O Patrono Perdido

27 Capítulo 26: Um Passo para a Destruição


Notas iniciais
Oi, gentes. Recebam com amor a minha pontualidade. Eu ia fazer um capítulo gigante dessa vez, mas como já estava grande... Achei melhor quebrá-lo e deixar um pouco das informações para depois. Existe chance do próximo capítulo ser o último. Se não for o último, será o penúltimo. Deixem comentários para mim, ok? Obrigada e boa leitura!

Depois que Remo desfaleceu nos seus braços, Ninfadora Tonks teve alguma dificuldade para tirá-lo dali. Se fosse em condições normais, certamente não teria conseguido. Mas fosse por Remo estar tão fragilizado ou por ela mesma sentir-se mais forte ao vê-lo precisando da sua ajuda, levá-lo para a cama foi tarefa que conseguiu concluir em poucos minutos.

Ficou ao seu lado pelas horas seguintes. Viu conforme o dia passava de um entardecer para um céu escuro e sem estrelas. Estava nublado. Remo parecia morto sobre aquela cama.

A sua expressão, pela primeira vez em muito tempo, estava serena. A respiração era constante, como quem sonhasse tranquilamente após dias a fio sem dormir. Mas a cor... A cor continuava pálida.

Desde que toda aquela história de voltar ao passado havia começado, Remo parecia mais fraco a cada dia. Estava constantemente trêmulo, com as pernas vacilantes, os olhos sem brilho sempre direcionados ao chão ou em pânico, à procura da varinha-portal. Por mais que vê-lo adormecido daquela maneira doesse um tanto em Tonks, também tranquilizava-a. Ao menos, enquanto dormia, Remo não poderia machucar mais a si mesmo.

Permaneceu ao seu lado, sentada sobre uma cadeira próxima à cama, por um tempo de pelo menos três horas. Ocasionalmente erguia-se e andava de um lado para o outro, aflita. Não sabia o que ele havia assistido naqueles frascos, afinal — mas sabia que todos eram de Sirius Black. E que havia uma boa chance de terem causado um impacto muito grande em Lupin.

Quando se sentou mais uma vez, já sentindo o sono bater sobre a sua pessoa, apoiou os braços sobre a superfície onde o homem dormia e aproximou-se do seu rosto.

Piscou os olhos lentamente, sentindo-se cansada. Então, o fez mais uma vez. E mais uma vez. De súbito, levou um susto e ergueu-se da posição, ainda com os olhos sobre ele. Era possível que estivesse cansada a ponto de ter alucinações? Não. Não podia ser.

Mas agora, a cada vez que Dora fechava e abria os olhos, Remo parecia ligeiramente mais corado do que no momento anterior. Corado de uma maneira que Dora não esperava ver tão cedo.

A palidez da sua pele ia vagarosamente dando lugar a um tom sutilmente rosado que era o seu natural. Um rosado que Dora não via há exatamente duas semanas, desde quando haviam começado os primeiros pesadelos de Remo. No instante seguinte, a respiração dele acelerou-se, com o tórax subindo e descendo mais rapidamente.

"Remo...?", murmurou.

Então, aconteceu. Depois de mais de três horas em um estado de absoluta letargia, as pálpebras subiram, permitindo que a moça visualizasse mais uma vez os olhos cor de mel.

"Remo!", exclamou, em um sussurro. Quis abraçá-lo. Quis agradecê-lo por estar vivo e deitar-se naquela cama com ele, apenas para impedir que voltasse a se sentir tão fraco mais uma vez.

Ele pareceu não entender de imediato o que se passava. Piscou lentamente os olhos e passou-os rapidamente pelos arredores, identificando o local onde estava. Mais uma vez, aquele estranho cômodo de Dumbledore, que mais parecia um intermediário entre quarto e sala. Quando direcionou as íris amareladas para o lado, encontrou-a. Sorriu em sua direção.

Dora pareceu não crer no que via. Há quanto tempo ele simplesmente não abria um sorriso? Há quanto tempo Remo não parecia tão corado, com os olhos tão brilhantes caídos sobre si? A princípio, não soube o que falar. Mas o sentimento de gratidão foi substituído por um de medo quando Lupin remexeu-se sobre a cama e apoiou os cotovelos sobre ela, erguendo a coluna um tanto.

"Remo, não... Não faça força!", disse, tentando impedi-lo. Já era tarde: Remo estava sentado sobre o colchão.

Permaneceu olhando-o, sem compreender o que acontecia. Ele havia se sentado? O mesmo homem que há poucas horas havia desfalecido em choro nos seus braços, agora sorria em sua direção e sentava-se tranquilamente sobre a cama?

"Mas... Mas o quê...?"

Ela não era a única não compreender o que se passava ali.

Agora já sentado, Remo voltava à consciência rapidamente, como estivesse caindo brutalmente na realidade depois de um bom período sonhando. Passou as mãos pelo próprio rosto e pelo cabelo, identificando que realmente estava envelhecido e de volta ao seu tempo real. Na sequência, encarou as próprias palmas das mãos. Não tremiam.

"Remo... Você... Se sente bem? Você pode me dizer o que está acontecendo?"

Ele não falou por algum tempo. Depois de observar as próprias mãos por aqueles segundos, desviou os olhos e manteve-os distantes. As últimas memórias de Sirius Black voltavam a ecoar em sua mente. Piscou os olhos mais uma vez e os sentiu arder. Quanto já havia chorado por aquilo?

"O que você viu na Penseira?", perguntou ela. Mas ele mal pôde ouvi-la.

Por mais que seus sentidos estivessem despertos para o tempo real agora, seus olhos direcionavam-se muito mais para dentro do que para fora. Havia visto Sirius Black conspirar com Narcisa Malfoy e executar a extração das suas memórias emocionais. Havia visto Sirius apontar, trêmulo, a varinha em sua direção e substituir o seu Patrono por uma pequena lebre. Não havia nada mais no mundo que pudesse machucá-lo depois daquilo.

"Ele tentou de tudo", sussurrou, mais para si mesmo do que para Dora.

"Quem tentou o quê?"

"Sirius", respondeu Lupin, finalmente voltando a encará-la. "Tentou de tudo para me fazer odiá-lo". E ao ver que a moça não responderia, completou: "As memórias que escolheu me mostrar... Ele não as filtrou."

Tonks desviou também os olhos para o chão, sem saber, a princípio, o que dizer.

"E funcionou?", perguntou, por fim.

Remo afastou as cobertas de si e arrastou o corpo sobre a cama, com a intenção de deixá-la. Dora manteve os olhos arregalados em sua direção enquanto ele se movimentava, incrédula por vê-lo tão disposto a se mover depois de momentos tão difíceis. No entanto, antes mesmo que pudesse protestar, lá estava ele: de pé, sobre o chão. Aproximou-se dela com firmeza. Ela sentiu-se estremecer quando ambos seus ombros foram tocados.

"Dora... Eu vou salvá-lo."

Salvá-lo. Sim. Havia um jeito. Tinha de haver um jeito.

Depois de tanto tempo voltando ao passado... Depois de tanto tempo revendo e voltando a perder seus amigos, repetidas vezes, para que pudesse recuperar a memória e o sentimento em relação a Sirius. Tanto tempo chorando pela dor que ele havia lhe causado, pensando em todo o tempo em que havia sido manipulado. Tanto tempo sentindo-se impotente e frustrado por ter sido salvo do triste destino, enquanto todos os outros amigos pagavam pela sua ausência no grupo... Não mais. Não, pois havia um erro. Havia um erro naquele sistema, e Remo o havia descoberto.

Dora não saberia dizer como aquilo aconteceu exatamente. Mas com uma força que parecia sair de seu âmago, Remo puxou-a para um abraço. A moça não teve tempo de reagir, nem sequer de se mover para aceitar ou recusar o gesto. Os seus braços, estendidos ao lado do corpo, agora eram presos pelos de Remo naquela mesma posição.

"Dora... Você e Snape..."

Foi então, com aquela frase incompleta, que ela finalmente percebeu do que se tratava. Remo continuou, ainda em murmúrio:

"Você e Snape... Eu não havia percebido. Não havia percebido, mas percebo agora."

Lágrimas surgiram e ficaram contidas sob os olhos de Tonks. Ela engoliu em seco, tentando corresponder ao abraço, sem sucesso. Sua voz estava embargada quando tomou a palavra:

"Você acha... Acha que é possível?"

"Tenho que tentar", respondeu ele. "Se não puder fazer isso por Sirius, minha sobrevivência até agora não terá valido de nada."

"Mas Remo... Se você ficar preso no passado... Se uma grande mudança acontecer..."

"Dora...", interrompeu-a. "Não sei como agradecer por tudo o que você fez por mim até agora. Se não voltarmos a nos ver, você saberá como eu sou grato."

Dizendo aquilo, afrouxou o abraço e afastou-se dela. Encaminhou-se até a escrivaninha próxima à Penseira, sem saber também de onde vinha a força que fazia suas pernas caminharem. Mais do que nunca, sentia-se disposto. Depois de tanto tempo sentindo-se fraco e cheio de dores, era como se agora o seu corpo estivesse sendo devolvido à sua pessoa. Voltava a ser controlado pelos seus desejos, enfim.

Quando abriu uma das gavetas e encontrou as folhas de papel que procurava, ouviu um estrondo no cômodo. No entanto, não se assustou. Com o canto dos olhos, observou enquanto um vulto alto e escuro caminhava em sua direção, parando a poucos metros de distância.

"A de Lílian já está escrita", ecoou a voz de Severo Snape. "Sugiro que você use a mesma data e horário para o Potter. Mande-o para o Largo Grimmauld."

Mesmo sem olhá-lo, Remo não pôde evitar que um sorriso se fizesse nos seus lábios. Severo ia mesmo poupá-lo do bom trabalho de procurar com precisão a data e hora exatas da morte de Tiago e Lílian Potter. Precisaria então lembrar-se daquelas informações apenas para o caso de Sirius Black. Que besteira. Como se já não tivesse decorado a data e hora da morte do Black, que havia acontecido há apenas quinze dias.

"Obrigado", murmurou Lupin, pegando então apenas dois papéis em branco daquela gaveta.

"Não é por você", respondeu o outro.

Direcionou o olhar a Severo. Tanto quanto ele próprio, Snape também parecia em um estado de maior esperança naquele dia. Os seus olhos, antes vermelhos e atordoados, tinham recuperado a cor normal, e mesmo a sua expressão parecia menos pesada. Ele estendia em sua direção o papel cautelosamente dobrado que se direcionava a Lílian Potter. Remo recebeu-o e desdobrou-o, para então ler as palavras manuscritas:

Lílian Evans. 31 de Outubro de 1981, às 18:00. Godric's Hollow.

Remo mordiscou os lábios, temendo o que viria a seguir. Severo Snape já havia feito a sua parte. Portanto, era a sua vez de agir também. Empunhou a varinha na direção de um daqueles papéis ainda em branco. A magia que executou foi muito simples: um feitiço de bloqueio sobre aquele papel. Um bloqueio que faria com que a mensagem que seria escrita a seguir não pudesse ser lida por ninguém — exceto pela pessoa cujo nome estaria escrito ali e somente no local e hora exatos, determinados também pela própria mensagem. Um feitiço simples, mas que carregava um propósito tão complexo consigo.

Quando a luz clara saiu de sua varinha e incidiu sobre o papel, Remo teve a certeza: era o momento de escrevê-lo. Pegou a caneta mais próxima que encontrou sobre a escrivaninha e começou a escrever palavras tão simplórias quanto aquelas que Snape havia escrito. No entanto, conforme o fazia, a sua mente concentrava-se em outras palavras. As mãos escreveram:

Tiago Potter. 31 de Outubro de 1981, às 18:00. Godric's Hollow.

Tão logo terminou de escrever a mensagem, Remo soltou a caneta e segurou mais uma vez a varinha em mãos. Encostou-a sobre o papel. E sobre aquelas mesmas palavras que havia acabado de escrever, escreveu algumas novas, sem utilizar-se de caneta alguma. As novas palavras eram invisíveis, mas Remo sabia o que significariam. Sabia, pois era ele mesmo quem as escrevia. A nova mensagem foi:

Desaparatem de Godric's Hollow e sigam para a residência do Largo Grimmauld sem avisar ninguém. Vocês serão traídos e Voldemort chegará onde estão em poucos minutos. Queimem essa mensagem depois de lê–la.

Gostaria de poder ler e reler aquela mensagem muitas vezes, possivelmente identificando quaisquer possíveis erros na interpretação daquelas palavras. No entanto, não podia. A mensagem era invisível e já estava codificada sobre a primeira. Havia seguido as instruções de Snape e dado o seu melhor. Mesmo que tudo desmoronasse depois daquilo, teria a chance de pensar que havia, ao menos, tentado por uma última vez.

Lentamente, dobrou os bilhetes de Lílian e Tiago. Dirigiu o olhar ao último restante. O seu coração dava pulos desenfreados dentro do peito quando direcionou a varinha à folha em branco à sua frente, executando o mesmo feitiço que havia feito para a carta do Potter. Mais uma vez, a luz clara gerada pela varinha incidiu sobre a nova folha em branco. Quando o fez, as mãos aflitas de Remo voaram para a caneta. Ansiosas, escreveram:

Sirius Black. 11 de Outubro de 1995, às 19:30. Ministério da Magia.

Engoliu em seco as lágrimas que já se faziam novamente sob os olhos. Não podia mais chorar. Já havia chorado demais por aquilo. Sirius Black havia salvado-o de uma sucessão de fatos terríveis que antes estava escrita no seu destino. Ele havia carregado o fardo sozinho, enfrentado os perigos sozinho, na esperança de salvar Lupin. Portanto, agora era a sua vez de salvá-lo.

Não podia impedir Lílian e Tiago de confiarem o segredo a Rabicho. Não podia impedir que Rabicho os traísse e saísse isento da situação. Mas, talvez, conseguisse impedir a morte dos seus amigos. Talvez, salvando a Lílian e a Tiago, pudesse até mesmo impedir que Sirius terminasse em Azkaban, culpado por um crime que não havia cometido. Agora, restava salvá-lo da morte também.

Soltou a caneta e segurou mais uma vez a varinha em mãos. Queria deixar uma mensagem direta, da mesma forma como havia feito com Tiago. No entanto... No entanto, não sabia se seria uma boa ideia. Salvar o Black era diferente de salvar os outros.

Na época de sua morte, Tiago e Lílian estavam casados e felizes. Tinham um filho. Tinham um futuro promissor. Já o Black... Bem, era sozinho. Poucos motivos tinha para viver e eles incluíam lutar na Segunda Guerra Bruxa pelo máximo de tempo que pudesse, protegendo o restante da Ordem da Fênix.

No momento de sua morte, estava tentando proteger Harry Potter de um ataque de Comensais da Morte, no Ministério da Magia — mais especificamente, na Sala do Véu. Mas Sirius não estava sozinho. Tinha vindo com muitos outos componentes da Ordem. Componentes tão fortes quanto ele. Mesmo que ele não estivesse presente no ato do ataque, havia boas chances de tudo dar certo naquele embate.

Tirar Sirius do combate era salvá-lo do feitiço executado por Bellatrix Lestrange. Era impedir que ele fosse alvo de um feitiço de morte e que atravessasse o Véu. Portanto, a mensagem a ser escrita precisava ser boa o suficiente para convencer a Sirius de que ele não poderia entrar naquela sala. Mas... Como convencer Sirius a não participar de um embate para proteger Harry? Como convencê-lo a ficar longe daquela situação, enquanto seus amigos da Ordem tomavam parte na batalha?

"Quanto tempo mais você pretende usar para isso?", rosnou Severo, irritado, às suas costas.

As suas palavras iluminaram algo na mente de Remo. De súbito, descobriu como convencer a Sirius.

Escreveu com a varinha rapidamente as novas palavras pensadas. Novamente, não se pôde vê-las; faziam parte de uma mensagem invisível, codificada sobre a mensagem original. Mas devia servir. Tinha que servir.

Terminou de dobrar o último bilhete e voltou a encarar Severo, como quem assumisse que estava pronto para a segunda parte do plano. As três mensagens que entregaria aos amigos já estavam dentro do bolso da calça. A poucos centímetros de distância, também posicionada sobre aquela escrivaninha, a caixa de lebre parecia olhá-lo de relance.

"Obrigado por toda a ajuda", murmurou àqueles dois, por mais que já previsse qual seria a resposta de Snape. Surpreendentemente, naquele momento, Severo não lhe respondeu nada.

Dora caminhou com passos lentos direção de Lupin. Diferente dele, que já estava se acostumando a conter as lágrimas, as dela desciam incessantemente pelo rosto quando o abraçou mais uma vez. O abraço durou poucos segundos.

Era compreensível a sua preocupação. Afinal, Remo já tinha recuperado seus sentimentos e boa parte das memórias. Já tinha entendido quem as havia apagado e por qual motivo. Portanto, era muito possível que a varinha-portal não funcionasse; ou, se funcionasse, que desse algum erro e fosse capaz de prendê-lo no passado; ou, mesmo que funcionasse e não o prendesse, era muito possível que qualquer coisa saísse muito errada depois de entregar aqueles três bilhetes aos amigos.

Tentar trazer Sirius Black de volta à vida, depois de quinze dias de seu falecimento, era terrivelmente arriscado. Mudar o passado envolvia muitas coisas. Mas tentar trazer Lílian e Tiago, após quinze anos de sua morte... Era uma ideia quase suicida. Ou homicida. Não sabia a quem poderia atingir quando tentasse alterar aquela ordem de fatos. Mas desistir de tentar já não se incluía em seus planos.

Assim que se afastou de Tonks, encaminhou-se à caixa de lebre. Destampando-a, encontrou a varinha-portal. Parecia tão inofensiva quanto sempre fora. Agora, prestes a tocá-la mais uma vez, era Remo quem encarava aquela volta ao passado de uma forma diferente. Não seria mais apenas um alvo dos acontecimentos. Ia mudá-los definitivamente, não importava o que custasse.

Tocou-a com firmeza. E fechou os olhos quando tudo ao seu redor passou a se deformar e desaparecer, deixando como resquício apenas a fumaça branca que o transportava ao passado.

~

Quando aparatou novamente, sentiu um Sol aquecendo sua pele, em contraste com o vento frio que acariciava seu rosto. Já sentindo o coração bater acelerado, concluiu: o Portal certamente havia funcionado. Rapidamente, abriu os olhos, sedento para ver o que o aguardava do outro lado.

Amanhecia. A Lua Minguante ainda se fazia no céu, do lado oposto ao Sol que acabava de aparecer. Ao redor e por todos os lados, havia coníferas. Sob os seus pés, uma terra fresca e ainda úmida pelo orvalho misturava pegadas de pessoas e de animais. A névoa já conhecida, um indício de que seu tempo ali se esgotava a passos rápidos, fazia-se presente também. Mais intensificada. Remo conhecia aquele lugar.

Olhou para trás e identificou, a poucos metros, o Salgueiro Lutador. No entanto, o Salgueiro não estava como costumava ser. Diversas parcelas de seu tronco e muitos galhos faltavam. Não como se tivessem sido cortados ou arrancados; mas simplesmente como se tivessem sido apagados por uma borracha. Estavam claramente se desfazendo porque aquela realidade já não se tornava mais acessível a Remo. Ele já não era bem-vindo ali.

Desesperou-se. Começou a olhar para todos os lados, procurando alguma região que estivesse menos infestada pela névoa clara. Era certo que, naquela direção, estaria Sirius Black. Encontrando Sirius, teria mais algum tempo, já que todas as vezes em que ele aproximava, a névoa tornava-se menos intensa. Não demorou a encontrar: a região com menos pontos de fumaça esbranquiçada vinha justamente da direção de Hogwarts. Sirius tinha que estar para aquele lado.

Começou a correr. Tal e qual havia acontecido uma vez no túnel sob o Salgueiro, a névoa parecia acompanhá-lo, aflita por levá-lo embora. Se conseguisse, era evidente que Remo não seria mais capaz de voltar àquele tempo.

Sem nem mais preocupar-se com a possibilidade de alguém mais ouvi-lo — e nem mesmo considerar que seria um tanto estranho se os seus amigos o vissem correndo daquela forma, gritou:

"Sirius!"

Não houve respostas. Não houve nada. A sua voz ecoou por um tempo naquela floresta, não trazendo nenhuma informação consigo. Mesmo agora, enquanto corria, Lupin observava que muitos pontos daquele ambiente também tinham sido apagados. Ainda assim, melhorava. A cada passo, parecia afastar-se da neblina, o que indicava que corria na direção certa.

"Sirius!", gritou mais uma vez, chegando ao início da ladeira que o conduziria diretamente à Torre Principal de Hogwarts. Lá embaixo, ele o avistou.

Cabelos desgrenhados também eram acariciados pelo vento. Sirius acabava de se virar na sua direção, como sentisse que estava sendo chamado pelo menor. Ao vê-lo, sua expressão modificou-se por completo. Remo assistiu, estático, enquanto todos os músculos do rosto do Black pareciam relaxar, como acabasse de avistar uma luz ao fim de um longo túnel. Parecia que não se viam há tanto tempo.

Estavam distantes. Sirius estava muito metros abaixo do topo do ladeira onde Lupin se encontrava. No entanto, assim que os olhos cor de mel fixaram-se na sua pessoa, sentiu o próprio coração dando pulos frenéticos, prestes a sair-lhe pela boca. Tantas vezes já havia voltado no tempo para vê-lo. Mas a cada vez que o fazia parecia ser a sua última chance.

"Sirius...", murmurou, falando mais consigo do que com ele. Era a primeira vez que o via depois do episódio com o frasco e as memórias extraídas.

Quando terminara de assistir àquelas memórias, não pôde evitar sentir raiva do Black. Raiva por ter sido tão enganado e manipulado; raiva por tido seus sentimentos mais nobres extraídos pelo outro, sem nem mesmo ter sido avisado ou consultado. Sentiu raiva por Sirius sempre querer fazer tudo sozinho, poupando-o do pior. Carregando o fardo sem a ajuda de mais ninguém. Mas agora que o via pela primeira vez depois de tudo aquilo, e agora que se dava conta de que as lágrimas finalmente haviam desatado a cair pelo seu próprio rosto, percebia que tudo o que queria era abraçá-lo. Abraçá-lo e não ter mais que se despedir.

Sirius ainda não se mexia. Parecia oscilar entre acreditar que seu Remo havia voltado ou apenas encarar a dura verdade de que ele não voltaria e de que aquele corpo permaneceria a ser manipulado por outro Remo, definitivamente. Mas não era possível que não fosse ele. Não era possível, pois Remo havia gritado o seu nome e corrido até alcançá-lo. Agora, olhos cor de mel já estavam inundados. Não era possível que não fosse ele.

Lupin suspirou, tentando controlar-se emocionalmente. Via-se sendo observado com hesitação por Sirius, mas não podia apenas desatar a correr em sua direção e abraçá-lo. Não podia apenas beijá-lo e decidir-se ficar um pouco mais de tempo com ele, como vinha fazendo até então.

Secou o rosto com as mangas das vestes, concentrando-se na sua missão. Tinha mensagens a entregar. Tinha pessoas a convencer. Tinha amigos a salvar.

Mordiscou os próprios lábios mais uma vez, tomando a coragem que precisaria para prosseguir com o seu último plano. Colocou as próprias mãos nos bolsos das calças, roçando-as pelos bilhetes que viria a entregar. Concluiria o que estava para ser feito, nem que tivesse que obrigar Sirius a engolir aqueles malditos bilhetes.

Diferente das outras vezes em que o havia visto no passado, a presença do Black não parecia mais ser capaz de dissipar a névoa completamente. Ela ainda permanecia ali, assustadora e iminente, somente um tanto menos ameaçadora do que antes. A presença de Sirius já não era suficiente para mantê-lo indefinidamente no passado.

Com os pensamentos muito mais claros do que jamais haviam estado, recomeçou a caminhada — sem mais correr, mas apenas andando — em direção a ele. A cada passo que dava sobre aquela terra úmida, sentia estar um passo mais perto da sua completa destruição. Ou salvação.

Independente de qual fosse o resultado, agora já não havia mais retorno. Ia trazê-lo de volta e não importava mais o preço a pagar.

Notas finais
Então... Comentários? Recomendações? Teorias sobre o que Remo está prestes a fazer? Deixem suas opiniões, puuurfa... Estamos chegando ao fim. E obrigada pela leitura!