O Plano
2 O Labirinto do Casamento
Notas iniciais
Os raios de sol invadiam a sala de desenho da mansão Johansson, e Leeds, onde Aisha estava, bordando uma enorme colcha para seu enxoval. Há dias Mena pedira que ela começasse a decorá-los da forma que desejava, então, ela passava suas manhãs e tardes sentada naquela poltrona confortável, bordando sem parar.
Clio e a prima não passavam mais tanto tempo na mansão, precisavam adiantar os preparativos do casamento e trabalhar para ocultar a cerimônia dos olhos dos curiosos. Clio encarregara-se de escolher os tecidos para o vestido de noiva, enquanto que Alcmena viajou para a Suécia, na tentativa de encontrar dois primos distantes de seu marido que, pelo que se dizia, tinham negócios no submundo da sociedade.
— Aisha, querida, — Violet despontou à porta, assustando levemente a russa, que ergueu os olhos azuis no mesmo momento em que ouviu a voz da condessa. – você está ficando muito presa aqui nesta casa! Verona me contou sobre sua rotina!
— Senhora, preciso terminar tudo isso antes que o casamento chegue! – ditou Aisha, preocupada.
— Pelo amor de Deus, menina! – riu a outra loira, indo se sentar na cadeira ao lado da nova amiga. – Deixe-me ver seu trabalho. – pediu, estendendo as mãos enluvadas.
Um pouco envergonhada, Aisha mostrou à Violet seu trabalho, recebendo sorrisos de aprovação e muitos elogios.
— Você borda tão bem! – exclamou a condessa, com o bastidor nas mãos. – Minha mãe me ensinou apenas o básico, então meu enxoval ficou um terror! Sísifo viu o quanto eu fiquei envergonhada com o trabalho péssimo e comprou um conjunto azul e branco completo para a noite de núpcias. – contou Violet, acariciando as flores bordadas com tanto cuidado e esmero. – Degél vai ter uma esposa e tanto em casa!
— Pensei que acharia nosso noivado um pouco precoce. – comentou Aisha, abaixando o olhar. – Noivamos na mesma noite em que nos conhecemos...
Naquele momento, ela se lembrou do olhar gelado de Dégel, dos lábios finos e do rosto plácido parcialmente escondido pela máscara negra como seus cabelos. Lembrou-se de como ela a olhou de forma melancólica e desejosa, e de como Alcmena o tirara do salão para conversarem em particular e, minutos depois, voltaram com olhares determinados.
Naquela noite, Dégel a pediu em casamento, de forma reservada é claro, nos jardins do palacete do Conde Sísifo. Aisha não se lembrava de uma situação onde seu coração batera de maneira tão descompassada e forte... Não desde que chegara à família Johansson.
Ela aceitou, é claro – Alcmena dera suor e sangue naquele plano e ela ajudaria com sua parte, e, mesmo depois que ele pegou suas mãos, beijou-as e encarou seu rosto mascarado, não pediu para que tirasse seu lindo adorno de gesso, apenas sorriu e depositou um beijo na testa fria da máscara decorada.
Depois disso, não mais se viram, porém, ainda se correspondiam por intermédio de telegramas e os recados que enviam por meio de Violet. Alcmena dissera que seria melhor evitar encontros e qualquer tipo de interação social até que o dia do casamento chegasse, para que não levantasse suspeitas ou atraíssem perigo. Principalmente quando ela estava fora e Clio ocupada com as coisas do casamento.
— Alcmena é uma mulher ardilosa, eu imaginava que aquelas perguntinhas sutis estavam ligadas à um propósito maior. – riu Violet, devolvendo o bordado à amiga. – E, quanto ao casamento, é assim que acontece, Aisha! Noivados e casamentos surgem onde mais se precisa, mesmo que eu saiba que sua Madrinha não precisa de um tostão do meu primo, ela deve ter suas razões para te casar tão rápido.
— Acho que ela só quer que eu faça um bom casamento... Clio cometa muito que hoje em dia é muito difícil encontrar alguém que valha a pena. – mentindo descaradamente, a jovem russa focou-se em seu bordado, tentando dissipar o medo de ser descoberta. – Mena... Mena parece compartilhar dessa opinião.
— E você? – a perguntar pegou a moça de surpresa. – O que você acha desse casamento?
Os olhos perspicazes de Violet mediam as reações da loirinha e, por mais que ela se esforçasse, foi impossível disfarçar o medo e a dúvida dentro dos grandes olhos azuis.
— Eu... EU estou feliz por saber que meu noivo é um homem íntegro e bom, mas... Também me assusto quando penso que nem mesmo tivemos uma conversa apropriada, ou encontros furtivos como os dos livros que Rugonis lia para a madrinha... – suspirando, Milenka olhou pelas janelas da sala, contemplando perdidamente os jardins da mansão, vendo as flores dançarem conforme o sopro do vento.
Violet segurou as mãos da amiga de forma compreensiva, atraindo o olhar da russa sobre si.
— Foi exatamente o que eu pensei quando meus pais me disseram que eu iria me casar com um Conde quinze anos mais velho que eu. – a condessa respirou fundo, dando leves tapinhas nas mãos de Aisha, ainda sob as suas. – Eu já havia o visto em alguns bailes no palácio, no entanto, nunca, em um milhão de anos, poderia imaginar que ele seria o homem maravilhoso com quem hoje eu convivo. Aisha, o mundo dos casamentos é um labirinto misterioso, e você só vai saber o que há no meio dele quando desvendar todos os seus caminhos.
Teriam conversado por mais tempo, porém, Verona, a governanta de Alcmena, adentrou a sala trazendo consigo uma badeja com comida e chá! Violet ficou animadíssima e pediu que a senhora arrumasse a mesa do jardim para que tomassem o chá ao ar livre, no que a governanta prontamente obedeceu.
Era uma tarde de sol, e seria um pecado desperdiçá-la dentro daquele cômodo frio e sem vida! Assim, juntas elas desfrutaram do lanche preparado com carinho, e se ocuparam em falar mal da arquitetura da cidade, de como os gregos eram exagerados e o quanto elas se arrependiam quando iniciavam discussões com eles.
Nem mesmo viram quando a tarde se tornou noite, só se deram conta disso quando Verona veio chama-las para o jantar, convidando educadamente a Condessa para permanecer com elas durante a refeição, no que ela educadamente negou, insistindo que Sísifo já deveria estar se descabelando por não tê-la encontrado em casa quando retornou da reunião com os sócios.
Assim, Aisha jantou sozinha, e, poucos minutos depois Clio chegou carregada de pacotes, sendo seguida por mais quinze servos, todos cheios de sacolas, caixas e expressões de terror. Feliz como ela só, Clio liderou o mutirão até o quarto de costuras, onde eles deixaram as encomendas, forma pagos e dispensados por aquela noite.
— Ah, mas que dia! – exclamou a grega, retirando seu lindo chapéu branco decorado com penas, tudo sob os olhares curiosos de Verona e Aisha. – Eu realmente adoro fazer compras, mas dessa vez me superei! – e jogou o chapéu sobre uma das cadeiras, chamando as mulheres para perto.
— Por Deus, senhorita, comprou o vilarejo todo? – questionou Verona, mexendo em uma das caixas no chão, retirando dela alguns metros de renda branca.
— Clio, não deveria ter gastado todo esse dinheiro! – exclamou Aisha, indignada quando Clio revirou os olhos e a puxou para perto, puxando de uma sacola sobre a cadeira um enorme tecido branco, feito da mais pura seda.
— Jesus! – exclamou Verona, juntando as mãos de forma teatral. – É seda chinesa!
— É sim! – animada, a platinada colocou o tecido a frente do corpo da amiga, apoiando-o nos braços e colo da moça para mostra-lo à governanta. – Eu encomendei com um amigo da Mena! Não sei se vai se lembrar de Dohko, aquele chinês com quem a senhora Johansson negociou os enfeites de prata há anos atrás?
— É claro que me lembro dele! – riu Verona, abanando-se levemente e corando, o que tirou um sorriso de Aisha ao imaginar a governanta envergonhada. – Ele é como um colírio para os olhos, não é mesmo?
— Olhe só, Verona! – debochou Clio, dando uma risada e tanto. – Foi com ele que eu consegui a seda e a renda. Ele a trouxe da França para mim! Não é um amor da parte dele?
Aisha encarou a amiga, segurando o tecido entre os dedos de forma delicada, temendo rasga-lo. Passou a seda pelas bochechas, e fechou os olhos, imaginando-se dentro de um lindo e pomposo vestido feito com ela.
— Acho que poderíamos fazer um vestido em camadas! – exclamou Clio, batendo palminhas animadas. – Uma cauda quilométrica aplicações de flores artificiais! Ou pérolas! Eu sei que você adora pérolas, Aishinha querida!
— Eu mal posso esperar para vê-la surtando e nos enlouquecendo quando for a sua vez de se casar. – zombou a amiga, devolvendo o tecido para a grega, sorrindo simplesmente. – Eu deixo meu vestido nas mãos habilidosas de Verona e com a sua criatividade! Só peço para que não se inspire muito no exagero das francesas! Eu prefiro algo mais simples!
— Fique tranquila, Aisha! Será o vestido mais lindo da Inglaterra! – garantiu Clio, pulando de um lado para o outro como se estivesse organizando as coisas para sue próprio casamento.
Novamente, Aisha não viu a hora passar e quando finalmente deitou sua cabeça em seu travesseiro para ter seu tão merecido descanso, ela só conseguia pensar em quão animada estava para o dia seguinte chegar, e Verona dar início à confecção de seu vestido.
~
Alcmena caminhava rapidamente pelas ruas de Estocolmo, devidamente trajada com um vestido neutro e uma capa rosa-chá, com a cabeça coberta por um chapéu simples, finalizando com as mãos enluvadas, por conta do frio que ainda se fazia na capital da Suécia.
Chegou ao hotel onde se hospedava, no centro da cidade, e dirigiu-se ao balcão de entrada, distraída com as luvas que ajeitava. Parou a frente do balcão de madeira maciça e saudou o senhor que lá estava, pronto para atende-la.
— Senhora Johansson! – cumprimentou o velho recepcionista, fazendo uma mesura educada. – Um senhor Albafica Solveig chegou acompanhado de outro homem que preferiu não se identificar.
— Onde eles me aguardam, senhor? – volveu ela, retirando as luvas e a capa, entregando seus pertences à um jovem mordomo que viera até si, pronto para atende-la.
— Eu pedi que a aguardassem na sala de música, senhora. – o recepcionista a encarou, esperando por novas diretrizes, enquanto ela simplesmente retirava seu chapéu decorado com rosas vermelhas, brancas e cor-de-rosa, entregando-o ao mesmo mordomo, ajeitando alguns fios que caíram do coque complicado e formal.
— Leve minhas coisas para o quarto, depois, por favor, precisarei de vodca e um copo. – sentenciou a mulher, dando as costas ao homem, indo diretamente para a sala de música, praticamente vazia, não fosse dois distintos cavaleiros sentados próximos ao piano.
Alcmena respirou fundo, ajeitou os cabelos, a saia de seu simples vestido azul-turquesa de gola alta e mangas longas, depois seguiu seu caminho, parando ao lado dos cavalheiros. Educadamente, eles se levantaram e fizeram suas mesuras, cumprimentando-a de forma cordial.
— Milady, — disse o de longos cabelos loiro-acobreados, ostentando um olhar sério e penetrante. – Sou Albafica Solveig, e esse é o senhor Wolfgang Minos Johansson, somos primos do falecido Rugonis. – Minos era um cavalheiro de cabelos acinzentados, quase como seu os fios houvessem desistido de se tingir de negro e agora apenas ficassem no meio
— Eu sempre soube que ele tinha gostos peculiares. – comento o outro, olhando a mulher de cima a baixo. – Você não é nada parecida com as vagabundas com quem ele costumava sair!
— Talvez por que eu tenha um cérebro funcional, o que o senhor claramente não possui, por isso vou perdoar a falta de respeito. – ditou a ruiva, fixando um olhar mortal no cavalheiro. – Por favor, sentem-se.
E tomaram assento ao redor de uma mesinha de madeira polida, ficando os três em roda, para que pudessem olhar-se mutuamente sem distinção. Minos, agora calado, não pode deixar de notar que a madame parecia desconfortável, mesmo passando a impressão de autoridade.
— Senhora Johansson, — Albafica retomou o comando da conversa, sempre educado e polido. – na carta que nos enviou, a senhora apenas disse que precisava se reunir conosco, mas não disse nada além disso! O que poderíamos fazer pela senhora?
— Senhor Albafica, — Mena mantinha as mãos sobre seu colo, gesticulando se maneira contida. – eu não me estendi muito em minhas cartas, pois temia que ela pudesse ser interceptada e, de maneira alguma, desejo que meus assuntos sejam bisbilhotados.
— É esse o problema, senhora? – Minos intrometeu-se, agora interessado em cumprir a etiqueta. – Alguém está lhe perseguindo.
— Na verdade, essa pessoa persegue à minha afilhada. – explicou-se a grega, respirando fundo. – Rugonis, que descanse em paz, tinha uma alma abençoada por Deus e dotada de uma gentileza que não cabia em si... Infelizmente, com isso, ele acabou nos envolvendo em um problema enorme.
Detalhadamente, a Presidente e dona da Johansson Exportador contou toda a história do resgate de Aisha, a Odisseia para mantê-la escondida e todos os problemas que aquele ato de bondade haviam trazido para a família, porém, em nenhum momento ela pareceu arrependida. Na verdade, os cavalheiros notavam que ela falava da amiga com carinho e respeito, além de alívio ao saber que Fyodor não mais a maltrataria.
— Entendam, senhores, o noivado de Milenka com Dégel é mais do que uma benção, porém, meus detetives informaram que o maldito Conde está no seguindo de perto, e, pelo bem da minha família, eu gostaria de contratar seus serviços. – finalizou ela, encarando-os de forma penetrante.
— Seja mais específica. – pediu Mino, aprumando-se na cadeira.
— Eu gostaria de contratá-los como guarda-costas. Quero proteção total para mim e minhas queridas prima e amiga. Temo que com o casamento de Aisha tudo apenas piore e não vou arriscar perder tudo para Fyodor. – explicou Alcmena, piscando os olhos castanhos lentamente, entreabrindo os lábios avermelhados e respirando mais devagar, tudo para seduzir um deles. Qual foi sua surpresa ao descobrir que havia pegado Minos em sua rede!
— Milady, pode contar com nossos serviços, necessitamos apenas combinar o pagamento. – o de cabelos cinza se adiantou, recebendo um olhar peculiar de Albafica. – Podemos trabalhar à distância, seria melhor assim?
— Não será necessário! – sorriu Mena, sorrindo levemente. – Como possuímos laços, creio que será muito mais proveitoso que se instalem em minha casa e participem do casamento! Assim não criarão nenhuma suspeita!
— Realmente, se o tal Fyodor está lhes vigiando como imagina, é melhor permanecermos bem perto. – concordou Albafica, pensativo. – Acha 2.000 libras um preço justo, milady?
— Para cada? – risonha, ela entendeu a mão para o ruivo. – Senhor, nosso negócio está fechado. – Albafica aceitou a mão e selou o acordo, com a aprovação do primo. – Mandarei que meus advogados preparem um contrato, quando chegarem à minha casa, terei os documentos preparados e metade do pagamento em mãos. Receberão a outra metade quando Aisha estiver casada.
— Justo. – concordou Minos, novamente avaliando a senhora, ao passo que ela se levantou.
— Agradeço pela paciência e disponibilidade dos senhores, e peço que, por favor, nossa contratação fique apenas entre nós. Não desejo que ninguém além de Dégel saiba que serão pagos para nos proteger. – pediu ela, olhando de um para outro.
— Estamos combinados. – garantiu Albafica. – Seremos apenas seus parentes, indo visita-la para o casamento.
— Perfeito! – sorriu a ruiva. – Agora, se puderem me perdoar, o dia foi deveras cansativo e preciso descansar.
— Vamos preparar tudo para a partida, senhora Johansson, partiremos assim que for conveniente à ti. – sentenciou Solveig, beijando a mão da grega em despedida, ato repetido por Wolfgang.
— Não me demorarei muito mais. – Mena garantiu, certa de que seu pedido final ao correspondente em Estocolmo chegasse ainda naquela noite. – Agora, se me permitem, irei me recolher. Tenham uma boa noite!
— Uma boa noite, senhora. – desejou Albafica, sorrindo.
Minos apenas observou quando a mulher os deixou, caminhando placidamente até o hall de entrada, onde subiu as enormes escadarias até seu quarto, provavelmente um dos mais luxuosos de todo aquele palacete. Pensou em ir atrás dela colocá-la em seu lugar por tentar seduzi-lo com aquelas piscadas lentas e inocentes, mas se conteve, teria algum tempo para mostrar que não estava naquilo apenas pelo dinheiro, e sim pelo prazer de dar o troco!
Em seu quarto, depois de se preparar para dormir e pentear seus cabelos, a grega se deitou na enorme cama de casal, abraçando o travesseiro extra, fingindo ser ele o seu Rugonis.
— Querido, desculpe! Pense por esse lado, ao menos eu consegui ajuda! – murmurou ela, tentando direcionar o discurso à alma do marido falecido, justificando suas ações vulgares. – Eu imagino como estará Aisha... Clio deve estar enchendo-lhe a cabeça com o vestido!
E, passou mais alguns minutos conversando com o nada, até que adormeceu sob as cobertas, aproveitando o frio que o fim do inverno trazia à Estocolmo.
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