Oakhaven nunca viu um inverno tão "quente". Desde que a notícia da gravidez foi confirmada, Adrian Kane deixou de ser o Lobo do Norte para se tornar o guardião mais obsessivo — e, às vezes, irritante — que Selene já vira.

​O Incidente da Escada

​Selene estava descendo para o salão principal, segurando levemente o corrimão, quando um vulto negro surgiu à sua frente, bloqueando a passagem.

​— Nem mais um passo — ordenou Adrian, estendendo a mão como se ela estivesse prestes a pular de um penhasco.

​— Adrian, são apenas dez degraus — Selene suspirou, colocando as mãos nos quadris. — Eu sou uma rainha, não uma boneca de vidro de Murano.

​— Dez degraus são dez oportunidades de você tropeçar no seu vestido — ele rebateu, sério como se estivesse discutindo uma estratégia de guerra. Sem esperar resposta, ele a pegou no colo com uma facilidade desconcertante.

​— Adrian! As pessoas estão olhando! — ela sussurrou, o rosto ficando vermelho.

​— Deixe que olhem. Deixem que vejam que o Rei sabe carregar seu tesouro mais precioso — ele respondeu, descendo os degraus com uma cautela exagerada, como se estivesse pisando em ovos.

​A Dieta do Rei

​Na hora do jantar, Selene esticou a mão para pegar uma taça de vinho diluído, como era costume. Antes que seus dedos tocassem o cristal, a taça desapareceu. Adrian a substituiu por um copo de leite morno com mel e um suco de frutas vermelhas.

​— O médico disse que o vinho, mesmo aguado, não é o ideal para o pequeno herdeiro — disse ele, empurrando também um prato com o dobro de proteína que ela costumava comer.

​— Eu não consigo comer tudo isso, Adrian. Vou acabar explodindo antes do tempo.

​— Você está alimentando um futuro soberano, Selene. Precisa de força. Maria! — ele chamou a governanta. — Garanta que a Rainha coma cada pedaço desta carne. E onde está a manta de pés dela? O chão está dois graus mais frio hoje.

​Selene revirou os olhos, mas não conseguiu conter o sorriso. Era exaustivo, mas havia uma doçura naquela preocupação que a fazia se sentir profundamente amada.

​O Gabinete da Rainha

​Até o trabalho de Selene foi afetado. Ela estava sentada em sua escrivaninha revisando os gastos das províncias quando Adrian entrou com três servos carregando almofadas de veludo.

​— O que é isso agora? — ela perguntou, largando a pena.

​— Sua cadeira é de madeira pura, Selene. Muito dura. Pode causar dores nas costas. E estes relatórios... — Ele pegou os papéis da mão dela. — São muito pesados. Eu cuidarei disso. Você deve apenas descansar e pensar em nomes.

​— Adrian, se eu parar de trabalhar, eu vou enlouquecer de tédio! — ela exclamou, levantando-se.

​Ele parou, envolveu-a pela cintura com cuidado e encostou a testa na dela.

— Eu só tenho medo, Selene. Medo de que algo aconteça com você. Passei tanto tempo te tratando com frieza que agora sinto que preciso te dar todo o calor do mundo em dobro para compensar.

​Selene relaxou nos braços dele, sentindo o coração dele bater acelerado.

— Eu sei, meu amor. Mas eu sou forte. Lembra-se? Eu sobrevivi a você quando você era um monstro. Sobreviver a um marido zeloso demais vai ser fácil. Mas, por favor... deixe-me caminhar sozinha até o jardim. Meus pés ainda funcionam.

​Adrian riu, beijando a ponta do nariz dela.

— Está bem. Mas eu vou dez passos atrás de você. Com uma manta. E um guarda-chuva, caso as nuvens decidam chorar.

​Selene riu alto, balançando a cabeça. Oakhaven estava sob um novo tipo de ditadura: a ditadura do cuidado extremo. E, apesar de estar "ficando doida", ela nunca se sentira tão protegida na vida.