O Preço da Coroa
18 A Coroa de Urzes e Ouro
Este é o momento em que a história fecha seu ciclo: o homem que detinha o poder divino na Terra, após ser desafiado pela verdade de uma mulher, curva-se diante do amor que ele mesmo tentou proibir.
O dia do casamento real não amanheceu com o frio cortante habitual da Escócia. O sol de primavera parecia ter feito um pacto com o destino, banhando as pedras do Castelo de Edimburgo com um brilho dourado e quente. As ruas estavam cobertas de pétalas de flores silvestres, e o povo — o seu povo — lotava cada centímetro do caminho até a Abadia, não por obrigação, mas por uma alegria que transbordava em cânticos.
Dentro da Abadia, o cenário era de uma beleza arrebatadora. Edmund insistira que a decoração não fosse apenas de tapeçarias ricas, mas de ramos de urzes e flores do campo, unindo a nobreza do trono à simplicidade da terra de onde Maria viera.
O Papa Clemente, ainda com sua aura de autoridade inabalável, mas com um olhar de resignação respeitosa, aguardava no altar. Ele aceitara realizar a cerimônia como um gesto político para evitar o cisma da Escócia, mas, ao ver a procissão começar, algo em sua expressão suavizou.
A Entrada da Rainha
As trombetas ecoaram, mas logo deram lugar ao som suave das harpas celtas. Edmund estava no altar, vestindo o manto real de veludo azul-escuro, sua coroa brilhando sob a luz que atravessava os vitrais. Suas mãos, antes trêmulas em outros tempos, agora estavam firmes ao lado do corpo.
Então, as portas se abriram.
Maria surgiu, caminhando ao braço de seu pai, Jorge. Ela não parecia uma baronesa francesa, nem uma plebeia escocesa; ela parecia a personificação da própria nação. Seu vestido era de seda branca puríssima, com mangas longas bordadas em fios de prata que desenhavam cardos e lírios. Sobre sua cabeça, não havia ainda uma coroa de metal, mas uma delicada tiara de diamantes que Edmund mandara fazer especialmente para ela.
Ao chegar ao altar, Jorge entregou a mão da filha a Edmund. O toque de suas peles fez um silêncio reverente cair sobre a multidão.
O Juramento perante Deus e o Povo
O Papa Clemente adiantou-se, levantando o báculo. Sua voz, agora desprovida de ameaças, ecoou com a gravidade dos séculos.
— Edmund Blake, Rei da Escócia, você recebe Maria Benevides, Baronesa de Valfenda, como sua legítima esposa e Rainha, prometendo protegê-la, honrá-la e amá-la, na paz e na tormenta, até que a morte os separe?
Edmund olhou profundamente nos olhos castanhos de Maria, aqueles mesmos olhos que o enfrentaram com uma adaga anos atrás.
— Eu recebo — ele disse, a voz ecoando com uma certeza absoluta. — E prometo que meu coração será o escudo dela, como o dela foi a bússola da minha alma.
O Papa voltou-se para Maria.
— Maria Benevides, você recebe Edmund como seu esposo e Rei, prometendo lealdade ao trono e ao homem, guiando-o com a sabedoria que a terra lhe deu e o amor que a uniu a ele?
Maria sorriu, um sorriso que iluminou toda a abadia.
— Eu recebo. E prometo que nunca deixarei que a coroa o afaste do povo, nem que o poder o afaste de si mesmo.
O Papa então pegou a coroa da Rainha, uma peça de ouro leve, adornada com safiras que combinavam com os olhos de Edmund.
— Pelo poder a mim conferido, eu os declaro marido e mulher. E coroo Maria Benevides como Rainha Consorte da Escócia. O que Deus uniu, e a verdade libertou, homem nenhum ouse separar.
O Beijo da Nação
Edmund inclinou-se e beijou Maria. Não foi um beijo de protocolo, mas um beijo de reencontro, de alívio e de promessa. Quando eles se voltaram para o povo, de mãos dadas, a Abadia explodiu em um clamor que pôde ser ouvido em todos os cantos de Edimburgo.
Na saída, o casal real parou no topo da escadaria. Abaixo deles, milhares de súditos gritavam seus nomes. Maria olhou para Edmund e depois para a multidão. Ela viu seus pais, Jorge e Elena, chorando de orgulho. Viu as crianças com quem Edmund brincara no lodo, agora vestidas com suas melhores roupas.
— Você conseguiu, Majestade — Maria sussurrou, apertando a mão dele.
— Nós conseguimos, minha Rainha — Edmund respondeu, levantando a mão dela para que todos vissem as alianças brilhando ao sol.
A Escócia tinha um Rei que aprendera a amar, e uma Rainha que ensinara o Reino a sentir. O banquete que se seguiu durou três dias e três noites, e dizem as lendas que, naquela noite, até as estrelas sobre as Highlands brilharam mais forte, celebrando o dia em que o amor foi mais poderoso que a lei, e a verdade mais sagrada que o dogma.
FIM
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