O Preço da Coroa

1 Sombras no Gabinete



​O sol poente tingia as tapeçarias do gabinete real com tons de sangue e ouro. Dominic Delavga permanecia de pé junto à janela, os ombros pesados sob a capa de veludo que parecia pesar mais do que o habitual. Ao seu lado, a Rainha Iara mantinha as mãos cruzadas, o rosto lívido como uma estátua de mármore.

​Quando a porta se abriu com um estrondo, ambos souberam que o momento da verdade havia chegado.

​— Mandou me chamar, meu pai? — Selene entrou no recinto como uma lufada de vento selvagem, com o cabelo levemente desgrenhado de sua cavalgada matinal. — Espero que seja importante. A luz está perfeita para terminar minha pintura no jardim.

​Dominic pigarreou, evitando o olhar vibrante da filha.

— Sente-se, Selene. Precisamos falar sobre o futuro de Delavga. E sobre o seu.

​Selene sentiu um calafrio percorrer sua espinha. O tom de voz do pai não era o de um pai, mas o de um soberano. Ela permaneceu de pé.

— O meu futuro pertence a mim. O que aconteceu?

​— O reino está sufocado, filha — Iara começou, a voz suave tentando amortecer o impacto. — As colheitas falharam, as rotas comerciais foram cortadas. Precisamos de um aliado forte. Alguém com recursos para reconstruir nossas defesas e alimentar nosso povo.

​— E esse "alguém" tem um nome, não tem? — Selene perguntou, as mãos começando a tremer de indignação.

​— Adrian Kane — disse Dominic, finalmente encarando a filha. — O Rei do Norte aceitou a proposta. O contrato de casamento foi assinado esta manhã. Você partirá em duas semanas para o território dele.

​O silêncio que se seguiu foi denso e sufocante. Selene sentiu o sangue sumir de seu rosto, apenas para retornar em uma onda de calor que subiu pelo pescoço.

​— Adrian Kane? — a voz dela saiu em um sussurro antes de explodir. — O homem que dizem ter o coração feito de granito? O carrasco que governa pelo medo? Você está me vendendo para ele como se eu fosse um fardo de seda ou uma saca de grãos!

​— Selene, comporte-se! É o seu dever! — Dominic trovejou, embora houvesse dor em seus olhos.

​— Dever?! — Selene gritou, a raiva transbordando em um riso amargo. — Alexander não teve esse "dever"! Alexander se casou com Débora! Ele se casou com uma camponesa que vendia tecidos na praça porque a amava! Vocês permitiram que ele seguisse o coração, que vivesse a própria vida! Por que a minha felicidade é o preço para consertar seus erros financeiros?

​— Seu irmão foi uma exceção que quase nos custou caro! — rebateu o rei.

​— Não! — ela golpeou a mesa de carvalho com as palmas das mãos, fazendo os tinteiros saltarem. — Ele foi corajoso! E eu não serei um sacrifício silencioso! Eu odeio Adrian Kane, eu odeio essa coroa e, neste momento, eu odeio esse castelo!

​— Selene, por favor, entenda... — Iara tentou se aproximar, mas a filha recuou.

​— Eu não vou entender nunca! — Selene gritou, as lágrimas de fúria brilhando nos olhos. — Vocês querem um trono de ouro? Pois aproveitem, porque ele será construído sobre a minha miséria! Eu nunca vou me curvar a Adrian Kane. Nunca!

​Ela deu as costas aos pais e saiu batendo a porta, o som ecoando pelos corredores como o início de uma guerra que ninguém em Delavga estava preparado para vencer.