O Preço Da Morte

3 Criatura Sinistra e o Anel Perdido


Notas iniciais
Escrevi esse capítulo muito rápido, devido a ansiedade >.< Desculpe se não tiver ficado lá essas coisas...

Boa leitura o/

"Coragem é a resistência ao medo, domínio do medo, e não a ausência do medo."

– Mark Twain



Susan estava já há horas sentada perante o seu corpo, olhando-o. Vira os parentes irem, depois de o médico dizer que ela não acordaria tão cedo. Observou as enfermeiras chegarem e partirem, com seus olhares de pena, e suas pranchetas. A tarde passou assim, e Sue apenas queria que tudo acabasse depressa. Levantou-se, decidida a caminhar pelos corredores. Ela precisava confessar para si mesma que temia isso. Mas o quê? Encontrar a tal luz e ter de partir para sempre? Não sabia, apenas tinha medo. Como se se afastar do seu corpo fosse fazê-la morrer de vez. No fundo, não podia deixar de acreditar nas palavras do médico. Ele contara casos de pessoas que acordaram do coma, e ela tinha alguma esperança. Só queria que esse pesadelo terminasse, para que ela pudesse voltar para sua vida medíocre e chata. No próximo ano iria para a faculdade, poderia se mudar da casa do pai. E agora, estava ali, sem saber se estava morta ou não.

Atravessou a parede, olhando hesitante o corredor comprido e vazio, pois já era noite, e as visitas haviam terminado. Cenário tão comum em filmes de terror. Exceto, é claro, que ela já estava morta. Ou quase. Nada poderia feri-la. Ao menos tentava dizer isso a si mesma.

Afastou os pensamentos com alguma dificuldade, pondo-se a caminhar pelo corredor mal iluminado. E se não fosse encontrar a luz? Não fora das melhores pessoas. Não frequentava a igreja, e nem mesmo era batizada. Sequer acreditava em Deus! Se houvesse mesmo um inferno, com certeza seria para lá que Susan iria. Pouco tempo atrás, nem mesmo acreditava em espíritos e almas penadas, e ali estava ela. Não se surpreenderia de ser sugada por um buraco negro diretamente para o Inferno. Talvez encontrasse o pai ali, pensou irônica.

Logo o corredor terminou, virando para os dois lados. Havia duas placas, e ela optou por seguir a que dizia “Ala Pediátrica”. Havia vários quartos, e aleatoriamente, atravessou um deles. Uma garotinha estava deitada, lendo um enorme livro de contos. Tubos de ar entravam em seu nariz, e ao seu lado, uma máquina media os batimentos. Usava uma touca, que disfarçava sua falta de cabelos. A primeira coisa que Susan pode pensar foi em câncer.

Por um momento, sentiu-se mal por estar reclamando tanto. Ao menos morrera de uma vez. Passou pelo quarto, notando em uma mesinha vários bichos de pelúcia, flores e cartas. Quando virou-se novamente, a menina a fitava. Ficou sem saber o que fazer por um momento.

– Quem é você? – A menina perguntou, mas não parecia estar com medo. Era como se encontrar pessoas em seu quarto, em plena noite, fosse algo extremamente comum.

– Você pode me ver? – Sue ficou um pouco mais feliz, mas depois pensou que ninguém acreditaria na garota se dissesse que a vira em seu quarto. – Sou Sue. Como se chama?

– Sarah. Você... morreu? – Sarah parecia realmente interessada.

Susan sentou-se em um puffe branco, fitando as próprias mãos.

– Não sei. Ainda estou internada, então acho que não.

Sarah ia responder, quando uma enfermeira entrou.

– Sarah, você deveria estar dormindo – Repreendeu. Pegou o livro que a menina lia e colocou sobre a mesinha, junto com as pelúcias e flores – Amanhã é o seu aniversário, e você poderá ir para casa, mas apenas se dormir direito. Treze anos! Já não é criança.

Sarah concordou, mas sem dizer nada. Pouco tempo depois, e a enfermeira saiu, deixando apenas o abajur aceso.

– Eu sei que vou morrer – Sarah disse como se refletisse, causando um sobressalto em Sue – Ninguém quer aceitar isso, mas eu sei. E não estou com medo. Tentei dizer a minha mãe, e ela chorou por toda a noite. Se ao menos ela entendesse...

Susan sentiu-se imensamente culpada. Como ela podia sentir medo, quando essa garotinha já aceitara a morte como algo inevitável? Covarde, era isso o que era. Passou um tempo calada, fitando as próprias mãos e imersa em pensamentos, quando percebeu que a garota ressonava baixo. Provavelmente, a enfermeira colocara algo em seu soro, para fazê-la dormir, pois nunca vira alguém dormir tão rápido.

Observou-a, lembrando-se do seu próprio corpo, em coma. Não tardaria a morrer. E não poderia dizer que não sentia medo. A durona Susan, com medo. Quem diria!

Ouviu um som vir do lado de fora do quarto, como passos pesados demais para serem das enfermeiras. Era como se um gigante estivesse caminhando por lá. Se tivesse um coração, ele estaria saltando-lhe pela boca. Mas ela era Susan, afinal, e não ia ficar parada ali, encolhida, com medo. Saiu do quarto, chegando ao corredor, que estava vazio. Respirou – teatralmente, já que não respirava mais – aliviada.

Já ia voltando para o quarto onde seu corpo estava, para certificar-se de que ainda respirava, quando ouviu os passos atrás de si. Virou-se muito rápido, dando de cara com... como poderia descrever? Não era grande como seus passos denunciavam. Possuía o tamanho de um humano normal, talvez um pouco maior, como um jogador de basquete. Mas sua sombra tomava todo o corredor. Em seu rosto havia apenas uma boca repleta de dentes afiados. Sem olhos e sem nariz. Seu corpo era coberto por sombras, e não era possível notar se tinha braços ou pernas. Até ele estender um pálido braço, os dedos muito compridos e magros repletos de garras negras e afiadas. Era como se o braço fosse infinito, e esticava-se quase a ponto de tocá-la. Sue permanecia imóvel, mas ao ver o membro grotesco que tentava agarrá-la afastou-se, sem ousar virar-se e correr. A luz do corredor apagava-se na medida em que o “monstro” se aproximava, e na velocidade que estava, alcançaria Susan bem rápido.

Sue não prestava atenção para o que havia em seu caminho, pois só tinha olhos para a criatura, de modo que nem notou a parede quando atravessou-a, caindo. Enquanto via o chão aproximar-se cada vez mais, já que estava em um andar bastante alto do prédio, pensava consigo mesmo se almas sentiam dor. Mas antes que pudesse alcançar o chão fechou os olhos, e quando abriu-os novamente estava no quarto do hospital. Infelizmente, o corpo ainda estava no leito, inerte. E agora? O que faria se aquela coisa voltasse para buscá-la? Várias coisas vieram-lhe a mente. Havia vindo para levá-la ao inferno?

Sentou-se, apenas esperando. Ouviu, então, algo se aproximar. Seus olhos foram para a porta quando alguém a atravessou. Mas não era a criatura horrenda de antes. Era um homem, bastante jovem, aparentando no máximo vinte e poucos anos. Seus cabelos brancos caiam-lhe por sobre os ombros, e os olhos muito vermelhos fitavam-na intensamente. Usava uma estranha capa negra, e em sua mão direita empunhava uma foice. Abriu a boca para dizer algo.

E caiu para frente, batendo com o rosto no chão.

Susan aproximou-se hesitante, e só quando notou que ele estava inconsciente, ousou examinar de perto. Não parecia ser humano, pois além das vestes estranhas e aparência pouco comum, possuía uma espécie de... aura, que não se via nos humanos. Depois de passar algum tempo como fantasma, começava a se notar essas coisas. Susan pegou a foice da mão dele, maravilhada. Sempre gostara desse tipo de arma medieval, e ousou testar alguns golpes no ar, divertida. Tudo bem, não era hora para brincar, mas ela não resistiu. Seu olhar voltou para o rapaz, e ela tentou imaginar o que causara aquilo. Ele não poderia simplesmente desmaiar ao vê-la, isso seria... estranho. Abaixou-se sobre o corpo, virando-o. Sua boca estava meio aberta, revelando caninos pontudos. As veias em seus pulsos e pescoço pareciam estar ficando... Negras. Como se algo tóxico corresse por elas.

Sacudiu-o, tentando fazer o excêntrico rapaz, que ela estranhamente podia tocar, acordar.

Ele abriu um pouco os olhos.

– A... – Gemeu, como se se esforçasse por formar palavras.

– “A”...? – Susan o incentivou.

– A...nel... Anel – As palavras tornavam-se mais claras, e ele tentou levantar-se, sem sucesso.

– Anel? – Susan não entendia nada. Nem mesmo como ele viera parar ali.

– Precisa... me ajudar a enco...trar – O rapaz voltou a repetir. Susan, ainda confusa, ajudou-o a levantar. Ele apontou para o corredor de onde viera, e já ia se arrastando até lá quando Susan travou. Imagens daquele monstro voltavam-lhe a mente.

O rapaz olhava-a, incrédulo. Uma de suas mãos voou na direção de Susan, e esta quase se afastou, mas ele apenas tocou-lhe a cabeça. Em seguida, imagens estranhas e confusas percorreram sua mente.

Era como se ela fosse ele. Viu-se a frente do monstro, tentando, com pouca habilidade, pará-lo. O momento em que foi atacado, e quando o anel que usava no dedo indicador voou para longe.

Anel.

Então era esse o anel?

Sabia onde podia encontrá-lo, graças às memórias estranhas que não a pertenciam. E de algum modo aquele cara salvara-lhe a vida – vida? – então devia-lhe essa. A não ser, é claro, se ele apenas a tivesse salvo para ser ele mesmo... matá-la, ou fazer o que quer que seja que se faça com uma alma penada. Sugá-la para o Além?

Assim que saíram do quarto, Susan notou novamente a aura estranha do monstro.

– Você não o matou? – Perguntou, incrédula. Para que ele servia, então? O rapaz deu de ombros, como se algo bloqueasse sua garganta, impedindo-o de falar. – Tudo bem, ele quer a mim, então vá pegar o tal anel e eu o distraio...

Susan afastou-se, deixando o rapaz meio boquiaberto. Na verdade, ela não sabia o porquê de o estar ajudando. Talvez por ele ser demasiado patético? Já não estava com medo. Não sabia ao certo o motivo, apenas não estava. Até a figura sinistra aparecer em sua frente.

– O-o que você quer? – Susan pronunciou, em uma tentativa inútil de distrair a “coisa”. Sempre via as pessoas perguntarem algo assim em filmes de terror, antes de gritarem. Mas ela não gritaria. Na verdade, não conseguia. Estava paralisada. E não era por medo.

“Eu posso pegá-la quando quiser, só estava brincando com você” Disse uma voz grotesca em sua mente. Não parecia humana. Susan tentou se afastar, mas permanecia paralisada. Que ótima ideia! Agora ia morrer. Ou não, sempre se esquecia de que já estava morta. Apenas... morreria de uma vez.

A criatura aproximou-se de forma lenta, como se realmente estivesse só brincando. Estendeu o braço esquelético, tocando-lhe a face com as garras negras. Susan não sentia dor, mas algo pior. Como se estivesse sumindo, desaparecendo aos poucos... Seria isso a morte? Um fim?

Tudo ao seu redor estava ficando nublado.


___X___

Kieran tentava se mover o mais rápido possível, para quem perdia as forças cada vez mais rápido. Quando perdera o anel, ficara vulnerável para a magia negra do “Sinistro”, como ele acabara de o apelidar. Se não encontrasse aquele objeto logo, não morreria, mas voltaria para o Inferno. E não queria isso. Além de perder toda a sua dignidade, por ter, já no primeiro dia, ter sido vencido por aquela criatura. E a alma que ele precisava colher estava prestes a ser sugada pelo Sinistro.

Sentia-se cada vez mais fraco, como se fosse desaparecer a qualquer momento. Parou um pouco, já quase sem forças, quando notou um pequeno objeto brilhante a alguns metros dali. Sorriu com alguma dificuldade, movendo-se o mais rápido possível – o que não era muito – em direção a sua última esperança. A poucos centímetros do anel, sentiu sua cabeça doer, e imagens daquela alma sendo sugada vieram à tona. Merda! Pegou o anel, e assim que o colocou sentiu-se um pouco melhor. Concentrou-se no lugar para onde precisava ir, mas como não era muito bom com isso, acabou aparecendo na frente do Sinistro. E, oh, ele era mais assustador de perto!

Sacudiu a cabeça, bloqueando a criatura com sua foice. Não dava para ver sua expressão, mas pelo som que produzia, não estava nem um pouco satisfeita por ser interrompida em seu “lanchinho”. Com a foice, Kieran – desajeitadamente – tentou cortá-la ao meio, o que foi má ideia, já que a “coisa” era feita de sombras. Se ao menos recebesse treinamento para isso! A mão repleta de garras estendeu-se em sua direção, e por reflexo, Kieran cortou-a. Um grito horrendo percorreu o hospital, e ele tapou os ouvidos. Em seguida, a criatura sumiu.

Kieran virou-se, vendo a alma caída ao chão.

– Ei! – Exclamou, sacudindo-a. Será que era contra as regras levar uma alma danificada?

Por sorte, ela começou a mover-se, confusa. Kieran estendeu a mão, que ela aceitou, e ajudou-a a levantar.

– Agora que você está bem, vamos – Ele disse, triunfante. Espantara a coisa e salvara a alma. Oficialmente, já não era um completo inútil. Queria que Sarya visse isso! Ia parar de enchê-lo, com certeza.

– Para onde? Então você não me salvou? Wow, não sabia que a vida de morto era tão difícil!

Kieran ponderou por um momento, escorando-se no cabo da foice.

– Sim, eu te salvei. E agora você precisa vir comigo para o outro plano, e ser julgada e blá. Apenas venha logo, só hoje precisei lidar com centenas de almas! – Kieran possuía uma expressão cansada.

– E se eu não quiser ir? – A garota cruzou os braços. – Não pode me forçar.

– Eu posso sim, com esse... – O sorriso murchou no rosto do rapaz, quando viu que o anel já não se encontrava em seu dedo. Precisava amarrá-lo ali, já era a milésima vez que o perdia!

A garota balançou o anel em frente ao seu rosto, sorrindo.

– Anel? E o que aconteceria se eu o colocasse? Parece ser bem poderoso... – Com um tom de quem não quer nada, ela ameaçou colocar o anel no próprio dedo.

Kieran pulou para cima dela, mas a garota desviou no último segundo.

– Não, não! Não faz isso! – Alarmou-se Kieran. – Não pode colocar o anel, ou... ou...

– Ou...?

Kieran não respondeu. Se dissesse a verdade, a garota ia mesmo querer colocá-lo. Nunca havia visto algo assim acontecer antes, e provavelmente teria seu traseiro chutado pela própria Morte! O anel continha muito poder.

– Não vai responder? Tudo bem... – A garota começou a, lentamente, colocar o anel em seu dedo.

Kieran rosnou, e pulou em cima dela.

Mas era tarde demais. Ela desaparecera. E, aos poucos, Kieran começou a desaparecer também.

Mas não para a cidade fantasma.

Suspirou. Provavelmente, iria para o Inferno, e não era apenas modo de dizer.

Outra vez.

Notas finais
Eu não revisei, então, qualquer erro, me avisem '-'

Se você leu até aqui, o que custa deixar um review? >.

P.S: Provavelmente, não vou poder postar na semana, pois tenho provas. Mas se der... Quem sabe?