O Preço da Coroa

11 O Selo do Dever e o Silêncio do Coração




​O gabinete real, antes um lugar de cumplicidade, tornara-se um campo de batalha burocrático. Sobre a mesa de carvalho, não havia mais apenas mapas de plantações, mas pergaminhos luxuosos, selados com ceras de cores vibrantes e brasões estrangeiros. Eram as propostas de aliança. Eram as fotos pintadas em miniatura. Eram as futuras rainhas da Escócia.

​Maria entrou no recinto carregando uma bandeja de prata com uvas frescas, queijos finos e uma garrafa do melhor vinho tinto das adegas reais. Seus passos eram silenciosos, mas seus olhos, sempre curiosos e aguçados, não puderam evitar a mesa.

​Ali, espalhadas, estavam cartas da Espanha, da França e dos principados germânicos. Uma delas, aberta, mostrava o retrato de uma infanta de pele de porcelana e olhos gélidos. O texto, em latim elegante, falava de dotes, exércitos e a "pureza de sangue necessária para o trono dos Blake".

​Maria sentiu o estômago revirar. O vinho na bandeja pareceu pesar toneladas.

​Edmund estava sentado, com a cabeça apoiada nas mãos, lendo uma missiva enviada por um duque influente. Ele não percebeu a entrada dela de imediato, imerso no que parecia ser um pesadelo administrativo.

​— O lanche, Majestade — Maria disse, sua voz saindo mais fria e cortante do que ela pretendia.

​Edmund deu um pulto, fechando a carta rapidamente, como se escondesse um crime.

— Maria! Eu não a ouvi entrar.

​— Percebi. Estava ocupado escolhendo o futuro da sua linhagem, pelo que vejo — ela depositou a bandeja na mesa com um baque seco, os olhos fixos no retrato da princesa estrangeira. — Ela é bonita. Certamente Roma aprovaria o "sangue puro" dela.

​Edmund levantou-se, contornando a mesa.

— Maria, não é o que parece. São apenas obrigações diplomáticas. Eu não pedi por essas cartas, elas chegam agora que o reino está estável...

​— Mas você vai respondê-las, não vai? — Maria o interrompeu, a voz trêmula de uma mágoa que ela tentava esconder atrás da raiva. — Porque você é o Rei. E o Rei precisa de uma Rainha que traga barcos e ouro, não de uma plebeia que traz apenas... verdades incômodas.

​— Maria, por favor...

​— Eu quero pedir minha abdicação, Edmund — ela disse, dando um passo para trás, fugindo do toque dele. — Quero ser dispensada de minhas funções no palácio. Quero voltar para a casa dos meus pais. Para o meu povo. Para o lugar onde eu pertenço.

​O rosto de Edmund empalideceu.

— O quê? Por quê? Você tem seus aposentos aqui, você é minha conselheira, minha...

​— Eu sou sua criada, Edmund! — ela gritou, e as lágrimas que ela jurara não derramar começaram a arder em seus olhos. — E ver você ler essas cartas todos os dias, ver você se preparar para colocar outra mulher no lugar que... no lugar que a lei diz que eu nunca poderei ocupar... isso está me matando por dentro. Eu não posso ser a sombra que serve o vinho no seu banquete de casamento com uma princesa.

​Edmund tentou segurar as mãos dela, mas Maria se esquivou, escondendo as mãos trêmulas atrás das costas.

​— Eu fiz o que vim fazer — ela continuou, a voz agora um sussurro quebrado. — O povo está alimentado. As ruas estão limpas. Você é o Rei que eles merecem. Minha missão acabou. Por favor... deixe-me ir antes que eu comece a odiar você de novo por me fazer amar algo que nunca poderei ter.

​O silêncio que se seguiu foi devastador. Edmund olhou para as cartas sobre a mesa — símbolos de poder, segurança e solidão — e depois para Maria, a única pessoa que realmente conhecia o homem por trás da coroa.

​— Se você sair por essa porta, Maria — Edmund disse, a voz embargada — este castelo voltará a ser apenas uma tumba de pedra. Eu serei apenas um prisioneiro do dever.

​— Então seja um bom prisioneiro, Majestade — Maria fez uma reverência profunda, a mais formal e dolorosa que já executara. — Pelo bem da Escócia.

​Ela se virou e saiu, deixando para trás o perfume de lavanda, o som de seus passos apressados e um Rei que, cercado por propostas de realeza, nunca se sentira tão pobre.