O Preço da Flor de Ferro
19 A Verdade Sangrenta
O ar na biblioteca estava gélido, mas o fogo que queimava nos olhos de Jasmine era de uma coragem desesperada. Heitor estava do outro lado da porta trancada, mas após alguns minutos de silêncio absoluto, a chave girou. Ele entrou, não como o monstro que Maurício descrevera, mas como um homem cujos ombros carregavam o peso de um mundo em ruínas.
Jasmine não recuou desta vez. Ela ficou de pé, no centro da sala, com os olhos fixos nele.
— Chega de sombras, Heitor. Maurício disse que você os executou. Os jornais dizem que você foi o único sobrevivente. Se você vai me destruir também, que seja com a verdade nos lábios!
Heitor fechou a porta atrás de si e encostou a cabeça na madeira, fechando os olhos. Uma risada amarga e seca escapou de sua garganta.
— Maurício... sempre o mestre das meias-verdades. Ele adora me ver como o vilão, porque isso o faz sentir-se menos culpado por ser quem é. — Heitor caminhou até a mesa, mas não olhou para ela. — Você quer saber o que aconteceu naquela noite? Quer saber por que eu tranco aquela porta?
Ele olhou para as próprias mãos, abrindo e fechando os dedos como se pudesse sentir o peso de uma espada invisível.
— Eu não os peguei de surpresa para executá-los, Jasmine. Eu fui chamado. Marcus me enviou um bilhete. Ele não queria apenas Katherine; ele queria o título, queria o castelo, queria apagar a minha existência. Ele me desafiou para um duelo, ali mesmo, no quarto dela.
Jasmine sentiu o coração falhar. — Um duelo? Entre irmãos?
— Marcus sempre foi implacável, e Katherine o instigava — continuou Heitor, a voz falhando. — Quando entrei no quarto, ele já estava com a espada em punho. Ele me atacou com um ódio que eu nunca imaginei que um irmão pudesse sentir. Eu era o melhor esgrimista dos três, Jasmine. Eu só queria desarmá-lo! Eu tentei errar o golpe de propósito, tentei apenas ferir o braço dele para que a loucura parasse... mas ele se lançou contra a minha lâmina. Ele se empalou na minha hesitação.
Heitor cobriu o rosto com as mãos, e Jasmine viu as primeiras lágrimas de um luto de dez anos escorrerem entre seus dedos.
— Katherine deu um grito que ainda ecoa nos meus pesadelos. Ela não chorou por ele como uma amante comum. Ela me olhou com um desprezo tão profundo que me transformou em cinzas. Antes que eu pudesse largar a minha arma para socorrê-lo, ela pegou a espada caída de Marcus. Eu achei que ela me mataria... eu desejei que ela me matasse! Mas ela não me deu esse consolo.
Jasmine deu um passo à frente, o horror sendo substituído por uma compreensão dolorosa.
— Ela mesma... — Jasmine sussurrou.
— Sim — Heitor confirmou, a voz rouca de dor. — Ela cravou a lâmina no próprio ventre, diante dos meus olhos, para morrer ao lado dele. Ela me deixou vivo para carregar a culpa de dois cadáveres e uma honra manchada. Eu os amava, Jasmine. Marcus era meu sangue. Katherine era a mulher que eu prometi proteger. O segredo daquela sala não é o meu crime... é a minha falha. Eu sou rude porque o silêncio é a única coisa que impede que eu grite até perder a razão.
Jasmine sentiu as pernas fraquejarem. O monstro que ela imaginara — o assassino frio — era, na verdade, um homem quebrado pelo destino e pela traição daqueles que mais amava. A "proteção" de Heitor não era posse; era o medo desesperado de perder a única luz que voltara a brilhar em sua vida: Jasmine.
— Por que não contou a verdade? Por que deixou Maurício espalhar esse veneno?
— Quem acreditaria? — Heitor olhou para ela, os olhos vermelhos e exaustos. — O Duque que sobrevive enquanto a esposa e o irmão morrem? Maurício sabe a verdade, mas ele me odeia por eu ter sobrevivido e ele não. Eu me escondi atrás dessa máscara de frieza porque achei que, se eu fosse um monstro, ninguém chegaria perto o suficiente para ver o quanto eu estava estilhaçado. Até você aparecer.
Jasmine caminhou lentamente até ele. A mão dela, que antes tremia de medo, agora se estendeu com uma ternura infinita, pousando no rosto dele. Heitor estremeceu ao toque, como se estivesse esperando uma punição, mas encontrou apenas o calor da compaixão.
— Eu sinto muito, Heitor — ela sussurrou. — Eu sinto tanto.
Heitor desabou contra ela, escondendo o rosto em seu pescoço, soluçando o peso de uma década. Naquela noite, na biblioteca cercada de histórias de tragédia, eles finalmente começaram a escrever a deles com a verdade. A porta trancada não precisava mais ser um segredo, pois Jasmine acabara de encontrar a chave que realmente importava: a alma do homem que ela, contra todas as sombras, começava a amar de verdade.
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