O Homem conta sua jornada pelo deserto à procura de outro homem, a quem Brown conhecia bem, o Pistoleiro. Ele conta sobre como o perseguiu implacavelmente até Tull, onde um jogo de gato e rato fora travado. O Pistoleiro tinha feito aliados que o protegiam de Walter, que por sua vez também tinha os seus. O Pistoleiro se escondera na pensão da mulher chamada Allie. Walter se hospedara na casa de uma pregadora do Homem Jesus chamada Sylvia Pittston e começara a pregar ao povo de Tull sua doutrina malévola, tornando o Pistoleiro o inimigo público n° 1 dos cidadãos de Tull. Não demorara muito até o confronto estourar: Os cidadãos invadiram a pensão de Allie a procura do Pistoleiro e como não o encontraram a fizeram de refém. O Pistoleiro, que estava em algum lugar desconhecido soubera e fora imediatamente até onde a aglomeração dos lacaios acidentais de Walter levaram sua aliada e amante. Lá de forma brava ele enfrentou a multidão liderada por Sylvia Pittston e armada com foices, facas de uso doméstico, brifas (espécies de estilingues curvos) que as crianças usavam para acertar pombos em suas brincadeiras e pedras.
“Não foi um desafio muito grande para o Pistoleiro”, Walter acrescentou com uma risada. Ele realmente parecia estar se divertindo contando que o Pistoleiro matou todos os seus opositores, dentre os quais Papa Doc.
– Mas a que custo? O custo da vida de Allie e dos outros que o apoiavam. Hahahahahaha! A cidade toda morreu nesse confronto. Até a crianças que tentaram acertá-lo com sus brifas ele matou. Terrível não? E pensar que esse homem se hospedou aqui antes de mim.
Brown ficou estupefato quando Walter terminou de falar. Não que ele não soubesse o que dizer; ele sabia exatamente o que falar, mas ainda estava digerindo tudo. O que o horrorizou particularmente não foi o que ele disse, afinal ele já sabia da história; foi a forma como seu hóspede disse aquelas coisas horríveis. Ele se recompõe o máximo que pode, se levanta e fals:
– Quero você fora da minha casa agora! SAIA! AGORA!
A face do Homem se torna como antes, rígida. Ele fala apenas quatro palavras:
– Cale-se e sente-se aí.
Brown se cala e se senta. O Homem fala:
– Viu como é fácil fazer você obedecer? Eu posso ser extremamente persuasivo quando quero.
Brown continua calado sem saber o que fazer. Começa rogar para os deuses em sua mente.
– Agora que toda essa merda de apresentação já passou, vamos ao que realmente importa. O Pistoleiro esteve aqui. Eu sei e você sabe. Provavelmente o recebeu com mais simpatia que a mim – Ao dizer isso ele sorri – e não posso culpa-lo, é claro. Mas não deveria ter sido tão bom com o Pistoleiro. A culpa de tudo estar acontecendo com você é dele, veja bem. Ele traz a morte a todos a sua volta. Ele é o que há de errado nesse mundo. Quer discordar?
Brown continua calado.
– Foi o que pensei. Agora tenho que castigá-lo Brown. Espero que entenda. Tenho que puni-lo de alguma forma. Mas como?
Ele se aproxima com curiosidade para a gaiola de Zoltan, e o tira dela. O corvo começa a crocitar e a balançar as asas mas suas patas permanecem perfeitamente imóveis sobre o braço esquerdo de Walter.
– É um belo animal. Eu tenho um fraco por corvos, admito. É sua penugem negra e toda a mística envolvendo eles, eu acho. Brown, pode falar. O que acha que farei com esse corvo?
Brown sente-se aliviado por poder falar. Ele diz:
– Vai se foder, Walter. Você vem há minha casa e eu o recebo com mesuras, lhe dou comida e agasalho. Agora você quer me punir pelo quê, por ser um anfitrião para todos os loucos que se aventuram por esse deserto? Vá se foder, eu digo.
–Você não é inocente como diz ser. Eu vejo dentro de você Brown. Vejo adiante da escuridão, caso o contrário não teria chegado até sua cabana com tanta rapidez. Mas eu também vejo a escuridão em tudo e todos. É como uma bolinha preta que mancha sua camisa bem onde fica seu coração. Se você alimenta ela, ela cresce. E eu já vi pessoas com essa escuridão maior que o próprio corpo, como um sol escuro sugando toda a energia ao redor. E a sua não é tão pequena como você quer que eu acredite. Eu sei o que o levou a vir para esse deserto longínquo. Fugindo dos demônios da sociedade, Brown?
Brown nada diz.
– O Pistoleiro é uma dessas pessoas. Ele é um sol escuro como a escuridão que cerca essa cabana. Ele veio a sua casa e você o recebeu com mesuras, deu comida e um agasalho e por isso vou te punir. Zoltan, querido, como está faminto!
– Fome! – Zoltan esbraveja.
– Não alimenta seu corvo a quanto tempo Brown? – Depois de alguns segundos em silêncio ele profere a sentença — Vá, corvo, alimente-se de seu dono enquanto ele luta para se alimentar de você.
O corvo voa em direção ao olho direto de Brown e o estraçalha. Brown grita. É um som horrível que diverte Walter. Zoltan tenta bicar o olho esquerdo de Brown mas ele o segura e lança contra a parede repetida vezes. Ele quebra as asa de Zoltan e sua coluna. Após isso ele enfia o corvo ainda vivo, ou melhor, semivivo na boca e morde. Sangue escorre de sua boca. Continua mastigando e engolindo o corvo quando Walter fala:
– Acho que já pagou o bastante, Brown. Chega.
Brown para e dá um grito ainda mais apavorante que seu último. Diante disso o Homem coloca três moedas em cima da mesa. – Pela inconveniência de minha vinda à essa hora da noite. Adeus Brown, árvore de chariou!
Walter mete a mão na poça de sangue formada após Brown soltar o corpo semi consumido de de Zoltan. Depois sai da cabana deixando Brown com seus gritos. Sai pela porta do fundo, provavelmente por onde o Pistoleiro saiu a não muito tempo. Walter olha então para a parede traseira da casa. “Um bom quadro”, ele pensa, e começa a desenhar. O sangue em sua mão é pouco, mas pouco importa afinal. Ele é um mago. No fim o desenho fica perfeito. O símbolo que não deixaria Roland dormir quando olhasse para trás para verificar a cabana de seu recente anfitrião com seus olhos de falcão, ou melhor, de pistoleiro. O símbolo que o lembraria do verdadeiro sol negro.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.
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