O Pequeno Dragão
7 Acertos e Desacertos
Notas iniciais
Makai, sábado de manhã
Mukuro se decidia entre calçar o tênis Adidas novo ou o Mizuno, quando ouviu um solo de guitarra vindo do celular, que estava sobre a cômoda. Era uma vídeo-chamada. Pegou o aparelho e logo a imagem do antigo cirurgião do Makai surgiu na tela, curvando brevemente a cabeça para ela. Parecia desconcertado.
— Mukuro-Sama, acabo de falar com o irmão de Kokou. Infelizmente eles não têm nenhum vinho.
— Como assim não têm vinho? — perguntou ela. O irmão de Kokou era o principal distribuidor de bebidas da região e era ele quem fornecia os vinhos para as confraternizações dos patrulheiros.
— Houve um problema com o entregador ontem. Devido à chuva, ele não conseguiu continuar voando e caiu com o todo o estoque ao pé da montanha Wanx.
— Hunf. Por isso que eu não confio nesses youkais com menos de 150 anos, são desastrados e imaturos demais. Que desperdício! — exclamou a comandante, aborrecida.
— Verdade — concordou o outro, suspirando e temendo represálias. — Eu já decidi quem vai preparar a comida e assar as carnes para nós, mas agora há esse impasse dos vinhos... lamento que isso tenha acont-
— Tá, tá — interrompeu ela, fazendo um gesto despreocupado com a mão — é só alguém ir ao Ningenkai comprar.
— Como?! Comprar vinhos feitos por humanos? — Shigure torceu o nariz.
— Que cara é essa, Shigure? Há alguns bons, ora. Ande, anote aí: 25 garrafas doPouilly-Fuissé e 15 daquele Gewürztraminer... — a guerreira olhou para cima e começou a fazer contas mentais, resmungando baixinho. Olhou para o celular de novo e completou, em voz alta: — Mais 15 do whisky Glenmorangie, que não é muito caro, e dois engradados de Rodenbach; essa quantidade deve dar para todo mundo, creio eu. E, para mim, uma garrafa de Junmai e três latas de Pringles sabor Devil Hot. As que mandei Touya trazer do Japão na quinta-feira já acabaram.
O youkai ficou surpreso, mas não disse nada. Não gostava de quase nada oriundo do mundo dos humanos e acreditava que Mukuro estava equivocada quanto à qualidade das tais bebidas. E que bom humor era aquele?
— Quer que eu vá ao Ningenkai agora?
— Quem disse que é você quem vai? Quero que venha para cá, agora. Mande Seizan fazer essas compras. De preferência, cada uma de seu país de origem, por causa dos impostos. Ah, são quatro latas de Pringles e não três!
— Sim, mas por que você quer que eu vá até aí?
— O impasse ocorrido com Hiei me fez perder o sono. Quero me distrair um pouco. Preciso de um parceiro para jogar Call of Duty. AGORA.
— Mas, Mukuro-Sama...
— Sem “mas”, Shigure-san. Até daqui a pouco — e ela encerrou a chamada, voltando a atenção aos tênis.
Sabia que o ex-cirurgião não gostava de jogar e iria contrariado para lá, mas, como eram quase amigos, ele não lhe negaria aquilo.
E, no fim, era só dividir as batatinhas com ele. Aquelas batatas eram perfeitas, irrecusáveis.
Ningenkai, hospital municipal de Shirokane¹
Um Subaru Forester freava bruscamente em frente ao pronto-socorro do hospital de Shirokane. De lá, saíram Shizuru com olheiras e mau humor, Kuwabara também com olheiras, mas se desfazendo em sorrisos para uma Yukina que olhava a tudo curiosa e Botan, nervosa, com Hiei no colo, dormindo. Ela estava bastante apreensiva, com medo de a história inventada deles (de Hiei ser apresentado como um bebê que fora abandonado à porta da casa dos Kuwabara) não convencer. Foi decidido que a loira, por ser mais prática, tomaria a dianteira, enquanto os demais ficariam à espera de Yusuke e Keiko, lá fora.
— Passe Hiei para cá, Botan — pediu Shizuru, azeda. Com ele nos braços, chegou a passos rápidos até à recepção. A funcionária, uma mulher gordinha de meia idade, olhou intrigada para eles.
— Bom dia. Pois não, senhora? — disse a recepcionista.
— Bom dia — respondeu Shizuru. — Este bebê foi abandonado em minha porta na noite passada e parece não estar passando bem.
— Oh... Por favor, aguarde aqui! Vou chamar o enfermeiro. — A senhora se levantou com alguma dificuldade da cadeira e foi até a uma sala próxima. — Mitsunari-san, rápido! Um bebê abandonado e doente!
— Dois minutinhos, Hiroyuki-san! — respondeu uma voz grave lá de dentro.
— Mas o Hi... Digo, o garotinho aqui precisa de atendimento para já! — Protestou Shizuru, irada.
— É que Mitsunari-san é o único enfermeiro disponível, senhorita, aguarde! — retrucou a senhora Hiroyuki. Mas, antes que a loira respondesse, um rapaz alto e de cabelos crespos, vestido de branco, veio em direção a eles. “Ele me lembra alguém”, pensou ela.
— Bom dia, senhorita — cumprimentou ele, olhando para ela com expressão curiosa e, em seguida, para Hiei. — Conte-me direito o que houve com essa criancinha. Provavelmente está desidratado e desnutrido, como estão fundos esses olhos! Venha com ele até aqui, por favor! — E ele, com um toque gentil no ombro, guiou a loira para a sala de triagem, ela repetindo a história combinada de que aquele bebê fora deixado em sua porta apenas envolto em um pano sujo.
— Absurdo — disse o jovem, enquanto desenrolava o youkai do xale e o observava. — As pessoas são tão más... Veja que magreza, os lábios estão ressecados. Provavelmente, ele terá de ficar por aqui, senhorita... Como se chama?
— Shizuru Kuwabara — respondeu ela, ainda intrigada com ele, que deitara Hiei adormecido sobre a maca e pegava um estetoscópio.
O rosto do enfermeiro Mitsunari se iluminou.
— Oh, Shizuru Kuwabara? Você tem um único irmão chamado Kazuma, que possui um reiki fortíssimo, adora gatos, curte a banda Megalica e seus melhores amigos são três demônios. É capaz de materializar uma espada de energia que pode cortar dimensões. Ele não é exatamente inteligente, mas estuda bastante e é capaz de carregar quatro pessoas de uma vez.
A moça ficou boquiaberta.
— Como você sabe tudo isso?
Ele ia responder, quando ouviram um clamor de vozes fora da sala. A pobre senhora Hiroyuki dizia "volte por favor, não pode entrar aqui sem permissão, garoto" e um afobado Yusuke irrompeu pela sala adentro, sem pedir licença, sendo seguido pelos amigos.
— Tô nem aí, tia, já entrei nessa bagaça! Mas... — estacou. — Mas é você...
— Yanagisawa-kun! — exclamaram Kuwabara e Botan, alegres.
~
Após a pequena confusão criada pelo descendente de Raizen e as explicações dadas por Yanagisawa, a senhora Hiroyuki se acalmou, depois de colocar quase todos para fora — Kuwabara permanecera com Shizuru. A loira continuava intrigada com o olhar perscrutador do enfermeiro. Seu irmão não percebera e conversava alegre com ele, que ainda tentava examinar Hiei, sem sucesso.
— Que bom te ver, Yana-kun! Rapaz, não sabia que você queria trabalhar com enfermagem!
— Acabei de me formar, Kuwabara-kun — sorriu o jovem, pacientemente. — Aquele Kaito é incrível, tem contatos espalhados por todo o país e conseguiu este emprego para mim aqui. Apesar de ser longe de Mushiyori, é melhor do que eu esperava. Adoro ajudar as pessoas.
— Tá bom, cara, já entendemos — cortou Shizuru, azeda. — Diga logo o que farão com Hi... Com o menininho. Ele precisa de um médico, não? Espero que haja um médico aqui, pois um hospital desses com um único enfermeiro de plantão é o fim.
Kuwabara estranhou a postura hostil de sua irmã, mas Yanagisawa não se intimidou e não deixou de sorrir.
— Shizuru-san, pode ter certeza de que há médicos aqui, sim. Mas eu sou um profissional e tenho plena capacidade de diagnosticar alguma possível doença no bebê. Não encaminhamos nenhuma criança para a pediatria antes da triagem. Fique sossegada, ele está em ótimas mãos.
A loira se levantou da cadeira, furiosa:
— Olha aqui, seu exibido, com quem pensa que está brincando?!
— Shi-chan! O que deu em você? Yana-kun está apenas sendo gentil! — exclamou seu irmão, tentando fazê-la se sentar novamente, mas levou um safanão.
— Kazuma, seu imbecil, esse engraçadinho está tirando com a nossa cara!
Kuwabara ficou ainda mais confuso.
— Você ficou louca, Shizuru?
— E você ficou cego? Olha esse sorrisinho cínico dele!
O enfermeiro não perdeu a calma e acabou interferindo:
— Calma, meus queridos, não é para tanto. Kuwabara-kun, sua irmã está nervosa, não vê? É por causa da tensão de lidar com um bebê que foi deixado em sua porta. Obviamente isso deixaria qualquer pessoa preocupada, não é mesmo, Shizuru-san? — sorriu de novo, deixando a moça ainda mais irada. — Mas lembre-se de que, neste momento, tudo o que este pequenino precisa é de sossego. Em todo caso, nós podemos conversar mais tarde, se assim desejar.
— Nem morta! Vá se ferrar, seu baka! — revidou ela, levantando-se rapidamente e saindo furiosa da sala.
— SHIZURU! — chamou Kazuma, intentando ir atrás dela, mas Yanagisawa o impediu.
— Deixe-a, Kuwabara-kun, ela está passando por um momento delicado — e, ante o olhar espantado do outro, corrigiu rapidamente: — Ela se preocupa com o bem-estar do garotinho. É melhor eu examiná-lo logo.
Então Kuwabara se lembrou de Hiei, que, até aquele momento, continuava dormindo. Yanagisawa verificou a frequência cardíaca, temperatura e glicemia do youkai. Meneou a cabeça.
— Pobre criança! Sofreu mais do que eu imaginei.
~~
Do lado de fora do hospital, Keiko e Botan tentaram impedir Shizuru de ir embora, mas não conseguiram. A loira partiu furiosa a pé, jogando antes a chave do carro para Yusuke.
— Mas o que houve com Shizuru-san? — indagou a koorime.
— Não faço ideia. Melhor tomar cuidado, Yukina-chan, ela é totalmente maluca e seu soco só não dói mais do que o da Keiko aqui — respondeu o descendente de Raizen, levando um safanão da noiva em seguida.
— Você é um insensível mesmo!
— Só disse a verdade! — retrucou ele.
— Gente, por favor, de novo não — interrompeu Botan, mãos massageando as têmporas. — Vamos falar de algo que está me preocupando: vocês têm notícias de Kurama?
— Ué, pensávamos que ele estaria aqui... Parece que seu celular está desligado. Tentamos contatá-lo várias vezes — disse Keiko, enquanto Yusuke colocava as mãos detrás da cabeça e olhava para cima, pensativo. De repente, teve uma ideia:
— Vou lá!
— À casa de Kurama, Yusuke? A essa hora?
— Mas eu preciso saber o que houve com ele, Keiko-chan! De que vai adiantar eu ficar aqui parado?
Botan interveio, tocando o ombro do rapaz.
— Espere, Yusuke-kun. Acabei de me lembrar agora...
— Lembrou de que, Botan? Fala logo! — retrucou ele, impaciente.
— Ele disse que, ao buscar Hiei no Makai, ambos tomaram chuva.
— As chuvas no Makai são muito mais fortes e violentas do que as daqui... E Kurama-san veio com Hiei-san, que sentiu febre nessa madrugada. Pode ser que ele tenha ficado doente também... — completou Yukina. Keiko arregalou os olhos, alarmada, e Yusuke resmungou um palavrão.
— Só vai faltar Kurama-kun adoecer! — exclamou ele, caminhando em direção à moto. — Vou procurá-lo, não me impeçam!
— Mas, Yusuke... — Botan ia tentar convencê-lo a não ir, mas a koorime a interrompeu:
— É o único jeito de termos notícias de Kurama-san. Melhor deixá-lo ir.
A shinigami e Keiko concordaram, a contragosto. Em instantes, Yusuke Urameshi dava a partida na moto, gritava um “assim que puder, mando notícias” e desaparecia de vista. Sua noiva suspirou:
— Ele é muito estouvado. Poderia ter ao menos esperado a consulta de Hiei terminar.
— E, por falar nisso, será que não poderíamos esperar por ele e Kazuma-chan lá dentro? — perguntou Yukina. — É só não fazer barulho, não foi por isso que aquela senhora nos fez sair da recepção?
Botan corou (afinal, parte da culpa pela expulsão fora dela), mas teve que concordar com a menina. Assim, elas entraram e se sentaram em um banco de madeira, procurando não chamar atenção. Caladas, as três pareciam imersas em pensamentos, quando a shinigami recebeu um chamado telepático familiar: Botan!
Revirou os olhos e respondeu da mesma forma: Pois não, Koenma-Sama? Como vão as coisas no Reikai?
Não sei, respondeu ele.
Como não sabe?! Replicou Botan.
Não sabendo, ora! Estou aqui à porta do hospital! Vim resolver algumas pendências com você e Hiei!
A jovem se levantou de chofre e saiu correndo em direção à porta do pronto-socorro, deixando Yukina e Keiko intrigadas.
Continua...
1- Bairro de Minato, distrito de Tokyo.
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