O Pequeno Dragão
2 Sintonias
Notas iniciais
Capítulo 2 — Sintonias
Ningenkai, templo de Genkai. Sexta-feira, fim de tarde
– Hiei-san...!
Yukina saltou no futon onde estava cochilando. Um pressentimento mau passou por sua mente – algo acontecera ao briguento do time Urameshi. Ela só não sabia explicar como e nem por que sentira aquilo. Afinal, ainda estava magoada com a brutalidade dele. Sabia que Hiei tinha um senso de humor estranho e era cruel, principalmente com Kazuma Kuwabara, que sempre a tratava com carinho extremo – mas no dia anterior ele passara da conta e até a agrediu verbalmente, coisa que jamais fizera antes. Um beijo que o apaixonado dera quase no cantinho da boca da menina foi o motivo da constrangedora discussão. Hiei tentou tirá-lo de perto da koorime.
– Desgraçado... Pensa que pode enganar Yukina com essas promessas patéticas de amor eterno? Ela é só uma criança!
– Ela tem 17 anos, anãozinho! E desde quando você tem que se meter nos MEUS assuntos com ela? — redarguiu o outro, muito aborrecido. Soubera há pouco tempo que Hiei era irmão gêmeo de sua amada e também escondia isso dela, a contragosto. Mas aquela possessividade do baixinho o irritava demais.
– Desde quando ela é min... Desde quando EU impedi que aquele porco do Tarukane fugisse com ela!
– VOCÊ, não, fomos NÓS TODOS, ingrato! Eu e Urameshi-kun estávamos presentes e quase morremos para resgatá-la!
– Hiei-san, pare com isso... Kazuma-chan não está fazendo nad- – pediu a menina, se arrependendo em seguida. O youkai se virou furibundo contra ela e gritou a plenos pulmões:
– Não se meta, sua idiota! Você não sabe nada da vida, não entende nada, e acha que pode opinar ou tomar alguma decisão? Viveu a vida inteira no País do Gelo, não sabe discernir a mão direita da esquerda! Cale essa boca, imbecil! Sua burra! Eu deveria ter deixado você lá, presa na cela do Taruk-
O tapa veio ligeiro e Hiei sentiu o rosto arder. Sua irmã lhe dera um tapa. Ele jamais esperaria por aquilo.
Pof. Pof. Pof.
Shizuru, Botan e Keiko, que vieram com Kuwabara, estavam na varanda do templo de Genkai e assistiram atônitas as pedras hirui quicando no chão de madeira. Mesmo Kuwabara não conseguia reagir ao choque. Yukina estava chorando e Hiei ficou totalmente mudo. Aquela pequena koorime sofrera tanto nas mãos de Tarukane que raramente chorava. E ele conseguiu ofendê-la a níveis insuportáveis.
Ela se aproximou do youkai com o dedinho trêmulo em riste e uma expressão raivosa no rostinho delicado. Eram da mesma altura e se encararam.
– Não quero que me insulte. E não quero que se intrometa na minha amizade com Kazuma-chan e os demais. Estou com raiva de você, Hiei-san! Muita raiva! E não quero te ver!
Hiei piscou diversas vezes e, em seguida, desapareceu. Como todos sabiam, ele era muito veloz e com certeza pulara para cima do templo antes que notassem.
Yukina continuava chorando, as pedras caindo pelo chão. A velha Genkai se aproximou dela.
– Pare de chorar, jovem. Hiei é um assassino profissional, mas não quer dizer que ele não se importe com você. Ele é, digamos, superprotetor demais.
– Mas, mestra – disse Kuwabara, se aproximando e abraçando a koorime de leve – olhe que exagero! Ele ofendeu a minha Yukina-chan!
– Talvez hoje seja um mau dia para ele, pessoal... — disse a shinigami Botan, tentando amenizar.
– Quem tem "maus dias" é mulher, Botanzinha – disse a sarcástica Shizuru, o que causou um pequeno debate entre as duas e Keiko, que também achara aquele aparte desrespeitoso e inútil. Shizuru não mudava.
Kuwabara estava muito ocupado com os sentimentos de sua amada para se importar com as rusgas das meninas. Prometeu a Yukina um presente especial e também trazer o seu gatinho Eikichi para ela brincar. Ela se acalmou, sorriu com um certo quê de tristeza e se abaixou para pegar aquelas pedras.
Agora, ela estava ali, arrepiada, sentindo que algo de muito errado estava acontecendo com o youkai de fogo: "Mas, como é que eu sei disso...?".
~
– Mana... Eu estou com um pressentimento ruim...
– Você também, Kazuma-chan? – respondeu Shizuru.
– Algo de errado aconteceu com o nanico. Você acha que ele ainda está aqui no Ningenkai? – perguntou Kuwabara, enxugando o suor da testa. Sentira um calafrio medonho há pouco, ao mesmo tempo que via sua irmã mais velha estremecer.
– Quem deve saber disso é o ruivinho – disse ela. Estava sentada à escrivaninha fazendo as contas dos gastos da casa e acessando redes sociais num tablet ao mesmo tempo. Viu o irmão pegar o celular e discar um número.
– Espera, Kazuma-chan. Kurama deve estar estudando e você sabe que ele não gosta muito de ser interrompido. Mande um torpedo; assim que ele estiver desocupado, ele ligará de volta.
O rapaz digitou rapidamente algumas palavras no celular e enviou a mensagem, torcendo para que Kurama respondesse logo. Tentou voltar a se concentrar na apostila que estava estudando, mas não conseguiu. Ainda estava bem zangado com Hiei por ter feito sua preciosa Yukina chorar na quinta-feira, mas não deixou de ficar preocupado. Apesar de tudo, ele considerava o baixinho como um amigo, mesmo sendo tão anti-social. E se até a Mestra Genkai dizia que toda aquela superproteção era a forma dele demonstrar seus sentimentos fraternos, o melhor a fazer era relaxar.
~
– Hiei, se meteu em alguma encrenca, né? Aposto... – dizia Kurama consigo mesmo, enquanto sentia um calafrio. Naquela sexta, ele não quis estudar como era seu costume. Sua mãe estava com dores nas costas e pediu a ele que desse uma boa faxina na cozinha. Fez um coque no alto da cabeça, vestiu roupas leves e se atirou ao trabalho. Shiori Minamino era uma mãe de sorte por ter um filho (ou melhor, um youkai raposa encarnado em seu filho) tão apaixonado e leal a ela.
O ruivo estava mergulhado em pensamentos sobre que erva dar à mãe para curar-lhe as dores, quando o smartphone vibrou. Só deu tempo de ver que era um SMS, ou melhor, dois, quando a tela ficou escura. Enfiou o aparelho de volta no bolso quando sua mãe apareceu na porta da cozinha.
– Shuuichi, meu amor, telefonaram para você há dois minutos.
– Mamãe, por que se levantou da cama? – ralhou ele. Ela sorriu.
– Já não dói tanto assim, meu anjo. E imaginei que você não ouviria o telefone tocar.
Enquanto seu devotado Shuuichi lavava as mãos, ela se lembrou:
– O rapaz que ligou pediu para que retornasse o mais breve possível, disse que houve um contratempo com uma experiência de vocês – Shiori franziu o cenho de leve e completou: — Ele disse que se chamava Koenma.
Kurama se assustou, mas não deixou transparecer. Sem dúvida, algum problema sério com Hiei.
– Obrigado, querida – passou o braço pelos ombros dela e a conduziu de volta para o quarto. – Eu vou retornar a ligação para o meu colega e você vai continuar de repouso. Mais tarde vou te trazer um chá... – Beijou-lhe o rosto e a deixou sentada na cama, e ao sair fechou cuidadosamente a porta.
O ruivo foi para a sala fingir que estava retornando a ligação, quando, na verdade, falou com o príncipe do Reikai por telepatia: "Diga o que houve, Koenma-Sama". A resposta foi imediata:
"O youki de Hiei desapareceu, Kurama. Não posso mandar Botan ao Makai. Por favor, vá para lá o mais depressa possível."
Kurama sabia o que fazer. Voltou para a cozinha, preparou um chá com algumas sementes soníferas do Makai e o deu, adoçado e com alguns biscoitos, para sua mãe. Ela acordaria no dia seguinte ainda com dores, mas bem mais relaxada. E não o veria sair de casa. Ele poderia inclusive terminar a arrumação da cozinha na madrugada sem medo de incomodar Shiori.
~
– Aconteceu alguma coisa, amor? – perguntou Keiko, meio preocupada. Vira seu noivo ficar aéreo do nada, no meio de uma das muitas discussões que eles vinham tendo relacionadas à data mais adequada para marcarem o casamento.
– Quê?
– Te perguntei se aconteceu alguma coisa.
– Vai acontecer se você continuar insistindo para marcar nosso casamento bem no dia do torneio de artes marciais em Fukush... AI, Keiko! – gritou Yusuke, com o rosto vermelho pelo tapa que acabara de levar. Estavam saindo da barraca de ramen; o descendente de Raizen achou por bem fechar o estabelecimento mais cedo.
– Seu palhaço! Estou me referindo a esse tremor que você sentiu agora há pouco, idiota! Eu vi!
Yusuke coçou a cabeça e olhou para ela, sério.
– Tá, sua mala sem alça! Eu falo! Acho que algo errado aconteceu ao baixinho!
– Hiei? – perguntou ela, surpresa.
– Não, o padeiro – zombou ele, levando outro tapa. – AAAI, sua bruta!
– Aprenda a me respeitar, imbecil! E vamos para o templo de Genkai! Ela deve saber de alguma coisa – retrucou Keiko, estendendo o capacete da moto para o noivo. Em instantes, estavam correndo pelas ruas, sob a luz do luar, ainda brigando.
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