O Preço Da Morte

2 O Novo Ceifador


Notas iniciais
Okay, obrigada a minha primeira (e talvez única qq) leitora, Bela =D
Como eu disse no capítulo anterior: "Espero que agrade a ao menos uma pessoa ;)" Eeee... meus desejos foram atendidos o/

Talvez esse capítulo tenha ficado chato, mas... É necessário.
Conhecerão um outro personagem o/

Boa leitura ;)

"Talvez a morte tenha mais segredos para nos revelar que a vida."


– Gustave Flaubert



Kieran caminhou pelo lugar escuro e sujo. O cheiro de morte poderia ser sentido há quilômetros de distância, e talvez fosse por isso que os humanos não se aproximavam de lá. A entrada para o inferno, cidade da morte, eram muitos os nomes dados para o lugar. Mas para Kieran, chamava-se Lar.



Seus passos eram despreocupados. Seus cabelos, brancos como o luar, caiam-lhe por sobre o rosto e os ombros. Enquanto caminhava, para a sua nova vida – ou morte, como preferir – Kieran lembrava-se. Fora humano um dia, embora não recordasse, pois fazia muito tempo. Vendera a alma, e nem o motivo se lembrava. Anos sendo torturado no Inferno fazia com que qualquer um se esquecesse. Depois de pagar sua dívida, tornou-se um demônio menor. Apenas mais um peão nas mãos dos Caídos e da própria Morte. Vivera naquela cidade desde então, junto a vários outros demônios e ceifadores. Não havia humanos ali, e o fato de se situar na tênue linha que ligava o Inferno à Terra fazia com que qualquer ser não corpóreo pudesse habitar o local.

Desde que fora parar ali, não fizera nada de útil. Era apenas o cão, que limpava a sujeira dos maiores. Mas agora seria sua chance. Subiria ao cargo de Ceifador. Um sorriso brincou em seus lábios ao pensar na vida fácil que teria. Ou que ele pensava que teria. Que dificuldade havia em carregar algumas almas amaldiçoadas por aí? E, de quebra, poderia rever o mundo humano. Seria divertido.

Parou em frente ao maior prédio da cidade fantasma. Maior não queria dizer mais bonito, já que nada era bonito ali. A pintura – se é que podia se chamar disso – estava descascando, e o lugar parecia mais um salão abandonado que o covil do Ceifador Maior, aquele que estava diretamente ligado à Morte.

Deu de ombros, adentrando o local. A porta rangeu, como era de se esperar, produzindo um sonoro nhéeec que poderia acordar até os defuntos. Assim que pisou no local, sentiu a energia sombria que o rodeava. Fazia-o lembrar-se da época no Inferno, e não eram boas memórias. Apesar de que aquele Ceifador era mais poderoso que os demoniozinhos secundários que tinham como função tornar a vida das almas um verdadeiro... Inferno.

– Kieran – Chamou uma voz nem um pouco bem humorada, na verdade, parecia infinitamente entediada. Kieran sabia que não poderia vê-lo – ou vê-la – pois aquele Ceifador em particular detestava aparecer. Apenas cumpria as ordens da Morte, e diziam que nunca ninguém além dela o tinha visto e continuou existindo, pois era tão feio que qualquer um que o olhasse diretamente viraria pó. Kieran achava aquilo um exagero, ninguém viraria pó por causa de feiura. Mas era melhor não arriscar. – Veio para pegar sua nova função. — Novamente, suas palavras demonstravam puro tédio. Acrescentou, em tom de deboche — Finalmente. — Kieran sentiu-se indignado. Todos sempre o menosprezavam!

Sentiu o corpo pesado. Como se um enorme jato de ar que ele não podia sentir empurrasse-o para baixo. Sua cabeça pareceu que iria explodir, mas ele evitou demonstrar qualquer dor. O que era aquilo comparado ao tempo que passou no Inferno? Quando a dor passou, viu claramente uma lista impressa em sua mente.

– Então eu só tenho que achar essas pessoas? – Ele perguntou, sem esperar resposta, como se aquilo fosse a coisa mais fácil do mundo.

O Ceifador riu, o que não pareceu nem um pouco com um riso real. Aquele som grotesco que imitava uma risada fez calafrios percorrerem seu corpo, sem que ele pudesse evitar.

– Não é apenas encontrá-las. Precisa trazê-las em segurança até o Outro Plano. Não são apenas os Ceifadores que querem as almas... Lembre-se de que há muito poder nelas – O Ceifador deixou a frase solta no ar, fazendo Kieran imaginar o que estava atrás das almas além deles. Ele não tinha experiência com isso, já que passara tanto tempo no Inferno, e outro tanto naquela cidade, cuidando de tarefas bobas. Mas não perguntou. Não queria se sentir um idiota, não mais do que já se sentia.

Virou as costas para sair, quando ouviu um pigarrear.

Uma foice foi-lhe entregue nas mãos, por nada além de sombras. Claro, precisava de uma arma se fosse lutar contra a outra criatura que estava em busca de almas. E a foice era um instrumento clássico atribuído à morte.

Agora armado com a coisa comprida que não lhe caía bem, Kieran saiu do lugar. Estava ansioso, se é que alguém com milhares de anos poderia se sentir assim. Mas iria sair de lá, daquela coisa pacata que chamava de eternidade.

Mal se afastou do lugar, e alguém pulou em sua frente. Kieran reconheceu-o imediatamente pela cabeleira negra e eternamente bagunçada.

– Finalmente conseguiu a sua foice, Kier. – Zombou, referindo-se ao novo cargo. Sku já havia conseguido essa “proeza” muito antes, o que deixava Kieran infinitamente irritado. Como aquele retardado conseguira algo que ele não? Os olhos bicolores – um azul, e o outro amarelo — meio tapados pelos cabelos fitavam-no, divertidos. – Qual é, só estou brincando!

Kieran ignorou-o, e continuou caminhando. O outro não se importou, já acostumara-se com isso. Segui-o, a enorme capa negra, rasgada na barra, arrastando pelo chão.

– E então, quando vai começar? – Sku perguntou, seguindo-o de perto.

Kieran reviu a lista em sua mente. Eram muitos! Como poderiam morrer tantas pessoas em um só dia?

– Só vou pegar meu anel e... Espera, por que estou dizendo isso a você? – Kieran suspirou. O cara era totalmente sem noção, e só por que ele o respondera, certa vez, não largava mais do pé. Ninguém ia muito com a cara de Sku. – Só não me siga, okay? Quero fazer isso sozinho.

Sku pareceu decepcionado, mas logo voltou a sorrir, os dentes pontudos dando-lhe um ar sinistro e maníaco. Kieran não sabia quase nada sobre ele, apenas que havia se tornado um ceifador muito rápido. Sentia que Sku escondia algo por trás daquele jeito meio maluco.

– Tudo bem, Kier, mas devo dizer que seu anel está comigo... – Sku tirou de algum lugar um anel, prata e negro, com várias runas desenhadas nele.

Kieran tomou o anel de sua mão.

– Como isso foi parar com você? – Exclamou, colocando o anel no indicador. – Eu o tinha perdido, estou procurando há um tempão... Deixa pra lá.

No minuto seguinte, Kieran já não estava ali. Usara o poder do anel para teleportar-se para o local do primeiro nome, uma cidadezinha no interior do Alasca. Viu-se em um local coberto por neve, e mais caia e caia. Se ele ainda fosse humano, estaria congelando, pois suas roupas não poderiam ser consideradas quentes.

Caminhou com dificuldade, pois não enxergava quase nada. Logo avistou uma casinha. Sim, era ali, ao menos era o que dizia a tal lista que flutuava em sua mente, tomando parte dos seus pensamentos. Entrou sem bater, na verdade, apenas atravessou a porta. No mundo humano, ninguém podia vê-lo, além dos espíritos e de quem estava próximo da morte. O lugar, feito quase completamente de madeira, estava ocupado por umas cinco pessoas. Algumas, sentadas em volta de uma mesa, tomavam chá ou algo assim. E o lugar tinha todo aquele ar fúnebre de quando alguém morrera a pouco, ou estava para morrer.

Caminhou até onde a energia o atraia, vendo uma garotinha que aparentava cerca de nove ou dez anos deitada em uma cama. Ao redor, estavam os pais, sendo que a mulher chorava descontroladamente.

Kieran olhou para o outro lado do pequeno cômodo, e a garotinha – ou a alma dela – o fitava, assustada.

Aproximou-se, sem jeito, mas ela só fez se afastar. Olhou para si mesmo. Oh, claro, havia esquecido-se de que era um monstro para as crianças. Sua capa negra, cabelos brancos e olhos vermelhos não deviam ajudar muito nisso.

– Olha, eu preciso te levar para o outro plano, então venha comigo – Ele disse, impaciente. Assim que a levasse para o outro plano, já não cabia a ele. Seria julgada, e poderia ir para o Paraíso ou para o Inferno. Como era apenas uma criança, Kieran tinha quase certeza de que era a primeira opção.

Ela olhou-o, confusa, passando do próprio corpo para os pais, e ele novamente.

– V-você é o bicho papão? – Perguntou em um fio de voz. Seria mais difícil que ele pensava.

Talvez pudesse simplesmente agarrá-la e levar à força. Não lidava bem com crianças. Na verdade, não lidava bem com ninguém, e começava a se arrepender de ter pego essa função.

– Não, você precisa vir...

– Por quê? – Interrompeu-o.

Ela parecia não entender. E Kieran apenas pensava que fora dado a ele essa alma em particular de propósito, já que ele não era muito querido no submundo.

– Por que você está morta. – Ele respondeu. Tudo bem, talvez tenha sido indelicado, o que se mostrou pelo fato de que a garota começou a chorar. Sem lágrimas, pois já não possuía fluidos, mas o som irritante era o mesmo.

Kieran estava prestes a explodir, quando o olhar da garota passou para alguma coisa atrás dele. Virou-se, sentindo-se inútil por não tê-la notado.

– Olá, Kieran – Disse uma mulher alta e sensual, os cabelos louros caindo-lhe em cachos pelas costas. – Ele sabia que você teria problemas, por isso me mandou. Sou Sarya, sua supervisora.

Mais essa. Agora, além de ser um inútil, o Ceifador mandara uma supervisora para fazê-lo sentir-se pior ainda.

Ela olhou para a criança, e em seguida lançou a Kieran um olhar reprovador. Caminhou até a garotinha, e abaixou-se para ficar da altura dela.

– Oi, Sonia – Ela disse.

A criança olhava-a com fascínio.

– Como sabe meu nome? Você é um anjo? — A garotinha perguntou, secando as lágrimas inexistentes.

– Quase isso — Sarya respondeu, e Kieran segurou-se para não rir. Ela fuzilou-o com os olhos, voltando-se novamente para a garotinha — E agora, você precisa vir comigo.

– Por quê? — A menina voltou a perguntar — E por que eles não me enxergam?

– Lembra-se do seu cachorro, que seus pais disseram que foi para outro lugar? — A garota concordou — Agora é hora de você encontrá-lo. Venha comigo, prometo que explicarei tudinho.

Sarya levantou-se e ofereceu a mão a criança, que a pegou, e se afastou dali com ela, lançando a Kieran um último olhar triunfante, que o fez sentir-se mais e mais inútil. Viu-as desaparecer, e a mãe da garota chorar mais alto ao perceber que a filha "partira".

Humanos, pensou Kieran, virando os olhos, como se já não tivesse sido um antes.

Suspirou, afastando-se dali e desaparecendo também. Agora era o próximo da lista...

E o trabalho não era fácil como ele imaginava.



Notas finais
E então, o que acharam do capítulo? E do personagem?

Ficarei feliz com a opinião de vocês =D