O Patrono Perdido
24 Capítulo 23: Um Diálogo Perdido no Tempo
Notas iniciais
Quando Remo aparatou vinte anos adiante no tempo, não estava na antiga residência de Sirius no Largo Grimmauld, mas sim naquela estranha residência de Alvo Dumbledore.
Se estivesse sob a luz da razão, teria se perguntado o motivo daquilo. O Portal que antes o levava à sede da Ordem agora o levava àquele quarto onde tinha sido levado por Dumbledore quando ainda inconsciente? Mas Remo não se perguntou o motivo disso. Nem mesmo percebeu que não estava onde imaginou que estaria.
Tão logo aparatou ali, apenas duas imagens permeavam sua cabeça. Uma delas era a imagem da caixa de lebre e seu fundo falso. O motivo de ter voltado a seu tempo real, mesmo que todos os seus instintos, todos os seus sentimentos ordenassem que ficasse no passado com Sirius. Há muito tempo, não estava em sã consciência. Mas agora, tudo o que precisava era da caixa.
Saber como. Saber o motivo. Sirius havia escolhido uma caixa com fundo falso, e devia ter guardado no fundo verdadeiro as respostas tão procuradas por Lupin.
Por favor, que estivessem lá. Por favor, que não tivesse mais que ir e voltar no tempo, em busca daquelas respostas.
Havia um barulho. Um barulho ao longe... Vozes que conversavam. Uma delas era uma voz feminina, e Remo cogitou ser Dora. Era possível que ela ainda estivesse naquela casa, desde que Remo havia se despedido da última vez? Não sabia. Quanto tempo havia se passado desde aquele momento, afinal? Também não sabia.
Começou a procurar pela caixa. Não por que não estivesse curioso para saber como Dora estava ou por que não tivesse interesse em saber com quem ou o que ela falava; mas apenas não se sentia disposto a fazer mais nada além de procurar aquele recipiente que devia guardar suas respostas.
Onde poderia estar? Revirava os armários e objetos de Dumbledore, tentando não fazer barulho para que não o escutassem. Não queria ter que falar com ninguém. Não queria ter que se explicar.
Onde estava a sua maldita educação?
A imagem de Sirius Black ia e vinha na sua mente. Ele o amava. Sirius tinha dito na noite anterior que o amava. Ou seria uma noite de vinte anos atrás? Vinte anos apagavam um sentimento como aquele? Quantos anos eram necessários? Quantos anos eram necessários para que Sirius desistisse dele e resolvesse apagar suas memórias?
Seus braços mal o obedeciam. Na sede da procura, estabanado como estava, Remo derrubou no chão algo que soou como um objeto valioso. Nem sequer se deu ao trabalho de parar para olhá-lo; nem se interessou em saber o que era. Estava também com raiva de Dumbledore, afinal. Por que todos pareciam saber o que estava acontecendo, menos ele? Tinha sido excluído. Tinha sido manipulado.
Não havia névoas que o perseguissem naquele tempo. Mesmo assim, Remo sentia-se mais nublado e mais cego que nunca. Fazia qualquer coisa, na sede de encontrar a caixa. Mas por mais que seus sentidos estivessem visivelmente alterados, percebeu que após a derrubada do objeto, as vozes ao longe pareceram perceber sua presença ali, pois pararam de falar.
Essa não... Tinha sido descoberto.
De repente, percebeu. Que estava fazendo? Tinha anos que não precisava procurar um objeto assim, manualmente. Tinha a droga da magia ao seu lado!
"Portus revelio!", murmurou, com a varinha já empunhada, dando o máximo de si mesmo para não chamar mais atenção. Esperava, com aquilo, que o Portal escondido revelasse sua localização. E assim foi feito.
Exatamente como num passe de mágica, no chão logo à sua frente, a caixa revelou-se. Agora, estava claro: tinha sido escondida por meio da magia, e somente por meio da magia podia ter sido encontrada. Por uma fração de segundos, a sua raiva multiplicou-se: Dumbledore a havia escondido? Mas já não importava.
No desespero de estar a um passo de tudo aquilo que vinha procurando desde o início daquela loucura, ajoelhou-se no chão. As mãos trêmulas alcançaram a caixa. Mas, às suas costas, uma voz inesperada também o alcançou.
"Remo", chamou-o Dora, em tom que transparecia muita determinação. Como estivesse prestes a falar-lhe algo. Pela proximidade daquele timbre, provavelmente estava muito, muito perto. Bem às suas costas. Mas Remo não se virou para olhá-la.
"Se você veio tentar me impedir", cortou-a, incisivo. "Não perca seu tempo."
As mãos ávidas abriram a caixa. Evidentemente, a varinha não estava lá dentro — como Remo acabava de aparatar no presente, ela provavelmente estava caída em algum lugar por aquele chão. O fundo da caixa parecia não ter nada de especial.
"Remo, eu jamais..."
"Jamais tentaria me impedir", interrompeu ele, mais uma vez. "Mas você mentiu pra mim. Você e Dumbledore estão envolvidos nisso. Você sabia que o fundo era falso".
Já batia incessantemente a caixa, de ponta cabeça, sobre o piso daquele aposento. Tentava fazer com que o fundo falso se desprendesse, mas estava preso. Estava terrivelmente preso.
"Mas eu não..."
Nesse instante, Remo não saberia dizer se Dora completou ou não a sua frase. Não saberia dizer, pois simplesmente desligou-se da realidade. Os seus ouvidos se tamparam instantaneamente, como estivesse surdo... Mas não estava. Estava apenas em um tipo de estado de choque.
Pois, naquele instante, o fundo falso da caixa de lebre se desprendeu e voou longe, caindo a muitos centímetos de distância. O fundo verdadeiro, por fim, se revelava.
Era grande. Muito grande, sim, enorme. Muito maior do que de fato aparentava ser.
Dentro dela, três frascos. Três frascos incrivelmente empoeirados, gastos pelos anos que se haviam passado. Tão logo os olhos de Remo recaíram sobre eles, sua garganta secou. Um líquido muito viscoso e escuro, quase preto, estava contido no interior de cada um daqueles três frascos muito bem vedados. Olhando bem, não se podia saber ao certo se era mesmo um líquido ou uma fumaça densa que se debatia por todos os cantos dos três recipientes. Mas não era só isso.
Estavam enumerados. Não como se alguém tivesse pegado uma caneta e escrito sobre as superfícies de vidro — não. Mas eram números verdadeiramente encravados sobre aquele vidro, como se tivessem sido desenhados com faca ou outro objeto muito afiado. Uma inscrição forte o suficiente para que os números não se apagassem com o tempo — perdurassem ali por anos a fio, inapagáveis.
A numeração era muito simples: "1", "2", "3". Três números encravados separadamente, sobre três frascos — provavelmente, a ordem na qual aqueles frascos deveriam ser usados.
"Dora...", chamou Remo, em uma súplica. Já não sentia rancor dela ou de Dumbledore. Não sentia rancor de ninguém. Apenas pedia a ajuda da moça, sabe-se lá para o quê. No fundo, sabia que ninguém podia ajudá-lo.
Dora não agiu. Se Lupin tivesse virado para olhá-la, teria percebido que os olhos dela também estavam arregalados na direção dos frascos, em pânico. Estavam tão surpresos quanto os de Remo.
Nos últimos dias, Dumbledore vinha dando a ela indícios de que logo Remo procuraria e encontraria algo que estava ao seu alcance. Algo que poderia dar-lhe as respostas que procurava. Instintivamente, quando encontrara Lupin pela última vez, ela havia dado algumas batidas na caixa de lebre, fazendo ecoar um estranho som, como a caixa estivesse oca por dentro. Naquele momento, suspeitou de que havia algo escondido na caixa — mas não esperava encontrar aquilo.
"Dora...", tentou ele mais uma vez. "Dora, isso é..."
Com a rouquidão daquela voz, Dora também tremia. Sentia-se tão impotente. Queria ajudá-lo, mas simplesmente não sabia como. Lentamente, deu passos em direção a ele e também ajoelhou-se sobre o chão, ao seu lado.
Uma das mãos tocou o ombro de Remo, na tentativa de consolá-lo. Tentando ainda transparecer alguma calma, sussurrou:
"Vai ficar tudo bem. Estou aqui ao seu lado."
Aquelas palavras atingiram a Remo como uma apunhalada no peito. Eram as mesmas palavras que Sirius tinha lhe dito da última vez em que haviam se deitado juntos. Vai ficar tudo bem, dissera ele. Vou estar aqui amanhã quando você acordar.
Ainda assim, por mais que as palavras lhe tivessem doído, também deram a Lupin alguma coragem.
Eram memórias. Evidentemente, memórias de Sirius Black. Memórias que Sirius havia deixado separadas em três diferentes frascos, todos enumerados. Memórias para que quando Remo passasse por tudo aquilo, houvesse uma resposta em algum lugar, aguardando-o. Bem, finalmente havia chegado o momento.
Num ímpeto de valentia, Remo pegou o primeiro daquele frasco em mãos. Tão logo tocou-o, uma estranha corrente elétrica pareceu subir de suas mãos e perpassar todo o seu corpo, arrepiando-lhe até o último fio de cabelo. Era de Sirius, claro — só podia ser. Quem mais no mundo causava-lhe aquele efeito, senão ele?
"Você não precisa fazer isso, se não quiser."
"Eu preciso, Dora", respondeu-lhe. A voz e as mãos trêmulas não mentiam: estava visivelmente alterado. Ainda assim, persistia: "Sirius deixou isso pra mim. Cheguei até aqui... Não posso mais voltar."
Dizendo isso, levantou-se. Cambaleante, com o frasco número um ainda em mãos, encaminhou-se à Penseira de Dumbledore que residia naqueles aposentos. Alcançou-a e debruçou-se sobre ela. A poeira ao redor do frasco era tamanha, que quando Remo tentou abri-lo, percebeu quão sujas suas mãos já estavam.
Não conseguia. Por mais que aplicasse força sobre aquela tampa na tentativa de abri-la, os seus dedos estavam fracos. Estava a um ponto de desfalecer ali. A cada segundo, sentia-se mais tonto e mais cansado; talvez fosse sua pressão que estivesse caindo.
Mas antes que Remo caísse de uma vez dentro daquela Penseira sem nem mesmo ter derramado memória alguma sobre ela, sentiu a presença de um vulto ao seu lado. Virou-se com pressa, percebendo que não era Dora que estava ali, tão próxima em tão pouco tempo.
Deparou-se com um homem de idade avançada, cabelos longos, branco-prateados. Alvo Dumbledore olhava-o com ternura quando abriu as mãos em sua direção, oferecendo-se para abrir o recipiente.
Não trocaram palavras. Compreendendo o olhar do velho — e sem condição de negar qualquer ajuda que fosse -, Remo entregou-lhe o pequeno frasco. Alvo abriu-o em questão de segundos. Ao invés de jogá-lo diretamente na Penseira, porém, o velho apenas devolveu o frasco a Remo, agora com um sorriso de bondade estampando-lhe o rosto.
"Essa foi sua escolha desde o começo, Remo. Independente do que você encontrar pela frente, estou feliz por ter chegado até aqui."
Como ignorá-lo fosse a única opção que Remo tinha, apenas arrancou o frasco das mãos do mais velho. Era capaz de sentir seus próprios batimentos cardíacos na mão ao invés de no peito, como se toda a sua força vital estivesse concentrada nos pontos em que segurava o frasco. Suava frio, mas desistir já não era uma opção.
Lentamente, despejou o líquido escuro e viscoso na Penseira. Tão logo ele foi caindo e batendo sobre a superfície gelada do objeto, pequenas bolhas se formaram em sua superfície. Remo se perguntou se o motivo daquilo era ser uma memória tão antiga; ou, talvez, uma tão difícil de ser retirada de seu portador. Aquela água turva e sinistra parecia encará-lo, realizando movimentos circulares e concêntricos sobre a Penseira, como se estivesse descendo por um ralo. Mas não descia — apenas se movimentava assim eternamente, como que chamando-o para que ele a assistisse logo.
Remo não pensou mais. Com os olhos já úmidos pela emoção ou nervosismo, soltou um suspiro final. Apoiado nas bordas da Penseira, mergulhou por fim a cabeça naquele líquido estranho — e foi imediatamente sugado por ele, sendo levado por muitos e muitos anos.
~
Objetos desapareceram da sua frente. Dumbledore e Ninfadora já não estavam mais lá. Não estava mais no cômodo em que estivera até então. A própria Penseira passou a ser uma distante ilusão na sua mente, porque já não podia ser avistada. Remo estava imerso naquela memória, uma fumaça acinzentada circundando seu corpo, prestes a devorá-lo.
Foi caindo lentamente, até chegar em um novo local.
Móveis. Pequenos móveis por todos os lugares foi a primeira coisa que conseguiu avistar. Uma pequena cômoda em uma cor marrom-escura, localizada em uma sala apertada e mal iluminada, ao lado de um sofá de apenas dois lugares. Um relógio de parede pregado sobre uma diminuta lareira. As horas marcavam nove horas e quarenta da manhã. No entanto, havia ainda uma grande janela — e, por ela, Remo pôde perceber que não era dia.
O céu estava escuro como fosse noite, exceto pelo fato de que não havia Lua ou estrelas. Havia apenas uma enorme neblina, um contínuo de nuvens que se sobrepunham umas às outras, dando a impressão de que não havia luz. Noite, mas eram apenas nove e quarenta da manhã. O que aquilo poderia significar?
Chovia muito. Era possível ouvir o barulho dos pingos caindo sobre o parapeito da janela, mesmo que ela estivesse fechada. O som do vento era tão alto, que dava a impressão de que aquele vidro seria quebrado a qualquer minuto. De repente, formaram-se pessoas às sua frente.
Tiago Potter era um homem de cerca de vinte anos. Lupin espantou-se ao vê-lo. Da última vez em que tivera contato com o Potter, ele era apenas um adolescente que beirava a inconsequência e a responsabilidade, olhos azuis muito espertos e divertidos guardados atrás de um óculos fundo de garrafas; agora, apenas cinco anos mais velho, ele parecia ser outra pessoa.
Tiago estava com mais marcas de expressão do que um jovem da sua idade deveria ter. Estava sentado no sofá, os olhos distantes, a expressão triste e pesada direcionada à janela.
Havia também... Outra pessoa. Outra pessoa, mas Remo quase não pôde crer no que via.
Rabicho estava sentado ao pé da janela, encolhido. Assim como Tiago, tinha seus vinte anos e estava com os olhos igualmente distantes, direcionados ao chão. Balançava-se lentamente para frente e para trás, muito ansioso com algo. Mas estava muito, muito diferente do que Lupin imaginara. A sua expressão estava indiscutivelmente pior que a do Potter; diferente de Tiago, ele estava pálido e olheiras profundas faziam-se sob os seus olhos avermelhados. Vários pontos em sua cabeça indicavam queda de tufos de cabelo. Remo não se lembrava daquela imagem dele.
Sabia que Pedro Pettigrew havia traído a família Potter quando estava com cerca de vinte e um anos, e não sabia se ele já estava ou não naquela fase. Mas independente de estar ou não, Remo jamais o havia visto daquela forma, tão entregue às sombras assim, bem sob os olhos de Tiago, que parecia nem sequer percebê-lo.
Nunca havia visto Rabicho tão mal. Ou isso, ou suas memórias sobre aquilo também tinham sido apagadas.
De súbito, alguém do lado de fora bateu com força sobre a porta do cômodo, abrindo-a.
A imagem de Sirius Black também com aquela idade fez as pernas de Remo vacilarem e suas mãos suarem frio. Encharcados pela chuva, os fios desgrenhados que compunham seu cabelo pareciam um tanto mais comportados. Ele ofegava, parecendo ter corrido muito para chegar até ali. Tão logo entrou com estrondo na casa, os dois outros presentes olharam-no, assustados.
"Tiago, como ela está?", perguntou, nem mesmo explicando-se ou cumprimentando os amigos.
Tiago, que agora percebia que era apenas Sirius quem chegava com tamanho estrondo, apenas suspirou, desviando seus olhos. Murmurou em resposta:
"Está assustada. Harry está bem. Mas acho que não podemos ficar aqui por muito tempo. Se ele nos descobriu no esconderijo de Bibury, vai descobrir que estamos aqui. Precisamos ir logo para um lugar definitivo."
Remo estreitou os olhos na direção daquele homem. Do que Tiago estava falando, exatamente?
"Se Rabicho não estivesse em forma de rato e não tivesse visto a tempo que eles se aproximavam, provavelmente estaríamos mortos agora. Foi isso que nos deu tempo de fugir. Pensamos que o Lorde das Trevas nos atacaria somente quando Harry completasse um ano", e após um suspiro, concluiu: "Mas Harry tem apenas seis meses e ele já está atrás de nós."
Por alguns segundos, a sala permaneceu silenciosa. O único barulho que se podia ouvir além da forte chuva que batia na janela era o ofegar de Sirius, que ainda não havia cessado. Nesse instante, Tiago olhou-o com alguma suspeita.
"Mas você já sabe disso. Nos falamos ontem, e eu disse que Lílian e Harry estavam bem. Você não pode ter vindo só por conta das notícias."
Sirius Black desviou os olhos, cabisbaixo. Naquele instante, Remo pôde ver que ele já não possuía o mesmo olhar de antes, quando ainda era uma adolescente. Por mais que não fossem tão profundas quanto as de Rabicho, olheiras também faziam-se sob os seus olhos. O seu semblante era de quem havia passado por muitas dificuldades até então.
"Tiago...", murmurou ele, ainda sem fitá-lo. "Por favor, tire Remo disso. Me coloque no lugar dele."
O Potter pareceu um tanto surpreso com aquilo. Mesmo assim, recuperou-se rápido do susto.
"Por quê?", perguntou.
"Você e Lílian foram atacados há quatro dias. Você sabe que se o Lorde das Trevas não conseguir alcançá-los logo, ele virá atrás de mim. Mas Remo estará comigo. Se descobrirem que ele será o Fiel do Segredo, Remo vai correr mais risco do que todos nós. Vão executá-lo."
Tiago agora não movia um músculo sequer, ouvindo com atenção as palavras de Sirius. Os olhos amedrontados de Pettigrew também estava sobre o Black.
"Tire Remo disso", pediu Sirius. "Me escolha como Fiel. Eles já virão atrás de mim de qualquer jeito. Não estarei correndo mais ou menos risco com isso. Mas Remo... Ele não precisa se envolver assim. Tire-o disso."
O outro sorriu, cético com aquela ideia.
"Acho que você não entendeu como isso aconteceu. Não fui quem escolheu Remo para ser o Fiel do futuro Segredo. Ele mesmo se ofereceu", prosseguiu, agora já sem sorriso algum nos lábios. "Além disso, não posso simplesmente afastá-lo à força. Remo é um de nós e vai ficar ofendido se não puder agir para nos ajudar."
Sirius então pareceu hesitar antes de retomar a palavra. A frase que proferiu em sequência saiu de seus lábios muito lentamente, como se relutasse em fazê-lo.
"Se Remo concordar em não ser mais o futuro Fiel... Se ele concordar em não sê-lo mais, você aceita me colocar no lugar dele?"
"Sirius... Você já está correndo muito risco. Você é um dos organizadores dos planos da Ordem da Fênix. Se descobrirem que você também será o Fiel, você não terá chances. Remo é tão ou mais inteligente que qualquer um de nós. Você sabe que ele poderia lidar com isso..."
"Se ele concordar em não ser mais, você me coloca no lugar dele?", repetiu o Black, apático.
"Sirius..."
"Eu estive em Hogwarts", interrompeu-o o outro. "Essa mulher que entrou agora para a escola... Sibila Trelawney. Ela só tinha feito uma única Profecia sobre Harry, não é? A Profecia que dizia que ele seria o único que poderia vencer o Lorde das Trevas. É por isso que você estão sendo perseguidos."
Frente àquelas palavras, Tiago pareceu muito alterado. Sua face se imergiu no medo de perder as pessoas que lhe eram queridas. Com os olhos baixos, ele murmurou:
"É isso."
"Mas não é só isso", disse-lhe Sirius, o que fez com que os olhos azuis do amigo se voltassem mais uma vez em sua direção. "Eu mesmo fui até Hogwarts para ouvi-la dizer isso, porque eu não quis acreditar numa previsão tão utópica. Ela repetiu a Profecia me olhando nos olhos. Parecia estar possuída por alguma coisa. Mas essa não foi a única coisa que ela disse."
"Há uma outra Profecia, Tiago", continuou ele. "Sobre nós. Nosso grupo não vai perdurar por muito tempo. Uma parte de nós vai morrer na guerra, e a outra parte estará condenada. Um de nós vai para Azkaban por engano."
Pettigrew e Potter ficaram em choque. Remo, que não pertencia àquela memória, sentiu seus joelhos vacilarem mais uma vez. Uma vertigem. Uma terrível vertigem. Estando prestes a cair, apoiou-se na parede mais próxima, com dificuldade. Não era possível que estivesse vendo aquilo. Mas o Black continuou, também visivelmente muito alterado:
"Eu não quero... Não quero que Remo esteja em nenhuma dessas partes."
"Não pode ser verdade...", murmurou Tiago, com os olhos distantes. "Estamos tomando todas as precauções... Não pode ser que terminemos assim essa luta..."
"Você não vê?", insistiu o outro, irritado. "Sibila não afirmou com essas palavras, mas é certo que o Fiel do Segredo é que será um dos mortos ou será levado a Azkaban. Vai ser uma armadilha. Você precisa tirá-lo... Você precisa tirá-lo, Tiago... Nós nos transformamos... Nós temos chance de escapar, porque somos Animagos. Mas Remo..."
Mais uma vez, o som da chuva fez-se como único que se podia ouvir. As trevas e o medo agora pairavam sobre aquela sala, tanto quanto pairavam por todos os lados naquela época. Remo sentia seu pulmão comprimindo-se, como estivesse prestes a implodir.
"Remo se transforma em lobisomem a cada mês", explicava-se Sirius. "A cada mês, ele fica na cama. Tem febre. Sente dores. Não consegue sequer se manter de pé... Vocês sabem. Vocês já viram", concluiu, em tom de súplica. "Eles sabem disso. Sabem que Remo é um lobisomem. Vão aparecer na Lua Cheia de propósito. Vão aparecer quando ele não tiver chances de se defender. Ele não terá chance de lutar contra eles. Se for para Azkaban, Remo não vai durar uma semana..."
A expressão de Tiago não mentia: ele não havia pensado em tantos detalhes. Além disso, não sabia sobre aquela nova Profecia, e parecia tão apavorado quanto todos os demais. Remo pôde ler na sua expressão até algum sentimento de culpa. Talvez, culpa por ter colocado Lupin em tamanho risco, tendo conhecimento daquelas suas fraquezas. Mas não tinha percebido... Apenas não tinha percebido...
"Você me coloca no lugar dele?"
Derrotado, Tiago assentiu lentamente com a cabeça. Finalmente, tinha concordado.
Naquele instante, porém, algo mais aconteceu no cômodo. Rabicho, que estava imóvel e absorto em pensamentos desde então, finalmente se remexeu na posição. Em questão de segundos, tomou a palavra para si. Quando fez, tinha um estranho brilho nos olhos.
"Não", disse ele. "Tiago vai me colocar no lugar de Remo. Não tem problema para mim."
Sirius e Tiago entreolharam-se, surpresos. Pedro Pettigrew, pela primeira vez na vida, estava aceitando assumir um risco efetivo pelos Marotos? Mas o Remo do futuro sabia que não era o que parecia. Rabicho prosseguiu:
"Remo não tem condições por ser um Lobisomem. Sirius já está sendo perseguido pelo Lorde das Trevas. Se alguém deve ter o Fiel do Segredo, esse alguém sou eu."
"Mas... Rabicho... Você sabe que isso significa...?", perguntou Tiago, logo sendo interrompido.
"Sei que vou correr um risco", respondeu ele, dando de ombros. Parecia simplesmente não perceber a gravidade daquilo... Ou então, fazia de propósito. "Mas se não puder correr um risco pelos amigos, então o que serei? Além disso..." e nesse instante, um sorriso malicioso estampou seus lábios. "Sou um rato! Mesmo se for para Azkaban, consigo fugir em menos de três dias."
Não. Remo não podia estar vendo aquilo, não... Sirius Black... Ele tinha levado-o a assistir justamente a memória na qual Rabicho se oferecia para ser o futuro Fiel do Segredo. Tinha levado-o para assistir justamente o momento no qual Pettigrew se oferecia com a intenção clara de traí-los.
Tantos detalhes escondidos por tanto tempo.
Remo não sabia que Tiago, Lílian e Harry tinham sido atacados quando o menino tinha apenas seis meses. Não sabia que havia um esconderijo em Bibury que tinha sido alvo do ataque dos Comensais da Morte. Não sabia que Rabicho tinha salvado a família Potter daquele ataque, provavelmente apenas mostrando-se confiável suficiente para ser Fiel de um Segredo...
Mais do que isso, não sabia que Sirius tinha ido a Hogwarts ouvir as palavras de Sibila Trelawney, e muito menos sabia que havia uma Profecia que falava tanto sobre os Marotos...
A sua pressão agora caía a passos largos. Formavam-se lágrimas nos seus olhos, mas Remo não saberiam dizer do que era. Raiva? Tristeza?
O céu escuro em plenas nove horas da manhã não mentia: eram tempos sombrios. Agora, revivendo uma memória que nem sequer era sua — e já não sabendo quanto dela Sirius Black havia arrancado de si -, Remo percebia o pavor que se alastrava por todos os cantos. Lembrava-se que haviam sido tempos difíceis, mas não se lembrava de ter sentido aquilo na pele de tal forma. Era possível que o Black também tivesse alterado suas memórias em relação ao medo, na tentativa de poupá-lo? Era possível que ele tivesse arrancado de Remo a memória de que, na verdade, ele, Remo Lupin, é que tinha sido inicialmente escolhido como Fiel do até então futuro Segredo?
Suas pernas finalmente perderam o restante das forças e Remo caiu ajoelhado sobre o chão. Mesmo quando estava a um passo de perder os sentidos, ouviu, ao longe, a voz de Tiago:
"Tudo bem... Se Remo abdicar de ser o Fiel, eu passo a missão a Rabicho."
De repente, tudo ao seu redor se escureceu e voltou a se desintegrar. Uma fumaça cinza-escura tomou conta de todos os móveis, as janelas, os seus amigos. Todos viraram um fluido denso que se desfez, voltando a rodar em torno de Remo. Sentiu ainda seu corpo ser levitado bruscamente — sendo levado para cima em grande velocidade, como se estivesse subindo dentro de um elevador.
A memória do frasco número um chegava ao fim. Em uma questão de segundos, Lupin foi lançado de volta à Penseira, sua cabeça sendo fortemente empurrada para longe dela pela inércia da sua subida em alta velocidade.
Caiu no chão da residência de Dumbledore, sem saber o que fazer.
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