O Preço da Coroa
17 O Julgamento do Vigário
Este é o momento mais audacioso da história. Onde o poder temporal e espiritual se chocam, e a voz de uma mulher que conhece a fome e o amor desafia o trono de São Pedro.
O ar em Edimburgo estava carregado, não de neve, mas de uma eletricidade opressiva. O Papa Clemente, em sua viagem sem precedentes às terras do norte, não chegara com misericórdia, mas com a pompa de um imperador. Ele cruzou os portões do castelo em uma liteira dourada, cercado por cardeais cujas vestes vermelhas pareciam sangue sobre o pátio de pedra.
A reunião foi marcada para a Grande Abadia. Edmund estava pálido, a coroa parecendo sufocá-lo. Isabella tremia ao seu lado. O silêncio era absoluto, interrompido apenas pelo som rítmico dos cajados dos guardas papais.
— Rei Edmund — a voz do Papa era como o ranger de mármore antigo. — Eu vim pessoalmente para selar o destino deste reino. A anulação é um insulto à estabilidade da Fé. Se não houver um herdeiro de Castela nesta terra em nove meses, a Escócia será excomungada. Suas igrejas serão lacradas. Seus mortos não serão enterrados em solo sagrado. Suas almas pertencerão ao abismo.
Edmund abriu a boca para protestar, mas a garganta secou. O peso de uma nação inteira o esmagava. Foi então que, do fundo da nave da igreja, um som de passos firmes ecoou.
Maria Benevides, a Baronesa de Valfenda, caminhou pelo corredor central. Ela não usava joias. Vestia um traje negro, austero, como se estivesse em luto pela justiça.
— Atrás, Baronesa! — sussurrou Lorde Archibald, apavorado. — Você não pode interromper o Santo Padre!
Maria o ignorou. Ela parou diante do trono papal, olhando diretamente nos olhos do homem que se dizia o representante de Deus.
O Discurso da Terra e do Sangue
— Santidade — Maria começou, a voz límpida e forte, reverberando nas abóbadas de pedra. — O senhor fala de almas e de fé, mas seus olhos só enxergam mapas e fronteiras. O senhor fala de Deus, mas suas mãos só apertam o ouro das alianças políticas.
O Papa franziu a testa, os cardeais começaram a murmurar indignados.
— Quem é esta mulher que ousa profanar este momento? — rugiu Clemente.
— Eu sou a mulher que viu as crianças deste reino comerem ratos enquanto a sua Igreja cobrava dízimos para decorar altares em Roma! — Maria deu um passo à frente, sem recuar. — Eu sou a mulher que viu este Rei, o homem que o senhor chama de "filho da Igreja", sangrar o próprio orgulho para salvar um povo que o senhor nunca visitou até hoje, quando sentiu que perdia o controle sobre o seu tabuleiro de xadrez humano.
O Papa levantou-se, o rosto vermelho de fúria. — Silêncio, plebeia arrogante! Você fala de amor enquanto o mundo precisa de ordem!
— Que ordem existe em um leito onde não há desejo? Que santidade existe em um herdeiro gerado pelo medo e pela obrigação? — Maria apontou para Edmund e Isabella. — Olhe para eles! O senhor está pedindo um sacrifício humano em pleno século XVI! O senhor é mesquinho, Santidade. O senhor teme que, se permitir que um Rei siga o próprio coração, os outros reis percebam que a sua coroa de espinhos é, na verdade, feita de ferro e ganância.
O salão explodiu. Guardas avançaram, mas Edmund se colocou à frente de Maria, com a mão no punho da espada. O Rei Henrique deu um passo à frente também, unindo-se ao filho.
— Se a mão de Roma é tão pesada que esmaga a felicidade dos meus filhos — Henrique disse, a voz trovejando — então talvez a Escócia não precise mais da mão de Roma!
Maria voltou-se para o Papa, com os olhos brilhando de lágrimas e fúria.
— Se o senhor excomungar este povo por causa do amor, o senhor não estará expulsando a Escócia de Deus. O senhor estará expulsando Deus de Roma. Porque o Deus que eu conheço, o Deus que me deu forças para salvar este Rei quando ele era apenas um menino perdido, não habita em documentos anulados. Ele habita na verdade. E a verdade é que este casamento é uma mentira que fede aos céus!
O Milagre do Caos
O Papa Clemente parecia prestes a explodir, mas algo aconteceu. Ele olhou ao redor. Ele viu os guardas escoceses baixarem as lanças em apoio à Maria. Viu o povo, que se aglomerava nas portas da abadia, repetindo o nome dela em um sussurro crescente. Ele viu que, se insistisse, perderia a Escócia para sempre para as reformas que já incendiavam a Alemanha e a Inglaterra.
O silêncio que se seguiu durou uma eternidade. O Papa sentou-se lentamente, as mãos trêmulas apertando os braços da cadeira. Ele olhou para Isabella, que chorava silenciosamente, e para Edmund, que segurava a mão de Maria com uma força inquebrável.
— A Baronesa... tem uma língua que corta mais do que o aço de Castela — murmurou o Papa, a voz agora cansada, desprovida da arrogância anterior. — O mundo está mudando, e as sombras da dissidência estão em toda parte.
Ele fechou os olhos por um longo momento.
— Por decreto da Santa Sé... considerando a não consumação comprovada e o... — ele olhou para Maria com um misto de ódio e respeito — ...o bem-estar espiritual extraordinário desta nação... a união entre Edmund Blake e Isabella de Castela está dissolvida.
Um grito de alegria reprimida percorreu a abadia. Isabella desabou em um suspiro de alívio puro.
— Mas saibam disto — o Papa apontou o dedo para Edmund e Maria. — O preço desta liberdade será a vigilância eterna. Que o amor de vocês seja tão grande quanto a confusão que causaram hoje, ou a história não os perdoará.
Clemente levantou-se e saiu sem dar a bênção final, seguido por sua procissão escarlate.
No centro da abadia, Edmund e Maria se abraçaram diante de todos. Não havia mais segredos. Não havia mais baronesa ou rei. Havia apenas a vitória da verdade sobre o dogma. Isabella aproximou-se e tocou o ombro de Maria, um gesto de paz final antes de partir de volta para sua própria vida.
Edmund beijou a testa de Maria, as lágrimas finalmente caindo.
— Você nos salvou de novo — ele sussurrou.
— Eu só disse o que o seu coração já sabia — ela respondeu, sorrindo entre as lágrimas. — Agora, Majestade... acho que temos um casamento de verdade para organizar.
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