O Preço da Liberdade
29 Epílogo: O Império do Caos
O sol de Aethelgard brilhava intensamente, mas dentro do palácio, o clima era de uma guerra tática. O Grande Salão, outrora palco de julgamentos austeros e banquetes diplomáticos, agora era o cenário de um caos que nem mesmo o Rei Alexander — o avô — ousava interromper.
Adrian estava sentado à cabeceira da mesa, com a túnica levemente desabotoada e olheiras que nem mesmo a coroa conseguia disfarçar. Ele sustentava a cabeça com a mão direita, enquanto a esquerda segurava uma xícara de café como se fosse seu único bote de salvamento.
Ao seu lado, Mellyssa não estava em melhor estado. Sua postura de rainha impecável havia cedido lugar a um cansaço profundo. Ela tentava ler um relatório de importações, mas seus olhos não focavam nas letras, e sim no rastro de geleia que atravessava a toalha de linho branco.
— Adrian... — ela murmurou, sem tirar os olhos do prato. — Por que eles estão tão silenciosos?
Adrian deu um gole longo no café e suspirou.
— O silêncio é o pior sinal, Mellyssa. Quando eles gritam, sabemos onde estão. Quando se calam, é porque estão planejando um golpe de Estado.
Nesse exato momento, um estrondo vindo da galeria de armaduras ecoou pelo corredor, seguido por uma risada aguda.
— DIANA! DEVOLVA O MEU ESCUDO! — o grito de Alexander, o herdeiro de 10 anos, fez os talheres da mesa tremerem.
— VENHA BUSCAR, FUTURO REI! SE CONSEGUIR ME ACHAR NO LABIRINTO! — respondeu a voz de Diana, carregada de um deboche que Adrian conhecia muito bem. Era a sua própria voz, vinte anos mais jovem.
O Café da Manhã dos Derrotados
Segundos depois, os dois entraram no salão como um furacão. Alexander vinha com o rosto sujo de fuligem — provavelmente de alguma exploração nas chaminés — e Diana corria à frente, carregando um broche real que Mellyssa usaria naquela noite, agora servindo como "tesouro" em uma caça épica.
— Bom dia, papai! Bom dia, mamãe! — Diana gritou, passando por eles como um raio e roubando um pãozinho da mesa sem parar de correr.
Alexander parou por um segundo, arquejando.
— Pai, a Diana disse que eu não posso ser General se não souber montar em um mastim. Eu tentei montar no cachorro do tio Michael e agora ele está escondido debaixo da carruagem!
Adrian fechou os olhos, massageando as têmporas.
— Alexander... o cachorro do seu tio tem idade para ser seu avô. Deixe o pobre animal em paz.
— Mas a mamãe disse que temos que ser determinados! — rebateu o menino, com o queixo erguido.
Mellyssa finalmente levantou o rosto, olhando para o filho com uma mistura de adoração e desespero.
— Eu disse para serem determinados nos estudos de latim e economia, Alex. Não na tortura de caninos reais.
A Herança do Amor
Diana voltou, deslizando pelo chão de mármore e parando entre os pais. Ela se encostou no braço de Adrian e olhou para ele com aqueles olhos que o desarmavam completamente.
— Papai, você está com cara de quem quer dormir cem anos. Quer que eu conte uma piada? O Tio Saullo me ensinou uma sobre um cardeal e um barril de vinho...
— NÃO! — Adrian e Mellyssa gritaram em uníssono.
— O Saullo vai ter uma conversa séria comigo hoje — Adrian resmungou, puxando a filha para um beijo na testa. — Vão. Vão brincar nos jardins. E, por favor, tentem não derrubar nenhuma estátua de antepassados.
Os dois saíram correndo, o som dos pés pequenos ecoando pelo palácio, seguidos pelos gritos de protesto dos guardas que tentavam — em vão — manter a ordem.
Mellyssa recostou a cabeça no ombro de Adrian, fechando os olhos.
— Lembra quando a nossa única preocupação era o testamento do Barão e a Condessa Giulia?
Adrian riu, passando o braço pela cintura dela e puxando-a para perto.
— Aquilo era férias, Mellyssa. Aquilo era um passeio no parque.
Ele olhou para a porta por onde os filhos sumiram e sentiu um calor no peito que superava qualquer exaustão. Eles eram barulhentos, indomáveis e completamente sem juízo, mas eram o reflexo de um amor que começou com gelo e terminou em um fogo impossível de apagar.
— Valeu a pena, não valeu? — ela perguntou, abrindo um olho para olhá-lo.
Adrian sorriu, beijando os lábios da esposa com a mesma paixão de dez anos atrás.
— Cada picle com mel, cada noite sem dormir e cada escudo roubado. Eu não trocaria esse cansaço por toda a paz de Roma.
Aethelgard estava viva. E enquanto o som das risadas dos gêmeos preenchia o ar, o Rei e a Rainha finalmente terminaram seu café, sabendo que o império que construíram não era feito de pedras, mas de uma linhagem que, finalmente, sabia o verdadeiro significado de ser livre.
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