O País dos Generais
3 Vence na vida quem diz sim
Notas iniciais
A voz de Hazelle ficou na minha cabeça durante a semana inteira. "Estou te convidando para entrar na luta armada contra os militares". Eu prometi que daria uma resposta logo, mas como eu poderia? Tudo o que eu queria era participar da luta, mas se eu entrasse na luta armada... o que seria da minha família?
Meu pai era um rabino, precisava se manter bem com a comunidade, minha mãe tinha que se balançar nos negócios. Vender roupas não era tão lucrativo quanto se poderia imaginar. E Prim... ela tinha ficado noiva a pouco tempo não podia prejudicá-la. No entanto, toda vez que eu lembrava do medo e da humilhação nos olhos de Johanna... Eu precisava fazer algo.
Senti uma pontada quando lembrei de Johanna. Minha amiga não tinha vindo mais para a faculdade depois do que acontecera. Eu não a culpava. Os mesmos soldados que a tinham machucado ainda estavam na faculdade.
Rue estava me esperando na entrada do prédio. Nós tínhamos criado uma cumplicidade desde o que acontecera. Eu não podia negar o soco no estômago que a culpa provocava toda vez que a via e lembrava do quanto tinha sido fraca. Mas mesmo assim, ela tinha uma maneira de me acalmar.
–Como está Johanna?- perguntei. Isso tinha se tornado um hábito entre nós. Nós nos dividíamos para visitá-la. Johanna não falava muito, o que me deixava para além da preocupação. Rue no entanto, afirmava que ela vinha tendo melhoras. Queria ser positiva assim. Pelo menos ela já tinha saído do hospital.
–Indo- respondeu Rue triste- Como você pode imaginar.
Assenti sem dizer nada. Os soldados nos olharam divertidos quando passamos. Alguns deles eram respeitosos até. Outros, como os que atacaram Johanna, se divertiam com o impacto de sua presença no campus.
Senti algo diferente assim que cheguei na sala da aula. Os alunos estavam todos alvoroçados, como se tivessem entrado em um mundo paralelo e não soubessem muito bem o que fazer.
–Eles cancelaram a disciplina- falou um dos colegas ao qual Katniss não conhecia muito bem.
–Como? Não vamos ter aulas hoje? — Indagou Katniss confusa.
Isso era recorrente na UFRGS. Os professores viviam dando palestras e seminários em outras cidades. O problema era a quantidade de trabalho que isso acarretava depois. o garoto sacudiu a cabeça, parecendo tão confuso quanto os outros.
–Não. Eles cancelaram a disciplina. Não teremos aula por tempo indeterminado.
Demorou alguns segundos para Katniss processar a informação e o que o garoto estava querendo dizer. Ela olhou para Rue mas a amiga parecia tão perdida como ela.
–O professor Cinna? O que aconteceu com ele?
O menino apenas sacudiu a cabeça.
–Eu fui na reitoria. Ninguém sabe dele.
Senti como se minhas pernas se preparassem para sair correndo para a reitoria de graduação. Eu precisava de repostas. Essa era a disciplina que vinha esperando há muito tempo. Assim que me virei no entanto, um homem que reconheci como sendo o secretário da reitoria entrou na sala seguido por um soldado.
–Boa tarde estudantes- começou ele com a voz rouca, dava para ver que ele não estava muito satisfeito com a situação- Sinto muito lhes informar que essa disciplina, assim como os cursos de filosofia, sociologia e história foram temporariamente fechados.
–O quê? Mas por quê?- Ouvi Rue perguntar.
–Porque elas precisam ser remodeladas para entrar de acordo com o novo regime e com as normas dos bons costumes. Essas disciplinas estavam afetando o ensino de jovens e não condiziam com os valores da nobre família brasileira.
O homem parecia extremamente desconfortável e sua voz traia a descrença em cada palavra que ele dizia. Dei um passo para frente o encarando.
–Senhor, por favor, onde está o professor Cinna? isso deve ser um engano.
O homem olhou para mim como se eu tivesse saído de algum programa de rádio futurista de Orson Welles.
–O professor Cinna foi afastado de suas funções.
Senti a conhecida raiva que vinha me atormentando nos dias anteriores se apossar de mim novamente. Eu não costumava fazer muitas perguntas, era do tipo de garota que costumava obedecer. Sempre tivera uma boa razão para isso. Mas agora....
–Onde está o professor Cinna? Ele não deveria ter vindo se despedir? E vocês não podem fechar o cursos. O que nós iremos fazer...
–Sinto muito senhorita.
O funcionário da faculdade saiu apressado fiz menção de seu menção de segui-lo mas os dois homens bloquearam meu caminho.
–Ei- esbravejei. Senti que alguém me puxou pelo braço e me tirou dali, enquanto os homens me olhavam feio. Peeta me levou até um dos canteiros afastados da universidade, enquanto tentava me desvencilhar dele.
–O que você está fazendo?- Por um momento nem eu reconheci a raiva imposto em minha voz.
–Se você quer acabar como Johanna, está fazendo um ótimo trabalho
O encarei confusa. Não sabia por que ele estava fazendo aquilo. Provavelmente achava que eu era uma garotinha idiota que estava se comportando mal.
–Eu estava apenas perguntando... Não preciso de sermões senhor Mellark.
Peeta levantou suas mãos parecendo exasperado. Ele me encarou sério.
–Eu achei que você fosse mais inteligente do que isso- Soltou ele de repente olhando para o outro lado.
–O que você quer dizer com isso -perguntei mas ríspida do que pretendia. Eu não sabia como ele conseguia me tirar do sério tão rápido.
Ele apenas suspirou,
–Não faça perguntas, tudo bem? Se não...apenas não acabe como Cinna.
E saiu me deixando com mais dúvidas do que respostas. Olhei para suas costas sem compreender e não me contive.
–Ei, o que você quis dizer acabar como Cinna?
Ele apenas se virou. Quando me encarou a realização veio com um chute no estômago. Senti um grito querendo sair, mas consegui suprimi-lo na última hora. Cinna tinha desaparecido. Ele podia inclusive estar morto. Antes que eu pudesse me recuperar totalmente Rue chega correndo até mim.
–Tudo bem?- Ela pergunta preocupada.
Apenas assinto. Não estava nada bem. Mas eu teria que fingir que estava, teria que fingir me comportar. E segui com ela até a aula que eles tinham montado para substituir a de Cinna. Moral e Cívica. Era onde eles conseguiram ensinar bem seus robozinhos.O professor era um homem carrancudo. Ele falava apaixonadamente sobre a pátria, sobre cidadania e como o Brasil ajudava aqueles que deixavam ser ajudados (Brancos, héteros, cristãos e ricos.... completei em meu pensamento)
Eu nunca fiquei tão aliviada em toda a minha vida quanto ao ouvir o professor dizer que a aula estava terminada. Meu alivio durou pouco ao ver Cato parado na entrada da UFRGS. Ele estava junto com os outros soldados. Percebi que meu amigo tinha sido designado para patrulhar a universidade.
Eu gostava de Cato. Ele tinha opiniões completamente opostas as minhas, mas sempre fora gentil comigo. Quando ele me pediu seriamente em namoro, eu até cogitara a possibilidade. Eu nunca fora o tipo que me deixava enganar por beleza, sabia que nunca poderia ser feliz com ele, mas sempre mantivemos uma boa relação. No entanto, a violência contra Johanna e o sumiço do professor Cinna me faziam sentir uma raiva enorme de quem apoiava o regime. Não seria uma boa ideia conversar com ele agora. Infelizmente, não era algo que eu pudesse evitar.
–Katniss- cumprimentou, o sorriso indo de orelha a orelha.
Rue que estava comigo me olhou alarmada. Sorri, tranquilizando-a. Ela apenas fez um aceno de reconhecimento para Cato e se despediu de mim.
–Olá Cato. Então está patrulhando a universidade agora?- Cumprimentei educada, tentando ao máximo esconder minha frustração e repulsa pelos colegas dele.
Percebi a presença de Peeta que chegara um pouco depois de mim, os olhos azuis dele claramente me observando. Eu não sabia que tipo de relação os dois tinham. Achei que Peeta provavelmente era o tipo de irmão mais novo que venerava Cato, mas assim que percebi o olhar que ele lançava para o irmão, como se se esforçasse para esconder algo, avaliei que estava redondamente enganada. O que me deixou ainda mais intrigada com o garoto.
–Estou. Eles disseram que precisavam de alguém que conhecesse o Campus.
Alguém que conhecesse as pessoas dentro do Campus, a resposta veio rápida em minha mente. Encarei Peeta e percebi que ele sabia exatamente o que eu estava pensando. Felizmente, a namorada de Cato chegou, fazendo com que ele tivesse sua atenção desviada de mim. Me despedi dos irmãos Mellark e corri até a Gale que estava me esperando, mantendo uma distância segura da universidade.
Se o meu amigo notou que algo estaca errado comigo não mencionou. Ás vezes eu o amava por isso. Não tínhamos necessidade de falar, apenas sabíamos quando nos consolar. Percebi que ele estava olhando diretamente para Cato e Peeta enquanto saímos da universidade.
–O que foi?- Perguntei seguindo a direção dos olhos dele.
Ele apenas sorriu para mim.
–Você, senhorita Everdeen, vai causar problemas na casa dos Mellark.
Olhei para ele atônita. Essa era a última coisa que eu poderia imaginar que ele dissesse . Soltei uma gargalhada que pegou até mesmo a mim de surpresa. Havia inúmeras garotas para os irmãos Mellark. Cato não era conhecido pela fidelidade e Peeta era o tipo de garoto que chamava a atenção das mulheres onde quer que fosse.
Era verdade que Cato tinha me pedido em namoro. Mas era apenas porque era um bom negócio, não era realmente por que ele sentisse algo por mim. O pensamento de algum dos dois estar levemente interessado em mim era tão ridículo e eu tinha tanta coisa mais importante com o que me importar que não me contive e ri, fazendo apenas um sinal para Gale entrar no carro.
Eu sempre gostava de visitar a casa de Gale. Os dois irmãos mais novos do garoto brincavam na entrada do pequeno edifício e sorriram assim que nos viram. Eles viviam pentelhando Gale, o irmão era como uma espécie de pai para eles. Havia outras crianças jogando bola ali perto. Sorri para aquela cena familiar. Algumas coisas, nem a revolução consegue mudar.
O apartamento estava um pouco mais calmo no inicio da noite, mas eu sabia que logo logo ia se tornar uma bagunça com o jantar. Hazelle estava em cima do fogão, ouvindo o rádio. Ela deu um enorme sorriso assim que nos viu.
–Gale, bem na hora. Pode levar esses salgados para o seu Joaquim?- Falou Hazelle colocando duas sacolas de feira no colo do filho antes que ele pudesse responder.
–Mãe!- Gale fez um sinal com a cabeça me indicando.
–Não se preocupe, Katniss ficará aqui comigo, não se importa querida?
–Não, claro que não- respondi
Gale suspirou e saiu para fazer o que a mãe pediu. Hazelle fez sinal para que eu me sentasse.
–Pobre Joaquim. Os negócios não vão bem. Parece que ele vai ter que vender a quitanda- comentou ela.
Concordei. Eu sabia que as coisas não estavam bem para muitas pessoas.
–Eu achei... aquela comida. Pensei que fosse...
–Psiu!- Me silenciou apressada.- Não. Um companheiro vem buscar a comida dos guerrilheiros. Jamais deixaria Gale levar. É muito arriscado.
Sorri aliviada para ela. Os olhos de Hazelle me encaravam com expectativa.
–Então, você já decidiu se vai fazer parte da resistência ou não?
Eu sabia que ela perguntaria, mesmo assim senti a dúvida se debatendo dentro de mim.
–Hazelle, minha família. Se eu concordar com algo perigoso assim...Não sei o que pode ser deles.
Ela olhou para mim como se estivesse me vendo pela primeira vez.
–Você sabe que eu jamais deixaria alguma coisa acontecer com meus filhos, não é? Eu sei que é perigoso Katniss- A voz de Hazelle agora era apenas um sussurro- Mas nós podemos trabalhar disfarçadas, não temos que nos expor desnecessariamente. Sei que você conseguiria fazer isso.
Encarei minha amiga, lembrando de tudo o que tinha acontecido ali aquele mês. Johanna, Cinna... Eu tinha que fazer isso. O estado em que eu ficara hoje quando soubera do professor mostrava que não conseguiria mais ser a jovem judia bem educada do Bom Fim.
–Ninguém pode saber disso Hazelle, se não minha família está condenada- Me ouvi dizendo, sentindo que essas foram as palavras mais poderosas que eu já dissera em toda a minha vida.
–A minha também Katniss. Temos um pacto aqui. Juro por Gale que sua família nunca vai sofrer por você nos ajudar
Assenti, tentando acreditar no que ela dizia.
–Você vai no baile do clube Tiradentes semana que vem?- Perguntou ela de repente.
Olhei para ela confusa.
–Vou. Mas o que isso tem a ver com a resistência
Ela sorriu, e pude ver a guerreira por trás da fachada de mãe.
–Porque você vai nesse baile. Vai se aproximar de um dos oficiais de alta patente e vai entrar na secretária do clube onde ele guarda alguns documentos importantes
Senti meu coração apertando no peito. Isso seria difícil, muito dificil. No entanto, não era completamente impossível. Não para mim.
–Que oficial de alta patente? Não conheço nenhum mlitar Hazelle, tenho amigos, mas eles são apenas soldados rasos- Esclareci, deixando claro que talvez eu não fosse a mais indicada. Recebi apenas um sorriso rápido.
–Mellark. Você tem que tirar informações do Coronel Silvio Mellark.
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