O Patrono Perdido
2 Capítulo 1: Um Pesadelo Frequente - Parte 2
Notas iniciais
O Sol estava no seu pico na cidade de Londres quando Remo, Olho-Tonto e Quim encontraram-se em frente ao Largo Grimmauld, número 12. Tratava-se de uma casa tipicamente construída no século XIX, com tijolos desgastados e uma curta e torta escadaria que levava o visitante a uma porta preta inteiramente arranhada. Uma forte sensação de enjôo apoderou-se de Remo tão logo Olho-Tonto Moody, que tomava a frente, subiu as escadas e pousou uma mão sobre a maçaneta cuja forma era de uma serpente enroscada, em prata vibrante. Olho-Tonto empurrou a porta, e os outros dois seguiram, ao seu alcance.
Se do lado de fora a casa identificava-se como construída no século XIX, do lado de dentro parecia ter sido feita um milênio antes. Por entre paredes sujas e um lustre repleto de teias de aranha, exibia-se uma grandiosa sala que mais parecia oriunda de um filme de terror. Era preciso ainda descer uma escada e chegar ao porão para alcançar a cozinha, cômodo no qual se reuniam os membros da Ordem, e local também onde Remo indicava estar o misterioso objeto.
Quando chegaram ao subsolo e enfim depararam-se com a longa mesa de madeira visualizada no sonho, encontraram também uma figura alta e pálida, de cabelos longos, pretos, e cujas vestes resumiam-se a uma longa e inconfundível capa preta. Severo Snape estava de costas para a entrada, mas de frente para a mencionada mesa, na direção da qual apontava de forma ameaçadora a sua fina varinha de olmo.
"Todos os dias executando feitiços para encontrar qualquer objeto imprevisto nessa casa", disse Snape de forma fria, a varinha e os olhos ainda direcionados para o topo da mesa. "Só hoje, isso aparece."
Os olhos de Quim, Moody e Lupin recaíram sobre a ameaça na mesa. Remo sentiu sua garganta secar quando encontrou a comprida caixa, preta-fosca, descascada em diversos pontos, e cuja tampa possuía talhada sobre si a imagem, também em madeira escura, uma criatura de longas orelhas e longas pernas, remetente à figura de uma lebre.
"O que é isso?" sussurrou Quim, como alguém mais estivesse ali e pudesse ouvi-los.
Severo Snape deu-lhe a resposta lentamente, com os olhos ainda na caixa, e falando de forma que parecia que cada sílaba proferida custava-lhe muito a sair pela boca: "É um portal". Suas escuras íris enfim viraram-se para o lado de Remo Lupin, e completou: "Você o reconhece?"
Lupin não pôde respondê-lo. Agora, hipnotizado pela caixa que vira no sonho, sua mente estava vazia de quaisquer pensamentos. Sentia uma insuportável necessidade de pegá-la. Mas assim que Olho-Tonto o observou dar um passo em direção a ela, segurou fortemente um de seus braços, impedindo-o.
"Ninguém toca nela", disse Moody. Então, ele próprio ergueu sua varinha com a mão que tinha livre e, em leve movimento com ela, executou uma magia que levantou a curiosa tampa da caixa, revelando o interior do objeto.
Uma varinha delgada e de cor marrom apresentou-se do lado de dentro. Com finos desenhos na extremidade mais grossa, e aparentemente feita a partir de um material como cedro, ela revelou-se um tanto familiar para alguns presentes naquela cozinha: parecia a varinha de Sirius Black. Mas como poderia ser a varinha de Sirius, se tanto o corpo quanto a varinha que ele segurava haviam desaparecido no ato da sua morte?
"Não pode ser a varinha de Sirius" disse finalmente Lupin, balançando a cabeça em uma reação de incredulidade. "Sirius e a varinha atravessaram a Sala do Véu. A varinha não foi encontrada."
"Não existem duas varinhas iguais", retorquiu Quim.
Alastor Moody manteve sua própria varinha empunhada, lançando sobre o portal um novo feitiço: "Finite Incantatem!", gritou, com o objetivo de remover da varinha quaisquer encantamentos ou maldições que sobre ela imperassem. Se antes tratava-se de um portal, agora não mais poderia sê-lo.
No entanto, nada parecia ter acontecido.
"Funcionou?", perguntou Remo.
"Eu não sei", respondeu Moody.
"Alguém precisa pegá-la", concluiu Snape. "Remo?"
"Ah, não" disse Moody, com um sinal negativo de cabeça. "Se alguém não pode pegá-la, esse alguém é Remo."
"Eu pego", sugeriu Quim. Os outros três olharam-no. "De todos nessa sala, sou eu quem chama menos a atenção de Você-Sabe-Quem", concluiu, referindo-se a Voldemort. "Além disso, nada vai acontecer se você desfez o portal."
Quim deu então alguns passos em direção à mesa e, aparentando um pouco de medo e desconfiança, aproximou as mãos da caixa, pegando enfim a varinha em mãos. Nada lhe aconteceu. No entanto, um coro de sussurros pareceu vazar da madeira da varinha, e as palavras que ecoaram pela cozinha foram:
Esse portal está lacrado
Ele não pode ser aberto ou fechado
"QUIM, SOLTE!", gritou Remo. Apavorado, Quim Shacklebolt soltou a varinha, que caiu imediatamente no chão, com um estrondo. Todos agora pareciam apreensivos.
"Vocês não entendem", disse Lupin. "Tenho que ser eu a pegá-la."
"Certo", disse Olho-Tonto. "Você e Quim, juntos. Seja lá onde forem, é melhor não irem sozinhos."
"Vai ser inútil", interferiu Severo Snape. "Se os dois pegarem, o feitiço só vai agir sobre Remo. Ele não tem efeito sobre Shacklebolt."
"A coisa mais sensata a fazer é chamarmos Dumbledore", sugeriu Quim. Ele ainda encarava a misteriosa varinha sobre o chão. "Ele deve saber o que é isso."
Todos, no entanto, deram mais atenção às palavras de Olho-Tonto, que indicavam uma nova solução; era comum que Moody optasse por nunca incomodar, nem tampouco colocar em risco os que já não estavam presentes — Dumbledore estava distante, e preocupado com seus próprios afazeres. Além disso, havia o risco de alguém mais ainda estar dentro daquela casa, e colocar outros em perigo nunca era uma boa opção.
"Vamos sim chamar Dumbledore. Mas antes, vamos resolver o problema". Então, fitou Remo e prosseguiu: "Remo, execute você mesmo o feitiço."
Remo sacou sua varinha e apontou-a na direção da outra, caída sobre o chão. Proferiu, não com tanto entusiasmo quanto Moody havia feito, as palavras:
"Finite Incantatem!"
Um feixe de luz alaranjado saiu da varinha de Lupin e alcançou aquele objeto, envolvendo-o por completo. A varinha assombrada de Sirius Black tremulou, e pareceu vazarem dela mais alguns sussurros, e grunhidos, que não somaram palavra alguma. Por fim, com um alto e poderoso estrondo, a varinha rachou-se ao meio e desfaleceu sobre o chão.
Todos na sala suspiraram, em alívio. Enquanto Quim dava alguns tampinhas nas costas de Moody e dizia "Esse é o cara", o próprio Moody explicava como chegara sozinho à brilhante conclusão de que um portal que desejava ser encontrado por Remo só poderia, evidentemente, ser liberto de feitiços por ele mesmo, seu alvo. Snape não falava nada, nem tampouco reagia: mantinha os olhos escuros sobre a varinha agora quebrada. Quanto a Remo, apesar do alívio, olhava com pesar para ela: apesar de ter evitado tocá-la para a sua própria segurança, uma curiosidade grandiosa permanecia no seu coração. E se aquilo simplesmente não fosse uma armadilha? E se fosse algo que ele devia ter encontrado por algum motivo?
"Vamos manter a distância, Remo" disse Olho-Tonto enquanto encaminhava-se para fora do cômodo, seguido por Quim. "Não deve mais haver riscos, mas eu esperaria por Dumbledore antes de tomar uma atitude."
Já não se ouviam os passos daqueles dois dentro da casa quando Remo deu-se conta de que uma segunda pessoa, além dele, ainda permanecia dentro daquela cozinha. Parecia que, de alguma forma, a varinha quebrada ainda o atraía.
"Então..." murmurou para Severo, que não moveu um único músculo ao ouvi-lo. "O que você acha?"
"Não está quebrada."
Remo Lupin deixou-se novamente reparar por um momento na varinha de Sirius. Os desenhos que possuía na extremidade mais larga — onde Sirius encaixara seus dedos sofridos até a idade de trinta e seis anos, quando encarara a morte — misturavam símbolos de uma língua esquecida, ancestral; provavelmente hieróglifos que já não se podiam traduzir. Remo nunca perguntara ao amigo se ele sabia o que aqueles desenhos significavam.
O corpo da varinha, que era de um marrom-escuro que caracterizava o cedro e seus familiares, possuía arranhões que incumbiam no observador a dúvida de se Sirius já a comprara assim ou se os arranhões eram resultado de uma vida de batalhas físicas e psicológicas.
Antes que pudesse se dar conta, Remo Lupin deu alguns passos em direção àquilo que lhe chamava a atenção, e, quando o fez, Severo Snape pareceu mexer-se, atrás dele.
"Eu não seria estúpido", resmungou ele. "Existe meia dúzia de humanos que se importam com você" — e, nesse ponto, Remo poderia ter percebido que Snape indiretamente o definia como um não-humano, fosse pela Licantropia ou sabe-se-lá-o-quê; mas Lupin estava disperso demais para se dar conta disso. Snape prosseguiu: "Faça um favor a essas pessoas e... não... toque" completou com em um tom de ameaça ao ver que o outro já estava agora a uma proximidade bastante relevante da varinha.
"Eu não ia tocar" respondeu Remo, agachando-se ao lado dela. "Eu só vou ver."
E se aquela varinha tivesse sido enviada por Sirius Black, desde o plano dos mortos até o plano terrestre?
Os olhos cor de mel de Remo Lupin arregalaram-se quando uma pequena faísca saiu do ponto que dividia agora a varinha em duas e, subitamente, a partir daquela faísca, ambas as metades uniram-se, formando de novo uma só varinha inteira, reconstituída, intacta como se nada lhe tivesse ocorrido.
"Remo...", chamou-lhe Snape, que agora parecia estar com um mau pressentimento.
No entanto, dentro da cabeça do outro, a confusão e a curiosidade se aprofundaram. E então, Remo deu-se conta de que não importava o motivo daquilo ter-lhe sido enviado: fosse Sirius tentando mostrar-lhe algo ou o Lorde das Trevas pretendendo atrai-lo, não importava — aquilo dizia respeito a ele, e somente a ele próprio. Não deixaria que outros recebessem sua mensagem, nem tampouco deixaria que Dumbledore ou qualquer outro corressem os riscos aos quais somente ele estava predestinado.
"Não... Toque!" advertiu-lhe Severo pela última vez, enquanto dava longos e rápidos passos na intenção de puxar Remo à força e arrastá-lo para fora dali, fosse essa ou não a sua vontade.
Mas era tarde. Quando Snape chegou ao seu alcance, Remo Lupin já havia, em um movimento, pegado a varinha com uma das mãos. E, em uma fração de segundos, um tempo curto de forma que o outro não pôde sequer raciocinar o que ocorria, o corpo de Remo rodopiou, difundiu-se no ar — e a sua imagem, bem como a varinha, desapareceu em meio ao nada, deixando Severo Snape absolutamente sozinho no Largo Grimmauld número 12, antiga residência de Sirius Black e antigo porto seguro de todos aqueles que compunham a defasada Ordem da Fênix.
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