Notas iniciais
Estamos continuando essa história e, uau! Só consigo ficar cada vez mais animado para que outras pessoas consigam acompanhá-la ainda mais.

Se você é de um cargo importante, já deve saber da mesma lição de sempre: “o olhar das pessoas será fixo em você, em cada passo, palavra e gesto que fizer”. E, claro, por causa disso, é melhor pensar até três vezes antes de fazer qualquer coisa. Resumidamente: mais deveres de casa a se fazer.

Para muita gente da alta sociedade pode ser um trabalho simples e fácil, mas definitivamente não para mim.

Quando eu era apenas uma criança que mal conseguia amarrar meus próprios cadarços, aulas de economia eram um saco e fugia delas. Literalmente.

Era engraçado porque nenhum guarda jamais conseguiu me alcançar, nem mesmo me tocar. Todas as vezes que eles estavam próximos o bastante de me segurar… Eu rolava por debaixo de suas pernas e continuava minha corrida incessante.

Mas, houve um dia do qual jamais me esquecerei, uma lembrança vagarosa e sempre relembrada em meus sonhos...

— Sua alteza? — A voz me chamou, me tirando dos pensamentos, seguida de batidinhas na porta. — Já está acordado?

— Ah. — Soltei a palavra, ao ser acordado dos meus pensamentos. Respiro fundo, pigarreio e por fim respondo: — Estou, pode entrar.

Alexander, meu mordomo entrou rapidamente e realizou uma reverência antes de caminhar até as cortinas para abri-las. O sol invadiu o quarto escuro.

— Bom dia, vossa alteza — Disse ele, se aproximando do armário para escolher as roupas do dia. — Presumo que o senhor teve uma ótima noite, estou correto?

— O mesmo sonho de sempre, Alexander — Respondi, empurrando os lençóis para o lado e já me preparando para sair da cama. Meus pés roçavam o chão gélido abaixo de mim.

O sonho era sempre o mesmo: fugindo pelo castelo em meus oito anos, me encontrei num corredor totalmente vazio. Não havia guardas ali, nem ninguém, estava praticamente sozinho. Apenas eu e aquele quadro: ele cobria boa parte da parede e era extenso, parecia vivo e se expandia.

Através dele, reconheci um reino: o Castelo Solar, brilhante e majestoso, minha casa. Mas, ele não era o único castelo dali: em outra ponta, coberto por sombras, trevas, surgia outro império e, mesmo com toda a sua escuridão, parecia ser… Aconchegante?

Durante todas as vezes, quando notava aquele quadro, encarava o castelo e desejava me aproximar, analisar, eu era puxado por algo. Em alguns sonhos, guardas ou criados me carregavam para longe.

Já em outros, garras fincavam contra a minha pele, rasgando sem qualquer pena e sussurros suplicantes invadiam minha cabeça. Esses eram os piores. Me faziam acordar no meio da noite e tornavam a tarefa de voltar a dormir ainda pior.

Alexander deixou as roupas sobre a cama: trajes de cores claras e se aproximou de mim com pantufas amarelas. “Uma longa manhã pela frente” pensei comigo.

— Se me permite dizer, vossa alteza, o senhor apresenta grande criatividade. — Assenti brevemente e calcei os calçados, totalmente em silêncio. Alexander continuou: — Sua rotina de aulas continua inalterada pela manhã, meu príncipe. No período da tarde, porém, sua presença foi convocada por sua majestade, o Rei, para o chá nos jardins com a senhorita Lady Campbell.

Revirei os olhos. “E tem essa agora?” pensei. Acenei brevemente para Alexander, dispensando-o. Pelo visto, seria um longo dia e precisava aturar outra garota no meu encalço por mais uma tarde.

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Quando finalizei a aula de história contemporânea dos Solarianos e diversos fatos históricos (e desnecessários) vagavam pela minha cabeça, comecei a me questionar se haveria alguma forma de fugir do último compromisso: o chá da tarde.

“Posso dizer a Alexander que estou cansado” pensei. E não era mentira: fatos históricos conseguiam acabar com qualquer um e mesmo os grandes historiadores precisavam de uma pausa. Seja como for, meu mordomo conseguiria reformular uma desculpa para Duquesa e eu poderia ter a tarde toda para mim.

Ao sair da biblioteca, todo o plano e qualquer forma de fugir havia ido por água abaixo. Normalmente, Alexander é o único a me esperar após cada aula e me acompanhar até outras localidades, mas no lugar do meu ajudante havia o motivo da minha fuga: Lady Campbell.

De costas para mim, ela focava num dos quadros dispostos na frente da biblioteca: uma mulher sentada, com o rosto sério e seus olhos determinados olhando para além do pintor e, ao seu lado direito, um garotinho posava ao seu lado. Os mesmos olhos, os mesmos cabelos.

Engoli em seco. Estava totalmente sem reação, fosse pela Lady Campbell, fosse pela pintura de minha mãe e eu. Dei passos para trás, desejando não ser notado por ela. Talvez ainda pudesse me esconder.

— Príncipe Leonidas! — Disse após se virar, surpresa ao me encontrar e fazendo uma reverência. — Como vossa alteza está?

— Ah — Foi a única coisa que consegui dizer. — Onde… Onde o Alexander está?

Ela mordeu o lábio e colocou o cabelo atrás da orelha antes de responder:

— Pensei em dispensar o Alexander durante o nosso encontro — Respondeu e levei algum tempo para processar a palavra “encontro”. Talvez tempo demais. Ela continuou: — Será apenas um chá no jardim. Acreditei ter feito uma boa escolha. Apenas eu e vossa alteza.

Por um longo tempo, o corredor se manteve silencioso. Nem mesmo um som vinha do exterior. Minha mente estava um caos enquanto buscava formas de fugir e era ainda mais inundada por fatos históricos. Precisava agir logo antes de tornar tudo aquilo ainda pior.

— Na verdade, minha lady — Comecei, passando a mão sobre o cabelo e olhando para o fim do corredor. — Eu adoraria, na verdade. Sim, foi uma boa escolha. Por favor, ehm… Vamos, então?

Um largo sorriso surgiu no rosto da garota, antes de se juntar a mim, enlaçando seu braço com o meu e caminhávamos pelo corredor. Enquanto eu a guiava até o jardim, a senhorita Campbell falava sobre sua animação de estar no castelo, seguida de perguntas curiosas sobre aquele lugar. E eu, é claro, sempre as respondia com palavras curtas e rápidas para evitar um clima ainda mais estranho. Ela, por sua vez, não parecia se importar e voltava a tagarelar sobre a vida.

Os encontros sempre terminavam assim: através de palavras, gestos desajeitados num cenário romântico. Ao nos encontrarmos no jardim, uma mesa repleta de guloseimas nos esperava bem no centro. “Observados. Estamos sendo observados”, pensei e levantei meus olhos para o castelo atrás de nós.

No segundo andar, eu o vi. Por trás das janelas que se estendiam do chão até o teto, meu pai nos observava com seus olhos rígidos, direcionados especialmente a mim. Fugir realmente estava fora de questão.

Respirei fundo e continuei caminhando com Lady Campbell ao meu lado até a mesa. Precisava fingir novamente. Servimos o chá e ficamos ali por um longo tempo: Campbell inquieta e eu silencioso, mantendo meu desconforto debaixo da mesa.

Observamos o pôr do sol, para dar um ar esperançoso para Lady Campbell e depois a vi partir. Outro encontro, outra garota esperançosa e mais cansaço para mim.

Quando o sol era apenas um pontinho laranja no horizonte e o chá já havia esfriado, pude ouvir Alexander descendo as escadas. “A cavalaria chegou”, pensei levantando e caminhando até meu quarto.

Dispensei qualquer opção de traje para o jantar. Naquele dia, decidi fazer minha refeição no quarto. Meu pai não pareceu se importar. Isso se já o fez algum dia.

— Estou satisfeito — Disse, largando meus talheres sobre o prato e me levantando. — Você está dispensado por hoje, obrigado Alexander.

Meu mordomo fez uma reverência e saiu, levando meu prato e as sobras do jantar. Vaguei até a cama e soltei um longo suspiro ao sentir sua superfície macia e confortável. Pelo menos os finais de um dia valiam a pena.

Me arrastei para cima dela e me cobri. Como todas as noites, desejei com todas as forças ter outro sonho, qualquer coisa mínima seria o bastante para mim desde que não envolvessem castelos, quadros, guardas e nem sussurros.

Naquela noite, eu sonhei. Meu desejo pouco valeu.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.