O Rei Alexander não era bobo. Ele viu a faísca entre o filho e a Baronesa e decidiu que um "choque de realidade" seria a melhor estratégia. Na manhã seguinte, sob o pretexto de segurança real e inspeção de fronteira, ele ordenou que Adrian escoltasse Mellyssa até o chalé isolado que Rossi havia deixado para ela nas montanhas do norte.


​A viagem na carruagem real era longa. Mellyssa estava sentada de um lado, com as costas retas, observando a paisagem passar. Adrian, por outro lado, estava esparramado no banco oposto, observando-a.

​O silêncio era tenso até que a carruagem deu um solavanco violento em uma pedra, jogando Mellyssa para frente. Adrian, com reflexos rápidos, segurou-a pelos ombros antes que ela batesse a cabeça.

​— Cuidado, Baronesa. As estradas de Aethelgard não são tão previsíveis quanto seus livros de contabilidade — disse ele, soltando-a lentamente, mas deixando as mãos um segundo a mais do que o necessário.

​— Eu sobrepriveria, Príncipe — ela disse, ajeitando o vestido, mas a máscara de gelo parecia um pouco trincada pelo susto.

​— Sabe — Adrian começou, cruzando os braços —, meu pai acha que estou aqui para te proteger. Mas eu sei a verdade. Ele me mandou para que eu aprenda a ser "sério" com você. O que ele não sabe é que você é quem precisa aprender a se divertir.

​Mellyssa soltou um suspiro de escárnio.

— E sua ideia de diversão é o quê? Virar uma caneca de cerveja e apostar o anel da família com camponeses?

​— Na verdade, minha ideia de diversão agora é descobrir o que faz você franzir essa testa perfeita — ele deu um sorriso de lado. — Diga-me, Mellyssa... o Barão Rossi era tão chato assim ou você que o transformou em um santo de gesso?

​Ela olhou para ele, pronta para disparar uma ofensa, mas algo na audácia dele a pegou desprevenida.

— Vane era... um homem de rotinas. Ele gostava de colecionar relógios. Às vezes, eu achava que o som das engrenagens era a única música que ele conhecia.

​— Relógios? — Adrian soltou uma gargalhada genuína. — Meu Deus, que pesadelo! Você deve ter vindo para a corte só para fugir do tic-tac constante. Eu já teria jogado todos pela janela no primeiro mês.

​Pela primeira vez, os lábios de Mellyssa se curvaram minimamente.

— Eu fiz isso. Com o relógio da sala de estar. No dia seguinte ao funeral.

​Desta vez, Adrian riu tanto que teve que se segurar na alça da carruagem.

— Eu sabia! Há uma rebelde por trás desse veludo todo!

​O Chalé de Madeira

​Quando chegaram ao chalé, o clima era outro. O lugar era rústico, mas luxuoso, cercado por pinheiros e o ar gelado da montanha. Enquanto os guardas descarregavam o essencial, Adrian e Mellyssa entraram para inspecionar o local.

​Ele começou a mexer nos objetos antigos, fazendo comentários absurdos sobre o gosto duvidoso do falecido Barão.

​— Olha esse busto, Mellyssa! — Adrian apontou para uma escultura de mármore de um filósofo carrancudo. — Ele tem exatamente a mesma cara que você fez quando eu entrei no conselho ontem. Uma mistura de "quem deixou esse garoto entrar?" e "alguém me traga um chá forte".

​Mellyssa tentou manter a pose, mas a imitação que Adrian fez de sua expressão foi tão precisa e ridícula que ela não aguentou. Uma risada curta e cristalina escapou de seus lábios.

​— Você é um idiota, Adrian — ela disse, balançando a cabeça, mas o brilho em seus olhos era, pela primeira vez, caloroso.

​— Sou um idiota real, por favor — ele se aproximou, servindo dois copos de um licor que encontrou no bar. — E você... você tem uma risada que poderia começar guerras, ou terminá-las. Por que a esconde tanto?

​Ela aceitou o copo, seus dedos roçando nos dele.

— Porque no meu mundo, se você ri demais, acham que você é fraca. E se você é fraca, eles tiram tudo de você. Especialmente quando você é uma viúva de 19 anos com metade das terras do sul.

​Adrian mudou o tom. A provocação sumiu, dando lugar a uma sinceridade rara.

— Ninguém vai tirar nada de você aqui. Eu não deixaria.

​Mellyssa olhou para ele, o copo parado a meio caminho da boca. O silêncio no chalé não era mais desconfortável; era carregado de algo novo.

​— Você diz isso para todas, Príncipe? — ela perguntou, com a voz baixa.

​— Para todas as outras, eu prometo o mundo — Adrian deu um passo à frente, diminuindo a distância. — Para você, eu só prometo que, enquanto eu estiver por perto, o único tic-tac que você vai ouvir será o do meu coração, e ele está batendo bem rápido agora.

​Mellyssa não recuou. Ela deu um gole no licor, olhando-o por cima da borda do copo com um desafio divertido.

— Prova.

​Adrian sorriu. O jogo tinha acabado de ficar muito mais interessante.