O Pacto de Edgar Ouija

2 Katy Adams está morta e Katherine está em coma


Continuo neste trabalho porque é engraçado ver as pessoas brincando com a sorte. E lá vem um pequeno comerciante, aposta uma boa quantia e... Perde tudo. Chora e se joga no chão e de repente as mulheres que acariciavam ele riem disfarçadamente.

– Alguém desce uma vodka aqui! — O banqueiro Woods de dentes amarelos comemora.

Me dirijo até ele com a bandeja e quando vou servi-lo ele simplesmente pega a garrafa entorna em 3 segundos. Não entendo como uma pessoa com tanto dinheiro comemora por vencer um pobre burguês... Espere, entendo sim. Não é o dinheiro, é vencer, é poder, neste momento ele sente que é superior por ser rico. Ninguém se vicia em jogo, se vicia nessa disputa onde você pode ganhar apostando 500 libras e o outro apostou 15 mil. Essa luta de classes, ou talvez a simples possibilidade de você poder ser rico em poucos segundos, culpa de dados, culpa de roletas. Sra. Foster que me desculpe, ela me olharia feio se soubesse, mas eu sempre sinto que meu futuro é aqui neste casino, ou em outro... Mas eu me sinto tão ligado a isso... Pobres meninas de 15 anos se vendendo com sorrisos e cochichos no ouvido de velhos, dívidas, tristeza, alegria, prazer, dor, sorte, azar, bebida, sexo... Eu me sinto tão, tão ligado a isso mesmo sendo peça dispensável. Se eu fosse garçom de um bar eu seria fundamental, mas eu sou apenas um garçom de casino. Mas quando eu me vejo aqui, não me vejo jogando, me vejo como ele: Richard McClair. Ele se auto-denomina rei de todas as mesas, ele é o dono disso aqui. Se senta numa poltrona de ouro maciço, lá no alto, onde pode ver todos nós. Se diverte com as perdas, comemora as vitórias, sempre assim, mas não é porque ele te parabenizou quando você ganhou 50.000 libras na máquina que ele vai te consolar quando você perde-las no simples jogo dos dados. Ele vai te humilhar.

– Menino Ed! — Eu só tenho visibilidade com ele.

Sigo procurando não tropeçar.

– O que manda?

– Cerveja.

– O senhor sempre pede coisas mais pesadas.

– Eu ainda não chamei a Lili. — Responde apontando para a ruiva voluptuosa que beija o pescoço do banqueiro Woods. — Sente-se aqui ao meu lado.

Obedeço e sento-me no pequeno banquinho de madeira ao lado do trono.

– Quando eu cheguei em Londres eu tinha 200 libras e um isqueiro.

– O senhor não me deixa esquecer.

– Sim, mas homens como eu e você sabemos que as coisas que queremos tomamos na marra.

– E então o senhor assaltou uma velha rica.

Ele riu-se e tragou o charuto.

– Ela nem percebeu, era gagá.

Permiti-me rir junto.

– Olhe ali. — Ordenou apontando para... Ela. — Katy Adams.

– Katy, Katy, Katy, Katy Adams... — Suspirei.

Ela vestia roupas curtíssimas que mostravam sensualmente seu corpo escultural, era para ser vulgar mas há algo angelical em sua pele imaculadamente clara. Há algo selvagem em seus cabelos longos e ondulados, vermelhos como a pétala de uma rosa, seus olhos cor-de-mel me faz relaxar e ao mesmo tempo me deixa inquieto. Katherine pode não sentir nada por mim, posso ser apenas uma peça insignificante, posso ser apenas um móvel da sala de estar, posso ser apenas uma tábua, um grão de areia, uma gota do mar, posso ser apenas o garçom. Mas quando ela olha pra mim eu sei que ela está olhando pra mim. Srta. Adams olha para todos... E todos se sentem assim, e todos são hipnotizados com o leve balanço de seus quadris, os jogos param pois é preciso vê-la girando pelo palco, precisam ver cada expressão de seu rosto para não perder nenhum segundo.

– Ela era uma caipira quando a conheci. — Essa história eu nunca tinha ouvido. — Tinha 14 anos, era apenas uma menininha pálida do cabelo cor-de-fogo. No começo ela não gostou, no começo ela chorou, no começo ela quis fugir... Mas eu peguei ela na marra e hoje ela está aqui.

Meus olhos estavam confusos pois agora eu via Katy Adams de forma totalmente diferente. Olhei para McClair e depois para ela, nele eu via a perversidade, e quanto a nela... Só agora vejo como seus olhos são tristes. Era um encanto, um encanto que escondia seu segredo. Seus olhos estavam completamente escuros, cobertos por nuvens negras de sonhos destruídos e uma juventude perdida, rasgada, violentada.

– Isso não é certo. — As palavras chegaram a boca mais rápido que eu poderia planejar.

– Como diz, rapaz?

Tomei coragem e vi que a vida não é assim como dizem.

– O senhor pode tomar o que quiser, mas não pode roubar o jeito das pessoas pensarem, não pode controlar mentes e principalmente corações. Katy Adams é uma casca vazia, e tudo o que você tem é um corpo. Mas Katherine Adams não está ali, Katherine Adams ainda é uma menina de 14 anos que você estuprou e obrigou a ser prostituta, é uma menina de 14 anos tentando esquecer, e em momentos de sossego, Katherine Adams é a criança que cresceu na fazenda e ainda não sabia da sua maldita sorte. — Me levantei do banco e olhei o rei por cima, o ar saia de suas narinas como fogo. — Katy Adams está morta e Katherine está em coma. Você não tem nada, só tem pele, cabelos, olhos, boca, vagina... Mas nunca terá Katy.

– Você vai se redimir por tudo o que acabou de dizer ou perde seu emprego.

Vacilei e automaticamente perguntei:

– Como posso me redimir?

Richard grita para que a música pare e Katy e se assusta. Todos olhas para nós esperando.

– Este homem acaba de me ofender e agora irá se desculpar por seu ato.

McClair posicionou o banquinho e apoiou seus pés.

– Ele irá limpar minhas botas!

Todos riram e eu engoli tudo a seco.

– Com a língua. — Ele me fitava com todo o ódio que conseguia tirar da profundeza de seus olhos azuis.

– Eu me recuso! — Cuspi mostrando superioridade. O que ele tem, afinal? Dinheiro? Capangas? Poder? Capangas.

Eles vieram rapidamente e eu fui socado, chutado, pisoteado e surrado de todas as formas. Todos riam e eu busquei refúgio em Katy e ela sabia como eu estava. Era a única a me olhar com compaixão, mas nada dos outros me abatia mentalmente, apenas psicologicamente. Depois de sentirem tédio eles pararam. Eu aprendi que todo homem deve ficar de pé e fiquei. Olhei para o velho McClair esperando algo.

– Você deve se ajoelhar e pedir perdão.

– Não me sinto culpado. — Senti o canto dos meus lábios doer pelo corte. — Como disse agora a pouco, McClair, você não é dono das pessoas. Você só é dono do que vê com os olhos, você machuca meu corpo, corrompe uma criança, viola o corpo dela. Mas você não é dono dos sentimentos e eu não sinto nenhum pouco de culpa por dizer a verdade.

– Eu sou o dono da verdade!

Sorri e senti todos os músculos da face doer.

– Aí está uma coisa que você definitivamente não é dono com todos os seus segredos, mentiras e fingimento.

Os homens dele se aproximaram de mim mas uma vez, mas ele não deixou.

– Estou me retirando do seu reino.

Caminhei pela multidão de curiosos e prostitutas tropeçando na Roleta da Fortuna. Chegando a porta da frente o segurança não estava ali então não havia impedimento para sair. Olhei para trás e todos ainda olhavam para mim completamente quebrado e com sangue em todos os lados, olhos inchados e pernas trêmulas mancando. Passei o olho por todos e então cheguei até Katy iluminada pelo spolight. Marquei seu rosto por uma última vez e saí.

Ando pela rua pensando em todos os "Eu avisei" que vou ouvir de Rachel. Não consigo prosseguir e paro no banco de uma praça para descansar, seria fácil se a minha perna não doesse tanto.

Richard, Richard, Richard McClair. Nunca pensei que fossemos tão iguais, hoje sinto que venci. Mesmo com todo o seu dinheiro, com a surra eu não cedi, eu provei o que tinha dito. Ninguém é superior a ninguém porque as pessoas não podem ser roubadas, almas não podem ser vendidas, seres humanos não mudam sua essência. A madrugada é deserta e o frio é filho-da-puta, por isso posso rir comigo mesmo da minha nova descoberta que me deixa mais corajoso do que nunca. Gargalho alto e não há ninguém para me tachar de louco. Respiro e oro "Eu sou o homem mais poderoso do mundo, ninguém pode me roubar de mim". Olho para o céu e me sinto perto de Deus "Sua criação é perfeita, agora eu entendo, Senhor!". Fecho os olhos e sinto o vento congelante refrescando minhas feridas no rosto, braços... Braços? Droga, esqueci meu casaco. Será que eu sou corajoso suficiente para voltar e pegar? Não tenho medo dos homens de McClair, mas eu fiz tanto efeito hoje, será que pegar o casaco não estragaria tudo? Eu tenho mais 3 casacos e aquele era o pior, não me faz falta. Como vou voltar para casa deste jeito?

Uma estrela vermelha vira a esquina portanto um casaco nas mãos. Nunca vi Katy sem a caracterização, nunca vi Katy vestida... Para os meus olhos ela nunca esteve tão vestida. Ela sorri ao me ver e corre até mim atravessando a rua sem medo pois não há carros.

– Eu me preocupei com você! — Ela exclama.

Me sinto fucking sortudo. Ela nunca nem olhou pra mim...

– Eu me esqueci...

Katy tomou liberdade para se sentar ao meu lado, mas eu me levantei e coloquei o casaco.

– Você saiu no meio do show?

– O cassino já fechou, são quase 5 da manhã.

– Porra!

– O que? — Ela sorri tão lindamente...

– Eu não sabia que tinha se passado tanto tempo e... Eu ainda não tinha planejado como voltar para casa. A minha mãe iria se preocupar, não tenho a desculpa perfeita...

– Eu te ajudo!

Meus sonhos estão se realizando.

– O que?

– Seus machucados estão feios... Venha comigo até a minha casa, é logo ali, pode infeccionar e depois a gente pode pensar junto no que você dirá a sua mãe.

Estou desconfiado...

– Sou bem criativa!

– Tá bom.

É uma casa quente, grande e confortável. Katy é bancada por McClair, o que eu poderia esperar?

– Você precisa de um banho quente, lá fora está como o Polo Sul. Pode pegar um resfriado.

Ela me puxa pela escada até o seu quarto.

– Por que está me ajudando tanto?

Katy se senta na cama e suspira profundamente antes de responder.

– Eu não sei. O que falta em mim está em você.

– Sabe por que tudo aquilo aconteceu?

– Não, eu não sei.

– Ele me contou sua história como se fosse um grande feito, como se tivesse te salvado de algo.

– Vá para a banheira, sim?

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.