O Poeta Noturno

1 Uma vida presa as correntes da realidade.


Existem diversos exemplos de poetas e suas inspirações. Há os apaixonados pela frenesi dos dias coloridos, com palavras tão suaves como a seda mais pura; os loucos que se deleitam pela dor e pelo sofrimento entonado em cada linha escrita; os românticos que ardem no fogo de suas paixões carnais com um toque de erotismo e, enfim, os silenciosos,os noturnos, que observam e idealizam sua musa nas sombras das luzes prateadas.

Ele, nosso sonhador protagonista, era um poeta noturno. Apaixonado pelo que fazia e escrevia enquanto, na penumbra das ruas desertas, observava os detalhes graciosos e os transformava em canções líricas.Seus tesouros, como chamava. Contudo, há dias, ele, o poeta, sofria sobre as margens de um bloqueio criativo. As folhas de papel não mais tinham a entonação de suas palavras, tampouco a musicalidade tão comum a sua habilidade.

Estaria eleperdendo o seu brilho?

Não,jamais perderia, e teve a certeza disso quando viu uma fonte infinita de inspiração: nas ruas sem vozes, sob a noite ousada, uma mulher avançou como uma deusa.Ela sorriu para eleem seu vestido banhado pelos raios lunares. Tão linda, tão bela, tão meiga. A donzela reacendera toda vontade de escrever do poeta noturno, as ideias e rimas fluíam, e seu coração apaixonado batia descompassado.Ah, as chamas de uma paixão idealizada! Sonhador como nenhum outro, o poeta criou uma meticulosa rotina: a veria todas as noites no mesmo lugar enquanto, em mãos, papéis guardavam seus escritos mais recentes;e como ele escrevia sobre sua musa!

Cada rascunho denotavam a paixão dele. Ela era a sua lua, sua donzela prateada, e que, encantado por um único beijo, ele seria capaz dedormir para sempre.

O poeta noturno vivia pela noite que sua alma, sonhadora e apaixonada, se unisse a dela; e a cada amanhecer, a esperança da presença amada, consumia as entranhas de sua consciência. Ele escrevia, escrevia e escrevia sob os raios da lua que dançavam como ondas em sua pele. Era o sinal perfeito, um mundo divino que criara na ponta do lápis e nas margens do papel. Lá, somente lá, a musa idealizada, a deusa coroada, era sua e de mais ninguém. O peta noturno também sonhava pela noite em que seu sonho, seu doce sonho, ganhasse cores... e por nenhum instante, o distanciou de seus pensamentos.

O homem sorriu então, sorriu para ela em uma noite como todas as outras, bela e magnifica.

...E a musa não sorriu para ele.

O silêncio e a indiferença dela ao passar e virar o rosto conturbou o frágil intimo do poeta. Ele ficara estático, as páginas escritas em mãos, o vento gelado beijando-lhe as lágrimas de seu rosto bronzeado. Na tênue luz da lua minguante, esperando em vão por ela, o pobre homem percebeu o quão solitário era.

E no final, ele foi escravizado pelo próprio sonho.

O poeta passou a esconder-se do dia, trancafiado na caverna de desilusões que construíra, acorrentado em um sonho que havia se tornado um terrível pesadelo.Estava tão sozinho!As páginas em branco circundavam seus olhos, a inspiração morrera com o silêncio, embora ele, no fundo, tentasse se agarrar a esperança que aos poucos desaparecia.Não, ele pensou, sua musa jamais agiria com tamanha frieza.Ela deveria ser doce... Ela era doce!, e no início de um novo amanhecer, sua miserável fé foi renovada.

Sua musa seria sua!

Nas sombras da noite sem luar, ele a esperou passar com o desejo de obtê-la corrompendo os seus pensamentos. Então ela veio... doce, angelical, bela e sua, somente sua.

E no final, ele foi o ceifador do próprio sonho.

Seu poema teve um fim na manhã seguinte, um fim real que trouxe o maior número de espectadores que o poeta noturno já tivera. Não eram escritas comuns que costumavam impressionar a multidão,não, as pessoas admiravam o ousado, o criativo... e doentio; e, definitivamente, a conclusão do trabalho do homem tivera esta última característica. Uma mulher morta, páginas espalhadas pela praça central e ele, tão sorridente, talhando os versos finais no chão. Sua tinta era o sangue, o líquido rubro e quente.

Tornei-me a noite,

Desaparecerei no raiar de um novo dia.

Tornei-te a lua

Dormirei eternamente encantado pelo seu beijo.

Você sangraria por mim, minha lua?

Notas finais
♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!