O Pequeno Dragão
5 A chegada de Hiei ao Reikai
Notas iniciais
Reikai, sábado de madrugada
— Ayame, estou de volta! George, diabo, venha cá.... Ei, Thomas e Akira, que anarquia é essa em cima da minha mesa? Estavam jogando baralho em cima dos meus memorandos, seus inúteis?! Vou matar vocês! George, seu estúpido! Quero café, me traga em menos de dois minutos, senão eu te dou uma surra!
— Koenma-Sama voltou! — gritaram os ogros, desesperados. Eram os guardas dos portões do palácio, que resolveram se distrair um pouco na espaçosa mesa do soberano do Reikai.
— Arrumem essa bagunça agora! Que é isso? TEM AMENDOIM EM CIMA DOS MEMORANDOS! Seus... seus... ESTRUPÍCIOS! Vou comer o fígado de vocês como aperitivo! GEORGE! Meu café, seu imprestável, cadê?
— Estou aqui, Koenma-Sama — disse Ayame, se aproximando devagar do príncipe, receosa.
— Vermes inúteis! Voltem aqui! — gritava Koenma, ensandecido, correndo atrás dos ogros.
— Acho que não foi mesmo uma boa ideia trazer Hiei para cá... — suspirou Botan, chamando a atenção de sua companheira de trabalho. Ayame se aproximou, curiosa.
— Bo-chan? Que agitação essa de Koenma-Sama! E quem é esse bebezinho tão pálido?
— Ah... Bom dia, Ay-chan, este é...
— MAS, KOENMA-SAMA, EU JURO QUE NÃO FOI CULPA MINHA!
As duas se viraram para a porta ao ouvir George Saotome passar correndo, em prantos, sendo perseguido por Koenma em sua forma infantil, que jogava coisas nele.
— EU FICO MENOS DE SEIS HORAS FORA E ENCONTRO CARTAS DE BARALHO E AMENDOIM EM CIMA DA MINHA MESA! VOCÊ DEIXOU AQUELES IDIOTAS ENTRAREM AQUI, SEU TRAPIZOMBA!
— Mas eu juro que não vi, Koenma-Sama! — soluçou o ogro. — Eu tinha ido ao terceiro andar guardar as vassouras e os rodos... Dei faxina aqui, pois a sua mesa estava cheia de papeis velhos, revistas em quadrinhos rasgadas, farelos de bolacha no chão, até chiclete grudado embaixo da cadeira!
— ESTÁ INSINUANDO QUE EU SOU PORCO, SEU ESTRUPÍCIO?
— N-Não! Não, senhor! Eu nunca faria uma coisa dessas!
— ENTÃO LIMPE AQUELA BAGUNÇA DA MINHA MESA! E ME TRAGA UM CAFÉ BEM FORTE! AGORA!
— Sim, sim, Koenma-Sama! — disse o pobre ogro, correndo para a cozinha do palácio e pensando em como se vingar dos seus dois colegas de trabalho que o puseram naquela enrascada.
A essas alturas, metade do palácio estava ali, por causa da balbúrdia. Ayame e Botan olhavam a cena desapontadas.
— Esse nosso príncipe não muda mesmo... Mas, então, quem é a criança?
— É o Hiei-kun — disse a shinigami, olhando para ele encantada. Ayame abafou uma exclamação e o tomou no colo com cuidado para não acordá-lo, intrigadíssima.
— Hiei, o youkai que manipula as chamas negras do Makai? Virou criança? Mas como? — perguntou Akira, o ogro que deixara amendoins sobre a mesa de Koenma.
— Ainda não sabemos ao certo, mas parece que foi um ataque que ele sofreu... Koenma-Sama resolveu trazê-lo para cá, para garantir-lhe segurança.
A jovem de cabelos pretos tocou de leve na testa do bebê, notando a ausência do jagan. Botan, ao ver, adiantou-se à pergunta que a outra faria:
— É, ele perdeu o jagan.
— Inacreditável! — exclamou outro dos ogros que estava perto das moças. Botan percebeu que havia um círculo de súditos do Reikai à sua volta, querendo ver Hiei.
— Ayame-san! Melhor ter cuidado! Esse youkai é perigosíssimo! — disse um ogro chamado Tzeng, atrás dela.
— Gente, é só um bebê — respondeu ela, meio sarcástica.
George se aproximou também, depois de conseguir com algum esforço arrumar a mesa do príncipe e lhe dar seu famigerado café.
— É perigoso sim, Ayame-san! Se ele acordar aqui, pode evocar o Ensatsu Kokuryuuha e todos nós vamos morrer!
A moça olhou para o youkai que dormia placidamente em seus braços e olhou de volta para o colega, que tinha conseguido deixar o restante do povo alarmado.
— Dá um tempo, George, é claro que o Hiei não vai fazer isso! — retrucou Botan, aborrecida. Mas era tarde: o povo estava amedrontado.
— Eu tô fora! — gritou o ogro Thomas, gesticulando afoito. — Eu não quero encostar nesse youkai assassino nem se Koenma-Sama me castigar com 500 palmadas no bumbum¹!
— Ei! Foi você que encheu a mesa de Koenma-Sama de farelo de amendoim, não foi? — exclamou George.
— Bah, foi só um ou dois grãozinhos que caíram lá, cara... — desconversou ele.
— Vocês vão acordar Hiei-kun, não podem falar mais baixo? — Botan tentou intervir, já irritada, mas foi ignorada.
— Um ou dois grãozinhos? EU LEVEI DUAS HORAS PARA ARRUMAR AQUELA SALA BAGUNÇADA, VOCÊ E AQUELE CABRITO DO AKIRA VÃO LÁ E BAGUNÇAM TUDO! E, PARA PIORAR, EU APANHO NO LUGAR DE VOCÊS! IDIOTAS! — berrou o ogro, já correndo atrás de Thomas (Akira já tinha corrido assim que George aparecera na porta da sala de Koenma).
— SOCORRO! DESCULPE, DESCULPE, GEORGE-SAN!
— VOCÊ ME PAGA! VOLTE AQUI!
— Que gritaria é essa? — disse Koenma, saindo de sua sala, com raiva, com um smartphone na mão. Os dois ogros saíram correndo:
— SOCORRO!
O príncipe meneou a cabeça, guardando o aparelho no bolso.
— Irresponsáveis. Eu estava quase passando na fase 455 do Candy Crush Saga e eles tiraram minha concentração... Depois eu acerto com eles. E vocês, o que estão fazendo aqui? Vão trabalhar! — ordenou ele aos súditos que permaneciam ali, em sua porta.
— Mas o nosso turno começa às seis! Ainda são 4:30h!
— Então, o que estão caçando aqui?
Ayame tomou a frente e disse ao pequeno:
— Koenma-Sama, o que o senhor fará com Hiei?
Ele deu um tapa na própria testa, exclamando:
— Hiei! É mesmo! Caramba! Me esqueci dele! Botan, faça alguma coisa!
A shinigami olhou bem irritada para ele.
— Koenma-Sama! Foi o senhor mesmo quem nos disse que iria ver como protegeria e cuidaria de Hiei-kun aqui no Reikai, não pode delegar essa tarefa a mim!
Vendo que estava sendo fuzilado pelos olhares de Botan e Ayame, o príncipe deu um sorriso amarelo:
— Éééé... Então, pessoal, ainda não sei como lidar com essa nova situação! Me ajudem a pensar!
O ogro Tzeng se arriscou a dizer:
— Eu ainda estou com medo, esse youkai pode acordar e nos matar com o fogo das trevas!
A balbúrdia aumentou consideravelmente. Os ogros se afastaram e falavam nervosos, todos ao mesmo tempo, enquanto Botan, Ayame e Koenma tentavam convencê-los de que não havia esse risco. Mas não adiantou.
— Pessoal, me ouçam! — dizia Koenma, a voz já esganiçada. — Ele é um bebê, que está dormindo, não oferece nenhum risco para nós! Ei! Eu estou falando!
— Koenma-Sama, assim o senhor vai acordá-lo — alertava Ayame.
— Silêncio! Eu estou falando aqui! Me escutem! — prosseguia o príncipe, tentando chamar a atenção dos súditos.
No meio da barulheira, Hiei deu um longo suspiro e se remexeu no colo da shinigami.
— Koenma-Sama! Por favor, não grite, está acordando Hiei!
O círculo que estava em volta deles deu um salto para trás, apavorados. Koenma continuou gritando e exigindo atenção.
— ESCUTEM AQUI, SEUS INÚTEIS! JÁ DISSE QUE ELE NÃO REPRESENTA PERIGO! AGORA DÁ PARA CALAREM A BOCA?
— Uaaaaaaaah... — o som de um bocejo infantil se fez ouvir. Botan olhou alarmada para baixo: Hiei estava com os olhinhos bem abertos, assustado, olhando o ambiente ao seu redor.
— Hiei-kun acordou!
Os ogros saíram correndo e gritando: “Vamos correr para não sermos mortos pelo fogo do Makai!”.
Mas que zona a essa hora! Aliás, que horas são? E que lugar é esse?
— Ei, voltem aqui! — gritava Koenma.
— Melhor deixar, Koenma-Sama, depois eles voltam — disse Ayame, aborrecida. — Sejamos práticos. O que devemos fazer agora? Onde e com quem o deixaremos? Aqui é um local de trabalho, não é saudável para um bebezinho.
— Bem, Ay-chan, ele pode ficar no meu quarto para dormir. Mas não posso ficar tomando conta dele, tenho o meu trabalho... E não sei cuidar de bebês — disse Botan.
— Eu também tenho muitas coisas a fazer e nunca cuidei de um bebê também... — suspirou a outra.
— Calma, jovens, tudo vai dar certo! O pessoal prometeu comprar roupas e leite em pó para ele no Ningenkai, assim que o dia amanhecer — respondeu o príncipe, confiante. Três ogros voltavam para perto deles, devagar, temerosos, mas curiosos.
— Mas, Koenma-Sama, precisamos de alguém disponível para ficar com Hiei!
O pequeno youkai olhava para todos os lados, curioso. Esses portões... Então estou no Reikai. Caramba, estou apertado... Botan, me tire daqui...
— Ué, qualquer um fica, temos muita gente aqui — disse ele, despreocupado. “Eu não fico de jeito nenhum!”, disse uma voz feminina lá de longe. Botan revirou os olhos:
— O senhor ainda não percebeu que todos estão com medo dele?
— Não deveriam! O que um bebê poderia fazer contra eles? Aliás, contra qualquer pessoa? Vejam como ele é pequenino!
— Mas ele sempre foi um nanico, Koenma-Sama, e sempre foi perigoso! — disse um ogro vermelho chamado Seamus.
Quem foi o filho de uma cadela que falou isso? Pensou o youkai, furioso, tentando achar o ogro. Aquela discussão, junto com a sensação de bexiga cheia, o estava deixando muito aborrecido.
— Eu sei que ele era um pigmeu mesmo, mas veja só, seu medroso, ele é apenas uma criancinha. Um bebezinho, caramba! Bebês são indefesos, não representam perigo algum! Mas... O que é isso?
Koenma parou de falar ao ver que seu ombro estava todo molhado. Olhou para cima e viu a manta de Yukina pingando. Ninguém estava olhando a expressão divertida do bebê, que achou uma maneira inusitada de se vingar. Ahhh, maravilha... Não gosto nem um pouco dessa situação, mas nada me faria melhor nesse momento do que me aliviar e calar a boca desse sujeito insuportável.
Koenma olhava enojado e cuspiu as palavras, revoltado:
— Ele... Ele fez xixi em cima de mim!
— Mas a culpa é sua, que estava bem aí debaixo dele — retrucou Botan. — Agora precisamos de outro pano para envolvê-lo, já que este está molhado.
— Mas ele fez xixi em cima de mim, Botan! — gemeu o pequeno.
— Koenma-Sama, não é hora para isso, é só um pouquinho de xixi de criança... — aparteou Ayame, cansada daquele drama. — Molhou a roupa de Botan também, e ela não está se queix-
Koenma tremeu e acabou explodindo, assustando Hiei e as moças:
— É O CÚMULO DO DESRESPEITO! EU SOU O PRÍNCIPE DO MUNDO ESPIRITUAL! NINGUÉM URINA NA MINHA CABEÇA!
— No ombro, Koenma-Sama — corrigiu Botan.
— QUE SEJA! ESSA MINIATURA DE YOUKAI TEVE A AUDÁCIA DE ME DESAFIAR! SUMAM COM ELE DAQUI!
— Mas como, senhor? Para onde o levaremos?
— PARA QUALQUER LUGAR, DESDE QUE SEJA LONGE DE MIM!
— Gente, pra que isso tudo? — disse Ayame, surpresa com a cena do seu líder.
— ANDA, BOTAN, SUMA COM ELE DAQUI! VOLTE PARA O NINGENKAI COM ELE!
— O quê? Mas não foi o senhor quem disse que ele corria perigo lá?
— É, pode ser — respondeu ele, falando mais baixo, mas ainda irado. — Mas aqui não dá para ele ficar!
Cacete, que palhaçada... É melhor mesmo eu ficar no Ningenkai com os retardados. Koenma-Sama é um idiota.
— Mas, Koenma-Sama...
— JÁ MANDEI VOCÊ VOLTAR COM ELE, BOTAN! NÃO DISCUTA COMIGO! MANDA QUEM PODE, OBEDECE QUEM TEM JUÍZO!
— JÁ ENTENDI, KOENMA-SAMA! JÁ OUVI! E JÁ ESTOU INDO, SEU EGOÍSTA MIMADO! — berrou ela de volta.
— FOOOOOOORA!
Botan saiu da porta da sala do príncipe, irritada. Murmurava consigo mesma:
— Tanto barulho por nada. Agora vou ter que voltar ao Ningenkai, voando, e com Hiei-kun nos braços. Ele já pegou muita friagem, vai acabar adoecendo. Tem horas que Koenma-Sama me tira do sério!
Hiei olhou surpreendido para a jovem. Sabia que ela também tinha medo dele, mas naquela circunstância bizarra, ela era a pessoa que mais demonstrava senso prático e que se importava com o seu bem estar.
Hummm... Que bom, baka onna. Você é retardada, mas eu queria tanto que você ouvisse meus pensamentos... Me leve até Kurama-kun. Ele é o único dentre vocês que não posso chamar de burro.
A shinigami se preparava para montar em seu remo, quando olhou para o pequeno youkai nos braços e notou um pequeno sorriso em seu rostinho. Um sorriso totalmente diferente dos que ela estava acostumada a ver em Hiei, geralmente cheios de cinismo e malícia. Aquela era uma expressão suave, delicada, cheia de pureza — provavelmente, nem o próprio Hiei tinha percebido que estava sorrindo.
Botan não resistiu e beijou-lhe a testa, antes de aconchegá-lo com mais firmeza a seu corpo.
Ei, ei, o que deu em você, sua louca? Quer morrer? Pensou ele, tentando fazer uma de suas expressões cruéis e, obviamente, não conseguindo; Botan riu da caretinha dele.
— Oooown! Como você é lindo, Hiei-chan! Vamos voar para o Ningenkai! Confie em mim, chegaremos sãos e salvos! — e, assim, ignorando os grunhidos do youkai, ela alçou voo e rapidamente alcançou os céus.
Continua...
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