O Preço Da Morte

4 O Prisioneiro


Notas iniciais
Acabei escrevendo esse capítulo no decorrer da semana =D

Ficou curto, mas vou postar mais no fim de semana.

Boa leitura!

Susan abriu os olhos, cegando-se com a luz. Percebeu que estava deitada no leito do hospital, e sentou-se. Respirou, sentindo o ar entrar e sair, e que sensação ótima! Ela estava viva. Suas memórias ainda estavam nubladas, mas ela se lembrava. De pouco, mas lembrava. Nos filmes, as pessoas sempre esqueciam assim que despertavam. Será que ela ainda estava morta? Levantou-se, pisando descalça no chão, e sentindo a frieza deste como a melhor sensação do mundo. Arrancou do seu corpo os fios, soros, e os tubos que saiam do seu nariz, ouvindo a máquina apitar. Era um som muito irritante. Foi até a janela, abrindo-a, o vento frio da manhã acariciando sua pele. Sentira tanta falta disso.

Em seguida, foi até o banheiro do pequeno quarto de hospital. O espelho era grande, dando para ela ver até perto da cintura. Em seu rosto, havia cicatrizes de que ela não se lembrava. Eram novas, uma na bochecha direita, na diagonal, e outra na sobrancelha esquerda. Talvez tivesse se ferido no acidente. Sua pele estava muito pálida – mais que o normal – a boca, uma linha inexpressiva e sem cor. Os olhos cinza esverdeados – que a irmã insistia em dizer que eram apenas verdes, mas ela teimava em dizer “cinza” – pareciam cansados, e embaixo deles, olheiras fundas tinham destaque na pele pálida. Os cabelos castanhos escuros eram compridos, e estavam muito bagunçados. Não eram lisos, tampouco cacheados. Algo entre os dois, sendo parte liso, com cachos nas pontas. Eram cheios, mas Susan não se importou que pelos seus cabelos, parecia que havia passado por um tornado — afinal, ela estivera deitada todo esse tempo, como aquilo acontecera? — estava feliz por estar viva. Usava uma camisola hospitalar, verde clara, que deixava em evidência seu corpo magro e sem curvas. Na verdade, ela parecia estar ainda mais magra, mesmo não passando tanto tempo no hospital. Ou será que passara? Não tinha muita noção de tempo ao ficar vagando por aí como alma penada.

Abriu a porta do banheiro, indo de volta para o quarto, quando deu de cara com um rapaz desconhecido. Seus cabelos possuíam um tom estranho de ruivo, quase vermelho. Iam até pouco abaixo das orelhas, em alguns cachos. Suas feições eram rígidas, inexpressivas, e seus olhos em um azul tão claro como cristal. Encarava-a abertamente, como se com apenas um olhar pudesse ler sua alma, ali mesmo.

Susan ainda olhou para os lados, para checar se era com ela mesmo que o cara estranho queria falar. Quem sabe havia errado de quarto? Ela voltou a olhá-lo, desconfortável, sentindo-se quase nua com o olhar dele sobre si. Tremia, talvez pelo frio, ou pelo medo.

- Quem é você? – Ela perguntou, colocando o máximo de confiança que podia na voz. Sabia que o medo era como um doce vinho para os predadores. E era isso que ele parecia, um predador.

- Susan Sutton, humana. Está sendo convocada para o julgamento do ceifador Kieran. – Ele pronunciou, em uma voz controlada e desinteressada. – Queria ver a alma que roubou-lhe o anel com meus próprios olhos... Mas vejo que ele continua o inútil de sempre.

Fechou levemente os olhos, balançando a cabeça em reprovação. Susan não entendia, estava confusa, queria explicações. Como assim, julgamento?

- Quem será julgado? E o que tem o anel? – Ela tentava se recordar, as memórias estavam demasiado confusas. Lembrou-se de súbito do anel, e quando olhou, ainda estava em seu dedo. – Eu devolvo, se é isso o que quer! – Susan tentou tirar o anel do dedo, sem sucesso. Estaria muito apertado? Não, ele estava até frouxo da última vez que colocara. Era como se estivesse preso em seu dedo, colado a ele. Como se fizesse parte de si.

O rapaz riu de modo sarcástico.

- Você não sabe, não é? – Ele olhava-a como se olha para uma criança de dois ou três anos – Uma vez posto o anel, quando se está fora do corpo, é impossível removê-lo. Você estará para sempre fadada a vagar entre os dois mundos, o mundo dos vivos, e o dos mortos. Alguns chamam a isso “maldição”... Não há volta.

Susan olhou-o, incrédula. Ele era mais um dos espíritos ou sei-lá-o-quê maluco que veio para incomodá-la? Não entendia. Maldição? Julgamento? Já ia fazer mais perguntas, mas ouviu o som da maçaneta girar. Quando olhou para a porta, o médico estava ali, parado, olhando-a embasbacado. Susan voltou a olhar para o rapaz, mas ele não estava mais ali. Estaria ficando doida? Tudo poderia ter sido apenas um sonho, se não fosse pelo anel em seu dedo, como prova de tudo aquilo. E ele não saía!

- Srta. Sutton, você está se sentindo bem? – O médico perguntou, preocupado.

E a seguir começou a examiná-la, testando os reflexos, movimentos, perguntando várias coisas. Susan não prestou muita atenção, até por que sua mente estava em outro lugar. A seguir, o médico disse que ela parecia estar em boa forma, apenas precisava se alimentar, já que ficara a base de soro durante esse tempo. Chamou uma enfermeira, e mandou que ela cuidasse da “alimentação”, enquanto ele ia comunicar os familiares.

E, por mais estranho que parecesse, Susan não estava com vontade de vê-los. Era como se aquele mundo já não pertencesse a ela. Tinha medo de metê-los na bagunça em que estava, pois ver rapazes em seu quarto, que somem de repente, não é algo exatamente normal.

Suspirou, apenas pensando em como diabos compareceria ao tal julgamento. E nem mesmo sabia quem estava sendo julgado! Seria o rapaz estranho com olhos vermelhos? Fora dele que ela... “pegara emprestado” o anel.

Agora sentia-se um pouco culpada.

___X___

Sku estava chegando agora à cidade fantasma, depois de terminar seu “expediente”. Era rápido. Em algumas horas, conseguira levar várias almas. Seus passos eram lentos, calmos, como se não se preocupasse com nada. E era a verdade. Muitos imaginavam como ele poderia conseguir a posição de ceifador, pois a maioria o subestimava. Sku era muito mais capaz que aparentava.

Estava virando em um beco, cortando caminho para uma espécie de “taberna”, onde os demônios e ceifadores se encontravam. Mas alguém o interrompeu.

- Skular – Pronunciou, na voz controlada que Sku não poderia deixar de reconhecer. Virou-se, abrindo seu costumeiro sorriso de tubarão.

- Você aqui! O que o leva a aparecer por essas bandas? Não vemos muitos Caídos em meio ao “lixão”. – Sku falou, descontraído.

Mas o outro não parecia querer papo. Seus cabelos, que eram como o fogo, destacavam-se na escuridão, e os olhos translúcidos poderiam ser reconhecidos por qualquer um.

- Kieran será julgado. Parece que armaram para ele, mas o resultado foi pior do que poderiam imaginar. Devem estar comemorando a essa altura.

Sku pareceu surpreso por um momento. Sabia que armariam para Kier. Ele não era muito querido. Mas como assim o resultado foi pior?

- Pior que a morte definitiva? – Sku murmurou, o sorriso sumindo de seu rosto.

- Sim – O outro fez uma careta de desgosto. Não gostava de Kieran mais que os outros. Mas não poderia permitir que aquele cuja alma pertencia ao seu mestre tivesse tal destino. Seria um enorme desperdício. – Mas o julgamento ainda não aconteceu. Estou contando com você.

A expressão de Sku tornou-se mais surpresa ainda, se é que era possível.

- O que um pobre ceifador como eu pode fazer frente à Caídos e Ceifadores Maiores? – Disse, como se aquilo fosse a coisa mais idiota que já ouvira.

O outro apenas sorriu.

___X___

Kieran abriu os olhos, sentindo o corpo todo doer. Levantou-se com alguma dificuldade, apoiando-se na parede. Dali a algumas horas, estaria curado. Se eles permitissem. E olha que ainda nem fora julgado. Suas roupas – que já nem pareciam roupas – estavam rasgadas e colando no corpo. Os cabelos, desgrenhados, grudando no rosto com o suor. Precisava cortá-los. Caminhou até próximo às grades da “jaula” em que estava preso. Do lado de fora, era possível ver mais e mais jaulas. O calor era muito grande, e o lugar só não era completamente escuro por causa das chamas, que eram visíveis um pouco distantes dali.

Na jaula ao lado da sua um homem enorme o encarava. Seus cabelos eram amarronzados, e possuía um só chifre retorcido na cabeça, sendo que o outro era apenas um toco. Estava ferido, mas não aparentava nem sinal disso. Seu olhar dava a impressão de que estava ali em férias. Era jovem, como todos ali. Quando a pessoa morre, volta a idade em que teve seu “auge” na vida, e na maioria das pessoas é entre a adolescência e a fase adulta. Claro que, quando se é criança, continua criança. Não tem como avançar para um estágio que nunca aconteceu.

- Como se chama, garoto? – O homem perguntou, finalmente. Estava debruçado nas grades, um meio sorriso no rosto. Chamava-o de garoto? Pois Kieran poderia ser muito mais velho que ele. Era difícil saber.

- Por que quer saber? – Kieran rebateu, mal humorado. O homem apenas riu.

- Ouvi falar de você. É famoso por aqui, Kieran. – Disse seu nome de forma sarcástica, demorando-se nele.

- Se sabe meu nome, por que perguntou. – Kieran murmurou consigo mesmo. Odiava o lugar. Não lhe trazia boas lembranças, de modo algum. Era até pior que a cidade fantasma em que vivia. Lá, ao menos, possuía um pouco mais de liberdade.

- O que te trouxe desta vez? – O homem perguntou, interrompendo Kieran em seus pensamentos. Estava entediado, por acaso? Kieran não estava nem um pouco afim de conversa. Muito menos de admitir que fora roubado por uma garota humana. Seria a piada do lugar. Por que não notou quando ela pegou o anel? Quando saísse dali, não teria pena dela. Como se chamava, mesmo? Se não soubesse o nome, como poderia achá-la? Buscou em sua mente a lista de almas, mas não encontrou. Ah, quase se esquecera, tinha sido deposto do cargo. Por causa da maldita garota. Ah, mas se ele saísse de lá, mostraria a ela que humanos não podem mexer com demônios, já que era isso o que era agora.

O homem continuava o encarando. Talvez esperasse por uma resposta, que Kieran não daria. Não o podia obrigar. Ouviu, então, um som de passos e correntes, que se aproximavam cada vez mais. Tentou ver o que era, colocando a cabeça para fora das grades. Não adiantou muito. Quando os passos se aproximaram .mais, Kieran se afastou para o fundo da jaula. O que é que estivesse passando ali, não possuía uma boa aura. Os passos pararam em frente a sua jaula, e ele ouviu o som da porta se abrindo. Em seguida, alguém foi jogado para dentro, e a prisão foi novamente fechada.

Apenas viu uma figura com capuz. Não se aproximou, não estava nem aí para quem quer que estivesse ferrado junto com ele. Mas a pessoa não parecia ter o mesmo pensamento. Virou, fitando-o por sobre o capuz. Era baixo — ou baixa — e magro. Ele apenas notou os olhos amarelos, brilhando de fúria, como os de um lobo. E o "ser" veio para cima dele.

No último momento, Kieran desviou, ágil, pulando por sobre a pessoa e caindo próximo a entrada da jaula. Sabia que naquele lugar devia-se manter os olhos sempre abertos. Todos ali eram perigosos. A pessoa voltou sua atenção a ele, e antes que Kieran pudesse esperar, estava atacando-o novamente. Deixou-se ficar ainda por um tempo, e quando o adversário se aproximou, rapidamente desviou por trás, as garras como lâminas em seu pescoço. A pessoa ofegava, e por um momento Kieran pensou que se renderia. Mas antes que ele pudesse esperar, enterrou o cotovelo em seu estômago. Kieran, em uma atitude reflexiva, cortou parte do pescoço com suas garras. Enquanto o adversário estava atordoado pelo ferimento, juntou todo o seu mal humor e irritação, e imobilizou-o no chão, de modo que não pudesse escapar. O capuz caiu junto a pessoa, revelando uma garota que aparentava não passar dos treze anos. Ainda fitava-o, com fúria, enquanto se curava aos poucos e Kieran não entendia bem o motivo tanto ódio.

- O que você quer comigo? — Perguntou, ofegante.

- Kieran... — Ela pronunciou como uma sentença de morte, a voz rouca, como se apenas o fato de ser ele fosse o bastante para ser morto. Kieran, por sua vez, não lembrava-se dela e nem do motivo por querer tanto sua morte. E muito menos de como sabia seu nome. Mas não ficava surpreso, quase todos dali sabiam seu nome.

- Vejo que encontrou uma amiga — Kieran ouviu o homem da outra cela rir. Não achava engraçado.

Notas finais
E aí, o que acharam?

Eu ia escrever algo, mas não me recordo...
Espero que não esteja confuso, passar por vários pontos de vista. E ficou curto por que eu quis deixar o suspense XD

Então, até o próximo o/