Prólogo

– Está chovendo, Robert. – a voz da senhora é apenas um sussurro fraco, levemente audível, o suéter dos Jersey Sharks que pertencera a seu marido parece ainda mais folgado do que no dia anterior, mas pode ser também efeito colateral da luz do lustre de vitral francês, que sempre fica amarelada não importa o quanto Caroline (sua filha), limpe a lâmpada, e que nunca falha em fazer qualquer pessoa parecer terrivelmente apática e pálida em excesso.

O dia lá fora na verdade está lindo, como poucos na cidade de Bloomington, que tem clima úmido na maior parte do tempo, pelo menos desde que a família vive lá, o que pode significar que sempre foi assim, a não ser que talvez uma enorme corrente de ar frio tenha se deslocado de uma hora para outra e parado permanentemente bem em cima daquela cidadezinha minúscula na província leste da Virgínia, obrigando seus moradores e os raríssimos visitantes a usarem grossos suéteres, agasalhos e casacos.

Só que não hoje. Os gêmeos da Mrs. Kolman (um menino e uma menina magrelos, de cabelos avermelhados e rostos cobertos de sardas que costumavam ser cuidados por Hazel ou Devon quando eram mais novos) estão até na piscina – cuja água está sempre meticulosamente limpa mesmo que fique sem uso por meses a fio – , espirrando água por todo o gramado cor de esmeralda com suas bóias estampadas e roupas de banho coloridas, Devon os viu ao espiar por entre as frestas da cortina quando subiu para trocar sua camiseta azul suja de café por uma de botões de um cinza pálido que não usava há semanas porque sua mãe só agora lembrou-se de lavar as roupas.

Em um dia desses, Dianna já teria aberto todas as cortinas e saído pela casa cantarolando sobre o sol e os passarinhos, ela mesma inventava suas melodias, colocava os nomes dos netos (Hazel, Devon, e, quando estava nostálgica, até o pequeno Axl, que falecera dezessete anos atrás, ainda bebê), das filhas, (Caroline, e Alice, que também morrera anos atrás junto com o marido, Richard, e o filho, em um acidente de carro) e palavras inventadas, era divertido ouvi-la, dona de uma voz doce e agradável, ás vezes Devon e a irmã deitavam no topo das escadas, em cima do tapete persa que Christopher, o pai dos dois, trouxera da Índia, e ficavam encarando o teto, ouvindo-a cantar e chacoalhar os lençóis para impedir que Hazel tivesse outra crise de espirros pelo ácaro, alergia estranha, levando em conta a afinidade da garota por gatos.

Mas agora? Faz até sentido que ela ache que o céu vai desabar, qualquer pessoa em seu lugar sentiria o mesmo, todas as janelas da casa estão meticulosamente fechadas, até as que antes não tinham cortinas, tiveram as mesmas improvisadas por cobertores grossos que agora cheiram a aromatizador de maçã verde, o favorito de Caroline, Devon se curva para a frente, sobre seus joelhos ossudos e pensa se deve responder ou apenas fazer o que sua mãe fazia, observar a avó até que ela adormecesse e então levá-la para o quarto de hóspedes, já que não era mais seguro que ficasse subindo e descendo para seu próprio quarto, mesmo que pesasse apenas um terço do que pesava apenas meses atrás, Devon e Christopher não se importariam de levá-la para cima, mas não fazia muita diferença de qualquer jeito, Caroline tinha posto todos os seus esforços em fazer seu novo aposento parecer-se o máximo possível com o antigo, até pregara sua imitação de um quadro de Edgar Degas acima da cama, ficara meio torto porque ela não era exatamente um mestre com o martelo, mas seu esforço provavelmente ajudara Dianna a ficar menos confusa, apesar de não impedi-la de tentar conversar com o falecido marido.

A casa estaria em completo silêncio para qualquer pessoa com ouvidos normais, porém, Devon pode captar alguns ruídos, como “All That Jazz”, primeira música de Chicago, o qual Caroline passara a assistir ininterruptamente todos os dias junto ao Mágico de Oz, Victor/Victoria e suas partes favoritas de Annie desde que seu pai morrera, (jogada no sofá de couro com suas camisolas bordadas e pernas magras, quase adormecendo, mas incapaz de fazê-lo), o tique taque incessante do relógio cuco no escritório, onde ninguém entra há pelo menos três meses, e as passadas abafadas da gata cinzenta sobre as tábuas de assoalho escurecido.

Ela mantinha distância na maior parte das vezes, sentada no hall e olhando á sua volta com grandes olhos cor de chocolate, dando piscadas longas e cansadas, Devon nem se lembra da última vez que a viu dormir, provavelmente no hospital, horas antes de Robert falecer após uma cirurgia de dezessete horas. Se lembra que ela usava uma blusa branca de arco-íris, short de ginástica vermelho e sapatilhas de balé azuis com meias cinzentas, depois de uma hora ao lado da mãe sem sequer se mexer, ela desfalecera sobre as poltronas desconfortáveis da sala de espera, tremendo e sussurrando coisas intangíveis durante o sono, teve que ser carregada por Christopher até o carro e acordara na manhã seguinte com uma confusão dolorosa, aparecera na porta do quarto do irmão e o fitara com uma precaução que quase lhe partiu o coração.

– Devon, querido. – sentou-se sobre o colchão e o observou, mordendo o lábio inferior ao perceber os olhos inchados e vermelhos do garoto. – eu tive um sonho horrível... Não era um sonho... Né? – ele apenas assentiu, o que mais poderia fazer? E aquela foi a última vez que ela dormiu.

Hazel é uma garota de apenas quinze anos, pele cor de caramelo, cabelos negros e encaracolados que se orgulhava em manter e grandes olhos castanhos, não parecia com o irmão mais velho em absolutamente nada e Devon ás vezes questionava se isso era bom, ela era delicada e doce, incapaz de machucar ninguém, já o garoto chegava a flertar com a ignorância ás vezes, porém, ele também era mais forte do que ela algum dia imaginaria ser, magra e com apenas um metro e cinqüenta e sete de altura, chorava fácil mas também tinha uma personalidade volátil, Devon parecia determinado a não demonstrar fraqueza desde o dia em que nasceu, já era até mesmo involuntário, o que poderia ser tanto uma maldição quanto uma virtude.

Os dois costumavam ser inseparáveis, até hoje se perguntam o que pode ter acontecido para suas vidas mudarem tanto da noite para o dia (pode ter algo a ver com a pequena marca de sol dourada que agora repousa na mão dominante dos dois, mas que já chegou a ser motivo de discórdia), agora um abismo fora aberto entre eles. Devagar, a gata pisou para dentro da sala, os olhos perdidos á frente, imóvel como uma estátua de porcelana a não ser pela respiração suave, Hazel se identificava muito com a forma do gato ou qualquer felino, era capaz de passar horas daquele jeito, havia virado uma espécie de refúgio, e o garoto a observou curiosamente, podia dizer que tinha um pouco de inveja e ao mesmo tempo, alívio, por ela ter sua válvula de escape.

– Devon? – a voz de sua avó o fez se sobressaltar porque fazia muito tempo que ela não o reconhecia, muito menos o chamava pelo nome, encarou de volta olhos castanhos embaçados e vidrados, qualquer médico ficaria espantado com o progresso de sua catarata em apenas meses, por isso não a levaram a um, não havia necessidade, era a reta final, algo que apenas sua própria espécie era capaz de entender, seu hanner havia morrido, e não havia mais nada que houvesse para fazer na terra, sua própria luz a engoliria.

– Vovó? – ele se inclinou sobre a senhora pálida e magra, apenas uma concha enrugada do que era meses atrás, será que fazia mesmo menos de um ano de quando ela fizera o aniversário de quinze anos para Hazel e fora buscar uma piñata em Ohio?

– Você sabe a história? – o lugar ao seu lado cedeu e ele olhou, assombrado ao ver a gata ali, em cima do sofá, poderiam fazer semanas que ela não se aproximava de ninguém, voltando á forma humana apenas para comer (só quando Caroline ameaçava comprar ração de gato já que a filha decidira que era uma permanentemente) e sempre procurando locais altos para se esconder, enroscada em uma bola de pelos.

– Qual? – perguntou o jovem, sua voz falhando um pouco de cansaço, ele próprio não se lembra de dormir uma noite inteira e sem pesadelos desde a morte do avô, em torno de quarenta e cinco minutos atrás tinha até mesmo derramado o café para fora da caneca e só percebido quando o lindo balcão de granito da sua mãe estava coberto do líquido escuro e fumegante.

– A nossa, querido, sobre o que nós somos. – explicou a mulher, apertando com as unhas roídas até a carne o xale colorido sobre suas pernas magras. Os dois já haviam ouvido aquela história pelo menos cinqüenta vezes ao longo da vida, mas Devon simplesmente nunca conseguia falar para sua avó que não queria ouvi-la novamente.

– Não vovó, por favor, conte.

– Bem, como tudo nessa vida, esse relato começa com a existência do bem e do mal.

O jovem se perguntou se Dianna tinha ouvido aquela mesma história tanto como ele e Hazel, mas então percebeu que era impossível, ao contrário deles, ela nasceu humana.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.