O Piano

1 O Piano


Que eu sempre havia sido uma pessoa da música, ninguém negava. Sempre gostei de cantar e sempre me dispus a aprender diversos instrumentos musicais. Até que um dia eu ganhei um piano do meu vizinho, que também era músico e me desafiou a aprendê-lo.

Mas não era um piano qualquer.

“Veja, este é o instrumento mais difícil de ser tocado no mundo.”

Como difícil? Ri com escárnio. Eu, que já tinha estudado piano, não vi porque tanto auê diante daquele instrumento simples de quatro oitavas. Não era muito diferente do meu sintetizador eletrônico, eu poderia tocá-lo sem problemas.

O som daquele meu piano novo, eu não podia negar, era magnífico. Como meus dedos deslizavam sobre aquelas teclas, era algo divino. Larguei-me de todos os outros instrumentos e passei a reproduzir minhas músicas somente naquele piano. Era uma paixão descontrolada. Não havia outro igual no mundo. Os pianos daquela marca, cada um deles, tinha seu som específico. Mas o som daquele que me pertencia era inigualável, indiscutivelmente o mais belo.

Certo dia, porém, algo estranho aconteceu. Sempre que eu tocava Dó no piano, ele tocava Ré, e sempre que eu tocava Ré, ele tocava Fá. Abri o moço, procurei por algum defeito. Nada. Cheguei até a trocar as teclas de lugar (questões inexplicáveis requerem soluções estúpidas!).

Não adiantou.

Mas eu não ia me dar por vencido. Nenhum instrumento tinha o som como aquele. Se eu não poderia consertá-lo, fiz o que me restava: me adaptei. Reaprendi minhas músicas de forma a tocar Dó onde era Ré, e Ré onde era Fá.

No meio de um dos meus treinos porém, quando achei que estava me aperfeiçoando naquela maneira errada de tocar, outra coisa estressante aconteceu. As teclas haviam se separado numa distância que eu já não conseguia alcançar duas teclas ao mesmo tempo com os dedos. Como se já não bastasse minhas mãos de tamanho desavantajado, agora isso.

Tentei espremer as teclas de volta pro lugar, mas elas não se moviam. Fiquei com raiva, quis botar força, mas fiquei com medo de que quebrasse. O jeito seria eu conseguir tocar as teclas suficientemente rápido, pra que dessa a impressão de que eu as estava tocando ao mesmo tempo. E então treinei pra que eu conseguisse fazer isso.

Mas antes que eu pudesse me aperfeiçoar naquela nova maneira errada de tocar, outra coisa aconteceu. As teclas ficaram duras. Eu precisava apertá-las com força demais pra conseguir fazer o som sair. Dessa vez, não só estava difícil de me adaptar, mas como meus dedos estavam machucados de tocar.

Mas o som era bonito demais pra eu desistir daquele piano. Meus dedos estavam doloridos, mas meus ouvidos cantavam de alegria. Valia a pena. E por mais um tempo toquei daquele jeito mesmo. Até que minha mão travou. E eu não conseguia mais mexer os dedos.

Tentei tocar com a mão travada. Impossível. Tentei de novo. Nada. Eu me irritei e bati com força sobre o piano. Uma rachadura apareceu. Meu sangue jorrou. Eu quis chorar de culpa. O remorso por eu ter machucado algo que me havia dado tanto prazer veio como uma bala. Passei o resto da noite tentando tocá-lo com minhas mãos machucadas, sem realmente produzir aquele som como ele era antes.

Nunca mais eu consegui tocar a mesma música que eu toquei naquele piano. E cada dia ele se transformava mais e ficava mais difícil. Comecei a me culpar por me sentir incapaz. Eu me deparava com um instrumento que eu não conseguia aprender, não importava o quanto eu me dedicasse.

Passava o tempo. Eu sentava em frente ao piano de vez em quando, pra tentar ouvir aquele som de novo. Eu já não conseguia nem mesmo identificar as notas de cada tecla. Já estava tudo completamente diferente do que era da última vez que eu havia tentado.

Mais fácil ou mais difícil?

Não tentei saber.

Os tempos de quando eu conseguia tocá-lo nunca saíram da minha memória. Eu também nunca parei de ir visitá-lo no quartinho que o deixei guardado. Só pra dar uma olhada por cima. Ver que aquilo tinha sido real, que eu realmente fui capaz de reproduzir músicas nele um dia.

A esperança de apertar um Dó e sair um Dó ou, pelo menos, Ré, nunca morreu.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!