O Prazer Vermelho
1 Capítulo único
Notas iniciais
Escrevi esse conto para uma pessoa muito especial que não gosta muito de vampiros mas me inspirou em sua totalidade para que eu criasse essa estória... Pra você, que sabe exatamente quem são Julie e Demiel.
Espesso, quente e saborosamente doce. Era o gosto que se espalhava pela boca de Julie neste momento. Oculto por seu corpo pequeno e esbelto jazia a mais bela figura da morte. Era seu gosto que ela sentia agora. O da morte, doce, lenta, lasciva.
No canto da boca, o liquido rubro escorria. E em seus braços, oculto por sua figura contra a luz, o sujeito mais infeliz daquela noite. Um moço louro, rosado e de traços finos que parecia um anjo a sonhar, trazendo em seu rosto desfalecido a sombra de um sorriso débil.
A menina contemplava-o com adoração antes de tornar a mordê-lo na jugular, como um animal sedento, sentindo o sangue dele invadir suas veias e enrubescer sua pele, o som do coração dele morrer na noite e a respiração se esvair. Se afastou, sentindo as últimas gotas do sangue dele escorrer por entre os lábios, a face dele apagada, assim como o seu débil sorriso, agora duro e artificial. Foi mirando dentro dos olhos azuis e opacos do rapaz que pôde cair em si.
Seus olhos verdes e aparentemente inexpressivos traziam a sombra do terror que ela sentia ao perceber o que havia feito. Assassina.
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- Assassina! – gritava a garota de cabelos desgrenhados e roupas rasgadas, encolhida no canto do quarto, chorando, seus olhos repletos de terror. – Assassina, assassina, assassina [...] – a voz foi morrendo no fundo da garganta enquanto chutava o ar, tentando afastar a figura que olhava pra ela com quase uma devoção.
Sentia medo e nojo da mulher parada ali à sua frente, alta e pálida, seus cabelos grisalhos e longos soltos de um modo selvagem, seus olhos azuis pareciam tomados de uma fúria incontrolável embora se tornassem dóceis e desvairados ao olhar para a garota encolhida no canto da sala.
A mulher usava uma camisola, agora em farrapos, e pisava descalça o chão coberto de vidro. As mãos e os pés embebidos em sangue. Na mão, um caco de vidro particularmente grande e, atrás de si, o corpo do homem que a garota outrora chamava de pai.
- Nossa família estava morta há muito tempo por culpa dessa múmia. – a mulher murmurou doentia ao cutucar o corpo do homem com o pé, empurrando-o para o lado, ocultando seu rosto. – Agora eu posso voltar a viver, finalmente – suas feições dóceis se contorceram em histeria e loucura e ela gargalhou, girando pelo cômodo mirando o teto e cortando os cabelos enormes com o caco de vidro, desajeitada e perigosamente, como se os vidros aos seus pés não causassem dor. – Vamos viver, pequena Julie, vamos viver. – girava e dançava, andando pela sala, fazendo a garota se encolher mais, de asco.
A sala pobre e quase escassa de móveis parecia ruínas de um recente furacão. Em seu chão arranhado e tingido de vermelho, o último grito ecoava. O grito mudo de um homem honrado, amado e digno. Reduzido a nada. Nada mais do que lembranças e um corpo mole e frio.
Julie olhou a mãe cair em um ângulo estranho no meio da sala e não sentiu nada. Esta, por sua vez, ria. Silenciosamente, mas ria, se esvaindo em sangue. Na pele pálida a garota sentia arder os arranhões e cortes, dos braços e mãos. No pé direito, um caco fincado na pele doía menos do que a dor que parecia estraçalhar seu peito como a uma boneca de retalhos com uma tesoura cega.
Levantou-se, cega pela fúria, e se atirou da janela do décimo andar, sentindo a paz pela primeira vez, agora que voava para longe, para o mundo. E Então para o nada, caindo em um abismo sem fim.
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Acordou em um lugar escuro e plano. Não sabia dizer se era quente ou frio. Estava com sensibilidade zero. Sobrevivi. Olhou em volta. Nada. Um cheiro, um som, uma cor. Nada. O vazio e inexistente nada.
Resolveu olhar com mais cautela. E o que encontrou não parecia em nada com um cemitério ou com filmes de terror. Não, o terror era mais surreal, de um modo novo e inimaginável. Era como um subterrâneo cavernoso. Mas sem ecos. Sem morcegos ou sem o mínimo cheiro. A cor era estranha. Uma mistura de verde, âmbar e negro. O chão negro parecia ondular a cada passo.
Algo farfalhou nas sombras. Sentiu muito aguda a dor no pé esquerdo. E em seu coração, ainda a dor lacerante. E Então baixou o olhar, querendo chorar, desabafar. Suprimiu um grito ao ver que no lugar de um coração, estava um buraco vazio e negro. E doía como nunca antes. Novamente o farfalhar. Sentiu como se houvesse alguém ao seu lado. Esse alguém resolveu se manifestar.
- Julie Du Coudray. – sua voz ria de um modo sutil e rouco. – Então já está acordada? Bem-vinda ao submundo. – sua voz era grave e agradável, meio sarcástica, mas de um modo curioso, agradável e melodioso. – Ou como prefiro chamá-lo, Sheol, o limite entre a morte física e o inferno espiritual, ou seja lá como vocês o chamam agora. – riu, divertido, saindo das sombras levando a mão ao chapéu em reverencia e se apresentando. – Demiel. Ou como vocês humanos preferem: Jack Parish.
Julie ficou sem fala. O homem de capa preta e vermelha se postou ao seu lado. O chapéu negro pendia para um lado, mas, na sombra, ela pode ver uma imagem que jamais esqueceria. Uma face completamente distorcida, em carne viva, negra, e um olho grande e amarelado, a pupila em forma de um Y. A parte oposta da face era como um rosto muito bonito, com um olho azul e expressivo, sobrancelha ruiva e fina e bochecha rosada. Por um de seus ombros um cabelo ruivo e liso caia em um rabo-de-cavalo elegante.
Ele se apoiou no “nada” e a olhou mais de perto, aquele olho grande e amarelado a estudava se movendo rápido, contraindo e descontraindo aquilo que, sem denominação melhor, ela achava ser uma pupila.
Sem dúvida aquele homem era o que havia de mais lindo e de mais horrível no mundo. Mas ela não sabia se decidir.
- Q-q-quem... O q-q-ue é você?! – indagou ela, apontando-lhe o dedo na face, mais assustada do que desafiadora.
A risada dele pareceu ser o único som presente após a pergunta dela. Olhou-a profundamente e suspirou, ajeitando o chapéu, o “olho” sumindo na penumbra.
- Devia perguntar a si mesma, já que conhece a resposta. – ele se moveu lento, ficando de costas para ela e abrindo os braços. – Você sabe o que você fez. E você deve saber o porquê de estar aqui. – ele estudou “o nada” por um instante e tornou a olhá-la, desta vez de certa distância.
- Eu morri?! – Julie sentiu a dor ainda mais forte, tocou o peito e sentiu sua mão afundar, como se ali fosse um buraco coberto por piche fresco, sentindo a mão queimar e tirando de imediato. – Ai! Como? Se ainda sinto dor?
- O inferno, pequena, é a personificação de todas as dores da sua vida. As piores. — ele pigarreou e continuou — Aqui ainda não é o dito-cujo, é só um tira-gosto. – ele riu. Mesmo para um guardião das trevas, ele possuia senso de humor. – Por isso é a única aqui. — estudou-a e então prosseguiu — Quero te fazer uma proposta.
- Se este não é o inferno, faço qualquer coisa para não ter que conhecê-lo. – Julie tremia, mas sem sentir frio ou calor. – O que quer? – tinha medo da resposta, não tinha nada a oferecer.
- Relaxa, não sou humano. Não preciso de bens. Não preciso da sua alma, por enquanto, também. — falou calmamente, como que adivinhando os pensamentos dela — Preciso do seu consentimento. – ele sorriu. Sentia emanar dela as sensações exatas que ele procurava há algum tempo. – Você é bem a pessoa perfeita em anos... — sussurrou sedutor — Que tal?
Julie engoliu seco. A menção à sua alma a fez estremecer, mas tentou se manter calma, afinal, aquilo poderia ser só um sonho ruim, então nem faria diferença.
- Consentimento para quê?! – passava mentalmente as possibilidades, que não eram das mais animadoras.
- Me diga, Julie, acredita em histórias fantásticas? – sorriu, batendo de leve as pontas dos dedos umas nas outras. – Em... vampiros? — sorriu, seus dentes brancos e pontiagudos aparecendo pela primeira vez.
Ela teria rido se tudo aquilo já não fosse louco demais. Ela, pobre, moribunda, provavelmente alucinando, estava sendo questionada se acreditava em vampiros. Naquela altura do campeonato, ela acreditava achava melhor acreditar em qualquer coisa. Ou quase.
- Sei lá. – de repente viu algo nos olhos azuis de Demiel, imagens que nunca acreditaria, horríveis, de sangue e sofrimento de pessoas inocentes e o prazer de seus carrascos sugadores de sangue. – Sem chance!
- Vamos lá, é só uma gotinha. – ele sorriu, sedutor, mostrando o polegar com uma gota negra de sangue. – Vá, nem é tão ruim assim...
- Nem morta! – Julie se afastou, olhando para o polegar do demônio, revendo na sua mente as imagens que ele mostrara.
- Mas isso você já está. – ele sorriu calmamente, se apressando e abraçando-a por trás, acolhedor, fazendo-a se acalmar. – Você já é quase adulta... Ou era, enfim. O que vai perder com isso? – ele sorriu silenciosamente quando sentia o corpo dela amolecer contra o seu, cedendo.
- Tá bom... – Julie virou de frente para ele, atordoada, inebriada por suas palavras ou o que quer que fosse aquela força que agora sentia sobre si, uma sensação deliciosa.
Ele puxou sua cabeça para o lado segurando em seus cabelos deixando seu pescoço à mostra, abocanhando-o em seguida, ao mesmo tempo em que deixava escorrer para a boca dela uma gota do seu sangue, retendo seu grito. Estava congelada nos braços dele, mas por dentro, parecia sofrer a tortura de mil ferros quentes.
Apagou momentos depois, com gosto de enxofre e ferrugem na boca.
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- Saia para caçar, minha menina! – gritou Demiel sob sua forma humana para a garota pequena e esbelta de cabelos curtos e arrepiados atrás, vestida com uma calça preta e uma regata branca, a pele alva e sardentinha parecia não sofrer as alterações da noite. Na nuca, uma tatuagem de adaga fina e pequena pingando sangue negro.
A garota ergueu o dedo médio para a voz às suas costas enquanto corria de modo ágil e animalesco em direção à cidade. Os olhos outrora verdes agora estavam negros e tomados por uma sombra estranha, selvagem. Ela tinha fome. Uma fome terrível que ela não sabia explicar. Mas queria muito conseguir algum alimento.
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Já passava da meia-noite e nada. Ela andava sozinha, frustrada. Sentia muita fome e tudo o que havia comido não fizera efeito. Parecia não preencher o vazio que sentia. Tinha vagado desde a sexta hora da noite, e nada.
Circulou prometendo a si mesma que nunca tiraria uma vida. Buscou bichos pequenos e nada.
Finalmente topou com um rapaz louro e alto, bonito parecendo ter bons modos. Sorriu pra ele. O cheiro que exalou dele era delicioso, e o modo como soava a “música” dentro dele também. Se aproximou, gentil e pediu as horas. Acabava de quebrar uma promessa.
- Hora de uma senhorita como você estar em casa, na cama. – a voz dele era calma e melodiosa, bem diferente da voz de Demiel, mas igualmente gostosa de ouvir. – A senhorita está bem? Está um pouco pálida... – o rapaz se permitiu avançar sob a luz trêmula do poste, a rua deserta, e amparou-a.
- Estou longe de casa, moço. Sinto muito frio. E tenho fome. – sua voz soou trêmula, astuciosamente fingida, convencendo o pobre rapaz de que estava sozinha e com medo. – Poderia me ajudar por favor? – seus olhos se fizeram temerosos, fazendo o rapaz se aproximar mais e arrancar o paletó que vestia, cobrindo-a.
- Pronto, pelo menos frio não sente mais, menina. Eu não moro longe, mas estou sem dinheiro para duas passagens de ônibus. E não é prudente sair com um estranho. – o rapaz sorriu, cordial, e ajeitou os óculos sobre o nariz fino, suas bochechas rosadas.
Deus, como cheira bem... e me dá um apetite... Sorria para ele, de modo enigmático, sutilmente disfarçado pela gratidão fingida.
- Não precisa, moço. Já me sinto melhor, obrigada. – o rapaz sorriu de volta. A pequena garota lhe parecia um pequeno anjo moreno. Não devia ter mais de 16 anos. – Estou sem frio... — seus olhos se estreitaram — E agora graças a você, estarei sem fome também! – saltou sobre ele, de modo sobrenatural, empurrando-o contra a parede e fazendo ele bater a cabeça, deixando-o atordoado. – Por que a surpresa? – sorriu de modo diabólico, seus olhos negros e perigosos. — Não é prudente falar com estranhas, por mais inocentes e infantes que elas sejam...
Prendeu-o contra a parede e roçou a boca sobre a dele, ficando na ponta dos pés. O rapaz, assustado e ao mesmo tempo excitado não reagiu. Olhava-a com grande pavor, mas dela desprendia um perfume tão bom, tão inebriante, que ele não queria deixar de senti-lo. Ela sorriu, vitoriosa, sem a mínima noção do efeito que causara nele. Só queria saciar sua fome.
Percorreu com as mãos os braços dele até chegar ao colarinho da camisa, que rasgou com força sobre-humana e deixou parte do ombro dele nu. Olhou fundo nos olhos dele e viu o mesmo medo que tinha visto nos de seu pai, mas não se intimidou por muito tempo, a boca tocando a pele dele, entreaberta. Como era quente... E então rasgou-lhe a pele, na veia pulsante da jugular, sentindo seu corpo queimar de um modo estranho, sem dor, prazeroso. Um calor que se espalhou por sua pele e tingiu-lhe a face a cada novo gole daquela bebida maravilhosa e doce que ela provava agora e que nunca mais queria parar de tomar.
O sangue dele embebeu-a e envolveu-a, despertando seus sentidos mais primitivos. Ambos cheiravam muito bem, e ele sorria, lunático, débil, perdido em suas fantasias profanas, enquanto ela explodia no mais puro e surreal prazer, deleitando-se com a vida do pobre rapaz, num êxtase profundo.
Minha pequena. Demiel seguiu seu caminho sumindo nas sombras, tendo ali a promessa de sua existência. Seu mal tornaria a rondar a terra na mais pura e inocente forma. Ele jamais sentira tanto orgulho em sua vida.
Notas finais
N.T 1- Sheol é uma palavra hebraica para denominar inferno, mas neste texto ela tem um sentido um pouco mais leve, de um "quase-inferno", no caso, como uma passagem da morte fisica ao renascimento espiritual. Eu ainda não sei bem como escrevi, mas fui escrevendo e deu no que deu, dúvidas mais, google it.
N.T 2- Demiel é uma piadinha de mal gosto minha com a palavra demônio (uma das muitas para denominar diabo de um modo mais leve, ou sei lá com aqueles nomes de anjos/demônios: Azazel, Uriel, Beliel etc. A ironia não tem conotação religiosa, portanto ele e um personagem original.
Enfim, espero que tenham curtido, comentem, critiquem, sugiram...
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