O Patrono Perdido

22 Capítulo 21: Uma Despedida Frustrada


Notas iniciais
Ufa! Desculpem a demora e o número de palavras, mas é que... hehe. Deixem comentários ao fim. Boa leitura!

Mais uma vez, Remo corria em direção à Casa dos Gritos. Mas dessa vez, não corria sem saber seus motivos. Corria de medo.

O corredor por sob o Salgueiro Lutador estava embebido em névoa. Aquela mesma névoa fria, úmida, impalpável. Suave como uma cortina de seda, assustadora como a ampola de tempo que lhe dizia: Seu tempo aqui terminou. Corria, com medo que aquela névoa o alcançasse. Já tinha sido ruim, ruim o suficiente ao longo do dia. Ninguém mais era capaz de vê-la. Só podia indicar o fim do seu tempo ali.

Quando o alcançasse, o que aconteceria? Não queria pensar na resposta. Acreditava antes que o seu fim seria outro, talvez quando a varinha-portal parasse de funcionar. Mas não era o caso. Havia uma névoa terrível, antes quase imperceptível, agora evidente, que vinha logo atrás de si. Corria, porque sabia que se fosse lançado vinte anos no tempo contra a sua vontade, não teria mais a chance de retornar.

Não poderia mais salvar... Não. Não poderia sequer ver mais nenhum dos seus amigos.

Tudo havia piorado quando Remo deixara o seu dormitório da Grifinória e saíra em direção à Casa dos Gritos. Quando saiu do castelo de Hogwarts, a fumaça branca tomou quase tudo ao seu redor. Mas não tudo ainda.

Remo corria por aquele túnel, mas quanto mais corria, mais ela parecia se aproximar. Era o seu fim. Era o seu fim?

Lá na frente, bem adiante, ele o enxergou. O fim do corredor. A imagem do alçapão que fazia a conexão com o interior da casa. Estava a salvo?

Talvez se abrisse o alçapão e entrasse rápido o suficiente, prendendo a névoa pra fora... Que estava pensando? Estava fugindo de um acontecimento inevitável, mas precisava fugir. Não estava preparado ainda pra voltar. Não tinha tido a chance de se despedir.

Correu mais rápido, pois precisava chegar a tempo. Naquele momento, a névoa pareceu aumentar ainda mais. Mas, por sorte, conseguiu completar a primeira parte do seu plano: chegou ao fim do túnel.

Bateu as mãos com força no alçapão, forçando sua abertura como normalmente fazia. No entanto, sua força pareceu não ser suficiente – continuava fechado. Bateu mais e mais, repetidas vezes, os punhos fechados sobre aquela maldita madeira, mas, mais uma vez, nada aconteceu. A quem estava tentando enganar?

Estava fraco. As suas pernas tremiam como nunca. A Licantropia estava a alguns passos de distância. Transformar-se naquele túnel não parecia ser uma boa ideia. Em pânico, bateu a mão mais e mais vezes, sem sucesso. Emperrada? Sentiu a própria pressão caindo. Estava exausto. Tão fisicamente exausto.

Permitiu que as pernas fraquejassem e caiu ajoelhado sobre as duras pedras do corredor sombrio onde se encontrava. Estava tão assustado, mas não tinha forças para lutar. Tão psicologicamente exausto de tudo aquilo.

Voltar no tempo, rever seus amigos... Adiantá-lo, perder seus amigos.

Voltar, revê-los. Adiantar, perdê-los. Voltar...

Um ciclo vicioso. Levou às mãos a cabeça. A cabeça já doera muito naquele dia. Muito, insuportavelmente. Agora, já não doía. Não havia tampouco nenhuma informação em seu interior. Estava tão confuso – já não sabia mais quem era ou a que tempo pertencia. Sentia não pertencer a nenhum deles.

Caído sobre aquele chão, sentiu-se sozinho. Mesmo as pedras pareciam satisfeitas em seu próprio ambiente, seu próprio tempo. Coladas umas às outras, faziam-se companhia. Não havia chance de se perderem ou morrerem. Não havia chance de verem seus amigos mortos, ou presos em Azkaban, ou ao lado do Lorde das Trevas. Uma existência plena. Atravessando a Sala do Véu.

Seus olhos encheram-se de água, mas Remo estava cansado para chorar. Também, de que adiantaria? Quem poderia vê-lo? Socorrê-lo? Contetou-se com um soluço. Fechou os olhos e encostou as costas na parede fria.

Se ao menos pudesse ter feito tudo diferente. Se ao menos pudesse ter segurado seus amigos e tocado o Portal com eles, viajando vinte anos no tempo e garantindo que continuariam vivos e a salvo. Se ao menos pudesse ter dito a Sirius como queria salvá-lo antes daquela névoa terrível engoli-lo.

“Onde você está?” perguntou, por entre mais um soluço, sem saber ao certo a quem se direcionava.

Era tarde, tarde demais para lamentar-se. Mas depois daquela pergunta, Remo ouviu um ruído à sua frente. Um ruído baixo e delicado, como fosse uma resposta à sua pergunta. Um ruído de algo... Rolando. Rolando sobre aquele chão.

Abriu os olhos. Não viu mais toda aquela névoa à sua frente. Havia menos... Bem menos. Piscou, confuso. Direcionou o olhar ao chão, e então a viu. Era a varinha-portal. A varinha de Sirius Black rolando pelo chão, do além, em sua direção.

Como já não lhe bastasse todo aquele pânico, ouviu também um sussurro em sequência e teve, por uma fração de segundos, a ideia de que talvez ele estivesse vindo da varinha. Suas palavras eram:

“Você está infeliz. Aqui não é o seu lugar.”

Mas não. Não podia ser um sussurro vindo da varinha. Estava atordoado, mas ainda não tinha enlouquecido. Tinha que ser Sirius Black pregando-lhe uma peça. Logo em uma hora como aquela.

“S-Sirius?”

No instante seguinte, Sirius Black materializou-se à sua frente. Saiu debaixo da Capa da Invisibilidade, os cabelos desgrenhados soltos no ar frio, os olhos escuros ainda jovens, cheios de vida. Tão logo Remo o viu, sentiu o baque da força que Sirius exercia, mesmo sem querer, sobre a sua pessoa. Uma mistura de alívio e nervoso instalou-se no seu corpo, como um súbito choque térmico que o trouxe de volta à realidade.

Por mais que Remo estivesse crente de que aquilo era uma peça que ele tentava pregar, Sirius não sorriu como de costume à sua pessoa. Permaneceu sério, grave – e aquela sua postura só fez com que o outro tremesse mais por sob suas vestes. Ele disse:

“Achei... Que não fosse mais te ver.”

De repente, Remo deu-se conta. Não... Não era possível. Onde estava?

Desesperado, começou a procurá-la. Olhou pelas paredes, o teto baixo, os próprios pés. Não era possível. Onde estava? Onde estava toda aquela névoa que vinha seguindo-o na sede de levá-lo embora?

Apavorado, direcionou os olhos cor de mel, agora arregalados, na direção do maior.

“C-Como você... Fez isso?” gaguejou, agora amedrontado demais para olhar ao redor.

Mas Sirius não respondeu sua pergunta. Parecia igualmente abalado demais com aquele momento. Com os olhos baixos, ele murmurou as mesmas palavras:

“Pensei que não fosse mais te ver.”

“Sirius” chamou o outro, com firmeza, obrigando o Black a prestar atenção nas suas palavras. “Você fez... A névoa sumir. Como você fez isso?”

“Que névoa?”

“Uma névoa... Estava me seguindo...”

Então, lembrou-se. Era verdade – não era a primeira vez que o Black causava o desaparecimento daquela névoa. Quando saíra da sala de McGonagall mais cedo, todo o ar também estivera envolvido por aquela fina fumaça, até... Bem, até Sirius Black aproximar-se. Era como se a sua presença repelisse aquilo. Exceto pelo fato de que não havia sido tão forte da primeira vez.

Era possível...? Não. Talvez estivesse alucinando. Estava indo longe demais. Ao mesmo tempo, não era possível que fosse apenas mera coincidência... Nada naquele tempo parecia acontecer por coincidência.

Quanto mais se afastava de Sirius, mais a névoa se intensificava. Por isso havia aumentado quando Remo deixara o dormitório masculino e o castelo de Hogwarts. Havia aumentado quando Remo saíra ao ar livre, aumentado quando chegou ao túnel por baixo do Salgueiro, aumentado a cada vez que Lupin tinha corrido para chegar à Casa dos Gritos.

Mas quando parou – quando desistiu de abrir a portinhola e deixou-se cair no chão, sem esperanças -, deu tempo para que Sirius, que o seguia, se aproximasse em grande velocidade. Agora que ele estava à sua frente, quase não havia névoa ao redor. Com mais ninguém acontecia aquilo. Mas se fosse assim, só poderia significar...

“Você não perde mesmo a mania de fazer tudo sozinho”, retomou o Black, agora parecendo um tanto agressivo. “Você voltou aqui pra tentar mudar de novo o passado? Já não basta ter dado errado uma vez? Deve ser mesmo fácil, com você podendo se jogar de uma torre cada vez que uma coisa sai errado.”

Mas Remo estava amedrontado demais para respondê-lo. Chegava à pior das conclusões que já haviam perpassado sua mente desde que voltara no tempo pela primeira vez. Ainda em pânico, procurava a névoa. Agora que não a via, sentia-se ainda mais assustado do que se sentira quando ela estivera em seu encalço.

“Não pode ser... Não pode ser...”, murmurava para si mesmo, enquanto se forçava a permanecer na missão de reencontrar a fumaça esbranquiçada.

Sirius Black. Era a resposta para suas perguntas. A resposta a, talvez, todas elas.

Sirius estava em todas as suas memórias daquele passado esquecido. Ele aparecia em todas as lembranças importantes, e de todos os sentimentos que Lupin tivera desde sua volta no tempo, o fascínio por Sirius era o mais intenso de todos eles.

O Portal de Tempo que Remo usava para voltar ao passado era nada menos que a varinha do falecido Sirius Black. Mais do que isso, a varinha-portal estava sempre localizada na antiga residência de Sirius, dentro de uma caixa que pertencera a ele.

Talvez para protegê-lo, tinha lhe dito Dumbledore. Talvez para protegê-lo, uma pessoa querida de Remo tivesse apagado aquelas memórias. Mas protegê-lo de quê? Por quê? Quando ouviu aquelas palavras do Diretor e chegou pela primeira vez à possibilidade de que Sirius era o causador de tudo aquilo, Remo sentira dor. Sentira-se traído. Poderia um amigo fiel virar-lhe as costas e apagar suas memórias sem nem ao menos consultá-lo? Sentira a dor daquela possibilidade. Mas comprová-la era totalmente diferente.

Havia algo mais que Remo precisava recuperar quando voltasse ao passado, tinha dito também Alvo. E quando Sirius Black se aproximava, a estranha névoa que ameaçava levar Lupin embora simplesmente desaparecia. Aquela era a sua pista final: a sua volta ao passado não era apenas para recuperar memórias. Não. Era também para recuperar seus antigos sentimentos pelo Black, apagados por ninguém menos que o próprio Black.

Quando vivo, por algum motivo, Sirius tinha apagado as suas memórias. Agora, depois de morto, ele resolvia devolvê-las. Forçá-las novamente para dentro da cabeça de Lupin, todas de uma vez, ainda sem consultá-lo.

Remo então era a sua marionete. A única explicação possível.

“Remo, estou falando com você!” disse ele, irritado, aproximando-se alguns passos e pegando a varinha do chão.

Remo olhou-o, trêmulo. Era possível que ele tivesse feito aquilo? As lágrimas nos seus olhos eram uma mistura de choque, medo, tristeza – Remo mal podia enxergar enquanto elas embaçavam sua visão. Mas conseguiu ver a silhueta de Sirius se aproximando, e de súbito o seu pânico pareceu duplicar-se.

“Não se aproxime!”, gritou, o terror das últimas conclusões já instalado em sua voz. Tentou afastar-se mais, deslizando o corpo sobre o chão, mas não era possível – suas costas já estavam encostadas na parede, e tudo o que Remo pôde fazer foi encolher-se mais ao lado dela.

Mas Sirius não lhe deu ouvidos. Percebeu que algo estava muito errado.

Já estando alguns metros adiantado, ele apenas deu poucos e largos passos que foram suficientes para postá-lo logo ao lado do outro. Enquanto ainda ouvia os protestos do menor – e ignorava-os completamente -, ele ajoelhou-se sobre o chão e usou seus braços para lutar contra os de Remo na tentativa de abraçá-lo.

Depois de lutar um pouco, Remo cedeu ao abraço. Estava fraco demais para lutar contra ele.

A princípio, quis soltá-lo. Quis soltá-lo o quanto antes, afastar-se, fugir dali. Mas depois de alguns segundos nos braços do maior, foi como se o seu coração passasse a se acalmar, e o pânico foi saindo aos poucos pelo choro que ainda se fazia nos seus olhos.

Tudo indicava que o amigo havia planejado tudo aquilo. Que havia apagado suas memórias por sabe-se lá que motivo e agora resolvia devolvê-las, por puro egoísmo na tentativa de reconquistá-lo. Mas por mais que todas as pistas falassem contra Sirius e indicassem que suas intenções haviam sido as piores, Remo ainda não estava totalmente convencido dos seus motivos. Apenas não conseguia acreditar que havia tamanha vaidade no coração dele.

Permaneceram assim, imóveis, por algum tempo. Um tempo que Remo não saberia dizer quanto foi.

Conforme o cheiro calmante de Siris atingia suas narinas, o seu corpo parecia relaxar mais e mais, como estivesse anestesiado. Todos os indícios eram de que estava numa terrível armadilha e o seu cérebro indicava que era hora de ter medo, mas os seus sentidos iam sendo levados pela serenidade que o outro lhe proporcionava. Com o mundo desabando ao seu redor, Sirius vinha e o abraçava, e todo o resto apenas sumia. De repente, já não se sentia mais pulsar em desespero. Fechou os olhos e deixou-se levar pela inércia daquele longo instante. A Licantropia estava a poucos passos e Remo estava cansado.

“Remo...”, murmurou o maior, e a sua própria voz pareceu também embargada por um choro – ou uma tristeza – ou o que quer que fosse. Remo tentou afastar-se para olhá-lo, mas os braços do Black permaneciam segurando-o com força. “Eu vou tirar você daqui.”

Então, sentiu-se ser levantado. Sirius abaixou um pouco os braços sobre seu corpo, posicionando-os na cintura. Ainda mantendo alguma força para mantê-los juntos, apoiou as próprias costas na parede gelada e contraiu as próprias pernas, erguendo-os juntos do chão. Com alguma dificuldade, ficaram de pé.

Quando sentiu suas pernas mais uma vez esticadas e seus pés tocando o chão, Remo deu-se conta do quanto estava debilitado. Talvez o motivo daquilo tudo fosse apenas a Licantropia, talvez a sua condição emocional... Não sabia. Mas sentiu quando Sirius afrouxou o abraço, pegando um dos seus braços e passando-o pelo próprio pescoço. Estava apoiando Remo sobre o seu corpo. Estava tentando ajudá-lo a andar.

Cambalearam juntos até a portinhola do alçapão. Sirius esticou a mão livre e empurrou-a com força. Então, rangendo, a porta se abriu. Remo apoiou-se sobre a parede mais próxima e o Black pulou primeiro para o interior da Casa dos Gritos, estendendo-lhe a mão em seguida.

Quando ambos entraram, Sirius prosseguiu em seu plano: segurou mais uma vez, o braço do menor passando por trás do seu pescoço. Deram novos passos, dessa vez em direção à escadaria que levava ao piso de cima. Uma longa e tortuosa escadaria, ruim o suficiente de ser subida por uma única pessoa em boa forma física. Por que tinham construído aquela merda de escada?

Remo suspirou ao vê-la, pesaroso. Ser levado daquela forma estava lhe dando uma nova vontade de chorar, mas segurou-se. Sua imagem já parecia estar denegrida o suficiente. Então, apenas disse:

“Tudo bem. Não precisa me levar até lá em cima.”

Mas, mais uma vez, Sirius ignorou-o completamente.

Um a um, passaram a subir juntos todos os degraus, até chegarem enfim ao andar superior. O Black apenas deu-se por vencido quando concluiu sua missão, sentando o outro sobre a cama de solteiro do único cômodo.

Ambos ofegavam. Por algum motivo, Sirius deixou-se cair sentado sobre o chão ao lado da cama ao invés de se sentar sobre ela como costumeiramente fazia. Os seus olhos cruzaram com os de Aluado e o menor os desviou, constrangido. Por mais que não tivesse certeza do quanto Sirius era culpado em tudo aquilo, teve vontade de desculpar-se por acusá-lo, mesmo mentalmente, de coisas tão horríveis.

“Obrigado”, disse apenas, com os olhos bem distantes dos dele.

Almofadinhas não respondeu. Olhou-o com preocupação e sacou novamente a varinha das vestes, entregando-a ao amigo.

“Pegue”, disse ele, quase em uma súplica, insistindo para que Remo a tocasse.

“Você me trouxe até aqui em cima pra me oferecer isso?”

“Não custa tentar.”

Mas Remo não pareceu interessado na varinha. Nem sequer a olhou. A verdade era que, agora que tinha a chance de ir embora, não queria mais ir. Ou ao menos não queria ir daquele jeito. Se a névoa era mesmo um indício de que seu tempo ali acabava e era verdade que talvez não pudesse voltar mais, não queria que seu último momento com Sirius fosse daquela forma.

Não queria lembrar-se que o viu pela última vez enquanto o outro o carregava escada acima e pedia que fosse embora assim. Mesmo que Sirius fosse o culpado de tudo aquilo e suas intenções fossem as mais egoístas... Mesmo assim, não queria dar aquele adeus.

“Você não vai pegar”, concluiu Sirius, analisando sua expressão. Ergueu-se do chão e colocou a varinha sobre a pequena mesa de cabeceira. “Bom, vou deixá-la aqui pra quando você mudar de ideia.”

“Deixar?” perguntou Aluado, e imediatamente espantou-se com o tom triste da própria voz.

Então, compreendeu. Sirius tinha usado aquela palavra porque realmente estava indo embora. Tinha se levantado do chão e agora fazia menção de se dirigir de volta às escadas. Mas não. Remo seria mais rápido. Não podia deixá-lo ir embora daquele jeito.

Com uma força súbita que tirou do seu âmago, agarrou o pulso do maior com ambas as mãos. Mas Sirius não se virou.

“Eu não posso ficar aqui”, explicou-se ele, secamente. Nem sequer encarava o menor enquanto falava. “Quanto mais eu fico com você, mais você fica nesse lugar”, concluiu, provavelmente referindo-se àquele passado. “Você não pode mais ficar aqui, Remo. Está te fazendo mal”.

Remo sorriu, fraco, na direção dele. Não podia acreditar que estava ouvindo aquilo.

“Você apenas não quer mais que eu fique. Pode falar de uma vez.”

“Você não vê?”, perguntou o Black, virando-se finalmente para encará-lo. Olhos tão escuros, que Remo se perdia neles. “O que eu mais quero é que você fique! Mas...” e olhou com tristeza para o estado atual do menor, antes de concluir: “Você não está mais em condições. Esse lugar te faz mal.”

“A Licantropia me faz mal!”, emendou Aluado, que mesmo em um estado tão fraco ainda mantinha o discurso convincente. “Eu estou assim porque vou me transf-“

“Eu e você sabemos que não é só a Licantropia”, interrompeu o outro, grave.

Remo viu-se sem argumentos. Sentiu suas esperanças dessecando e morrendo. Seria deixado sozinho naquela casa, a um passo da sua transformação, a maldita varinha-portal encarando-o todo o tempo. Aquela seria sua última lembrança daquele tempo.

Sirius soltou seu pulso bruscamente das mãos do outro e olhou-o com tristeza mais uma vez. Naquele instante, Remo teve uma certeza: ele estava tentando despedir-se. Estava tentando dizer adeus e sumir dali para nunca mais vê-lo. Mas não estava conseguindo. Não estava.

Os olhos escuros pareciam procurar desesperadamente um motivo bom o suficiente para permanecerem ali. Lentamente, aproximou-se, talvez com intuito de beijá-lo uma última vez e fazer daquela a sua despedida. Ajoelhou-se sobre a cama e apoiou sobre ela ambas as mãos espalmadas, os lábios aproximando-se dos de Remo. Quando finalmente se tocaram, foi como uma onda elétrica fluísse entre aqueles dois corpos – e o seu plano ruiu.

Um beijo tão aparentemente despretensioso transformou-se quando Remo segurou seu rosto entre as mãos, impedindo que o outro se afastasse. Pendia entre fechar complemente os olhos e deixá-los semiabertos, na esperança de não se esquecer daquele momento.

O cheiro adocicado e sutil de Remo enchia seus pulmões enquanto Sirius aprofundava o toque entre seus lábios. A textura da pele alva era como um ímã às suas mãos, que lentamente escorregavam por sobre os lençóis, tocando as pernas do menor. Fecharam-se sobre elas, e Remo arfou.

Era possível que ele sentisse aquela mesma conexão que o impedia de se afastar?

Desesperado por mais daquele cheiro que o enchia por completo, Sirius instintivamente deixou sua boca para concentrar-se no pescoço. Precisava ir embora. Precisava dar o fora dali, o quanto antes. Mas agora os seus lábios, antes ocupados, corriam pela pele macia, beijando-a. Já não era um beijo de despedida.

Ao senti-lo sobre sua região mais sensível, Remo levou a cabeça para trás, aumentando a área disponível à exploração do Black. Agora ofegava claro e em bom som. Os lábios do maior ocasionalmente passavam então pela marca da Licantropia sobre o pescoço, e cada vez que iam e vinham, arrancavam mais gemidos sôfregos. Estava solto sob o corpo de Sirius, entregue ao que quer que fosse. Os ruídos que soltava inconscientemente eram um misto de instinto com a esperança de que ele não se afastaria. Queria que ficasse. Queria que continuasse.

Sirius recebia aqueles ruídos como um convite. Um pedido para que prosseguisse. Afoito com o desejo do menor, ofegava em sincronia a ele, os beijos tornando-se mordiscadas sobre a marca, as mãos posicionando-se sobre os botões da calça já no impulso de arrancá-las. Precisava ir embora, mas como interromper aquilo? A cada segundo que permanecia ali, tornava-se uma ameaça maior a Remo. A cada segundo, estimulava-o a ficar mais e desistir de voltar ao futuro.

Não queria causar-lhe mal. Não queria obrigá-lo a ficar e machucar-se mais naquele tempo. Mas entreabria os olhos e enxergava pela fresta a imagem de Lupin com a cabeça para trás, as pálpebras forçadamente abaixadas, em transe. Não aguentava. Não aguentaria.

Já sentia a adrenalina pulsando em suas veias. As mãos trêmulas desabotoaram as calças de Lupin e puxaram-nas para baixo em um só movimento. A cor do seu rosto passou do pálido habitual a um tom rosado, mas Remo ainda não abriu os olhos. Estava inerte, incapaz de se mover. Estremecia sob os toques do outro, mas o seu estado atual de fraqueza permitia que fizesse pouco além de ganir e segurar o corpo de Sirius, em uma súplica para que não se afastasse.

Estava submetido novamente ao ciclo vicioso. O frio súbito que atingiu suas pernas foram indício claro de que não estava sonhando e de que o Black já tinha tirado suas calças. Abriu os olhos e o avistou lançando-as longe, juntamente com as suas próprias. No instante seguinte, os olhares se encontraram.

Por ele, continuava. Continuaria quantas vezes fosse preciso. Se adiantar o tempo e perdê-lo de novo por repetidas vezes era o preço que pagava por tê-lo vivo novamente por algumas horas, continuaria pagando-o. Os olhos escuros perfuravam os seus, e Sirius já não parecia estar muito dentro de si.

Com uma pressa visível, Sirius debruçou-se sobre suas pernas, e os beijos que antes se concentravam no pescoço passaram a descer por toda a extensão delas. Mãos ávidas passavam a alisá-las, apertá-las. Uma textura tão suave, que fazia o outro querer derramar-se todo sobre elas. Se ao menos pudesse segurá-las para sempre e impedir que Remo se fosse.

O rastro de saliva deixado sobre suas coxas arrepiavam cada fio de cabelo de Lupin. No desespero de ter alguma reação, posicionou as mãos sobre os cabelos desgrenhados e passou a puxá-los. Muito fluxo sanguíneo já se acumulava no seu órgão inferior, e Remo precisava de ajuda. Precisava de ajuda, porque o excesso de hormônios fazia sentir-se como estivesse prestes a explodir. Precisava pedir ajuda.

“S-Sirius...” sussurrou, já sedento por aqueles toques em outro lugar.

Sacana como era, e após gemer de dor com a puxada de cabelo, Sirius parou o que estava fazendo para olhá-lo nos olhos. Mesmo insano como estava, parecia voltar a um fio de sobriedade ao ver uma oportunidade extra de provocá-lo. A verdade era que tinha desejo de causar em Remo tudo aquilo que ele lhe causava – um desejo gritante a ponto de cegá-lo; a ponto de obrigá-lo a fazer coisas que não faria em sã consciência.

A imagem dele derretendo-se ali mesmo, entregue aos seus toques, preenchia algo dentro do seu âmago, que Sirius não saberia dizer o que era. Trêmulo, deu um beliscão sobre aquelas pernas, vendo o outro contorcer-se, e perguntou, também em sussurro:

“Que você quer...?”

Aquela pergunta fez o rosto do menor queimar em vergonha. Mas a testosterona pulsava loucamente no seu membro, e Remo sentia-se inteiro latejar com ela. Não importava mais se estava fazendo o que era certo ou errado. Apenas precisava aliviar-se, e tinha que ser agora.

“Me... chupa?”, disse, finalmente, e a última palavra saiu mais como um murmúrio inaudível, cheio de culpa.

O sorriso maldoso fez-se sobre os lábios do Black, mas logo se desfez novamente em insanidade. Ele o queria. Ele realmente o queria. O seu toque era magnético a Remo tanto quanto o dele era para si. Lentamente retirou do corpo do outro a única peça de roupa que o afastava do seu membro – e a cena de vê-lo tão desejoso acabou com seus últimos resquícios de razão.

Passou a língua por toda a extensão do órgão rígido à sua frente, repetidas vezes. O trajeto feito pela língua pegava desde a base até os últimos milímetros do seu topo. A cada lambida, Remo pulsava sobre a cama e gemia, agarrando-se à cabeceira.

Estava tão fora de si. O seu coração tinha se tornado uma bomba-relógio que agora explodia, após tanta energia acumulada. Sirius dedicava-se naquele momento apenas em proporcionar-lhe prazer, e aquele pensamento tocava-o profundamente. Mas mesmo a paixão que sentia se desvirtuou e transformou em muitas outras coisas quando o maior colocou-o inteiro dentro da boca.

Remo ofegou e suas costas se arquearam. Um gemido mais prolongado indicou a rendição. Sentiu-se ficar mais e mais rígido, mais e mais desesperado conforme o Black subia e descia por toda sua extensão, enlouquecendo-o. Demorou poucos segundos para que Remo estivesse prestes a gozar. Quando o sentiu, fechou mais uma vez as mãos sobre os cabelos do outro, alertando-o.

Sirius afastou-se quase que imediatamente. Com uma ferocidade que Lupin vira poucas vezes nos seus olhos, virou-o de costas bruscamente, antes que Remo pudesse se dar conta de que seu corpo voltava a ser manipulado.

Quando se viu, já estava de bruços. Trêmulo, sem roupas, à espera dele. Tentou erguer-se um pouco sobre o colchão, mas estava debilitado; a sua falta de forças era agora quase total. Estava sem condições de fazer nada além de responder aos movimentos do maior.

Escutou enquanto Sirius umedecia dois dedos com a própria saliva. Gemeu quando o sentiu posicioná-los sobre o orifício entre suas pernas já abertas. Era a hora. Estava sedento por aquele toque, mas não conseguia deixar de sentir-se tenso toda vez que aquilo acontecia. Mesmo que já tivesse feito aquilo com o Black em outras vezes, não podia deixar de se sentir... exposto. Mais uma vez, o calor insuportável tomava conta do seu rosto. Estava a um passo de desfalecer ali se Sirius não fosse logo.

Os dedos já úmidos foram deslizados pela entrada do orifício, fazendo o menor gemer uma vez mais. Depois de passados alguns centímetros pelo interior do seu canal, foram vagarosamente retirados, causando um último suspirar por parte de Aluado. Era agora.

Fechou já as mãos sobre os lençóis da cama, esperando pelo início do ato.

Mas não aconteceu exatamente como Remo pensara. Antes de tomar qualquer atitude, o Black se aproximou mais das suas costas. Ao sentir os cabelos e a respiração quente e acelerada roçando-lhe o pescoço, Remo fechou os olhos.

“Remo...” sussurrou ele, e Remo estremecia mesmo àquela voz. “Eu amo você.”

Olhos cor de mel arregalaram-se em surpresa, mas Remo não teve tempo de surpreender-se. No instante seguinte, o membro do Black, rígido, já entrava pelo seu orifício, fazendo-o ganir em dor. As mãos se fecharam uma vez mais sobre as roupas de cama, na tentativa de apoiar-se em algo. O toque dolorido fazia todo o seu interior latejar, gritante.

Sirius manteve-se parado depois de adentrá-lo. Não queria causar-lhe dor... Mas aquela abertura estreita...

Arfou, a pressa de entrar mais se instalando em todo o seu ser. Precisava ter paciência. Tentou acalmar-se com o cheiro adocicado que vinha do outro e permaneceu imóvel. Apenas seus braços envolveram o corpo de Remo, abraçando-o por trás. Mais beijos depositaram-se em sua nuca.

Em alguns segundos, Remo pareceu mais calmo. Um tanto mais relaxado, o seu canal agora parecia um pouco menos estreito, como estivesse adaptando-se ao toque de Sirius. Àquele sinal, o maior pôde continuar.

Lentamente, foi se introduzindo e retirando, acompanhado por gemidos ritmados do menor. Ele respondia à sua movimentação, oscilando para frente e para trás em síncrono, cada vez mais relaxado, cada vez mais rendido à sequência de vaivém. Conforme se enfiava mais e mais fundo, o Black voltava a perder a consciência, um passo mais perto de renunciar ao controle que vinha tentando manter sobre os seus instintos.

Quando sentiu que o interior de Aluado já estava claramente úmido e ele passava a sussurrar também o seu nome em sinal de embriaguez, não aguentou. Descontrolou-se. As mãos rapidamente fecharam-se sobre os cabelos castanho-claros, puxando-os para trás, obrigando Remo a apoiar a cabeça em seus ombros e encará-lo. Enfiou-se brutalmente dentro dele, as estocadas cada vez mais fundas e fortes, os gritos de Remo preenchendo o cômodo e mantendo a má reputação daquela casa.

Estava úmido. Estava muito, muito úmido. As estocadas dele finalmente atingiram seu âmago e os olhos de Remo encheram-se de lágrimas. Uma das mãos do maior se soltou dos cabelos para se posicionar sobre o membro ainda latejante de Aluado, reproduzindo, sobre ele, o mesmo vaivém das estocadas.

Duas, três, quatro estocadas profundas e Remo não se aguentou. O seu canal se contraía e relaxava conforme os movimentos do outro, mas quando se sentiu atingido por completo, rendeu-se. O seu líquido saiu em forma de jatos sobre a mão de Sirius, e o dele explodiu em seu interior quase no mesmo instante, derramando-se, espalhando-se por todos os lados. Gritaram em conjunto antes de caírem, exaustos, um sobre o outro.

Não se moveram. O Black permaneceu imóvel sobre ele, sem a aparente intenção de se retirar dali. Ele ainda arfava, e Remo ainda tinha os olhos embebidos em lágrimas quando, pela janela, foi possível ver a aparição da Lua Cheia no céu.

O chão do quarto da Casa dos Gritos foi pintado pela cor branco-prateada daquela Lua tão temida, tão evitada, quando Sirius foi obrigado a retirar-se de dentro dele. Deitou ao seu lado.

“Não se preocupe” murmurou ele, analisando os olhos cor de mel que encaravam a janela com pavor. “Eu vou ficar aqui durante todo o tempo. Vou estar aqui amanhã quando você acordar.”

“Sirius...”

“Eu não quero que você se preocupe com nada. Vai ficar tudo bem”, murmurou ele. Por mais que suas palavras tentassem consolar o menor, ele também estava abalado. Visivelmente abalado.

As lágrimas nos olhos de Remo multiplicaram-se, mas ele não as derramou. Apenas continuou ali, em silêncio, esperando pelo pior a acontecer. Ainda que tivesse sido aquela pessoa a responsável por suas memórias terem sido apagadas; ainda que fosse ele o responsável por Remo estar voltando no tempo e sofrendo a cada vez que o via e o perdia – e acima de tudo, por mais que já sentisse a dor a Lua Cheia lhe causava a todo mês -, ainda era Sirius que estava ao seu lado. Ainda era ele que o vigiava e acalmava, para que ficasse bem.

Mentalmente, agradeceu-o; mas não teve tempo de dizer nada. A Transformação iniciou-se em poucos segundos, extinguindo todo o resto da força e da razão que ainda existiam no seu ser.

Notas finais
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