O castelo Martinez, que antes ecoava gritos de fúria, agora estava mergulhado em um silêncio de morte, quebrado apenas pelos gemidos baixos de Heitor e pelo estalar das brasas que ainda restavam no pátio.


​Heitor estava deitado na imensa cama de dossel, mas sua presença parecia pequena diante da gravidade do ferimento. A lâmina de Maurício tinha ido fundo, e a febre, como um incêndio interno, começara a consumir o que restava das forças do Duque.

​O Arrependimento de Maurício

​No pé da cama, Maurício estava irreconhecível. O homem sarcástico e arrogante dera lugar a um jovem quebrado, com as mãos ainda trêmulas e o rosto inchado de tanto chorar.

​— Heitor, por favor... você não pode me deixar com esse peso — Maurício sussurrava, segurando a mão gélida do irmão. — Eu era apenas um menino quando tudo aconteceu... eu tinha treze anos! Eu só via o que Katherine queria que eu visse. Eu odiei você por dez anos porque era mais fácil do que aceitar que Marcus nos traiu. Perdão... por favor, meu irmão... me perdoe!

​Jasmine, que trocava as compressas de água fria na testa de Heitor, olhou para o cunhado. A raiva que sentia dele era imensa, mas a dor no olhar de Maurício, agora com seus 23 anos e confrontado com a verdade nua e crua, era um castigo pior do que qualquer prisão.

​A Chegada dos Nóbrega

​A notícia do atentado correra rápido, e José e Açucena chegaram ao castelo ao amanhecer, com os cavalos exaustos. Açucena não perdeu tempo com etiquetas. Entrou no quarto carregando uma bolsa de couro cheia de raízes e ervas colhidas na encosta da montanha.

​— Saiam todos! Deixem-me trabalhar! — ordenou Açucena, afastando Maurício com um olhar severo.

​Ela preparou uma pasta de erva-de-bugre e arnica, aplicando sobre o corte profundo no peito de Heitor, enquanto murmurava orações antigas que passavam de geração em geração na família Nóbrega. Jasmine observava, com o coração apertado, enquanto a mãe tentava estancar a infecção que começava a escurecer as bordas da ferida.

​O Pior dos Cenários

​Horas se passaram. O sol atingiu o zênite e começou a cair, mas a cor de Heitor não voltava. Em vez de melhorar, sua respiração tornou-se curta e ruidosa. A pele, antes pálida, agora tinha um tom acinzentado.

​— Mãe, por que ele não acorda? — Jasmine perguntou, a voz embargada. — Por que o remédio não está funcionando?

​Açucena limpou o suor do próprio rosto, o olhar carregado de uma tristeza impotente.

— As ervas curam o corpo, minha filha... mas Heitor está lutando contra algo mais forte. Ele passou dez anos desejando a morte para se livrar da culpa. Agora que a morte finalmente o tocou, ele parece não ter vontade de empurrá-la de volta. O corpo dele desistiu, Jasmine.

​— Não! — Jasmine se ajoelhou ao lado da cama, segurando o rosto de Heitor entre as mãos. — Heitor, você me ouve? Você queimou o passado para que pudéssemos ter um futuro! Você não pode me deixar agora que eu finalmente conheço o homem por quem me apaixonei!

​Heitor teve um espasmo, uma tosse violenta que trouxe sangue aos seus lábios, manchando os lençóis brancos. Açucena recuou um passo, trocando um olhar doloroso com José, que estava à porta com Rebekah chorando baixinho em seus braços.

​— A febre está subindo muito rápido — sussurrou Açucena. — Se ele passar desta noite, será um milagre que a ciência ou a terra não podem explicar.

​O castelo, com toda a sua riqueza e seus títulos, parecia impotente. A "flor de ferro" estava diante de seu maior desafio: convencer um homem que passou uma década querendo morrer de que, pela primeira vez, ele tinha um motivo real para viver.