O Pare(Ser)

1 Capítulo 1


Notas iniciais
Se afoguem nesse rio de lamentações lapidadas...

Até determinada idade, sentimo-nos especiais. Nada demais: um delírio de grandeza que acomete egos imaturos. Uma ilusão de quem ainda não ousou sair do próprio umbigo (à semelhança da caverna de Platão). Uma megalomania profilática em que a nossa total desimportância se protege do anonimato, do vazio, da constatação fatídica de que a vida, a priori, não tem sentido, do desconhecido que nos desafia a cada dia por fora e por dentro: não sabemos quem somos, não adivinhamos o que virá a ser o nosso futuro.

Havendo coragem e ousadia, reconhecemo-nos, afinal, mais um numa multidão de ninguéns. Desconfiamos de que fomos postos na vida como qualquer outro animal. Intuímos que seremos substituídos, esquecidos -- e a memorabilia que defendemos com unhas e dentes será posta no lixo (o que parecer valioso será vendido por qualquer bagatela).

Havendo inteligência e uma pitada de doidice, inventamos, para uso interno, motivos, projetos, metas e, a posteriori, um sentido para a nossa inútil existência. Havendo perspicácia e mais do que uma pitada de doideira, podemos entregar-nos ao estudo da Filosofia, à fruição das artes, a um sonho que sonha que é mais do que sonho.

Muita gente jamais deixa de ser "especial", acha que faz e acontece, pensa que determina atos e farsas, brande a espada de fogo contra os ímpios, levanta o estandarte de um deus que deve ser temido pelos outros, imagina que, quando virar pó, será de ouro -- para alegria e proveito dos vermes. Talvez essa gente autocentrada se sinta feliz sempre que se proclama maior e melhor do que aqueles que sobrevivem a seus despautérios e sandices... Mas tenho, cá, minhas dúvidas.

Notas finais
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