O Poder Das Gémeas
23 Capítulo 23
Notas iniciais
— Irina, estás a ouvir-me? – Ginny perguntou pela quinta vez ao pequeno-almoço. – Irina?
— França ganhou contra a Dinamarca no quidditch. – Irina falou, olhando para a ruiva. – Desculpa, Ginny, deves estar a pensar que sou parva por estar contente, mas eu sou de França.
— Eu percebo. – Ginny sorriu. – Mas estava a perguntar-te como vais em Poções.
— Bem. – Irina respondeu. – O professor Slughorn é bom professor. Mas porquê? – Ela estava confusa, não percebia a razão para Ginny falar de disciplinas em uma Hogwarts infestada de guerras.
— Ah, acho que é saudável falarmos de outras coisas para além do que se passa. – Ginny respondeu, percebendo o que se passara pela cabeça da amiga.
— Claro, tens razão. – Irina sorriu contente. – França é óptima no Quidditch, tenho a certeza de que chegará longe!
— Pois, provavelmente. – Ginny concordou hesitante, mas como se Irina olhasse para ela desconfiadamente, riu suavemente. – É claro que sim, o seeker francês é fantástico.
— Pois é. – Irina concordou, pensando em Leon. – Mesmo fantástico. Mas agora está na hora de ir para as aulas e, embora eu não goste de Magia Negra, eu tenho mesmo de ir.
— Claro. – Elas despediram-se rapidamente e Irina foi para a aula com Neville.
O dia de aulas foi longo, muito longo para Irina. Como sempre, Magia Negra fora um suplício e, como quase sempre, Neville enfrentara Amycus, sendo por isso castigado com a maldição Cruciatus, aumentando a força e a garra dos alunos.
Mas Irina, apesar de todas as complicações que era a rotina em Hogwarts, estava com ainda mais esperança, não apenas pela coragem de Neville, mas também porque ela acreditava seriamente que havia hipóteses. Cada vez mais se apercebia da força das pessoas à sua volta, cada vez mais sentia a energia proveniente da esperança no ar respirado em Hogwarts… Ela não tinha ilusões, nem nenhum dos alunos, todos sabiam que iriam haver perdas, grandes perdas, perdas que iriam causar dor, lágrimas e sofrimento. Irina tinha medo de que o Mal vencesse, mas ela achava que todos tinham, mesmo aqueles que, como ela, acreditavam no poder mil vezes superior do Bem. Talvez o medo fosse… natural.
— Irina, que bom estares de volta. Vejo que hoje vieste mais cedo. – Dumbledore abraçou-a depois de fechar a porta.
— Não há E.D. hoje e eu não tenho mais nada que fazer e despachei-me no jantar. – Ela respondeu, embora só tivesse ido mais cedo para também se ir embora mais cedo, para que não se encontrasse com Snape.
— Ah, estou a ver que tens imensas razões. – Irina suspirou ao se dar conta de que Dumbledore percebera o verdadeiro motivo.
— Bom, mas eu tenho uma notícia fantástica a lhe dar! – Irina sorriu contente.
— Ah, sim? Qual? – Perguntou ele curiosamente. Irina transformou-se em gata bem na sua frente e depois voltou à sua forma normal. – Fantástico, Irina. Quando o conseguiste?
— Ontem à noite, com o Snape. – Irina respondeu prontamente para não se demorar no assunto.
— Então vocês estão a começar a entender-se? – Dumbledore, pelos vistos, não percebera as suas intenções.
— Dumbledore… — Irina começou, mordendo o lábio inferior. – Eu gosto muito de si e…
— Já percebi, Irina, mas já é um avanço ele ter-te ajudado. – Ele interrompeu-a.
— Claro que é, ambos nos juntámos para fazer algo de útil. – Irina concordou. – Mas não precisamos de ser amigos para estarmos do mesmo lado.
— Ai, Irina, és uma Gryffindor, devias ser menos racional. – Dumbledore brincou. – Mas podias ter uma conversita com o Severus, apenas para se conhecerem melhor… — Dumbledore falou calmamente.
— Não sei, Dumbledore, parece-me que pode não dar certo e depois ficamos ainda pior. – Dumbledore baixou os olhos tristemente. – Mas… — Ele fitou-a esperançosamente. – Eu estava a pensar em melhorar a Oclumância e ele podia ser uma ajuda valiosa.
— Eu falo com ele, o Severus é um óptimo Legilman, ele pode preparar-te melhor do que ninguém, nem mesmo eu no meu auge, poderia fazer melhor do que ele. – Dumbledore assegurou urgentemente e, Irina achou, exageradamente. – Tenho a certeza que ele vai aceitar.
— Eu não teria tanta certeza, mas eu sinto que tenho que fazer isso, porque não quero ser a culpada por descobrirem que o senhor está vivo e se forem poderosos a invadir a minha mente eu sei que não resistirei e eu tenho que proteger este segredo até que já não seja preciso fazê-lo. – Irina sentia que tinha um grande peso nas costas, mas ela tinha que ser forte para conseguir arcar com a descoberta que fizera no Natal.
— Claro, é isso mesmo, Irina. – Ele disse orgulhoso. – Eu confiei em ti e eu espero que essa confiança não tenha sido demasiada. – Irina mordeu o lábio inferior um pouco ofendida, mas nada disse, afinal Dumbledore precisava de se recuperar rapidamente.
— Pois, agora eu vou andando, Dumbledore, para que o senhor possa falar com o Snape à vontade. – Irina sorriu abertamente, dando um abraço caloroso e saindo da sala rapidamente antes que Dumbledore a impedisse. – Professor Snape, não é muito cedo para vir? – Perguntou ela quase inaudivelmente, depois de andar três passos pelo corredor e ver o Mestre de Poções.
— E não é muito cedo para se ir embora? – Ele respondeu com outra pergunta. Irina sorriu, ele às vezes até era engraçado.
— Um bocadinho cedo, sim, considerando que não tenho nenhum compromisso. – Irina respondeu. – Mas o senhor não respondeu à minha pergunta…
— E por que é que haveria de o fazer? – Ele perguntou com a sobrancelha erguida.
— Porque eu respondi ao senhor e continuo a fazê-lo apesar da sua indelicadeza. – Ela respondeu um bocado irritada.
— Miss Saint Claire, você respondeu porque quis responder, eu não a obriguei a nada. – Ele deu de ombros. – Embora eu o conseguisse fazer se assim o desejasse.
— Está a ameaçar-me? – Ela perguntou furiosa.
— A ameaçá-la? – Snape repetiu. – De maneira nenhuma. Por que é que haveria de o fazer? Quer eu goste, quer não estamos ambos do mesmo lado.
— Então esforce-se por se dar bem comigo. – Irina falou saturada.
— Não é preciso sermos amigos para estarmos do mesmo lado. – Snape respondeu de volta.
— Foi isso que eu disse ao Dumbledore quando ele me falou disso, mas tente convencê-lo de alguma coisa. – Irina estava ainda mais irritada. – Eu também não quero ser sua amiga.
— Ótimo, assim é ainda melhor. Sei que os Gryffindors são muito sentimentalistas e podia ficar magoada se quisesse ser minha amiga e eu o negasse. Assim, ao menos não teremos que levar com uma desequilibrada. – Irina revirou os olhos.
— Por favor, Professor, até parece que são os Gryffindors que estão a levantar os problemas. Quase todos os devoradores da Morte pertenceram aos Slytherin. – Irina provocou. – Mas eu nem sei porque é que lhe estou a dizer isto, o senhor concerteza o sabe melhor do que eu. Faz parte desse grupo, não é?
— Ouça bem, Miss Saint-Claire… — Snape avançou para ela irritadamente. – Eu tenho muito bem presente o meu passado e sei que cometi o maior erro da minha vida ao juntar-me ao Senhor das Trevas, mas eu arrependi-me. Isso pode não apagar os meus erros, mas também não é razão para estar sempre a falar do meu passado.
— Eu falo do que eu quiser, professor. – Irina enfrentou, mordendo o lábio inferior e olhando o rosto demasiado próximo de Snape. Ambos ficaram simplesmente a respirar aceleradamente devido à discussão que, apesar de quase silenciosa, tinha um ritmo alucinante. Só que Irina não podia negar que, de um certo modo, aquela proximidade a deixava incomodada, não pelas suas divergências com Snape, mas por algo mais, algo que ela não queria nem iria enfrentar! – Passar bem, professor. – Ela disse, tentando passar por ele, mas Snape agarrou-a pelo braço, metendo-a contra a parede.
— Nunca mais me enfrente dessa maneira, porque, raios, eu posso ser frio, mas não sou de gelo! – Irina abriu a boca chocada: pela primeira vez via, ainda que com dificuldade, mágoa no olhar do homem.
— Desculpe, Professor. – Irina continuou o seu caminho.
*
Na noite seguinte, Elle e Irina encontraram-se na mesma sala. Quando Elle entrou pela porta, elas cumprimentaram-se e começaram a falar:
— A França ganhou contra a Dinamarca. – Elle informou.
— Eu já sei. – Irina respondeu. – Fiquei muito contente. E pelo que ouvi dizer, o Leon fez um trabalho fantástico.
— Sim, pois foi. – Elle disse orgulhosa do irmão. – Ontem, conheci a Murta. Ela é… É a Murta. Gostei dela. Quando eu ia para a Sala Escondida, o Malfoy aproximou-se e eu inventei que estava receosa de ir à casa de banho da Murta e pedi-lhe para ir comigo. Tinha que o tirar dali.
— O Malfoy até é simpático para ti. – Irina disse com um sorriso. – Correu bem?
— Oh sim! – Elle encolheu os ombros. – Mas não é uma questão de ser simpático. Eu sinto que ele me está a avaliar. Está a espiar-me, a ter rédea curta sobre mim, a meter obstáculos. Eu tenho que ir às reuniões. Ontem, um de nós disse que eu estava a desistir.
— Mas eu sei que quando explicaste tudo, isso deixou a sua cabeça. – Irina falou empurrando a amiga levemente que se riu. – Vês? Olha, vocês têm que ter mais cuidado. Se vos apanham… Estive a pensar. Se vos apanharem, arranjei uma desculpa. Digam que estavam a treinar magia negra porque no futuro querem ser servos do Senhor das Trevas e querem contribuir o melhor possível para a soberania do sangue-puro. – Elle olhou a amiga estupefacta. – Desculpa, mas eu pensei que fosse uma boa ideia.
— E é! É só que… Tu tens razão. Quase todos os dias nos encontramos e ainda não tinhamos pensado numa desculpa desse género e não temos por onde escapar. – Elle disse abraçando a amiga extremamente agradecida. – Obrigada.
— De nada. Eu gosto de ajudar. – Irina disse sorrindo e olhando nos olhos da amiga, sabendo o que ela ia perguntar a seguir. – O E.D. também anda muito bem. Estamos cada vez mais otimistas e, meu Deus, estamos muito melhor do que estávamos. Juntando tudo, somos bons. Sei que ainda não somos assim uns prós e não conseguimos ganhar ao V, mas já ganharíamos a alguns dos seus seguidores se lutássemos com eles. Eu preocupo-me também é com o Neville. Ele está sempre a enfrentar os Carrow e ele sai bastante magoado. Mas não minto, ele está a dar muita força. A Ginny tem saudades do trio. E eu também tenho. Nunca os conheci, mas só de a ouvir falar… De qualquer maneira, se eles estivessem aqui era porque o V nunca tinha conseguido entrar no Castelo.
— Sim, tens razão. – Elle disse tristemente. Quando ouvia Laura falar da antiga Hogwarts, cheia de alegria, era como se ela própria tivesse lá estado. – Acho que é a vida. Um acontecimento desencadeia uma série deles. O chamado efeito dominó.
— Sim. Nada é certo, tudo muda. Há pessoas que podes não conhecer mas que diretamente afectam a tua vida. É como… há um acidente, morre uma pessoa, o que vai afetar a vida dos seus amigos e familiares, e como esses familiares têm amigos também isso afetará a vida deles, e acabará por se estender. Por exemplo, imagina que tens um namorado que sabe que lhe morreu alguém, isso acabará por afetar a tua relação, e de uma maneira ou de outra, quer seja diretamente ou não, a tua vida mudará, porque a nossa vida não depende só de nós mas também das pessoas que direta ou indiretamente fazem parte da nossa vida. – Irina afirmou olhando à sua volta.
— Tal e qual como o que aconteceu com a morte do Dumbledore. – Irina olhou a amiga que estava triste. – Antes, apesar de sabermos que o V estava de volta, conseguíamos ser felizes porque ele temia o Dumbledore. E agora, ele já não está entre nós e os nossos amigos estão a morrer ou a perder familiares. – Irina deixou escapar uma lágrima. – E estamos com medo que isso aconteça mais uma vez. – Elle abraçou a amiga. – Tens razão. Nós somos pessoas e os acontecimentos afetam-nos. Nada é certo, tudo muda.
— Sim, e de qualquer maneira, bom, o que vale é que temos a família e os amigos. – Irina disse recompondo-se e olhando Elle com uma cara sorridente.
Elas uniram as suas mãos. Sim, de qualquer maneira tinham as pessoas que as amavam e nada mudaria isso, nem mesmo a morte que estava cada vez mais perto, elas estariam sempre lá.
— De uma certa maneira fomos um bocado estúpidos, parece que acreditávamos que o Dumbledore viveria para sempre. – Elle riu-se desgostosamente. – Esquecíamo-nos que ele também era um homem, tão mortal como nós.
— Eu acho que o Dumbledore… — Irina mordeu o lábio inferior, Elle olhava-a. – Acho que o Dumbledore está a torcer por nós de onde quer que ele esteja.
— Sim, tens razão. – Elle sorriu. – Mas ninguém o substituirá. É por isso que odeio o Snape, ele matou aquele que nos protegia. Pior! Ele enganou aquele que nos protegia e matou-o. Foi mais esperto que ele, o que nos mete a pensar que eles são mais espertos que nós. – Ela disse revoltada.
— Pois, eu percebo o que sentes. – Irina falou lentamente.
— “Pois, eu percebo o que sentes?” – Elle repetiu incredulamente. – Irina, o que se passa?
— Desculpa, Elle, estava um pouco distraída. – Irina apercebeu-se que tinha dito a coisa errada. Ela devia ter compartilhado daquela raiva e revolta. – Tu tens razão, o Snape é horrível, mesquinho, preconceituoso, não sei como o Dumbledore confia nele. Confiava nele, quero eu dizer. – Irina traiu-se um pouco ao dizer algo semelhante ao que pensava: como conseguia Dumbledore confiar em Snape? Tudo bem que ele dera provas da sua lealdade, mas mesmo assim… O que tinha feito o velho homem confiar nele ao início? – Ele irrita-me.
Irina apertou o punho e, de repente, um pensamento veio-lhe à cabeça? E se Snape aceitasse treiná-la em Oclumância? Ele poderia descobrir Elle! Quem é que ela queria enganar? Se Snape aceitasse, iria descobrir Elle tão facilmente como tirar um doce a uma criança, Elle estava presente em quase toda a sua vida.
— Irina, está tudo bem? – Elle perguntou, vendo a amiga assustada. Irina anuiu com a cabeça lentamente, embora ela tivesse a certeza absoluta de que não estava nada bem.
— Obrigada pela preocupação. É só que me lembrei que tenho o trabalho de Herbologia para acabar. – Irina respondeu, levantando-se. – Eu tenho mesmo de ir.
— Tudo bem. – Elle abraçou-a, vendo-a sair porta fora muito cuidadosamente.
Mal saiu, Irina olhou para o seu relógio. Faltava uma hora para o recolher e ainda tinha que falar com Dumbledore, mas ela estava com sérias dúvidas em ir. O que é que ela faria? Pela primeira vez desejou que Snape se mantivesse tão estúpido como ela o via e não aceitasse um pedido seu. Talvez ele não pudesse devido ao trabalho de infiltrado, era perfeitamente compreensível. É, se ele aceitasse, ela falaria logo disso e demovê-los-ia. Tão fácil como isso… na teoria, é claro. Porque na prática…
— Ah, Irina, que bom que aqui estás. – Dumbledore abriu-lhe a porta um pouco preocupado, ela não tocara à porta, ele tinha-a ouvido. “Ótimo, Irina, começaste mesmo bem”, ela pensou sarcasticamente.
— Sim, Dumbledore, estou é um pouco cansada. – Ela entrou na sala, sentando-se no sofá. – Então, o que é que o Snape disse?
— Ele concordou em treinar-te em Oclumância. – Irina sorriu forçosamente.
— Que bom. – Irina mostrava-se contente. – Então… Onde está ele?
— Bem, tu queres mesmo isso, hum… Queres começar hoje, é? – Dumbledore piscou-lhe o olho animado. – Ele disse-me que viria mais ou menos a esta hora. – Mal disse isto, Snape entrou na sala.
— Ótimo, Miss Saint-Claire, está aqui. Vamos começar. Mas antes quero deixar bem claro que estou aqui, não porque o quero, mas porque o Albus me obrigou. – Dumbledore revirou os olhos. Irina levantou-se.
— Bom, então eu acho que o melhor é não me ensinar. – Irina falou. – Eu compreendo.
— Por favor, Miss Saint-Claire, está a dizer que não quer que eu a treine só por eu ter sido obrigado a treiná-la? Pensei que levasse isto mais a sério. Mas, pelos vistos, será sempre uma estúpida Gryffindor. – Insultou-a ele.
— Ouça, professor… — Irina ia já começar a discutir, mas acalmou-se ao lembrar-se do que tinha de fazer. – Eu confesso que não é só por isso. É que eu estive a pensar e… — Irina olhou para o chão, mordendo o lábio inferior. – Eu acho que estou a ser injusta com o senhor… — Irina olhou, com lágrimas nos olhos, para Snape, via-o surpreendido. – O senhor já está infiltrado a passar-nos informações valiosíssimas sobre os planos do Quem-Nós-Sabemos, já está a governar a escola de modo a que nada extremo aconteça, já está a ajudar o Dumbledore a recuperar, já me ajudou imenso na Animagia e eu ainda lhe peço mais, como se já não fizesse o suficiente. Estou a ser injusta. – Irina acabou, tinha que soar o mais humilhante possível para eles acreditarem nela. – Desculpe, professor. Talvez o senhor tenha razão e eu seja demasiado nova para compreender realmente o que está em jogo, mas eu quero que o Bem vença e nós precisamos de si para isso acontecer, por isso, é melhor não ter tanto trabalho.
— Oh, Irina, isso é muito simpático e altruísta da tua parte… — Dumbledore começou.
— Não diga isso, Dumbledore. – Irina pediu.
— Eu quase me comovia, Miss Saint-Claire. – Snape falou ironicamente. – Mas eu cumpro sempre a minha palavra e eu irei treiná-la. Por que razão teve o Albus tanto trabalho? Bom, prepare-se! – Snape ergueu a varinha.
— Não, espere! – Irina sentou-se no sofá exausta. – Antes eu tenho que vos contar uma coisa muito importante. – Dumbledore e Snape sentaram-se nas suas poltronas, olhando-a. – É uma coisa mesmo importante e que eu não quero que descubram através da Legilmância. – Irina começou. – Sabem, eu tenho uma melhor amiga desde que nasci, é fantástico, aliás, nós nascemos no mesmo dia e tudo. – Irina sorriu, mas não foi acompanhada pelos homens. – Bom, acontece que, apesar de sermos bastante diferentes, temos a mania de nos autoproclamármos As Gémeas. É muito engraçado!
— Já estou a ver o cenário todo… — Snape falou furiosamente. – Contou-lhe do Albus, não foi? E ela agora vai contar a toda a gente.
— Claro que não, eu fiz uma promessa ao Dumbledore. – Irina respondeu. – Bom, o que acontece é que eu ainda falo com ela, a minha melhor amiga é a Elle Rochouse. – Ela falou para Snape. – Nós encontramo-nos numa sala e falamos imensas vezes sobre tudo.
— Mas ela pode ser um perigo. – Dumbledore começou.
— Ela é a minha melhor amiga, Dumbledore. – Irina virou-se para ele. – A irmã que eu nunca tive. Ela quer o fim do Quem-Nós-Sabemos tanto como eu, ou até mais! Planeámos muita coisa, desde o cenário do Bugs Bunny até… Ela tem ajudado imensos Slytherin a querer lutar contra o Mal. Ela formou um grupo como o E.D, Dumbledore, são tantos, eu tenho imenso orgulho dela, já conseguiu tanto. – Irina chorava calmamente. – Sabe que ela é a sua fã número 1? A sério, Dumbledore, ela todos os dias desde que me lembro que fala de si. Sofreu imenso com a sua morte, leu tudo sobre si, abominou a Rita Skeeter por causa do livro. Ela tem imensa garra e os mesmos ideais que os meus, eu confio nela totalmente, ela tem-me dado muita força. Ela ama o nosso mundo! – Dumbledore anuiu, lendo verdade nos olhos de Irina. – Ainda bem que acredita em mim.
— Claro que sim, Irina. – Dumbledore pegou-lhe na mão. – Acho que seria bom para ti se lhe contasses acerca de mim. Não precisa de ser já na próxima vez que se encontrarem, sei que queres pensar na melhor maneira para o fazer. Mas não quero que fiques desesperada por não lhe contar.
— Obrigada, Albus. – Ela tapou a boca imediatamente. – Eu quis dizer, Dumbledore, obrigada!
— Bom, agora que já me contaste tudo sobre ti parece que somos amigos. – Ele disse. – Podes-me tratar por tu. E não tens de me agradecer. – Irina olhou-o comovida.
— Isso é absurdo! Não lhe pode contar de maneira nenhuma. – Snape levantou-se furiosamente. – É muito perigoso, ela poderá denunciar-nos. – Irina ia começar a reclamar, mas Snape continuou. – Não digo que o faça de propósito, mas ela pode ser alvo de Legilmância.
— Mas ela é dos Slytherin. O Quem-Nós-Sabemos pensa que todos estão do seu lado, não faz sentido assaltar-lhes as mentes. – Irina disse racionalmente. – Mais depressa apanhariam o Harry Potter.
— Ela tem razão, Severus. – Albus levantou-se igualmente. – O Quem-Nós-Sabemos está certo de que os Slytherin estão do seu lado, é demasiado cego para ver que nem todos são como ele. Severus, por favor… Aceita.
— Mas, Albus… — Snape mostrava-se contrariado. Foi a vez de Irina se levantar.
— Eu conto apenas sobre o Albus. – Ela assegurou para os dois homens. – Não falo do senhor, professor Snape. Eu, quando encontrei o Albus, não sabia do senhor.
— Pois não sabia porque foi burra. Eu não acredito que as outras pessoas sejam assim tão burras. – Irina cerrou o punho irritada, mas, de uma certa forma, Snape tinha razão, ela fora uma burra. – Eu não quero, Albus. E já me custou aceitar que ela soubesse. Não importa para ninguém aquilo que eu quero? – Ele perguntou ao homem.
— Severus… — Dumbledore começou, mas Irina interrompeu-o:
— Não, Albus, sabes que mais? O professor Snape tem razão. Ele já teve que me aceitar, deve ter sido difícil, eu não quero causar mais dores de cabeça a ele. Eu não conto nada à Elle.
— Mas, Irina, achas que a Elle iria realmente descobrir o envolvimento do Severus? – Ele perguntou.
— Não sei, Albus, é muito difícil sabê-lo. Ela é mais perspicaz que eu, não há dúvida nenhuma disso. E eu quase adivinho que mal eu fale sobre o que se passa com o senhor que ela me vai perguntar do professor Snape. – Irina respondeu francamente. – E eu não lhe quero mentir.
— Claro, eu entendo. – Dumbledore acenou com a cabeça. – Severus… — Dumbledore olhou para o homem que se aproximara da janela.
— Então, fale-lhe do Albus e não me mencione. Diga apenas que o Albus forjou a sua morte e se ela se mostrar surpreendida, lembre-lhe da mente brilhante do homem à sua frente. – Irina olhou para Severus que não a fitava. – Mas se ela perguntar qual o meu envolvimento em tudo isto, não minta, mas também não diga que eu estou do seu lado.
— Mas, porquê, Professor? – Irina perguntou. – Ela não é nenhum risco.
— Eu sei, mas eu não quero. Não disse há bocado que quer que eu esteja no meu melhor naquilo que faço? Sei que o disse para tentar fugir do treino, mas se realmente se importa com a vitória, então dê-me um pouco daquilo que eu quero. Eu não lhe estou a pedir para cometer um crime, estou somente a pedir para não contar à Elle Rouchouse que eu estou do lado do Bem.
— Mas qual o problema de as pessoas saberem que o senhor é bom se isso não transporta um risco? – Irina insistiu.
— Eu não quero que se saiba. – Ele respondeu prontamente. – Não faz sentido nenhum ela saber sobre mim.
— Ok. – Irina acabou por desistir. – Se é assim que quer…
— Pronto, então estamos tratados. – Ele falou, olhando-a. – Mas se lhe contar, eu juro que descobrirei, basta apenas entrar na sua mente ou dar-lhe uma poção. E se isso acontecer, eu juro que não sei o que lhe faça. – Ele ameaçou verdadeiramente. – Entendido?
— Sim. – Ela respondeu a custo.
— Muito bem. – Ele continuou como se nada se tivesse passado. – Vamos começar?
— Sabe que mais, professor? Já está a ficar muito tarde, começamos amanhã, está bem? – Irina perguntou ainda assustada e transformando-se em gata. Dumbledore abriu-lhe a porta, ela saiu.
— Severus…
— Albus, eu não sei porque sugeriste isso. Conheces-me muito bem, sabias que não aceitaria. – Snape começou furiosamente.
— Mas eu pensei que seria melhor para a Irina…
— E o melhor para mim, Albus, não importa? – Ele perguntou irritado. — Não é uma questão de confiança, Albus, sabes bem que não. Mas eu nunca quis que se soubesse.
— Eu sei. – Albus falou profundamente. – Peço desculpa.
— Desculpas aceites. Agora vou indo. – Snape saiu da sala, mas, no corredor seguinte, viu a gata. – Miss Saint-Claire!
— Mademoiselle Saint-Claire. – Disse Irina depois de se transformar de novo em pessoa. – Eu só lhe queria pedir desculpa.
— Tudo bem. – Ele recomeçou a andar, mas Irina meteu-se à sua frente. – Miss Saint-Claire…
— Mademoiselle Saint-Claire, professor Snape. – Irina insistiu com um sorriso. – Eu não direi sobre o senhor à Elle, eu prometo, mas eu gostaria de perceber… — Snape interrompeu-a:
— Pois, mas não tem nada que perceber. Eu sou eu, não confio em ninguém exceto no Albus. Quero assegurar que tudo corra bem. Já temos que lidar consigo, não quero lidar com outra igual a si, afinal são As Gémeas, não é? – Ele disse sarcástico.
— O senhor tem medo. – Irina enfrentou, fazendo-o olhá-la. – Sabe? Eu tinha pena do senhor quando o Albus me dizia que fazia de tudo para falar consigo acerca de outras coisas que não a guerra, porque você só podia ser quem realmente é quando está com ele, mas agora não tenho pena nenhuma. Na verdade, o senhor sempre quis isso, a solidão. Porque tem medo de que, ao se mostrar verdadeiramente, seja rejeitado. Tem medo de se sentir vulnerável por o conhecerem, porque é demasiado frio para alguém gostar de si e então dá-se mentalmente a desculpa de não se poder mostrar verdadeiramente. Mas na verdade não gostam de si, porque é frio. Tudo bem que fingir ser quem não é faz parte do disfarce, mas sempre foi assim, professor. As pessoas não gostavam de si por causa da sua frieza, porque as pessoas gostam de compartilhar as coisas, mas o senhor não. – Irina ergueu a cabeça, olhando-o directamente nos olhos. – Eu vejo que gosta muitíssimo do Albus, considera-o um pai, eu vejo isso, mas também vejo que o senhor gosta de se magoar a si próprio, o senhor gosta que os outros não gostem de si. E isso é horrível. É horrível, porque, o senhor até pode não ter reparado, mas a humanidade foi feita para partilhar e isso é algo que nunca ninguém fará consigo, é demasiado frio para isso.
— Ouça, Miss Saint-Claire… — Irina reprimiu um gemido de dor quando Snape lhe puxou os cabelos para trás, aproximando-se do seu rosto. – Você não sabe nada acerca de mim, porque eu não confio em si. Eu não quero que a sua pseudo-maninha saiba de mim, porque eu não confio nela. Porque a humanidade até pode ter sido feita para partilhar, mas a confiança é essencial para isso. – Snape aproximou a sua boca da de Irina. – Agora, faça um favor a ambos e vá-se embora. – Ele largou-lhe os cabelos e Irina transformou-se em gata de novo, indo embora.
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