O Preço da Ambição

9 O Peso do Passado no Chão de Porcelanato



​O sino de cristal acima da porta da Maison Suzan Styles, em Ipanema, badalou suavemente, anunciando mais um cliente. O ambiente era o reflexo exato do sucesso de Suzan: paredes em tons de areia e dourado fosco, ar-condicionado perfeitamente regulado, araras de metal escovado exibindo vestidos de linho e seda pura, e um aroma sutil de jasmim no ar — o cheiro de morango da juventude havia ficado para trás, dando lugar à sofisticação.

​Suzan estava de costas, ajustando com alfinetes o caimento de um blazer off-white em um manequim de alfaiataria. Seus longos cabelos ruivos continuavam vibrantes, mas agora estavam presos em um rabo de cavalo baixo e alinhado.

​— Seja bem-vindo à Suzan Styles. Só um minuto e uma de nossas consultoras já vai... — Suzan começou a falar enquanto se virava, mas as palavras morreram em sua garganta.

​A prancheta de acrílico que ela segurava escorregou de seus dedos, batendo no chão de porcelanato com um estalo seco que ecoou por toda a loja vazia.

​Parado junto à entrada, vestindo um terno cinza-chumbo sem gravata, com os cabelos levemente salpicados de fios brancos nas têmporas e os mesmos olhos de ônix de cinco anos atrás, estava Leonard Vance.

​O tempo parecia ter congelado. O silêncio que se instalou entre os dois era tão denso que Suzan conseguia ouvir o compasso acelerado do próprio coração.

​— Cinco anos, Suzan... — a voz de Leonard quebrou o silêncio. Era o mesmo barítono profundo, mas não havia mais o gelo do passado. Havia uma rouquidão carregada de dor e de uma saudade que havia cruzado o país. — Cinco anos acreditando que tudo o que vivemos naquele iate tinha sido apenas uma transação comercial.

​Suzan deu um passo para trás, as mãos cobrindo a boca enquanto as lágrimas, presas por meia década, inundavam seus olhos azuis.

​— Leonard... Como você...? O que você está fazendo aqui? — ela gaguejou, sentindo as pernas tremerem.

​Leonard caminhou lentamente pela loja, ignorando o luxo ao redor, com os olhos fixos unicamente nela. Ele parou a pouco mais de um metro de distância.

​— Sua mãe. Eu a encontrei em um cruzeiro. Ela me deu este endereço e, mais do que isso, me deu a verdade que meu pai tentou enterrar — ele deu mais um passo, encurtando a distância, e Suzan pôde sentir o calor familiar que emanava dele. — Ela me contou que você fugiu por medo. Medo do que o Ricardo faria com você e com ela. Por que não me contou, Suzan? Por que não me deixou te proteger?

​— Proteger como, Leonard?! — a fachada de estilista de sucesso desmoronou, e a antiga Suzan, vulnerável e desesperada, gritou com a voz embargada pelo choro. — O seu pai tinha provas! Ele tinha os contratos, os extratos dos milhões que ele colocou na minha conta! No começo, foi por dinheiro. Eu limpei o chão de escritórios a vida toda, minha mãe estava doente, nós não tínhamos o que comer! Como eu ia olhar nos seus olhos e dizer que fui paga para destruir a sua vida? E o Ricardo prometeu que nos caçaria até o inferno se eu ficasse perto de você!

​As lágrimas de Suzan transbordaram, correndo pelo seu rosto. Leonard estendeu a mão lentamente, e os dedos dele, quentes e firmes, tocaram a bochecha dela, limpando uma lágrima. O contato elétrico fez Suzan fechar os olhos, soltando um soluço baixo.

​— Eu não me importo com o começo, Suzan. Eu te disse isso no telefone há cinco anos e repito agora — Leonard disse, a voz vibrando de emoção. Ele segurou o rosto dela com as duas mãos, forçando-a a olhar para ele. — Meu pai está velho, afastado do conselho, e a holding agora é minha. Ninguém mais pode nos ameaçar. Eu passei cada dia desses cinco anos sentindo falta do seu perfume, das suas risadas, do seu vestido azul... Sentindo falta da única mulher que me fez sentir vivo de verdade. Você construiu o seu império, Suzan. Você provou que não precisa de um centavo dos Vance. Mas eu não vim aqui atrás da estilista famosa. Eu vim atrás da minha ruiva.

​Suzan olhou para Leonard, vendo a sinceridade e o amor escancarados naquele olhar de ônix que um dia foi tão frio. A armadura que ela usou por cinco anos no Rio de Janeiro desmoronou por completo. Não havia mais motivos para fugir. O preço da ambição já havia sido pago com juros de solidão, e agora era a hora de aceitar o que o dinheiro nunca pôde comprar.

​— Eu nunca deixei de te amar, Leonard... Nem por um segundo — ela sussurrou.

​Leonard não esperou mais nenhuma palavra. Ele inclinou o rosto e a beijou. Foi um beijo urgente, profundo, que carregava a frustração de cinco anos de separação e a promessa de um recomeço. Suzan entrelaçou os braços no pescoço dele, entregando-se completamente àquele abraço que era o seu verdadeiro lar.

​O destino, que havia começado com uma mentira sob a chuva no estacionamento de um supermercado, finalmente encontrava a sua verdade sob o sol de Ipanema. Eles haviam sobrevivido à tempestade, e agora, o futuro era todo deles.

​FIM

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.