O Penhasco
1 O Penhasco
Chegamos àquela casa pouco antes do pôr do sol. Seria nosso refúgio até o fim do verão, como tantas outras casas daquela região costeira: alugadas por temporadas, sempre cheias de risos, churrascos e histórias esquecidas quando o verão acaba.
A nossa, no entanto, tinha algo diferente.
Era linda. Fachada clara, janelas grandes, varanda de madeira voltada para o lago. Mas nos fundos… havia o penhasco. Um corte brusco na terra, como se a natureza tivesse desistido de continuar dali em diante. Uma cerca antiga, torta e mal fixada, fingia proteger quem se aproximasse demais da borda.
Estacionamos o carro e, antes mesmo de meus pais terminarem de descarregar as malas, eu já estava correndo para dentro. Queria o melhor quarto — tradição silenciosa entre mim e meu irmão mais novo, Sebastian.
Antes de subir as escadas, dei uma volta rápida pela casa. Na varanda, toalhas brancas estavam estendidas, balançando levemente com o vento. Limpas demais. Antigas demais. Estranhas demais para uma casa que, segundo o contrato, não era alugada havia quase cinco meses.
Pensei em comentar, mas descartei a ideia. Casas de verão sempre guardam restos de outras famílias.
Subi correndo e encontrei o quarto perfeito: amplo, iluminado e com uma janela que dava direto para o lago… logo depois do penhasco. A vista era linda. E, ao mesmo tempo, inquietante.
Dois dias depois
A rotina se instalou rápido. Arrumamos a casa, organizamos as malas, fingimos que aquele lugar já nos pertencia.
Naquela noite, meus pais nos chamaram para a tradicional noite da pizza. Era sempre a mesma marca, o mesmo sabor, mas naquela noite estava diferente. Mais suculenta. Mais quente. Mais… viva. Estranhei, mas continuei comendo — eu sempre fui a mais lenta à mesa.
Depois, meus pais se jogaram no sofá para assistir TV, enquanto eu e Sebastian ligávamos o Nintendo Wii, discutindo qual jogo escolher.
Não tivemos tempo.
A campainha tocou.
Era tarde demais para visitas. Meus pais se entreolharam, irritados. Meu pai foi até a porta e acendeu a luz externa. Abriram. Não havia ninguém. Nenhum carro. Nenhum som. Apenas o vento e o silêncio.
A porta foi fechada. O jogo foi ligado. Mas a sensação de que algo tinha nos observado permaneceu.
Um dia depois
Acordei com um grito.
Um grito curto. Agudo. Cortado no meio.
Corri até a janela. Nada. Apenas o lago, imóvel demais para aquela hora da manhã.
Desci as escadas, preparei meu café e estranhei o silêncio absoluto da casa. Nenhum dos meus pais. Nenhum sinal de Sebastian.
Enquanto comia minhas torradas, olhei para o quintal dos fundos. Foi quando vi.
Uma silhueta familiar na trilha estreita que levava ao penhasco.
Meu coração parou.
Levantei devagar, larguei o prato e segui a trilha. A cada passo, a imagem ficava mais nítida. E o medo, mais real.
Sebastian estava lá.
Parado. Na ponta do penhasco.
Não pensei. Apenas corri. A trilha parecia se esticar infinitamente, como se o chão se afastasse de mim a cada passada. Minha mente gritava, repetindo o mesmo pensamento: não dá mais um passo, por favor, não dá mais um passo.
Quando cheguei perto, senti alívio. Um sorriso involuntário surgiu — aquela sensação absurda de heroína que chega a tempo.
Ofegante, com a pele gelada pelo vento, estendi a mão.
— Vem comigo… — pedi.
Foi então que o vento mudou.
A brisa que me empurrava pelas costas virou-se contra nós. Um sopro violento, antinatural. Sebastian foi arrancado do chão como se nunca tivesse pesado nada.
Ele caiu.
Não houve grito. Não houve impacto audível. Apenas silêncio.
Algo estava errado.
Senti um frio que não vinha do vento. Ao me virar, vi a figura.
Alta demais. Escura demais. Não era como nos filmes — era pior. Mais real. Mais próxima.
Ela se inclinou levemente, como se sorrisse.
— Os sorrisos mais doces guardam os segredos mais sombrios…
A frase entrou em mim como gelo.
De repente, vi meus pais no início da trilha, carregando sacolas de compras. E, entre eles… Sebastian. Vivo. Inteiro. Normal.
Eu tentei gritar. Meu corpo não respondia.
Algo me puxou.
O mundo virou ar. Minhas lágrimas flutuaram à minha frente enquanto eu despencava. As rochas me receberam em silêncio, despedaçando meu corpo antes que a água levasse o que restou.
E então, tudo escureceu.
Não sei quanto tempo fiquei naquele vazio.
Não havia dor. Não havia corpo. Apenas consciência — fragmentada, confusa, como se eu fosse um eco preso entre pensamentos que não eram mais meus. Aos poucos, imagens começaram a se formar, não como lembranças, mas como verdades impostas.
A casa.
O penhasco.
A figura.
Ela não surgiu ali por acaso.
Aquela região sempre foi conhecida por verões perfeitos demais. Famílias felizes, risadas altas, fotos impecáveis. Mas ninguém falava sobre o que acontecia quando o verão acabava. Sobre os acidentes. Sobre os desaparecimentos que nunca viravam manchete.
A figura não era um monstro comum.
Ela não caçava corpos.
Ela caçava vínculos.
Ela se alimentava do instante exato em que o amor vira desespero. Do segundo em que alguém percebe que chegou tarde demais. Quanto mais puro o sentimento, mais forte era sua presença.
Era por isso que a cerca estava mal colocada.
Era por isso que a trilha parecia nunca acabar.
Era por isso que as toalhas ainda estavam na varanda.
A casa não ficava vazia.
Ela esperava.
A figura se moldava ao medo de quem observava. Para mim, tomou a forma mais aterradora possível: algo que não parecia humano, mas entendia perfeitamente o que é ser humano. Seus olhos — se é que posso chamar assim — não refletiam maldade, mas paciência. Ela não precisava correr. Sempre vencia.
Sebastian nunca esteve no penhasco.
Aquilo foi a isca.
O grito que ouvi ao acordar não foi dele — foi meu, atravessando o tempo, preso no momento em que percebi a verdade tarde demais.
A figura me mostrou meus pais e meu irmão vivos não como crueldade, mas como confirmação: eu era a escolhida. Eu tinha amor suficiente. Medo suficiente. Culpa suficiente.
E agora, eu fazia parte da casa.
Com o tempo — se é que ele existe aqui — passei a sentir a casa respirar. Cada nova família chegava trazendo caixas, risos e promessas de um verão inesquecível. Sempre havia alguém curioso. Sempre havia alguém atento demais à vista do lago.
E sempre havia alguém disposto a correr.
A figura nunca mais falou comigo. Não precisava. Eu entendia agora seu papel: ela não empurra ninguém. Não toca. Não obriga.
Ela apenas mostra.
O resto… nós fazemos sozinhos.
Às vezes, quando o vento muda de direção, consigo me aproximar da varanda. Balbuciar um aviso. Um arrepio. Uma sensação estranha que faz alguém fechar a porta dos fundos sem saber por quê.
Nem sempre funciona.
As toalhas continuam sendo estendidas.
A trilha continua sendo usada.
E o penhasco… continua chamando.
Porque os sorrisos mais doces realmente guardam os segredos mais sombrios.
E agora, eu sou um deles.
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