O Preço da Coroa
4 Conversa sincera
O quarto de Selene estava imerso em um silêncio pesado, quebrado apenas pelo farfalhar da seda e das rendas. O vestido de noiva era uma obra-prima de costura, com pérolas incrustadas e um véu que parecia uma névoa de prata. Mas, no espelho, a imagem que a devolvia o olhar era a de uma estranha.
Aos 18 anos, Selene sentia que sua vida estava sendo encerrada antes mesmo de começar. Onde estavam as cavalgadas ao amanhecer? As tardes pintando no jardim sem preocupações? Tudo o que via agora eram as grades invisíveis de uma coroa que ela nunca pediu para carregar.
A porta rangeu suavemente. A Rainha Iara entrou, sua presença exalando o perfume de jasmim e a calma de quem já enfrentou muitas tempestades. Ela parou atrás da filha, as mãos pousando nos ombros cobertos pela renda fina.
— Você está deslumbrante, minha estrela — sussurrou Iara, encontrando os olhos marejados de Selene no reflexo.
— Estou pronta para o meu próprio funeral, mamãe — Selene respondeu, a voz embargada. — Por que Alexander pôde ter a felicidade e eu recebi apenas o dever?
Iara suspirou, um som carregado de anos de segredos.
— Você olha para mim e seu pai e vê apenas o que somos hoje. Mas eu também tive 18 anos, Selene. E eu também chorei diante deste mesmo espelho.
Selene virou-se, surpresa.
— O quê? Mas... vocês se amam. Eu vejo como ele olha para você.
— Hoje, sim. Mas o meu casamento com Dominic também foi arranjado. Nossas famílias precisavam selar um pacto de não agressão décadas atrás. No dia do meu casamento, eu não conhecia o homem que me esperava no altar além de seu nome e título. Eu o temia. Eu achava que minha vida de liberdade tinha acabado. — Iara sorriu com melancolia. — Mas, com o tempo, descobri que Dominic era a rocha que eu precisava. O amor não foi o ponto de partida, foi a construção de anos de respeito.
Selene sentiu uma lágrima quente escorrer e manchar a seda do corpete. Ela segurou as mãos da mãe, os dedos gelados de pavor.
— Mas ele é diferente, mamãe! — desabafou Selene. — Adrian Kane é um estranho de gelo. Ele governa com o medo. Eu nunca saí das fronteiras de Delavga, nunca dormi longe dessas paredes... e agora vou ser levada para o Norte, para um castelo de pedra onde não conheço ninguém, para deitar-me ao lado de um homem que me vê como uma transação financeira!
O desespero na voz da jovem era palpável. Ela apertou as mãos da mãe com mais força.
— Eu tenho medo, mamãe. Medo de que o frio do Norte apague quem eu sou. Medo de que ele me quebre para me fazer caber nos moldes de sua rainha. Como posso ser um "espírito livre" se estarei acorrentada a um homem que não sabe o que é um sorriso?
Iara abraçou a filha, envolvendo-a com o calor que só uma mãe possui.
— Oakhaven é longe e gelado, é verdade. Mas lembre-se de quem você é. Delavga é o reino do sol e das artes; você carrega essa luz dentro de você. Adrian Kane pode ter o pulso de ferro, mas até o ferro mais duro se molda se encontrar o calor certo. Não deixe o medo ditar o seu destino antes mesmo de você cruzar o portão.
Selene encostou a cabeça no ombro da mãe, fechando os olhos. O consolo era doce, mas o peso da realidade ainda esmagava seu peito. Em poucas horas, ela deixaria de ser a filha protegida para se tornar a esposa de um rei que o mundo chamava de implacável.
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