O Patrono Perdido
29 Capítulo 28: Por Cem Anos de Espera
Notas iniciais
Dores. Havia muitas dores que se espalhavam pelo corpo de Remo. Naquela longa noite de sono que não se poderia dizer quanto tempo durou, não houve sonho algum que perpassasse sua mente. Ambos o seu consciente e subconsciente haviam sido desligados, para a sua sorte. Mas mesmo assim, ao longo daquele eterno sono, a consciência voltava-lhe por poucos segundos, apenas para alertá-lo das dores no corpo.
As das costas eram o pior. Por muito pouco, ganhavam das dores dos braços e das pernas. No entanto, o incômodo que Remo sentia dessa vez era muito diferente dos que vinha sentindo desde que começara a voltar no tempo. As dores que vinha sentindo durante todos aqueles dias eram em detrimento do cansaço físico e psicológico; eram dores de latejar, de tremer; dores que indicavam a mais pura fadiga. Já as de agora... As de agora eram o exato oposto.
As de agora indicavam quase uma atrofia muscular. Como se tivesse passado dias a fio em uma cama, quase sem se mexer, e os músculos reclamassem para que algo fosse feito em relação a isso. Sentindo esses incômodos, ocasionalmente tentava mover-se – mas o sono era tanto, que os membros pareciam não responder às suas vontades. Assim, logo que acordava, e antes mesmo de abrir os olhos, voltava a perder a consciência. Não sabia quanto tempo já havia se passado.
Quando já estava novamente tomado pela inércia letárgica, um som diferente atingiu seus ouvidos, fazendo-o despertar. Era um sussurro que Remo já havia ouvido uma vez, formado por um coral de vozes; agora, era o sussurro de uma voz única, próximo demais ao seu ouvido, assustador demais para que permanecesse dormindo. Diferentemente das outras vezes da sua aparição, agora a voz dizia:
Este portal está fechado
Acordou, em pânico. As pálpebras levantaram-se com dificuldade, pois pareciam ter sido coladas umas às outras. O seu corpo estava pesado como chumbo.
Com o campo de visão aberto, reconheceu onde estava. Móveis de madeira muito escura adornavam todo o cômodo ao seu redor. Na parede a um canto, estava pendurada uma pequena tapeçaria vermelha, com o símbolo da Grifinória. Cortinas negras vedavam quase totalmente a janela que indicava ser dia. Havia muitos livros empilhados sobre uma pequena escrivaninha e uma poeira característica da casa onde estava: era o quarto de Sirius Black, localizado no Largo Grimmauld.
Remo encontrava-se deitado justamente sobre a cama de casal daquele quarto, mas sem ninguém para dividi-la consigo. Muito próximo, ao pé da cama, havia alguém sentado. Os olhos de Lupin dirigiram-se àquela pessoa.
Tinha cabelos castanho-claros que não se assentavam. O rosto, de pele alva, era parcialmente coberto por grandes óculos fundo-de-garrafa. Olhos azuis o encaravam com surpresa e medo. Era... Podia ser... Tiago Potter? O coração de Remo deu um pulo de esperança, mas no instante seguinte os seus olhos reconheceram outra figura.
"Remo?", murmurou o garoto de quinze anos que se sentava sobre aquela cadeira. Não era Tiago. Era Harry Potter. E naquele instante, um baque de informações atingiu sua cabeça com violência.
O tempo... Estava de volta ao seu tempo presente. Desesperado na intenção de confirmar aquela hipótese, encarou as próprias mãos e constatou: já não eram mãos de um menino de quinze anos. Eram mãos de um homem de trinta e cinco. Portanto, era certo que já estava de volta ao seu corpo original.
"H-Harry...", murmurou, escorregando o corpo com o intuito de se sentar sobre aquela cama.
As memórias que o atingiam mais pareciam feitiços lançados para desnorteá-lo.
Lembrou-se de Sirius. Sirius Black, sentado com ele em um chão de terra, do lado de fora do castelo de Hogwarts. A névoa esbranquiçada ia tomando e devorando tudo ao seu redor. Folhas, galhos, árvores inteiras. Tudo ia sumindo no espaço, sendo tragado por uma impiedosa borracha invisível. Sirius colava os lábios aos seus e sumia também, assim como todo o resto dos elementos da floresta. Nada mais sobrava. O Portal estava desfeito.
"Professor, você... Você está bem?"
Direcionou os olhos a Harry. Havia voltado ao tempo presente, com o portal de tempo desfeito... E Harry Potter estava vivo.
Tinha, juntamente com Severo Snape, elaborado e escrito bilhetes altamente perigosos, que poderiam mudar drasticamente o curso do tempo e colocar em perigo a vida de muitas pessoas. Mas, mesmo assim, Harry Potter estava vivo. O que aquilo queria dizer?
Se Lílian Evans e Tiago Potter tinham sido duas das pessoas a receberem aqueles bilhetes e Harry estava vivo, aquilo indicava que haviam se salvado? Ou indicava que estavam mortos? Os bilhetes haviam ou não, afinal, sido efetivos? A mensagem para que fugissem de Godric's Hollow e se encaminhassem ao Largo Grimmauld tinha ou não tinha sido suficiente para que os Potter sobrevivessem?
O seu coração agora dava pulos frenéticos. O sucesso ou fracasso dos bilhetes dos Potter eram também o provável sucesso ou fracasso do de Sirius.
"Harry... Harry, eu..."
Mas como perguntar isso ao menino? Como perguntar se, há quinze anos, os seus pais tinham se salvado da morte? Como perguntar se eles agora estavam vivos, se Harry os havia conhecido? Tanto na chance afirmativa quanto negativa da resposta, Remo pareceria um completo lunático.
Harry parecia tão surpreso com o despertar de Lupin. Parecia não crer que o homem estava acordado, pela forma como o olhava. Por que o olhava daquela maneira?
"Os seus... Os seus pais...", começou hesitante, as mãos já voltando a tremer como ainda estivessem sob o efeito do Portal. De repente, por milagre, a sua mente atordoada iluminou-se com uma possibilidade. Um blefe. Blefar era a sua saída. "Desculpe por não tê-los salvado."
Esperou. Esperou pela reação do menino. Se Harry desviasse os olhos para um canto qualquer e desse uma resposta melancólica, era certo que estavam mortos. Se, por outro lado, franzisse o cenho em sua direção e perguntasse de que raios ele falava, provavelmente os Potter estariam vivos. Torceu pelo melhor.
Tentou convencer a si mesmo que estava confundindo-se quando os olhos azuis foram lentamente ganhando um tom de tristeza. Procurou uma outra possibilidade, uma outra hipótese, quando aqueles olhos foram se abaixando, levando para baixo também toda a sua esperança.
"Não foi culpa de ninguém", murmurou o pequeno.
Um baque. Uma dor.
Os seus olhos, tanto ou mais que os de Harry, foram abaixando-se até alcançar os lençóis da cama onde se encontrava. Lençóis absolutamente pretos, como quase tudo na casa dos Black. Escuros, sem luz alguma. Havia ali tão pouca luz quanto havia agora no interior de Remo. Tinha falhado.
A visão embaçou-se. O peito comprimiu-se. Tornou-se difícil respirar. Tinha falhado em trazê-los de volta. Não havia mais chances e não havia esperança. Não havia mais nada que pudesse ser feito.
"Professor... Você esteve dormindo. Esteve dormindo pelos últimos catorze dias. Se não fosse por Dumbledore, talvez não pudéssemos ter te mantido vivo por tanto tempo. Achamos que não fosse mais acordar."
Remo não lhe deu ouvidos. Não fazia ideia do que Harry Potter estava falando, mas já não importava. Fazia um sinal negativo com a cabeça, desinteressado de tudo que pudesse vir a acontecer a partir daquele instante.
Não era possível. Não podia ser... Onde podia ter errado?
Trêmulo, cobriu a visão com as mãos. Já não enxergava nada, não importava; mesmo que enxergasse, não importaria. Aquela realidade não lhe interessava. Uma realidade tão dura e tão triste. Uma existência tão solitária, sem as pessoas que mais prezava por perto. Elas haviam precisado de Remo, e o que ele havia feito? Jogado fora a sua última chance de ajudá-las.
"Não pode ser...", murmurava ele, insistindo em negar com um sinal de cabeça. "O Portal... Tem que funcionar ainda... Tem que haver um jeito..."
Lílian. Tiago. Sirius. Onde havia errado? Que detalhe havia deixado escapar? Como podia desculpar a si mesmo, tornando a viver tão sozinho, ou mais do que jamais havia estado?
"Remo!", chamou Harry, tentando trazê-lo de volta. Mas Remo já estava distante. "Você deve estar muito confuso... Dumbledore disse que o feitiço que te atingiu na Sala do Véu deve ter sido muito intenso... Eu vou chamá-lo!", exclamou ele, convicto. "Ele vai saber o que fazer!"
Sala do Véu... Sala do Véu. Havia então sido atingido por um feitiço durante o ataque de Comensais da Morte na Sala do Véu, há catorze dias. A exata data da morte de Sirius Black. Atingido por um feitiço, Remo vinha dormindo desde aquela data, sendo mantido vivo apenas pela magia de Dumbledore. Era aquilo que Harry dizia? Era naquilo que queria que acreditasse? Que tudo não havia passado de um sonho?
Dizendo aquelas últimas palavras, Harry Potter saiu do quarto como um foguete, disposto a buscar alguém que pudesse ajudar Aluado. Tão logo ele saiu, Alastor Moody, que estava no corredor e identificou Lupin acordado dentro do cômodo, começou a gritar:
"Remo! Remo está acordado! Está vivo!"
Remo nem sequer o olhava. A tristeza dentro do seu peito parecia crescer mais a cada instante, prestes a engoli-lo. Queria mesmo que ela o engolisse. No instante seguinte, Olho-Tonto estava à sua frente, tocando o seu ombro, dirigindo-lhe perguntas:
"Remo... Você está bem? Como está se sentindo?"
Palavras desperdiçadas. Remo não queria vê-lo e não queria respondê-lo. O ano de 1995 não era mais o seu tempo. Ele próprio havia agora tornado-se um ser sem rumo que não pertencia a lugar algum, a tempo algum. Não era possível que tudo que tivesse vivido não passasse de um sonho ou uma busca frustrada. Tinha de haver alguém que compreendesse suas palavras.
"Dora...", murmurou ele, finalmente tirando as mãos dos olhos. Ignorou Moody e arrastou-se sobre a cama até colocar os pés no chão. Levantou-se. "Dora... Preciso encontrá-la... Preciso falar com ela..."
"Remo!", exclamou o outro, incrédulo por vê-lo de pé. "Você não pode ir tão depressa, ainda está debilitado!"
Mas Lupin, mais uma vez, não lhe deu ouvidos. Apoiando-se na parede e arrastando os pés como um morto-vivo, já se direcionava à saída do quarto, murmurando o nome de Dora, a única pessoa que poderia explicar-lhe que raios estava acontecendo.
Assim que saiu e avistou as escadas que poderiam levá-lo ao andar debaixo, encheu-se com um pouco de esperança. Conseguia ouvir claramente o som de alguém correndo aquelas escadas acima freneticamente, provavelmente ansioso por ver Remo desperto.
Era ela. Era Dora, tinha que sê-lo. Estava poupando-o do trabalho de cambalear escadas abaixo. Pela primeira vez naquele dia, sentiu-se grato. Apoiou-se na parede do corredor, aguardando a chegada dela.
Provavelmente, o tempo de espera não demorou mais do que um único minuto — mas a Remo, pareceu demorar séculos. Estava sedento por vê-la. Desesperado por alguém que pudesse dar-lhe uma explicação plausível...
Soluços já se formavam dentro do seu peito. Os olhos antes descansados já voltavam a se embeber de lágrimas, porque não queria estar ali. Queria estar no seu lugar. No passado, com seus amigos. Queria ter segurado Sirius por uma última vez e dito que sentia muito por não poder salvá-lo da mesma maneira como ele havia feito consigo...
Então, finalmente, a pessoa que corria pelas escadas acima chegou ao seu alcance.
Ninfadora Tonks não chegou. Não era ela. Não era ela, nem Dumbledore, nem Harry Potter. Olhos de cor mel focaram-se na imagem da nova pessoa que aparecia à sua frente. Mas a pessoa que havia subido a escadaria para vê-lo tinha cabelos escuros e desgrenhados.
O tempo, que já seguia um curso anormal, parou. Quase ao mesmo tempo, parou também o seu coração. Os joelhos de Remo fraquejaram. Escorando-se na parede, foi descendo. Descendo até alcançar o chão.
A pessoa que estava à sua frente era poucos centímetros mais alta. Os seus olhos, escuros como uma noite sem estrelas, também estavam arregalados em sua direção.
Estava envelhecido. A pele, antes clara e perfeitamente lisa, estava marcada por manchas e cicatrizes. O olhar, que costumava ser só um tanto jovial e um tanto sacana, carregava agora um peso sem igual.
Um tanto mais magro e um tanto mais sombrio do que a última vez que Remo o tinha visto. Mas agora, enquanto encarava o homem caído no assoalho, a expressão no rosto de Sirius Black não fazia menção às sombras. Carregava consigo apenas a surpresa e a dúvida.
Os ouvidos de Remo já não captavam som algum quando viu Sirius dando alguns passos em sua direção, parecendo tão hesitante quanto sua própria pessoa. Mesmo em estado de choque, Remo procurava escorregar mais o corpo para trás, afastando-se, com medo — mas a parede não permitia.
Imaginou estar a um passo da morte — ou talvez já tivesse mesmo morrido — quando ele ajoelhou-se à sua frente, ficando então da mesma altura. Os olhos escuros corriam desesperados pelo rosto do mais baixo, procurando qualquer indício de que aquele era mesmo o Remo por quem vinha esperando. Os lábios pareceram querer formar alguma palavras, mas não houve som que os deixasse naquele instante. Mesmo que houvesse, os tímpanos de Lupin provavelmente não teriam captado nada.
A mente de Sirius, tanto quanto a dele, estava vazia de pensamentos. O seu coração bombeava o sangue com tanta força, que o Black podia sentir os próprios batimentos no pescoço. Aquele era o Remo por quem vinha contando exaustivamente os dias para encontrar?
Era ele. Não havia dúvidas. Pelo autêntico medo nos olhos úmidos — o medo de quem quase acreditava estar vendo uma alma penada -, só podia sê-lo. Tinha os mesmos traços do Remo que o tratava com indiferença, do que havia tido suas memórias apagadas; no entanto, a energia diferenciava-se completamente da do outro. Aqueles olhos, ainda que nas mesmas cores, eram outros.
O seu choque era tamanho ao vê-lo, que mesmo tendo Aluado em lágrimas a centímetros de distância, não conseguia chorar como ele. Não conseguia acreditar que o seu plano havia dado certo. Não conseguia crer que, seguindo as instruções daquele bilhete catorze dias atrás, havia conseguido juntar duas linhas de tempo em uma única. E encontrá-lo, mesmo após tanto tempo de espera.
Aproximou o rosto do pescoço imóvel do mais baixo e fechou os olhos, inalando o cheiro naturalmente exalado por ele. Ainda com toda aquela espera, o cheiro que o hipnotizava era inconfundível. Tão ou mais incrédulo que o Black, Remo levou uma das mãos aos fios desgrenhados, apenas na esperança de senti-los.
"Sirius...", balbuciou em um sussurro, o choque e o medo quase imobilizando seus lábios.
O toque dos cabelos não havia mudado em nada. Não podia ser sonho. Não podia... Pois Remo segurava-os e sentia-os na mão. Era impossível ter uma sensação tão realista em um sonho. Sentindo o rosto dele próximo ao seu pescoço e deleitando-se com o toque daqueles fios na sua bochecha, Remo também fechou os olhos. Se fosse mesmo uma fantasia, desejava não ter que acordar nunca.
Mas tão logo os abriu, e mesmo estando sentado — agora, quase deitado àquele canto na parede -, foi sentindo que a pressão lentamente caía. Vagarosamente, pontos roxos surgiam em todo o seu campo de visão, tornando-o mais difuso do que já estava. Torceu para não perder a consciência novamente. Torceu, pois não queria perder um único segundo daquele instante. Tudo ao seu redor, porém, parecia escurecer aos poucos, como alguém fosse apagando a luz que o fazia enxergar.
O Black pareceu perceber do que se tratava. Antes que Lupin tornasse a abaixar as pálpebras, ele o segurou e certificou-se de que o menor escorregasse mais o corpo sobre o chão, mantendo-se agora completamente deitado.
"Remo...", sussurrou de volta. A sua voz estava tão trépida quanto a do outro. "Não volte a dormir ainda..."
"Já estou... Dormindo", respondeu ele. Piscava os olhos com preguiça, parecendo estar a um passo de apagar. "Isso é um sonho..."
Sirius abriu o conhecido sorriso em sua direção. Agora, finalmente, as lágrimas se formavam também nos seus olhos. Um sorriso realista demais para que fosse sonho. Real demais...
"Se isso for um sonho...", disse, com a voz um tanto mais recuperada. "Estamos sonhando o mesmo."
Não esperou por mais resposta alguma vinda de Remo; agora, já tinha a certeza de que era ele. Tomado pelo ímpeto, deitou-se também sobre o chão e puxou-o para si, abraçando o menor com todas as forças que tinha.
Remo tremia tanto quando foi tomado por aqueles braços, que teve a impressão que poderia ser quebrado em dois. Se fosse mesmo possível, queria mesmo era que aquilo acontecesse. Ser quebrado em dois por Sirius. Desfalecer bem ali, em frente a ele. Apenas para ter a prova de que não era mentira.
Estava tão perdido. Tão confuso. Tão inacreditavelmente feliz, por uma das tão poucas vezes na vida. Não sabia mesmo o que fazer. Mas assim que sentiu os mesmos braços de vinte anos antes envolvendo-o, a onda magnética emitida por Sirius voltou a perpassar seu corpo, intensificando o seu transe. Deixando-o tão agitado, mas ao mesmo tempo tão calmo. Mesmo o cheiro dele era como um anestésico que agora se difundia pela sua corrente sanguínea. As dores que antes existiam no seu corpo tornavam-se menos que uma memória distante.
Enquanto o corpo do maior permanecia colado ao seu, Remo era capaz de sentir a sua respiração. O subir e descer do tórax indicavam que Sirius estava vivo. Tanto quanto Remo, sozinho no mundo; com as marcas de Azkaban e de uma vida de batalhas já cobrindo-o por completo; mais velho, tão mais cansado do que a última vez que haviam estado juntos. Mas o tórax ainda subia e descia; portanto, estava vivo. Aqueles simples movimentos eram suficientes para fazer com que mais lágrimas escorressem pelo seu rosto.
A cada instante, o seu corpo amolecia-se. Acalmava-se. Uma estranha felicidade ia apoderando-se de si. Indicando que, enfim, havia cumprido a sua missão.
Começaram a ouvir, ao longe, novos passos subindo a escadaria. Quando pareceram aproximar-se o suficiente, Sirius afastou-se devagar, permitindo que o outro visse quem se aproximava.
A imagem de Ninfadora Tonks fez-se em frente aos seus olhos. Estava atônita. Os seus olhos negros e brilhantes estavam arregalados em sua direção, incrédulos pelo que viam. A pele havia recuperado a cor e os cabelos haviam retornado ao tom róseo que lhes era característico.
"Remo...", sussurrou, parecendo quase tão surpresa quanto Sirius por vê-lo acordado. Aproximou-se com passos rápidos e, como o Black, ajoelhou-se ao seu lado.
A presença de Dora fez com que Aluado tivesse mais certeza de que não era um sonho. Agora, com Sirius levemente afastado, era ela quem o abraçava, soluçando sobre o seu ombro. Mas Remo ainda não sabia o que fazer; não sabia como agir. Por aqueles momentos, parecia ter esquecido de tudo que aprendera na vida até então. Não sabia sequer o que fazer quando aquelas pessoas o abraçavam. Tudo o que conseguia era permanecer imóvel, ainda em prantos, enquanto todos tentavam agir com tanto cuidado consigo.
"Remo, nós achamos... Achamos que tínhamos te perdido!", exclamava ela, recusando-se a soltá-lo.
Depois de ouvir as suas palavras, Remo lembrou-se de uma coisa que deveria lhe dizer. Pela primeira vez no dia, abriu a boca para soltar o que não eram palavras desconexas.
"D-Dora...", murmurou, tentando abraçá-la de volta, sem muito sucesso. As forças ausentavam-se do seu corpo. "Obrigado."
Tonks não compreendeu muito bem o significado daquelas palavras. Mas é claro, não poderia mesmo entender. Assim que viu Sirius vivo à sua frente, Remo passou a compreender o que havia acontecido com aquela linha do tempo. Era um paradoxo temporal.
Harry Potter, Alastor Moody e Ninfadora Tonks acreditavam que ele havia passado catorze dias desacordado sobre uma cama. Pensavam que, após sofrer um ataque na Sala do Véu, Remo havia estado sobre um terrível feitiço que o tinha mantido adormecido. Mas não era bem o que havia acontecido.
O paradoxo temporal era um fenômeno que fazia com que, após uma alteração brutal no passado, comportamentos inexplicáveis viessem a acontecer no presente. No caso, o comportamento que Remo havia adquirido era o de dormir por catorze dias seguidos naquela realidade. Exatamente os mesmos catorze dias nos quais havia, em outra linha temporal, voltado repetidas vezes ao passado para tentar rever seus amigos.
Assim, a verdade era que havia mesmo voltado ao passado. Havia alterado os fatos a ponto de evitar a morte de uma pessoa querida. Mas, após fazer aquela alteração, havia também modificado o presente de forma a parecer adormecido para todos aqueles que o cercavam. Em outras palavras, todos os que tinham conhecimento sobre a sua volta ao passado tinham tido apagadas as lembranças referentes à sua jornada. Mesmo Dora não parecia ser capaz de se lembrar de tudo que tinha passado nos últimos catorze dias; agora, eram realidades distintas.
A única pessoa que não parecia ter tido suas memórias alteradas em relação à sua jornada no tempo era Sirius Black. É claro; afinal, Sirius tinha participado ativamente daquilo também. Era tão responsável quanto Lupin pela alteração do passado.
"Remo, vamos... Vamos te tirar daqui", murmurou ela.
Dora e Sirius, então, trabalharam juntos. Cada um de um lado de Remo, deram o impulso necessário para que conseguisse erguer-se do chão. Passando os braços por trás do pescoço dos amigos, Remo sentiu-se ser levado, caminhando ao lado deles de volta ao quarto do Black. Novamente, foi sentado e deitado sobre a cama de lençóis pretos. Para a sua sorte, Moody já não estava no quarto.
"Você precisa descansar", disse ela, de pé ao seu lado. "Dumbledore precisa te ver. Eu vou chamá-lo..."
"Dora...", chamou, fazendo um sinal negativo com a cabeça. "Você sabe, eu... Eu não quero ver ninguém agora."
A moça piscou, confusa à declaração. Remo tinha passado catorze dias desacordado, e mesmo assim não parecia ansioso para ver como estavam todos ao seu redor. Mas, compreensiva como sempre, ela apenas sorriu em sua direção.
Ele parecia cansado; a cada vez que seus olhos cruzavam com os de Sirius, Remo parecia fragilizado a ponto de cair novamente no chão. Como se algo houvesse acontecido entre eles.
"Está certo", respondeu, conformada. "Vou deixar você descansar. Mais tarde, quando estiver mais disposto, pode me chamar à hora que for. Estarei junto com os outros, no térreo". E proferindo as últimas palavras, saiu do quarto, deixando-o a sós com o outro.
Remo não quis crer no que via quando o Black também fez menção de se encaminhar à porta. Tirando forças de algum lugar dentro de si, agarrou-o fortemente pelo pulso, impedindo que saísse.
"Não...", sussurrou, com um novo sinal negativo. "Você não."
Sirius sorriu. O sorriso dele era tão calmo e tão límpido, como um céu sem nuvens ao entardecer. Já parecia conformado ao ver Remo à sua frente. Parecia satisfeito, mas um tanto sereno.
Bem... A verdade era que Remo não sabia se Sirius estava mesmo tão sereno ou se estava agindo daquela maneira na tentativa de acalmá-lo. Era sempre tão difícil ler o que havia por trás da sua expressão.
Ele enfiou as mãos nos bolsos e tirou de um deles um pequeno papel amassado. Amarelado. Muito gasto e com as extremidades rasgadas, devido ao tempo. Estendeu-o na direção do mais baixo.
"Acho que isso te pertence", declarou.
Remo demorou os olhos sobre o papel antes de pegá-lo e abri-lo. Estava tão abalado, que se não reconhecesse sua própria letra e sua própria mensagem sobre ele, provavelmente não teria finalizado a leitura de apenas três linhas.
Entrando na Sala do Véu, você joga fora vinte anos de espera. Você não sairá de lá, mas eu também não sairei. Espere os membros da Ordem da Fênix na saída do Ministério da Magia e não se envolva.
Conseguiu rir um pouco depois de lê-lo.
"Eu sou mesmo dramático, não sou?"
"Um pouco", respondeu o Black, irônico, com aquele mesmo sorriso nos lábios.
"Mas consegui te convencer a não entrar na Sala do Véu."
"Dizendo que você se sacrificaria comigo se eu entrasse", retrucou o maior, incomodado. "É, você conseguiu."
O silêncio instalou-se no cômodo por alguns instantes. Remo mordiscou os próprios lábios, indeciso sobre tocar nos assuntos seguintes com Sirius. Estava tão grato por tê-lo ao seu lado que, por vezes, ainda parecia viver um sonho. No entanto, muitas perguntas ainda rondavam sua mente.
Como se lesse os seus pensamentos, o outro fitava-o pacientemente, como estivesse à espera das questões que seriam levantadas.
"Você sabe... Sirius... Os outros bilhetes..."
"Você não errou", respondeu ele, sucinto. "Eu os entreguei, mas não foi suficiente. Rabicho... Teve acesso aos bilhetes. Ele os leu e viu as datas em que se revelariam. O restante, você deve imaginar."
"Legilimência?", perguntou Lupin, com os olhos baixos.
"No mesmo instante em que as mensagens se revelaram, o Lorde da Trevas teve acesso a elas. Mesmo Tiago e Lílian fugindo, o ataque aconteceu aqui mesmo, nessa casa."
Olhos cor de mel ergueram-se, surpresos, em sua direção.
"Aqui?"
"Assim que chegaram, eles foram atacados."
Mesmo com alguma tristeza já batendo no seu peito, Remo sorriu às palavras do outro. Sirius sabia o quanto se preocupava e o quanto poderia sentir-se culpado por não conseguir salvar os Potter. Assim, e mesmo para dar uma notícia daquelas, ele parecia escolher minuciosamente as palavras para não feri-lo.
"Obrigado por ter tentado", murmurou Aluado.
A tristeza era uma areia fina que fugia pelos seus dedos entreabertos. A cada vez que seus olhos se dirigiam ao maior, uma paz crescia dentro do seu peito. Havia salvado Sirius Black. Havia conseguido reencontrar-se com ele e recuperar todos os seus sentimentos, mesmo após tendo tantas memórias apagadas. Ainda que a História tivesse tentado separá-los por inúmeras vezes, ali estava ele. Não havia sentimento no mundo que se comparasse àquele.
Ainda assim, Sirius hesitava. Parecia querer tocar em algum assunto também, apesar de aparentemente não ter coragem para fazê-lo. Depois de alguns segundos extras de silêncio, olhou o menor de relance antes de tomar novamente a palavra.
"Desculpe pelo que te causei. Você sabe... As memórias..."
"Sirius. Se você não tivesse feito o que fez por mim, eu não sei onde poderia estar agora."
Sirius Black estalou a língua, olhando-o agora com o canto dos olhos. Aquele era Remo. Remo, que sempre achava algo de bom nas pessoas; o Remo que, mesmo tendo suas memórias e sentimentos apagados por tanto tempo, ainda reconhecia suas intenções e era capaz de agradecê-lo. Remo sempre enxergava por trás do que era evidente. Conseguia ver o que era invisível aos olhos dos outros.
Desde que o vira acordado, Sirius vinha tentando controlar-se. Sabia que deveria estar morto e que o choque de vê-lo vivo era grande para Aluado. Sabia que era um momento de surpresa, um momento de fragilidade e, por vezes, ele mesmo mal conseguia acreditar que o que estavam vivendo era real. Mas a verdade era que queria puxá-lo para si e beijá-lo como não fazia há vinte anos. Queria que Remo se recuperasse do choque e que percebesse que tudo ficaria bem. Agora, ouvindo às suas palavras, o seu desejo de puxá-lo ficava ainda mais insuportável.
Finalmente, o inacreditável aconteceu. Provando que conseguia ler seus pensamentos e enxergar mesmo além do visível, Remo voltou as mãos ao pulso do maior, puxando-o lentamente para si. O seu coração deu um pulo tão forte, que quase saiu-lhe pela boca. Remo o estava puxando.
Quando se deu conta, já não estava de pé ao lado dele. Estava sobre ele. Com as pernas dobradas e os braços esticados em apoio sobre o colchão, via-o deitado agora sob si, a poucos centímetros de distância. O aroma natural que saía dos cabelos castanho-claros e o alcançava era o mesmo desde a última vez que o tinha visto. Mesmo já com trinta e seis anos de idade, ter Remo nas proximidades fazia com que os seus instintos adolescentes retornassem, deixando-o desconcertado.
Os olhos cor de mel que tinha sobre si eram um tipo de visão etérea e faziam retornar a dúvida sobre cena ser apenas uma fantasia da sua mente perturbada. Mas não era, não podia ser. As mãos de Remo estavam sobre o seu rosto e tocavam-no de todas as formas, como se o menor também hesitasse em acreditar que tudo era real.
Debruçando-se sobre ele, a pulsação forte o suficiente para quase estourar suas veias, colou os lábios aos de Aluado, lambendo, em sequência, o sabor doce que escorria deles. Tão doce, a ponto de fazê-lo... Fazê-lo... Sentiu-se latejar. Era o momento para aquilo?
Arfante, afastou-se um pouco para encarar novamente os olhos claros. Tanto quanto ele, Remo já ofegava. A tonalidade leitosa da pele estava alterada, apresentando muitos pontos corados pelo rosto.
"S-Sirius...", sussurrou, fazendo menção de puxá-lo de volta para si. Mas antes que o obedecesse como costumeiramente fazia, o Black precisava expressar o motivo pelo qual já ouvia os próprios batimentos cardíacos. Precisava dizê-lo, pois não desperdiçaria mais chance alguma. Agora que tinha a oportunidade de viver mais alguns anos — quantos anos? — ao lado do menor, faria questão de usar cada segundo da sua vida para expressar-se a ele.
"Vinte anos...", sussurrou de volta, enquanto as mãos do outro caminhavam sutilmente pelos seus fios escuros. "Vinte anos, sem você, foram um sacrifício..."
Íris amareladas pareceram emotivas ao receber aquelas palavras. Não importava o quanto tentasse. Não importava o quanto procurasse convencer a si mesmo de aquela era sua nova realidade; uma realidade feliz, plena, acompanhada da pessoa que mais havia amado em vida. Não importava o quanto tentasse aceitar e apenas viver normalmente, a gratidão logo tornava a umedecer seus olhos. Permaneceu atento às palavras, enquanto Sirius voltava a sussurrar o resto da frase.
"Mas por você, eu teria esperado mais cem."
Lábios quentes coletaram os pingos salgados que já escorriam-lhe pelo rosto. Então, tornaram a encontrar os seus por um tempo que Remo também não soube definir quanto foi. A sua ideia de tempo já não era a mesma.
Permaneceram juntos, sobre a cama lençóis pretos, por todo o resto do dia. Ainda que Dora tivesse tentado convencê-lo a descer as escadas e informar a todos que estava bem, faltava-lhe a vontade para sair do lado do Black.
Quando anoitecesse, faria aquilo. Desceria as escadas; cumprimentaria Dumbledore, Snape, Olho-Tonto. Agradeceria Dora mais uma vez por tê-lo ajudado tanto, ainda que ela não pudesse compreender suas palavras. Depois, agiria normalmente, como se nada de extraordinário tivesse acontecido em sua vida nos últimos catorze dias. Mas agora, não queria.
Tudo o que queria era continuar deitado, enquanto admirava os cabelos desgrenhados estirados no travesseiro ao seu lado; olhar nos olhos escuros que pensou que não voltaria a ver; sentir aquela presença tão magnética, mas tão pura, que acalmava o seu coração. A presença que lhe dizia que tudo ficaria bem.
As trevas cresciam a cada dia naquele mundo. A Segunda Guerra Bruxa encontrava-se no seu ápice, e Remo sentia precisar aproveitar cada momento da sua vida como se fosse o último. Mas independente do viesse a acontecer amanhã, não sentia mais medo.
Ao seu lado, agora, tinha o seu Patrono. A energia que lhe dava paz e que lhe provava que não havia mais o que temer. Enquanto Remo o tivesse por perto, estaria seguro. E mesmo que não soubesse por quanto tempo mais teria os olhos escuros encarando-o daquela forma, já não importava. Pelo tempo que fosse, havia valido a pena.
O tempo, afinal, era relativo. E mesmo um único segundo, na sua atual perspectiva, poderia ser eterno.
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