O Peso de uma Coroa
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Rainha. Rainha. Rainha.
Não, repetir não está ajudando.
Respirei fundo e andei em direção à janela, talvez um pouco do ar fresco me ajudasse. Observo o jardim abaixo da minha vista com alguns poucos guardas circulando, e lentamente vou me acalmando, apenas ao olhar para o verde da grama e árvores, o colorido por algumas flores nos arbustos, e o banco. Meu banco e de Maxon.
As lembranças me fizeram abrir um discreto sorriso, quando senti mãos envolverem minha cintura por trás. Me preparei para rebater quando um perfume tão característico e conhecido por mim inebriou meus sentidos.
— Você parece menos preocupada agora. — Maxon soprou as palavras ao meu ouvido, me abraçando e depositando o queixo em meu ombro. — Não está planejando um jeito de fugir pela floresta, está?!
— Fugir de você?
— Do seu novo emprego. — ele beijou de leve meu pescoço.
A minha ansiedade e medo em finalmente assumir o cargo, quase conseguiu arruinar os últimos dias da nossa lua de mel. Logo após a coroação, viajamos para a Itália, mas apenas em pensar que estávamos perto de voltar para administrar um país sozinhos, fazia meu coração dar saltos fortes e acelerados e meu estômago revirar de nervoso.
Maxon sabia disso e tentava me acalmar com palavras doces e gestos carinhosos. Ele tentava entender, mas de fato não sabia como era sair da vida de cantora com dinheiro contado para ser Rainha do país. Meu marido havia sido treinado a vida toda para ser Rei. Eu havia sido ensinada a cantar para conseguir o almoço do dia seguinte.
— E o que você está planejando? — desviei o assunto me virando para encará-lo de frente e envolver os braços em torno de seu pescoço.
— Hm, eu? Vamos ver. — Maxon pensou por alguns instantes, olhou por cima do meu ombro para fora e depois em meus olhos. — Estou planejando em como voltaremos escondidos à Itália. Hoje à noite liberarei os guardas das rondas de fora dos nossos quartos e dos jardins, então passaremos por eles, sairemos pela floresta, de lá pegamos um barco e atravessamos o oceano.
— Parece perfeito, mas como sobreviveremos até lá? — questionei entrando na brincadeira.
— Serão apenas alguns dias, nosso amor e a luz solar italiana darão conta. A luz da janela, eu quero dizer, já que não te deixarei sair do quarto. — joguei minha cabeça para trás, gargalhei e ele me acompanhou.
— E essa requisição real é tão importante assim?
— Totalmente. — Maxon se inclinou minha direção. — Segunda lua de mel é de importância extrema e indispensável para o bom humor da Rainha e do Rei de Illéa. — então ele encostou suavemente os lábios nos meus, mas por não mais de três segundos, pois logo ouvimos um pigarreio vindo da entrada da sala.
— Perdão, vossas Altezas. Quer dizer, Majestades. — o guarda fez uma reverência desajeitada, claramente constrangido. — Eu não pretendia incomodar.
— Ou podemos cancelar nossa viagem e passar o dia em reuniões e assembleias. — Maxon cochichou desgostoso ao meu ouvido e não pude evitar uma risadinha. — Sem problemas Ernie. — ele completou mudando completamente o humor e falando simpático ao guarda. Eu precisava mesmo aprender aquilo de ser sempre gentil e saber o nome de todas as pessoas que me serviam.
— O senhor... — Ernie consultou um papel em sua mão. — ...Augustus Manning está aqui para vê-lo.
Maxon fez sinal para que o homem entrasse. O nome não me era estranho, e agora ao ver a imponente figura adentrar o cômodo o reconheci na hora. O cabelo em corte militar, o terno alinhadíssimo e a cara de poucos amigos: ele era um dos conselheiros do rei Clarkson, talvez o principal, e agora também era conselheiro de Maxon.
— As pessoas já esperam Vossas Majestades no salão do trono. A sessão de julgamentos está para se iniciar.
Olhei para Maxon com os olhos arregalados. Eu não era boa em julgar. Se eu fosse fazer algo do tipo para viver, a maioria dos prisioneiros sairia no máximo com serviço comunitário ou algo do tipo. A única vez que tentei fazer algo assim, foi na Seleção. Eram apenas algumas palavras decoradas, e todos no reino ainda lembram como no final acabei por dar joias reais a um inimigo de Rei e conseguir a eterna inimizade do mesmo. Talvez isso se devesse ao meu conhecimento de como as coisas poderiam ser ruins fora dos muros do palácio.
— Não se preocupe, é mais uma de nossas tradições. Assim que assumimos o reino e o casamento, devemos julgar algumas causas.
— Posso não ser boa nisso Maxon. — confessei baixinho.
— Você é justa e inteligente. Confio em você. — ele fez um carinho em minha bochecha antes de me levar pela mão em direção à porta.
— Talvez deva lembrar sua rainha de recolocar a coroa. Majestade. — Manning falou crítico para Maxon, mas com o olhar fixo em mim.
Pela primeira vez olhei diretamente em seus olhos, que era de uma negritude intensa assim como seu cabelo curto, e contrastava totalmente com sua pele alva. Engoli seco e me encolhi instintivamente, percebendo em como ele deve ter chegado àquela posição no reino. Se sua espada fosse tão matadora como seu olhar...
Ótima hora para tirar a coroa, America, ótima!
— Talvez eu deva lembrá-lo que ela também é sua Rainha. Exijo um pedido de desculpas agora mesmo. — o homem voltou o olhar para meu marido, a raiva faiscando no meio à íris preta.
— Maxon, não... — tentei intervir, mas ele apenas apertou de leve minha mão.
— Majestade Real America Singer-Schreave. — Manning abriu o sorriso mais falso que eu já tinha visto. — Perdão se disse algo que a ofendeu, não foi minha intenção. — ele fez uma reverência.
— Está liberado. Encontro você em alguns minutos.
Depois que ele saiu a passos firmes nos deixando novamente sozinhos, me voltei para Maxon, que tinha o rosto livre de toda tensão anterior, já começando a exibir um sorriso enquanto caminhava até a sua mesa e pegava a coroa que deixei lá assim que entrei.
— Não precisava fazer isso com o cara.
— Ok, primeira lição: rainhas não falam “cara”, se referindo a pessoas do sexo masculino. — ele fez sinal de aspas com os dedos. — Segundo: jamais permitiria que Augustus Manning te rebaixe de algum modo, e você deve fazer o mesmo. E também, ele ficou louco com meus planos de dissolver as castas e por eu ter me casado com uma cinco, então não posso perder uma oportunidade sequer de irritá-lo.
— Que coisa infantil, senhor Rei.
— Ele me chamou de iludido, aventureiro e sonhador no dia que meus pais morreram enquanto achava que eu estava quase morrendo também, completando com a frase: “Se ele foi incapaz de lidar com 35 garotas, imaginem um país inteiro!” Definitivamente, não estou sendo infantil.
— E por que manter uma pessoa assim como seu braço direito? — ele riu.
— Mantenha seus amigos perto... — ...e seus inimigos mais perto. Completei mentalmente a frase, atestando a inteligência de Maxon. Manning distante do castelo poderia arrumar mais confusão do que qualquer uma já enfrentada. Uma demissão por vingança seria imprudência, e execuções nem passavam pela cabeça do Rei. — Além do mais, você é meu braço direito minha Rainha. — ele beijou a ponta do meu nariz, antes de recolocar a coroa em minha cabeça. — Pronta pro seu novo emprego?
— Com você sim, meu Rei.
Caminhamos juntos de mãos dadas recebendo reverências de todos pelo percurso, até chegarmos aos tronos, onde ajustei meu longo vestido cor de pérola e me sentei, Maxon fazendo o mesmo. Uma considerável plateia ficou silente nos observando.
— Taylor Fenwick, capturado durante o brutal ataque ao castelo de algumas semanas atrás. Reverencie Vossas Majestades Reais. — o emissário anunciou.
Um homem maltrapilho foi jogado ao chão diante de nós, e nem sequer erguia o rosto. Ele estava muito magro e parecia ter passado na cadeia todo o tempo que estive em lua de mel.
— O que tem a dizer em sua defesa? — Maxon começou. O homem continuou calado. — Nenhuma palavra que não me faça te condenar à prisão perpétua? — mais silêncio. — Tudo bem, podem levá-lo.
Aquilo foi doloroso e pude notar que Maxon sentia o mesmo. Por pior que tenha sido o crime, ninguém merecia deixar sua família sem provedor e passar o resto da vida trancafiado entre paredes frias de pedra. Talvez meu pensamento sobre isso mudasse com os anos, mas por enquanto não.
A sequência dos julgamentos não foi melhor. Ao contrário de quando eu e outras meninas da Seleção tivemos que apenas dar algumas sentenças para pessoas culpadas apenas por discordar do Rei, na ocasião atual, todos realmente tinham cometido algum crime sujeito à condenação. Entre os calados, os dramáticos, os escandalosos e os violentos, nenhum tinha argumentos que os inocentassem no fim das contas.
— Por que não deixamos a Rainha America decidir o próximo? — Manning sugeriu, e aquilo arrepiou minha espinha. Mas minha primeira verdadeira ação como Rainha não seria recuar.
— Podem deixar entrar o próximo. — falei tentando manter minha voz firme, então encontrei meus olhos com os castanhos de Maxon, que me lançava um olhar perguntando se eu tinha certeza daquilo. Confirmei com a cabeça.
— Joel Cromwell, capturado durante o brutal ataque ao castelo de algumas semanas atrás. Reverencie Vossas Majestades Reais.
Dessa vez o prisioneiro era diferente. Ainda estava desnutrido e com as roupas rasgadas assim como os outros, mas ainda parecia um garoto.
— O que você... O que você tem a dizer em sua defesa? — engasguei um pouco a falar aquilo.
— Nada Majestade, eu sou culpado. Disparei vários tiros e acabei matando um guarda no processo. Não é algo que eu me orgulhe, mas já está feito.
Pisquei várias vezes vendo os olhos verdes do garoto se encherem de lágrimas, demonstrando um arrependimento visível. Olhos como os de Aspen. Aquele poderia ser muito bem qualquer um de seus irmãos, ou até mesmo o próprio, alguns anos atrás.
Por que essas coisas continuam acontecendo comigo?
— Emita a sentença Rainha, ele acabou de confessar. — Manning falou e pude notar uma risada tentando escapar de seus lábios.
— Por que não se orgulha? — questionei ao menino e vi Maxon se remexer desconfortável em seu trono. Algumas pessoas da plateia se olhavam e conversam me observando com curiosidade. Joel também levantou o rosto surpreso com a pergunta.
— Fiz o que tinha que fazer para manter minha família protegida e alimentada. — passei a mão na testa em um gesto impaciente e cocei um ponto imaginário em meu pescoço.
— Não posso condená-lo. — sussurrei para Maxon. Ele me olhou preocupado de volta e se apoiou no encosto do braço do próprio trono para chegar mais perto.
— Você precisa. Ele acabou de confessar que matou uma pessoa diante de dezenas de pessoas! Um dos nossos guardas!
— Ele estava protegendo a família de Deus sabe o que... De um jeito torto, mas estava.
— E se o guarda fosse Aspen? Ou se algum dos tiros me atingisse? — agora Maxon tocou no meu ponto fraco. Pior que ver pessoas sofrerem, era ver pessoas que eu amava sofrerem.
— Tempo! — falei elevando minha voz.
— O que Majestade? — Manning perguntou. — A senhora quer "um tempo"? — Ok, talvez esse não tenha sido o melhor jeito de pedir um minuto a mais.
— Preciso de alguns minutos para deliberar essa decisão junto com o Rei e nossos conselheiros reais. — olhei para Maxon que confirmou com a cabeça.
— Passamos a manhã em julgamentos, retornaremos em uma hora com a sentença do jovem e a continuação do nosso dia. Agradecemos a presença e paciência de todos. — ele se levantou e tomou minha mão, me guiando para uma das salas de reunião do andar de baixo, sendo seguidos por uma fila de conselheiros barulhentos.
— Com todo respeito, mas o que Vossa Majestade pensa estar fazendo? — Manning falou alto assim que fechamos a porta.
— Não podemos condenar aquele ca... — suprimi a palavra que Maxon que recomendou que não usasse. — ...aquele rapaz. Ele é apenas uma criança, não pode ser condenado pelo resto da vida por algo que fez sem pensar. Ele nem tem idade para saber realmente o que quer, ou como proceder.
— Ele tem 17 anos, que até onde sei, é também sua idade Majestade.
O silêncio de instalou na sala e eu podia sentir o olhar dos mais de dez conselheiros queimando sobre mim. Para variar, eu tinha metido os pés pelas mãos e agora estava sem saída e sem nenhum argumento.
Era fato, eu não servia para esse cargo, eu não merecia essa coroa. Eu casei com Maxon por Maxon e não pela responsabilidade de decidir sobre a vida de pessoas que eu nem conhecia a história ou as dificuldades. Eu nunca teria a graça, humildade, sabedoria e doçura da rainha Amberly.
E no final das contas, mais ferrada que eu, estava o Rei, com uma companheira desse nível ao seu lado.
— O que a senhora propõe, minha Rainha? — um dos conselheiros mais idosos, acho que Melton era o nome, que estava afastado atrás dos outros falou, dando alguns passos à frente. — Estamos entrando em um novo reinado, um novo sistema. Se há um momento de mudar algumas coisas em nossa lei, é agora.
— Você tem alguma sugestão America? — pensei por alguns segundos, então uma leitura antiga clareou em minha mente.
— Sim, meu Rei. As sentenças não precisam ser únicas para os mesmos crimes. Julgamentos podem ser feitos, testemunhas convocadas, advogados particulares ou pagos pelo Estado serão acionados. A sentença pode variar de acordo com idade, fatores atenuantes ou reincidência. Esse sistema jurídico funcionava muito bem no passado e pode voltar, com os casos sendo decididos por juízes aptos e não apenas por mim, por você ou por esses conselheiros aqui presentes. Os tribunais podem ser espalhados por todo o país, tudo seria resolvido mais rápido e ninguém precisaria esperar o Rei a e Rainha voltarem da lua de mel para saber sua pena.
Todos na sala me encararam atentos. Alguns balançavam a cabeça em revolta, outros em aprovação, a maioria em dúvida ou ponderando o que eu havia dito. Quando olhei para Maxon, ele me lançava um sorriso orgulhoso, um dos mais lindos que eu já tinha visto, igualando-se apenas com o que ele mostrou na primeira noite que acordamos juntos na Itália.
— Isso é um desperdício de tempo e dinheiro!
— Quieto Augustus! — Maxon se impôs. — Sirvam alimentos para todos os presentes e recolham os prisioneiros. Ah, e deem mais comida e algumas roupas para eles, pelo amor de Deus, são pessoas! Vamos analisar, planejar e iniciar o sistema proposto por nossa Rainha o quanto antes. Estão todos dispensados, com exceção de Jeffrey Melton e Augustus Manning. — todos saíram, deixando apenas nós quatro no local.
— O que você está fazendo? — perguntei baixinho.
— Aguarde. — ele sussurrou ao meu ouvido. — Melton, você acaba de ser nomeado o chefe do Conselho Real, ocupando o lugar do senhor Manning aqui presente. — Augustus abriu a boca para protestar, mas Maxon continuou. — Não, se preocupe, você ainda terá uma função aqui no palácio. Procure o senhor Aspen Leger, um dos guardas, que ele lhe dará algum trabalho. Por enquanto é só.
Quando ambos saíram, ainda meio surpresos com a notícia das mudanças dos cargos e com o humor totalmente opostos um do outro, olhei para Maxon que sentava-se calmamente em sua mesa começando a ler alguns papeis que estavam ali dispostos.
— Uau, isso foi uma jogada perigosa. Manning é poderoso. — apoiei-me na mesa ao lado de onde ele estava.
— Por isso o mandei para junto de Aspen. Seu amigo é de minha confiança e sabe controlar um revoltado, vamos ficar bem. Além disso, ninguém ofende minha Rainha. — eu ri. — Sabe de uma coisa?
— O quê? — Maxon levantou-se ficando frente a frente comigo e apoiando as duas mãos na mesa paralelas à minha cintura.
— Eu nunca senti tanto orgulho de mim mesmo como hoje.
— Prepotente? Imagina... — ironizei.
— Sabe por que, Vossa Majestade Real America Singer-Schreave? — ele mordeu o lábio enquanto aproximava seu rosto do meu. — Eu escolhi a Rainha mais perfeita que Illéa terá notícia. Juntos vamos revolucionar esse país, meu amor.
E ele me beijou.
Foi quando eu soube. Meu pai sempre confiou em mim. Minha mãe, May, Aspen sempre acharam que eu era capaz de algo grande. Mas foi nos braços de Maxon que tive a certeza. Como Rainha, eu poderia fazer mais que sentar e escutar, organizar bailes e festas de caridade. Eu poderia reinar. Ainda sentia medo dessa nova vida, nova ocupação, mas agora eu sabia que era possível fazer algo bom.
Revolucionar, surpreender, emocionar, amar, não apenas pessoas isoladas, mas um povo todo.
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