorduchas mãos, passando com ternura o indicador pelas linhas bem marcadas de sua palma.
— Eu vejo bem aqui... — Ela principiou, desenhando uma das linhas da mão com o dedo de forma tão branda que pareceu um afago — Sua mão me conta que uma cigana logo entrará em sua vida, veja, bem aqui! A prova de que eu volto por você, meu amor! Se algum dia duvidar disso, basta olhar para as linhas de sua mão e esperar por mim. — Beijou com doçura os olhos lacrimejantes de seu amado garoto, tendo que reunir toda a força de vontade que havia em si para concretizar sua decisão de partir.
Ela o soltou, caminhando o mais rápido que pôde rumo à sua própria sorte nas ruas cruéis de Paris. Ainda foi capaz de ouvir um último grito desesperado de Claude quando fechou a porta atrás de si, tanto desconsolo incutido naquela única palavra que quase a fez retornar em sua direção:
— Mamãe!
— Eu volto, mon petit! Tenha um pouco de paciência, eu volto! — Prometeu de novo, ainda que ele não fosse mais capaz de ouvi-la, precisando secar novamente os olhos.
Claude Frollo, por sua vez, revezava olhares entre a porta e a mão, no ponto exato em que a mãe a lera, sendo despertado pelos dedos rudes do pai apertando seu ombro.
— Chega desse choro, Claude. Já está na hora de se tornar um homem! — Repreendeu com rigidez, nunca dispensando ao menino um mínimo afeto que fosse — Ciganas têm a natureza fraca, não passam de meretrizes que buscam vida fácil. Não sei por que eu pensei que com sua mãe seria diferente, certamente ela me envolveu por algum de seus feitiços pagãos! — Comentou com ódio, ignorando as feições dilaceradas de seu filho — Mas não se preocupe, ela terá o que merece! — Certificou, mais para si do que para o garoto, um ar pensativo tomando seu rosto. Quando voltou a fitar Claude, no mesmo instante as bochechas alvas do homem foram tingidas de um vermelho raivoso — O que ainda faz aqui, moleque dos infernos? Vá já dormir! — Rugiu à sua maneira sempre tão intolerante e fria, voltando a sentar-se na mesma cadeira, direcionando o olhar para algum ponto inespecífico que parecia lhe causar enorme asco. Limpou mais uma vez o nariz ensanguentado, dono de uma calma assustadora — Ela terá o que merece! — Repetiu, sua voz não mais banhada de álcool, mas sim de promessas de vingança...
...Promessas estas um tanto sóbrias.
Claude Frollo correu para o quarto, sentindo-se a criança mais despedaçada e infeliz de toda a França. Seus soluços aumentaram com potência assim que voltou à singela cama do pequeno cômodo, incapaz de assimilar aquela dolorosa perda. Olhou de forma suplicante para a linha da mão que sua mãe evidenciara antes de partir, as íris afogadas em lágrimas fazendo a visão se duplicar. Como despedida, ela disse ter visto uma cigana em seu futuro, e somente esse pensamento trouxe um pouco de calma aos soluços convulsivos do pequeno garoto.
O menino ainda a esperou por longos anos, mas a cigana jamais cumpriu a promessa de retornar por ele.

Frollo caminhava pelo cômodo a passos compulsivos, traçando o mesmo caminho ao longo do piso com ares aéreos, a mente vagando por caminhos distantes ao corpo de forma inconsistente à sua personalidade normalmente tão centrada, tão cheia de foco em seus propósitos.
Passara aquela noite em claro, por mais vezes do que gostaria encarando as linhas bem marcadas de sua mão, uma antiga memória realçando-se em sua arguta mente como se fosse recente...
...Aquele fatídico dia, em que provara por si mesmo uma dose amarga das promessas vãs e mentiras que são parte essencial dos ciganos. Essencial a tal ponto que, de tão enraizadas, parecem constituir a anatomia desse povo pagão assim como seus ossos, nervos e musculatura.
Há anos não se permitia relembrar o passado, contudo, este fez questão de emergir dos pontos mais escuros de sua mente, atingindo-o como um punhal após a visão da dançarina egípcia e sua cabra, uma visão tão breve quanto distante, porém capaz de dominá-lo numa turbulência incendiária.
Vira a cigana apenas de longe, e mesmo com toda a distância seu encanto natural chegou até o padre à velocidade de seus sensuais rodopios, o levantar casual da saia comprida trazendo um relance das pernas bronzeadas, uma cena que parecia disposta a destruir toda a paz que levara tanto tempo para construir dentro de si.
Uma paz que ele descobriu ser falsa. Prestes a ruir à menor sugestão da dançarina que o vinha atormentando de maneiras um tanto inapropriadas a um padre.
Frollo suspirou um ar pesado e cheio de descontentamento, seus dedos correndo pela extensão dos cabelos majoritariamente negros, com apenas alguns focos grisalhos em contraste. Estava exausto, mas o cansaço pouco estava relacionado com a noite mal dormida.
O arquidiácono, ainda perdido em seus próprios devaneios delirantes pela insônia, foi despertado de forma abrupta pelo repique alegre dos sinos de Quasímodo. Franziu as sobrancelhas ao perceber que o corcunda tocava suas damas de ferro de um modo ainda mais vívido e estonteante, como que unindo o som de dois sinos diferentes numa mesma melodia.
Normalmente, Quasímodo destinava à sua orquestra de sinos toda a melancolia que coexistia dentro de si, porém naquele dia, as batidas no ferro pareciam exultadas, quase... Animalescas. Uma felicidade simples, que Frollo nunca antes associaria àquele sineiro, um ser que já nasceu em desgraça pela aparência amaldiçoada.
O padre instantaneamente foi tomado por um ímpeto de intuição sobre o significado daquilo. Lembrou com assertividade do dia anterior, em que o corcunda se perdera em fascinação e encanto pelo espetáculo que a estrangeira dera com a suavidade arrebatadora de sua coreografia, esquecendo-se pela primeira vez de suas obrigações no campanário...
...E agora despertando os sinos naquele tilintar de indiscutível alegria, um sentimento um tanto raro ao corcunda.
Dando voz à sua intuição, o padre dirigiu-se à pequena janela de seu quarto, a visão desembocando na praça em frente à catedral de forma a confirmar suas suspeitas. Mesmo que Frollo já esperasse ser contemplado por aquela visão, ainda assim foi pego de surpresa pelos passos da cigana, como se novamente a visse pela primeira vez tamanho o deslumbre que o acometeu.
Esmeralda dançava no mesmo ponto do dia anterior, esbanjando a mesma graça e beleza, talvez esta última ainda mais potencializada pelos raios de sol que tocavam o cetim de sua pele.
— Pobres dos que desconhecem a feitiçaria egípcia! Pobres dos que se condenam à danação de suas curvas infernais! — O homem praguejou, talvez como numa tentativa infrutífera de desviar a indiscutível fascinação que o dominava, cada vez mais forte e magnética em direção à figura daquela mulher. Cada vez mais difícil de negar.
Sem pensar muito no que fazia, deixou o quarto, descendo rapidamente as escadas em espiral com a mente anuviada pela visão longínqua que tinha da estrangeira, disposto a vê-la mais de perto com a desculpa de escorraçá-la das proximidades da catedral, uma desculpa que sequer serviu para enganar a si mesmo, mas que lhe pareceu suficiente.
Atravessou a catedral sem se importar com os fiéis que ali pousavam suas orações, chegando afoito à praça du Parvis, e no mesmo instante percebeu que cometera um terrível erro, porém já era tarde. Essa pequena revelação de sua perdição o fez estancar, de fato amedrontado com o turbilhão desorganizado de desejos que apenas faziam sua frequência cardíaca aumentar.
Viu-a de perto pela primeira vez, e soube em seu mais profundo íntimo que se colocara num caminho sem volta, sem a mais remota redenção.
Passou a caminhar mais vagarosamente pela praça, saboreando cada uma das cenas que chegavam aos seus olhos faiscantes de deleite, notando com horror que a pequena atração que Esmeralda lhe incutira quando a observava à distância não significou nada se comparado ao que o arrebatava naquele momento. Até mesmo respirar parecia difícil, quase árduo, quando tamanha beleza se desfiava diante de seus castanhos olhos, banhados em aflição.
Chegou o mais perto que pôde da pequena roda formada ao redor da cigana, sem perceber a mão no peito que apertava com vigor o crucifixo que pendia em seu pescoço, quase como um pedido de clemência.
A egípcia deslizou o corpo pelo chão com uma desenvoltura que lhe tirou o pouco fôlego ainda disponível, a saia subindo por suas pernas da cor do bronze, uma cor que reluzia com beleza incomparável à luz do sol. Imaginou, tomado por luxúria, como seria aquela pele ao toque, se tão macia quanto lhe prometia a visão.
Seu rosto resplandecia num sorriso vivo e esperto, ainda mais iluminado do que a própria praça naquele fim de tarde. O suor a escaldava por completo, seus traços faciais lindamente emoldurados pelos cachos volumosos que desciam longos por suas costas torneadas.
— Djali, escolha um cavalheiro da plateia para nos acompanhar nessa dança! — A cigana disse à cabra numa voz falhada pelo arfar, exaurida com o exercício travado por seus habilidosos pés.
O astuto animal se adiantou em obedecer à dona, saltitando com vigor pela plateia, dona de um olhar inquisidor conforme passava pelas pessoas. Até que parou à frente de Claude Frollo, porém o padre sequer percebera a presença da talentosa cabritinha, ainda hipnotizado pela imagem da cigana, consumido por desejos que jamais deveriam partir de um servo de Notre Dame.
Djali baliu com força e indignação, disposta a se fazer perceber. Nem mesmo o som foi capaz de despertar o arquidiácono, e foi preciso que a cabra puxasse com os dentes sua batina para conseguir atrair a atenção do escolhido. Ele a fitou, confuso, deixando-se levar pela surpreendente força do animal, conduzindo-o com vontade.
Frollo se viu no centro onde se encontrava a egípcia, seu coração disparado pela proximidade inesperada. Ela ainda se prostrava de costas para o padre, aproximando-se de ré conforme tamborilava animadamente no pandeiro. O arquidiácono, mal percebendo o que fazia, aproximou-se alguns passos da cigana, tentado a sentir o odor que exalava de seus cachos desordenados. Aspirou o ar que se infiltrava entre seus fios, extasiado com o aroma que invadiu suas narinas.
A estrangeira rodopiou com destreza, ficando imediatamente à frente do homem trazido por Djali, lançando um olhar surpreso ao vê-lo tão próximo. O arquidiácono estancou ao perceber a tonalidade esverdeada de seus grandes olhos, sendo mais uma vez tragado por aquele magnetismo que Frollo já julgava como feitiçaria. Seu brilho esmaltado em verde refletia esperteza e tanta vivacidade que aqueles orbes lhe pareceram extremamente inoportunos. Eram olhos oblíquos, dissimulados...
...Olhos de cigana.
Apesar do breve susto tomado pela egípcia, sua dança não cessou, e aos sons aclamados da plateia ela começou a deslizar passos ao redor do homem, não sendo capaz de perceber seus olhares inflamados e desejosos, incapaz de esconder o princípio daquilo que ainda o consumiria como um comburente à mercê do fogo.
O tipo de fogo que Frollo julgava vir do próprio inferno, direcionado a ele em labaredas que visavam afrontar sua fé.
"Serva de Lúcifer, que veio a esta terra me desviar de meus propósitos!" — Constatou, os olhos sempre sedentos a acompanhá-la por cada movimento, cada roçar não programado, cada olhar a se cruzar. Estava perdido, e já possuía uma consciência superficial disso logo no momento em que se aventurou pelo brilho verde de seus delineados olhos.
Como um ato final, Esmeralda lançou o pandeiro para cima, vendo-o rodar em pleno ar e já sorrindo ao perceber Djali assumir seu posto, posicionando-se com precisão no local em que o instrumento cairia, as patas afastadas lhe conferindo maior apoio ao seu pequeno truque. A cabra, assim que se deu por satisfeita do local que escolhera, abaixou de leve a cabeça de modo que seus brilhantes chifres recebessem de volta o pandeiro que caía, certeiro naquela direção.
Uma saraivada de palmas e aclamações encheu a praça assim que o truque se mostrou bem sucedido, levando um sorriso radiante aos lábios da egípcia. Ela se abaixou numa reverência de profundo agradecimento, dando a Frollo uma visão mais aberta de suas curvas.
O povo, percebendo o fim do espetáculo, começou a se dispersar para seus próprios caminhos, e Esmeralda também já se preparava para partir. Contudo, antes que fosse capaz de juntar seus poucos pertences, a mão fria do padre a segurou com firmeza pela articulação do cotovelo, fitando-a com olhos rudes ainda que cheios de um desejo impossível de camuflar. A egípcia respondeu ao austero olhar com receio e descaro, já disposta a protestar por aquela proximidade.
Porém, o arquidiácono foi mais rápido nas palavras.
— O arredor de Notre Dame não é lugar para seus espetáculos pagãos, cigana. Encontre um palco mais apropriado para suas danças infames. — Disse, numa tentativa desesperada de se livrar do mal que sentia florescer em si. Ciente de que aquela seria uma batalha perdida caso fosse impelido a ter uma visão constante da egípcia e seus trejeitos enfeitiçados.
Analisou-a por completo uma última vez, partindo novamente em direção à catedral, sem ao menos dar tempo de resposta à estrangeira, sequer ousando olhar para trás.
Ela ainda ofegava, a expressão confusa permeando pelos seus traços tão atípicos ao padrão da França.
— Eu pedi um cavalheiro, Djali! — Esmeralda reclamou à cabra numa voz recortada pelo arfar, porém de uma leveza única, que levaria Frollo a se desesperar ainda mais apenas pelo som musical de seu timbre. Continuou observando o afastar endurecido do padre, sua postura rígida tão diferente da sua — Tinha que escolher logo o fanático de Notre Dame?
O animal a encarou de volta, seus grandes olhos expressivos de pupila retangular parecendo fazer pouco das reclamações da dona. Não fora, nem de longe, Djali quem o escolhera.
Afinal, fatalidades como aquela iam muito além do mero discernimento de uma cabra.
Fale com o autor