O Peso do Silêncio
1 O Peso do Silêncio
Quando completou quinze anos, Ben proferiu as palavras proibidas pela primeira vez. Disse-as para si mesmo, e elas saíram de forma inevitável, carregadas de um sentido sombrio e sem esperanças.
Ele as guardou pelo tempo que pôde — ninguém mereceria ouvir os horrores que circundavam aquelas palavras —, sentindo-as quebrarem seus ossos e queimarem seu sangue. Mas elas eram muito pesadas, e, com o tempo, escaparam.
Seus pais foram os primeiros a escutá-las, e Ben conseguia lembrar-se de como suas faces vestiram o pânico e foram tomadas por uma onda de medo absurdo no momento em que as assimilaram.
“Não diga isso novamente, entendeu?”, ordenou a mãe.
“Onde já se viu, você não pensa na gente?”, indagou o pai.
E Ben foi obrigado a engolir as malditas palavras outra vez.
Mas não as manteve por muito tempo; logo foi inebriado pela necessidade de retirar os termos de seu sistema. Exprimi-los aos seus pais estava fora de cogitação — não depois de eles fingirem, nos dias seguintes, que Ben nunca havia proferido os infortúnios.
Recitou-os então aos seus amigos, e eles o marcaram como o garoto que trazia calamidade em suas palavras: a febre nefasta que elas causaram os afastou daquele jovem amaldiçoado, pois um único sussurro do que Ben escondia fazia o ânimo virar luto, a risada tornar-se lamúria e a vontade dar lugar ao esmorecimento.
Foram longos dias de dores escusas até o garoto encontrar Victoria, a jovem dos alongados cachos negros que — por acaso — estudava na sala ao lado à sua. Ela lhe apresentou uma distração para a angústia; suas palavras soavam como uma hipnose perfeita para os demônios de Ben, que se aquietavam e sossegavam em seu interior: sem mais murmúrios trazendo dor e desgraça.
Victoria era como um presente divino, a grande estrela dourada que iluminava o seu céu de azeviche, e o sinal de luz que a garota carregava trouxe a Ben uma esperança para libertar as palavras que guardava há tanto tempo.
“Ela está pronta para ouvi-las”, pensava. “E não vai fugir como os meus pais, ou meus amigos: vai ouvi-las, entendê-las, achar um jeito de expurgá-las de mim.”
E naquela noite silenciosa, ambos sentados sob a TV desligada, Ben estava inquieto.
— O que foi? — perguntou Victoria, brincando com um de seus cachos.
Ben encarou aqueles grandes olhos negros, mergulhado na ignorância em achar que voltaria a vê-los, e sorriu, pela primeira vez em muito tempo, antes de falar as palavras.
No momento em que enunciou a última, desejou que nunca o tivesse feito. Victoria arregalou os olhos, entreabriu a boca, prendeu a respiração. Não parecia haver reação que exprimisse o que ela sentia sob a força do que acabara de ser dito.
Levantou-se, pronta para partir, e Ben, já sentindo as primeiras lágrimas molharem o seu rosto, perguntou se o peso daquelas palavras era tão insuportável a ponto de fazer com que a distância entre eles se tornasse uma melhor alternativa.
— É pior do que isso, Ben. Não é porque eu terei que conviver com elas — respondeu. — É o fato de que eu não sou capaz de tirá-las de você.
Foi o último golpe antes de o garoto perder de vista os cachos brilhantes, os enormes olhos soturnos e o corpo acolhedor.
A dor danificou a sua mente, tornou-a um terreno infértil no qual a esperança era incapaz de florescer. Ele ouvia o que os outros conseguiam dizer; cada “eu te amo”, “sinto saudades” e “eu estou bem” incendiava a sua consciência. Por que não poderia dizer palavras como aquelas, que faziam brotar paixão em vez de horror?
O tempo passava, zombando de seu estado, transformando seus dias em instantes amargos e fazendo de suas noites eternos ápices de martírio. Nenhuma droga, bebida ou estímulo interrompia as palavras de ecoar em seus pensamentos, um eterno agouro implorando para continuar em seu interior.
Ben visualizou a última solução para o seu mal, e a resposta inelutável fez-se brilhar através de sua mente como uma saída perfeita para uma vida imperfeita. Uma fuga imaculada.
Mas a ideia da fuga fez as palavras soarem mais fortes, vibrantes, ainda mais dolorosas. E Ben finalmente entendeu há quanto tempo escutava cada uma delas em sua cabeça.
Já um homem, e atormentado por um suplício interminável, ele assistiu a todos os anos nos quais as palavras proibidas repetiram-se em sua mente, dia após dia, incansavelmente.
Ben ouvira a todas e pôde suportá-las, não importava o quanto o apunhalassem. Eram tão fortes, e tão resistentes, que conseguir enfrentá-las sem fugir o fez perceber que era tão forte quanto elas.
E, por um longo momento imerso em iluminação, aquilo o ajudou a seguir em frente.
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