O PESO DE UMA PROMESSA

6 CAPÍTULO 6 - Quando o mundo para


À uma e sete da manhã, a casa estava finalmente em silêncio.

Jacob Black estava sentado no chão do quarto de hóspedes, com as costas apoiadas na lateral da cama e um pequeno dinossauro de plástico preso entre os dedos.

Seth dormia atravessado sobre o colchão.

Um braço pendia para fora.

Uma das meias havia desaparecido em algum ponto desconhecido da casa.

O cobertor estava embolado aos pés.

E havia pelo menos vinte carrinhos espalhados pelo chão.

Jacob olhou ao redor.

Sua casa jamais estivera tão desorganizada.

Sorriu.

A noite havia sido um desastre.

Um desastre completo.

Seth quis pizza.

Depois decidiu que não queria pizza.

Quis hambúrguer.

Jacob disse não.

Seth fez uma expressão triste.

Jacob pediu hambúrguer.

Depois assistiram a um filme.

Seth derrubou refrigerante no sofá.

Jacob quase teve um infarto.

Depois construíram uma pista de carrinhos atravessando metade da sala.

Jacob permitiu que ele ficasse acordado até dez.

Seth negociou até dez e meia.

Às onze ainda estava acordado.

Às onze e quinze pediu sorvete.

Jacob disse não.

Às onze e dezessete estavam tomando sorvete.

Jacob tinha consciência de que era incapaz de impor limites ao sobrinho.

Também tinha consciência de que Rebecca sabia disso.

E explorava a fraqueza dele sem qualquer piedade.

À meia-noite, o telefone tocara.

Rebecca.

— Ele está dormindo?

Jacob olhara para Seth.

O menino estava no alto da escada fazendo um carrinho descer pelo corrimão.

— Está quase.

Rebecca rira.

— Mentiroso.

— A culpa é sua. Você criou um terrorista.

— Você faz todas as vontades dele.

— Não faço.

— Jake, ele me contou que você deu sorvete.

Jacob olhara para Seth.

O menino sorrira.

Traidor.

— Uma bola.

— À meia-noite?

Jacob consultara o relógio.

— Tecnicamente eram onze e dezessete.

Rebecca gargalhara.

— Ah, desculpe. Nesse caso, retiro tudo. Onze e dezessete é um horário perfeitamente aceitável para dar sorvete a uma criança de cinco anos.

Ao fundo, Salomon dissera:

— Cinco e meio!

Rebecca rira.

— Seu filho exige precisão.

— Eu ouvi! — Seth gritara.

Jacob balançara a cabeça.

— Esta família é impossível.

— Você é desta família.

— Infelizmente.

— Mentiroso. Você nos ama.

Jacob ficara em silêncio.

Rebecca conhecia aquele silêncio.

— Ama, sim.

— Onde vocês estão?

— Mudando de assunto?

— Respondendo perguntas relevantes.

— Voltando.

Jacob franzira a testa.

— Achei que fossem dormir no hotel.

— Salomon mudou de ideia. Quer acordar na própria cama.

Ao fundo, Salomon protestara:

— Eu disse que o travesseiro do hotel era horrível!

Rebecca rira novamente.

Aquela risada.

Mais tarde, Jacob tentaria lembrar exatamente daquele som.

Tentaria guardá-lo.

Porque algumas coisas só se tornam preciosas quando já não podemos ouvi-las novamente.

— Estamos voltando para casa — Rebecca dissera.

— Dirijam com cuidado.

— Salomon está dirigindo.

— Então diga a ele para dirigir com cuidado.

— Ele ouviu.

— Estou dirigindo perfeitamente! — Salomon protestara.

Jacob sorrira.

— Boa noite, Becca.

— Boa noite, Jake.

— Aproveitou?

Houve uma pequena pausa.

A voz dela ficou mais doce.

— Muito.

— Ótimo.

— Obrigada por ficar com ele.

Jacob olhara para Seth.

O menino agora estava ajoelhado no chão, completamente concentrado em alinhar os carrinhos.

— Sempre.

Rebecca ficara em silêncio por um instante.

Então respondera:

— Eu sei.

Foram as últimas palavras que Jacob ouviu da irmã.

O telefone tocou às 1h07.

Jacob despertou assustado.

Por um segundo não soube onde estava.

Ainda estava sentado no chão.

O pescoço doía.

Olhou para Seth.

Dormindo.

O telefone continuou tocando.

Jacob se levantou cuidadosamente e saiu do quarto.

— Alô?

— Senhor Jacob Black?

Uma voz desconhecida.

— Sim.

— O senhor é irmão de Rebecca Black Grey?

Jacob ficou imóvel.

Alguma coisa dentro dele soube.

Antes da explicação.

Antes das palavras.

Antes de qualquer confirmação.

Soube.

— Sou.

— Senhor Black, houve um acidente.

Silêncio.

Jacob apertou o telefone.

— Onde?

— Eles foram encaminhados para o hospital...

— Onde?

A pessoa informou.

Jacob já estava andando.

Pegou as chaves.

Parou.

Seth.

Olhou para o corredor.

Não podia deixá-lo.

Ligou imediatamente para Sue.

Ela atendeu sonolenta.

— Jacob?

— Sue.

Alguma coisa em sua voz a despertou completamente.

— O que aconteceu?

Jacob tentou responder.

A palavra ficou presa.

— Rebecca.

Silêncio.

— O que houve com Rebecca?

— Um acidente.

— Meu Deus.

— Preciso ir ao hospital. Seth está aqui.

— Eu vou.

— Não tenho tempo.

— Leah está comigo.

Jacob fechou os olhos.

— Mande ela.

— Jacob...

— Agora, Sue.

— Sim. Claro.

Ele desligou.

Voltou ao quarto.

Seth continuava dormindo.

Jacob parou ao lado da cama.

O peito apertou.

Não.

Não sabia de nada ainda.

Não faria aquilo.

Não pensaria na pior possibilidade.

Era apenas um acidente.

Rebecca estava no hospital.

Salomon estava no hospital.

Ele chegaria lá.

Falaria com os médicos.

Encontraria o melhor especialista.

Transferiria os dois se fosse necessário.

Resolveria.

Jacob resolvia tudo.

Abaixou-se e puxou o cobertor sobre Seth.

O menino se mexeu.

— Tio Jake...

Jacob congelou.

— Shh.

Seth abriu os olhos apenas o suficiente para enxergá-lo.

— Mamãe chegou?

O coração de Jacob falhou uma batida.

— Ainda não.

— Ela vem?

Jacob olhou para o sobrinho.

— Dorme.

Seth fechou os olhos novamente.

Jacob permaneceu ali por mais alguns segundos.

Depois saiu.

Leah Clearwater chegou doze minutos depois.

Nem perguntou.

Jacob abriu a porta já com o paletó nas mãos.

— Ele está dormindo.

— Vai.

— Se acordar...

— Eu cuido dele.

— Não diga nada.

Leah assentiu.

— Não vou.

Jacob passou por ela.

— Jake.

Ele parou.

Leah conhecia Jacob desde criança.

Talvez por isso fosse uma das poucas pessoas capazes de perceber aquilo que ele tentava esconder.

As mãos dele tremiam.

— Dirija com cuidado.

Jacob não respondeu.

Saiu.

No hospital, tudo aconteceu em fragmentos.

Luzes brancas.

Corredores.

Médicos.

Perguntas.

Documentos.

Palavras que Jacob ouvia sem realmente compreender.

Impacto.

Trauma.

Hemorragia.

Tentamos.

Sinto muito.

Não havia frases inteiras.

Apenas palavras.

Palavras capazes de destruir uma vida.

Ele encontrou Salomon primeiro.

Ou aquilo que restara do homem que, poucas horas antes, reclamava de um travesseiro de hotel.

Jacob parou diante dele.

— Salomon?

Nada.

Aproximou-se.

— Vamos, cara.

Silêncio.

Jacob olhou para o cunhado.

— Você precisa acordar.

Nada.

— Rebecca vai me matar se você fizer alguma idiotice.

A própria frase o destruiu.

Virou o rosto.

Não chorou.

Ainda não.

Depois perguntaram se queria ver Rebecca.

Ele não respondeu.

Apenas entrou.

A irmã parecia estar dormindo.

Aquilo era cruel.

Porque Rebecca dormindo ainda era Rebecca.

Os mesmos cabelos.

O mesmo rosto.

As mesmas mãos.

Jacob aproximou-se.

— Becca?

Silêncio.

Tocou a mão dela.

Fria.

Recuou por reflexo.

Depois segurou-a novamente.

— Rebecca.

Nada.

— Pare com isso.

A voz falhou.

— Vamos.

Silêncio.

— Você precisa buscar Seth.

Nada.

Jacob apertou a mão dela.

— Ele está esperando.

A primeira lágrima caiu.

— Becca...

Outra.

— Você disse que estava voltando para casa.

Jacob abaixou a cabeça.

— Você falou comigo há uma hora.

Como alguém podia existir numa hora e deixar de existir na seguinte?

Como uma voz podia estar dentro de um telefone e depois desaparecer para sempre?

— Você não pode fazer isso.

Silêncio.

— Eu não sei o que dizer para ele.

A confissão saiu como um sussurro.

— Você sempre sabe o que dizer para ele.

Nada.

— Rebecca...

Jacob encostou a testa na mão fria da irmã.

— Eu não sei fazer isso sem você.

E então chorou.

Não como o presidente da Black Automotivos.

Não como o homem que todos procuravam quando alguma coisa precisava ser resolvida.

Chorou como o irmão mais novo que acabara de descobrir que existiam problemas que dinheiro, inteligência, poder ou vontade jamais seriam capazes de consertar.

Seth acordou às seis e perguntou pela mãe.

Leah não soube o que responder.

Às sete perguntou novamente.

Às oito, Jacob voltou.

Seth ouviu a porta e correu.

— Tio Jake!

Jacob parou.

Cinco anos.

Cinco anos e meio, Seth sempre corrigia.

Pijama de dinossauros.

Cabelos bagunçados.

Descalço.

Esperando que a mãe viesse buscá-lo.

— Cadê a mamãe?

Jacob não conseguiu responder.

Seth franziu a testa.

— Tio Jake?

Jacob ajoelhou-se.

— Vem aqui.

— Cadê minha mãe?

— Seth...

— Ela falou que vinha me buscar.

Jacob sentiu os olhos arderem.

— Eu sei.

— Então cadê ela?

— Vem aqui.

Seth aproximou-se devagar.

Jacob o abraçou.

Forte demais.

— Tio Jake...

Ele afrouxou os braços.

— Houve um acidente.

O menino ficou quieto.

— Com quem?

Jacob fechou os olhos.

— Com sua mãe e seu pai.

— Eles estão no hospital?

— Estavam.

Seth olhou para ele.

Jacob tentou encontrar palavras.

Não existiam palavras certas.

— Eles se machucaram muito.

— Mas o médico vai arrumar.

Alguma coisa se partiu dentro de Jacob.

— Eles tentaram.

— Então arrumaram?

— Não conseguiram.

Seth ficou imóvel.

— Por quê?

Jacob respirou fundo.

— Porque eles morreram, Seth.

Silêncio.

— Não.

— Eu sinto muito.

— Não.

— Seth...

— Não!

O menino empurrou Jacob.

— É mentira!

— Eu queria que fosse.

— Minha mãe vem me buscar!

— Seth...

— ELA PROMETEU!

Jacob congelou.

— Eu sei.

— Ela falou ontem!

— Eu sei.

— Então ela vem!

— Seth...

— ELA VEM ME BUSCAR!

O menino correu.

Jacob tentou segurá-lo.

— Não encosta em mim!

O grito atravessou a casa.

Seth correu para o quarto e bateu a porta.

Jacob permaneceu ajoelhado no chão.

Leah estava alguns metros atrás.

Chorando silenciosamente.

Jacob olhou para a porta fechada.

— O que eu faço?

Leah não respondeu.

— Leah... o que eu faço?

Ela se aproximou.

— Agora?

Jacob assentiu.

Leah olhou para a porta.

— Agora você fica.

— Ele não quer que eu entre.

— Então fica do lado de fora.

Jacob a encarou.

— E depois?

— Depois você fica de novo.

— Isso não é uma resposta.

— É a única que eu tenho.

Jacob fechou os olhos.

E, pela primeira vez desde que assumira a Black Automotivos, desde que aprendera a transformar qualquer problema em uma sequência de decisões...

Jacob Black não fazia ideia do que fazer.

O funeral aconteceu três dias depois.

Chovia.

Jacob odiou aquilo.

Não porque tivesse alguma coisa contra chuva.

Mas porque Rebecca detestava chuva.

Sempre reclamava dos cabelos.

Meu cabelo vai virar uma coisa horrorosa, Jake.

Ele quase conseguia ouvi-la.

Seth estava ao lado dele.

Pequeno.

Quieto.

Vestindo um terno que odiava.

Jacob mantinha a mão sobre seu ombro.

Seth não chorava.

Aquilo preocupava Jacob mais do que se estivesse chorando.

Rachel chorava abraçada a Paul.

Billy permanecia em silêncio.

Sue e Leah estavam próximas.

Embry mantinha-se alguns passos atrás.

Duas famílias haviam perdido filhos naquele dia.

Os Black perderam Rebecca.

Os Grey perderam Salomon.

Jacob olhou para os dois caixões.

Não parecia real.

Então viu Irina.

Ela chegou apoiada em Edward.

E estava destruída.

Não havia elegância.

Não havia frieza.

Não havia provocação.

Irina chorava descontroladamente.

Quando viu o caixão do irmão, soltou um som baixo e doloroso.

— Salomon...

Edward tentou segurá-la.

Ela se afastou.

Aproximou-se do caixão.

— Não...

Jacob desviou os olhos.

Não queria assistir.

Não queria sentir pena dela.

Não queria lembrar da discussão no leilão.

Não queria Edward perto de sua família.

Simplesmente se afastou.

Paul percebeu.

Seguiu-o.

— Jake.

— Não.

— Ela perdeu o irmão.

Jacob virou-se.

— E eu perdi minha irmã.

Paul ficou quieto.

Jacob respirou fundo.

— Eu não consigo ficar perto deles agora.

Paul assentiu.

— Então não fica.

Jacob olhou para Seth.

O menino encarava os caixões.

Sem expressão.

— Eu não sei como fazer isso.

Paul acompanhou seu olhar.

— Ninguém saberia.

— Ele perguntou ontem quando a mãe volta.

Paul não respondeu.

Jacob apertou a mandíbula.

— Eu tive que dizer de novo que ela não volta.

— Jake...

— E ele olhou para mim como se eu fosse responsável.

— Ele tem cinco anos.

— Cinco e meio.

Paul olhou para o amigo.

Jacob percebeu o que acabara de fazer.

Os dois ficaram em silêncio.

— Ele sempre corrige — Jacob murmurou.

Paul colocou a mão em seu ombro.

— Então continua corrigindo por ele até ele querer fazer isso sozinho outra vez.

Jacob olhou para Seth.

— Ele não chorou hoje.

— Cada um sofre de um jeito.

— Ele deveria chorar.

— E se chorasse você estaria preocupado porque ele não para de chorar.

Jacob não respondeu.

Paul suspirou.

— Você não consegue controlar isso.

A frase incomodou Jacob mais do que deveria.

Porque era verdade.

Naquela mesma manhã, a quilômetros dali, Elena colocava ovos mexidos em um prato.

— Bella!

Nenhuma resposta.

— Isabella!

— Estou aqui!

— Então por que não responde?

— Porque estou ocupada!

Elena apareceu na sala.

Bella estava diante do notebook.

— Ocupada fazendo o quê?

— Lendo.

— Aula?

Bella não respondeu.

Elena estreitou os olhos.

— Bella.

— Notícia.

— Come antes que esfrie.

Elena voltou para a cozinha.

— Lena.

Alguma coisa na voz da irmã a fez parar.

— O quê?

Bella olhava para a tela.

— Black Automotivos.

Elena voltou.

— O que tem?

— Teve um acidente.

O estômago de Elena apertou.

— Quem?

Bella leu.

Seu rosto mudou.

— Rebecca Black Grey e Salomon Grey.

O prato quase escapou das mãos de Elena.

— O quê?

Bella virou o notebook.

Elena leu.

Acidente automobilístico.

Madrugada.

Casal.

Mortos.

Filho de cinco anos.

Cinco anos.

Seth.

O ar desapareceu.

Por um instante, Elena não estava mais no apartamento.

Chuva.

Vidro.

Metal.

Sangue.

A voz do pai.

Promete para mim que vai cuidar dela.

— Lena?

Ela não respondeu.

— Elena.

Bella segurou seu braço.

Elena piscou.

— Seth.

— É aquele menino?

Ela assentiu.

— O sobrinho do seu patrão?

— Sim.

Sentou-se.

Bella ficou ao lado dela.

— Meu Deus.

Elena continuou olhando para a notícia.

Cinco anos.

Apenas cinco.

Quase a mesma idade.

Ela tinha seis.

Seis anos quando o mundo terminara dentro de um carro.

Sabia o que era acordar sendo criança e, algumas horas depois, descobrir que nunca mais poderia ser apenas uma criança.

Sabia o que era esperar que algum adulto dissesse que havia acontecido um engano.

Que a mãe acordaria.

Que o pai voltaria.

Que tudo poderia ser consertado.

Sabia o tamanho daquele buraco.

Ou talvez ninguém pudesse saber exatamente a dor de outra pessoa.

Mas conhecia aquela escuridão.

Elena fechou o notebook.

— Ele estava tão feliz.

Bella segurou sua mão.

Elena olhou para a irmã.

Por um segundo viu um bebê preso numa cadeirinha.

Depois uma jovem de dezoito anos.

Viva.

Ali.

— Lena...

Elena abraçou Bella.

A irmã estranhou.

— O que foi?

— Nada.

Apertou-a.

— Só fica aqui um pouco.

Bella não perguntou.

Apenas a abraçou de volta.

Os dias seguintes transformaram a casa de Jacob.

O silêncio que antes parecia organizado passou a parecer vazio.

Seth não queria comer.

Não queria brincar.

Não queria dormir.

Depois queria dormir o tempo inteiro.

Depois gritava.

Depois chorava.

Depois não chorava.

Uma babá tentou ajudá-lo a tomar banho.

Ele gritou até ela sair.

Outra tentou colocá-lo na cama.

Seth jogou um brinquedo contra a parede.

Uma terceira durou duas horas.

Jacob contratou uma psicóloga infantil.

Seth recusou-se a falar.

Jacob organizou horários.

Refeições.

Banho.

Sono.

Consultas.

Atividades.

Nada funcionou.

— Seth, você precisa comer.

— Não.

— São oito horas.

— Não quero.

— Você não almoçou.

— Não estou com fome.

— Precisa comer mesmo assim.

— NÃO!

O prato caiu no chão.

Quebrou.

Jacob fechou os olhos.

— Seth.

— EU QUERO MINHA MÃE!

Jacob ficou imóvel.

O menino começou a chorar.

— Quero minha mãe!

Jacob se aproximou.

Seth recuou.

— Não encosta!

Jacob parou.

O menino correu para o quarto.

Outra porta bateu.

Jacob olhou para o prato quebrado.

Sue estava na cozinha.

— Dê tempo.

— Ele não come.

— Está sofrendo.

— Eu sei.

— Então pare de tratá-lo como um problema administrativo.

Jacob virou-se.

— Eu não estou fazendo isso.

Sue sustentou seu olhar.

— Está organizando horários, atividades, profissionais, refeições...

— Porque ele precisa de rotina.

— Precisa.

— Então qual é o problema?

— Você está tentando organizar o sofrimento dele numa agenda, Jacob.

A frase atingiu em cheio.

Ele passou as mãos pelo rosto.

— Então o que faço?

Sue ficou quieta.

Porque também não sabia.

Foi Leah quem falou.

— E Elena?

Jacob levantou a cabeça.

— O quê?

— Seth gosta dela.

Sue olhou para a filha.

— Leah...

— É verdade. Ele falou dela duas vezes.

Jacob ficou em silêncio.

— Ele não deixa ninguém chegar perto — Leah continuou. — Talvez deixe Elena.

Elena chegou na manhã seguinte sem saber que aquela conversa acontecera.

Entrou pela cozinha.

Colocou a bolsa sobre a bancada.

Parou.

Seth estava sentado no chão, encostado no armário.

Pijama.

Descalço.

Olheiras.

Um dinossauro entre as mãos.

Elena sentiu o coração apertar.

— Oi.

Ele não respondeu.

Ela não se aproximou.

Começou a guardar os mantimentos.

— Eu trouxe morangos.

Nada.

— E não trouxe passas porque aparentemente nesta família ninguém tem bom gosto.

Seth não reagiu.

Elena continuou trabalhando.

Sem perguntas.

Sem “como você está?”.

Sem “sinto muito”.

Sem tentar abraçá-lo.

Depois de alguns minutos, sentou-se no chão do outro lado da cozinha.

Pegou um morango.

Comeu.

Outro.

Seth olhou.

Elena fingiu não perceber.

Pegou mais um.

— Esse estava ruim.

Seth continuou olhando.

— Acho que vou precisar comer todos para verificar.

Mais um.

— Péssimo.

O menino finalmente falou:

— Você está mentindo.

Elena olhou para ele.

— Estou.

Silêncio.

— Estão bons.

Empurrou a tigela pelo chão.

Não foi até ele.

Apenas empurrou.

Seth olhou.

Pegou um morango.

Comeu.

Jacob observava da porta.

Elena não o tinha visto.

Seth pegou outro.

Depois outro.

Jacob sentiu os olhos arderem.

Três morangos.

Era mais do que Seth comera espontaneamente em quase dois dias.

— Tem chocolate? — Seth perguntou.

Elena fingiu pensar.

— Talvez.

— Morango com chocolate é melhor.

— Isso é verdade.

— Minha mãe gostava.

Elena parou.

Não desviou do assunto.

— Gostava?

Seth assentiu.

— Muito.

— Então sua mãe tinha bom gosto.

O menino ficou olhando para o morango.

— Ela morreu.

Elena respirou fundo.

— Eu sei.

— Todo mundo sabe.

— É.

— Eu não gosto quando falam “sinto muito”.

— Então não vou falar.

Seth levantou os olhos.

— Por quê?

— Porque você acabou de dizer que não gosta.

Ele pareceu pensar.

— Tá.

Pegou outro morango.

E aquilo bastou.

Por enquanto.

Naquela tarde, Jacob chamou Elena ao escritório.

Ela entrou desconfortável.

Era a primeira vez que pisava naquele cômodo.

— Sue disse que eu não podia entrar aqui.

Jacob ergueu os olhos.

— Eu mandei chamar você.

— Tecnicamente continuo quebrando uma regra.

— Elena.

— Certo.

Sentou-se.

Jacob parecia diferente.

Mais cansado.

A barba começava a aparecer.

Olheiras marcavam o rosto.

E a gravata estava torta.

Elena jamais imaginara ver Jacob Black com uma gravata torta.

— Preciso pedir uma coisa.

— Claro.

— Seth não está aceitando as babás.

Ela assentiu.

— Percebi.

— Não está comendo.

— Hoje comeu morangos.

— Eu sei.

Jacob respirou fundo.

— Ele deixa você chegar perto.

Elena ficou quieta.

— Quero que, por enquanto, pare com suas outras funções.

— Cozinhar?

— Se quiser cozinhar para ele, sim. Mas esqueça a limpeza. A casa pode esperar.

Elena arqueou uma sobrancelha.

— Você dizendo isso é preocupante.

Jacob lançou-lhe um olhar.

— Desculpe.

Por um instante, quase surgiu um sorriso nele.

Desapareceu.

— Quero que cuide dele.

Elena ficou séria.

— Eu não sou babá.

— Eu sei.

— Nem psicóloga.

— Também sei.

— Jacob...

Foi a primeira vez que disse o nome dele naturalmente.

Ele percebeu.

— Não estou pedindo que resolva o luto dele.

Elena baixou os olhos.

— Ninguém pode.

— Só estou pedindo que fique com ele.

Ela voltou a encará-lo.

— Por quanto tempo?

— Não sei.

Aquilo vindo de Jacob significava muito.

Ele sempre sabia.

— Alguns dias. Algumas semanas. Até ele aceitar outra pessoa. Até...

A voz falhou.

Jacob parou.

Elena esperou.

— Até ele melhorar um pouco.

Ela assentiu.

— Certo.

Jacob pareceu surpreso.

— Certo?

— Eu fico com ele.

— Há outra coisa.

— O quê?

— Quero que durma aqui.

Elena arregalou os olhos.

— Como?

— Seth acorda à noite.

— Jacob...

— Chora pela mãe.

Ela ficou quieta.

— E às vezes não deixa nem eu entrar no quarto.

Elena sentiu o peito apertar.

— Eu pagarei adicionalmente.

— Não estou perguntando sobre dinheiro.

Jacob a observou.

— Preciso falar com Bella e Alice.

— Naturalmente.

— Minha irmã mora comigo.

— Sei.

Elena franziu a testa.

— Sabe?

— Sue fez uma verificação antes de contratar você.

— Vocês investigaram minha vida?

— Você trabalha dentro da minha casa.

— Isso é assustador.

— É procedimento.

— Ainda é assustador.

Jacob quase sorriu.

Elena percebeu.

— Você quase sorriu.

A expressão desapareceu.

— Não.

— Sorriu.

— Não sorri.

— Eu vi.

— Elena.

— Está bem.

Ela levantou as mãos.

— O senhor nunca sorri.

— Melhor.

— Isso parece cansativo.

Jacob desviou os olhos.

Elena percebeu que talvez tivesse ido longe demais.

— Desculpe.

— Você diz isso bastante.

Ela sorriu.

— Alguém me falou isso recentemente.

Dessa vez aconteceu.

Muito pequeno.

Um movimento no canto da boca.

Mas aconteceu.

Elena apontou.

— De novo!

Jacob ficou imediatamente sério.

— Saia do meu escritório.

Ela levantou-se.

— Isso significa que estou contratada como babá?

— Significa.

— Cuidadora.

— Como quiser.

— Babá parece adolescente.

— Elena.

— Estou indo.

Chegou à porta.

— Elena?

Virou-se.

— Sim?

— Obrigado.

O sorriso dela desapareceu.

— Não precisa agradecer.

— Preciso.

Ela ficou alguns segundos olhando para ele.

— Eu sei como é.

Jacob franziu a testa.

— O quê?

Elena hesitou.

Ainda não.

Não naquele momento.

— Perder alguém.

E saiu.

Dois dias depois, Elena estava morando temporariamente na residência Black.

Temporariamente.

Repetira isso pelo menos quinze vezes para Alice.

Alice acreditara em exatamente nenhuma.

— Você vai morar com um milionário bonito.

— Vou cuidar de uma criança traumatizada.

— Eu sei.

— Não transforme isso numa das suas fantasias românticas.

— Não estou transformando.

— Está sorrindo.

— Meu rosto é assim.

Bella ajudava Elena a colocar roupas numa mala.

— Ele tem piscina?

Elena olhou para ela.

— Isso é relevante?

— Curiosidade.

— Tem.

— Academia?

— Bella.

— Só perguntando.

Alice dobrou uma blusa.

— Quantos quartos?

— Não contei.

— Mais de dez?

— Provavelmente.

Bella e Alice se entreolharam.

Elena apontou.

— Não.

— Ninguém disse nada — Bella respondeu.

— Estou vendo vocês pensarem.

Bella fechou a mala.

— Lena.

— Hum?

— Você vai ficar bem?

Elena parou.

— Vou.

— Tem certeza?

— Tenho.

Bella hesitou.

— Esse menino...

Elena esperou.

— Ele lembra você?

A pergunta atingiu um lugar que Elena tentava evitar.

— Um pouco.

Bella se aproximou.

— Não precisa salvar todo mundo.

Elena ficou imóvel.

— Eu sei.

Bella sustentou o olhar.

As duas sabiam que não era verdade.

A convivência começou de forma estranha.

Jacob estabeleceu regras.

Naturalmente.

— Seth deve dormir às nove.

Elena olhou para ele.

— Ele está de luto.

— Crianças precisam de rotina.

— Concordo.

Jacob pareceu satisfeito.

— Mas se às nove e quinze ele estiver chorando porque sente falta da mãe, eu não vou desligar a luz e dizer que seu regulamento determina sono.

Jacob franziu a testa.

— Não foi isso que eu disse.

— Só estou esclarecendo.

— Café às sete e meia.

— Certo.

— Almoço ao meio-dia.

— Certo.

— Nada de açúcar depois das seis.

Elena olhou para ele.

— Você deu sorvete para ele às onze e dezessete.

Jacob congelou.

— Como sabe disso?

— Seth.

— Traidor.

Elena sorriu.

— Crianças contam tudo.

— Evidentemente.

— Mais alguma regra?

Jacob pensou.

— Televisão apenas uma hora.

— Certo.

— Nada de correr dentro de casa.

Elena começou a rir.

— O quê?

— Você realmente acha que vai conseguir impedir uma criança de cinco anos de correr?

— Cinco e meio — uma voz veio do corredor.

Os dois viraram.

Seth estava parado ali.

Elena sorriu.

— Desculpe. Cinco e meio.

Seth assentiu e voltou para o quarto.

Elena olhou para Jacob.

— Viu?

— O quê?

— Ele corrigiu.

Jacob ficou olhando para o corredor.

Uma coisa tão pequena.

Mas fazia dias que Seth não demonstrava interesse em corrigir ninguém.

— Cinco e meio — Jacob repetiu.

Elena sorriu.

— Cinco e meio.

Naquela noite, Seth acordou às duas e quarenta.

Elena ouviu o choro antes mesmo de compreender que estava acordada.

Abriu os olhos.

Por alguns segundos não soube onde estava.

Então lembrou.

Casa de Jacob.

Seth.

O choro veio novamente.

Baixo.

Abafado.

Elena levantou-se.

Abriu a porta e quase esbarrou em Jacob.

Ele também havia saído às pressas.

Estava descalço, de camiseta e calça de moletom. Os cabelos estavam desalinhados.

Os dois se olharam.

Outro soluço.

Jacob segurou a maçaneta.

— Eu vou.

Elena pousou delicadamente a mão em seu braço.

— Vamos juntos.

Ele olhou para a mão dela.

Depois para seu rosto.

Não discutiu.

Entraram.

Seth estava sentado no meio da cama, abraçado ao dinossauro.

Chorava baixinho.

— Quero minha mãe.

Jacob parou.

Elena viu o rosto dele mudar.

— Seth...

— Quero minha mãe.

Elena sentou-se no chão.

Não na cama.

No chão.

— Eu sei.

Seth olhou para ela.

— Não sabe.

Elena ficou imóvel.

— Você tem razão.

O menino fungou.

— Todo mundo fala que sabe.

Ela assentiu.

— Eu sei.

— Você falou de novo.

Apesar de tudo, Elena quase sorriu.

— Tem razão. Falei.

Seth apertou o dinossauro.

— Eles falam “eu sei que está triste”.

— E você não gosta.

— Não.

— Então não vou falar.

Ele ficou quieto.

— Porque eles não sabem.

Elena respirou fundo.

— Não. Ninguém sabe exatamente o que você está sentindo.

Seth olhou para Jacob.

— Você sabe?

A pergunta atingiu Jacob.

Ele abriu a boca.

Nada saiu.

Seth voltou a chorar.

— Ninguém sabe.

Elena permaneceu sentada no chão.

— Posso contar uma coisa para você?

Seth não respondeu.

Ela esperou.

Depois de alguns segundos, ele deu de ombros.

— Quando eu tinha seis anos, meus pais morreram.

Jacob levantou os olhos.

Seth parou de chorar por um instante.

— Os dois?

— Os dois.

— Juntos?

— Sim.

— Igual os meus?

Elena sentiu a garganta fechar.

— Quase igual.

Seth franziu a testa.

— Você tinha seis?

— Tinha.

— Eu tenho cinco.

Elena inclinou a cabeça.

— Cinco e meio.

Seth a olhou surpreso.

— Você lembrou.

— Claro.

— Então você era quase do meu tamanho?

— Acho que sim.

— Sua mãe morreu?

— Morreu.

— E seu pai?

Elena baixou a voz.

— Também.

Seth permaneceu quieto.

Então perguntou:

— Você viu?

Jacob olhou para Elena.

Ela ficou imóvel.

Chuva.

Metal.

Vidro.

Sangue.

Charlie.

Promete.

Elena respirou.

— Vi meu pai depois do acidente.

— E ele morreu?

Ela assentiu.

— Morreu.

— Você chorou?

Elena sentiu os olhos arderem.

— Muito.

— Quanto?

Ela tentou responder de maneira simples.

— Durante muito tempo.

Seth abaixou os olhos.

— Eu não quero chorar.

— Tudo bem.

— Tio Jake fica triste quando eu choro.

Jacob respirou fundo.

— Seth...

Elena olhou para o menino.

— Seu tio fica triste porque ama você.

— Então eu faço ele ficar triste.

— Não.

— Faço.

— Não faz.

— Quando eu choro, ele chora também.

Seth apontou.

— Olha.

Jacob virou o rosto e passou a mão pelos olhos.

— Não estou chorando.

Seth o encarou.

Elena falou baixinho:

— Seu tio mente muito mal.

Jacob lançou-lhe um olhar.

— Elena.

— É verdade.

Por um segundo, a boca de Seth tremeu.

Quase um sorriso.

Então desapareceu.

— Por que você chorava? — ele perguntou.

— Porque sentia falta deles.

— Eu também sinto.

— Imagino.

— Sinto muito.

Ele colocou a mão no peito.

— Dói aqui.

Elena fez o mesmo gesto sobre o próprio coração.

— Essa parte eu conheço.

Seth a observou.

— Ela vai embora?

Elena ficou em silêncio.

Jacob fechou os olhos.

Ela poderia mentir.

Poderia dizer sim.

Mas algumas mentiras feitas para consolar uma criança acabam deixando-a mais sozinha quando descobre a verdade.

— Não completamente.

Os olhos de Seth se encheram novamente.

— Então eu vou ficar assim para sempre?

— Não.

Elena respondeu imediatamente.

— Não, meu amor.

A palavra saiu naturalmente.

— A saudade fica. Mas ela muda.

— Como?

Elena pensou.

— Agora, quando você lembra da sua mãe, dói tanto que parece que não cabe dentro de você.

Seth assentiu.

— Um dia ainda vai doer. Mas você também vai conseguir lembrar de alguma coisa engraçada que ela fazia e sorrir.

— Sem chorar?

— Talvez chorando e sorrindo ao mesmo tempo.

Seth fez uma careta.

— Isso é estranho.

— Muito.

— Adultos são estranhos.

— Muito mais do que você imagina.

Jacob quase sorriu.

Seth olhou novamente para Elena.

— Eu não quero esquecer minha mãe.

— Você não vai.

— Promete?

A palavra atravessou Elena.

Por um instante, ela tinha seis anos novamente.

Promete para mim que vai cuidar dela.

Elena respirou fundo.

— Posso prometer outra coisa?

— O quê?

— Posso prometer que ninguém nesta casa vai pedir para você esquecer.

Seth olhou para Jacob.

Jacob se aproximou.

— Nunca.

— Nunca?

— Nunca — Elena repetiu.

— Você pode falar da sua mãe quando quiser. Pode falar do seu pai. Pode contar histórias. Pode sentir saudade. Pode ficar triste.

Ela hesitou.

— Pode até ficar bravo com eles.

Seth arregalou os olhos.

— Não posso ficar bravo com a mamãe.

— Pode.

— Ela morreu.

— Mesmo assim.

— Isso é feio.

Elena sorriu tristemente.

— Então eu fui muito feia.

— Você ficou brava?

— Muito.

— Com sua mãe?

— Com ela. Com meu pai. Com o mundo inteiro.

— Por quê?

Elena respirou.

— Porque eles foram embora.

— Mas eles não quiseram.

— Eu sei disso agora.

Sua voz falhou.

— Mas quando a gente é criança, às vezes o coração sente uma coisa antes de a cabeça conseguir entender outra.

Seth apertou o dinossauro.

Ficou em silêncio.

Então confessou:

— Eu estou bravo com a mamãe.

Jacob fechou os olhos.

Elena assentiu.

— Tudo bem.

— Ela falou que vinha me buscar.

A voz dele quebrou.

— Eu sei.

— Ela prometeu.

O grito veio junto das lágrimas.

— ELA PROMETEU QUE VINHA ME BUSCAR!

Jacob deu um passo.

Elena permaneceu sentada.

— Eu sei, Seth.

— E ela não veio!

— Não.

— Então ela mentiu!

— Não.

Elena falou com firmeza.

— Ela queria voltar.

— MAS NÃO VOLTOU!

— Não.

— ENTÃO ELA MENTIU!

As lágrimas de Elena finalmente caíram.

— Minha mãe também não queria ir embora.

Seth parou.

— Meu pai também não.

Ela limpou uma lágrima.

— E durante muito tempo eu fiquei com raiva deles porque foram.

— Você ficou?

— Fiquei.

— Dos dois?

— Dos dois.

— Mesmo amando eles?

Elena sorriu.

— Principalmente porque eu amava.

Seth ficou quieto.

— Posso ficar bravo com a mamãe e amar ela?

— Pode.

— Muito?

— Pode amar muito.

— E meu pai?

— Também.

— Estou bravo com ele.

— Então fique.

Seth olhou para Jacob.

— Tio Jake vai brigar?

Jacob respondeu:

— Não.

— Mesmo?

— Mesmo.

— Posso ficar bravo com você também?

Jacob respirou.

— Pode.

Seth pensou.

— Estou bravo porque você não deixa eu comer sorvete de madrugada.

Elena abaixou a cabeça.

Jacob o encarou.

— Isso é completamente diferente.

— Você falou que eu podia ficar bravo.

Elena começou a rir baixinho.

Jacob apontou para ela.

— Não ajude.

— Não fiz nada.

Seth soltou uma risadinha.

Pequena.

Quase perdida entre as lágrimas.

Os três perceberam.

Ninguém comentou.

Elena deixou aquele instante existir.

Então Seth perguntou:

— Quem cuidou de você?

Ela ficou séria.

— Eu tinha uma irmãzinha.

— Bella?

— Como sabe?

— Você fala dela.

Elena sorriu.

— É. Bella.

— Ela tinha quantos?

— Era um bebê.

— Então você cuidou dela?

— Cuidei.

— Sozinha?

Elena hesitou.

— Tive pessoas que ajudaram. Mas durante muito tempo achei que precisava cuidar de tudo.

— Por quê?

Ela olhou para as próprias mãos.

— Porque meu pai me pediu para cuidar dela.

— Antes de morrer?

Elena assentiu.

— E você prometeu?

Silêncio.

— Prometi.

Seth ficou pensativo.

— Você conseguiu?

A pergunta atingiu Elena.

Jacob percebeu.

— Eu tentei.

— Isso não é conseguir.

Elena soltou uma pequena risada.

— Você é muito esperto.

— Minha mãe falava.

— Sua mãe estava certa.

Seth olhou para o dinossauro.

— Se minha mãe tivesse pedido para eu cuidar de alguém, eu tinha que cuidar para sempre?

Elena ficou imóvel.

Talvez porque aquela pergunta não fosse apenas de Seth.

Talvez porque uma criança de cinco anos e meio acabasse de perguntar aquilo que Elena nunca tivera coragem de perguntar a si mesma.

— Acho que não.

— Não?

— Não desse jeito.

— Que jeito?

— Achando que você precisa impedir tudo de ruim de acontecer.

Seth franziu a testa.

— Não entendi.

Elena sorriu entre as lágrimas.

— Eu também ainda estou aprendendo.

Jacob olhou para ela.

Havia alguma coisa naquela resposta que parecia pertencer a uma história muito maior.

Seth ficou quieto.

— Você ainda sente falta deles?

— Todos os dias.

— Mesmo sendo velha?

Elena arregalou os olhos.

Jacob virou o rosto.

— Velha?

— Adulta.

— Melhorou um pouco.

Seth quase sorriu.

— Você sente?

— Sinto.

— Lembra da voz da sua mãe?

Elena fechou os olhos.

Renée rindo.

Chamando seu nome.

— Lembro.

— E do seu pai?

Charlie.

Minha menina.

— Também.

— Tenho medo de esquecer.

Elena sentiu o coração apertar.

— Então vamos guardar.

— Onde?

Tocou o peito.

— Aqui.

Depois a cabeça.

— E aqui.

— Como?

— Fotos. Histórias. Vídeos. Coisas que eles gostavam. Músicas. Comidas.

Seth fungou.

— Minha mãe fazia panqueca ruim.

Jacob soltou uma risada engasgada.

Seth olhou para ele.

— Fazia mesmo.

Jacob assentiu.

— Horrível.

— Ela queimava.

— Sempre.

— E falava que era crocante.

A voz de Jacob falhou.

— Falava.

Seth começou a chorar.

Mas dessa vez Jacob se aproximou.

Sentou-se na cama.

— Seu pai colocava calda demais.

Seth assentiu.

— Mamãe brigava.

— Porque ele colocava metade do vidro.

— Ele falava que panqueca ruim precisava de ajuda.

Elena sorriu.

Jacob também.

Os três choravam.

E havia um pouco de riso no meio.

Talvez a saudade fosse aquilo.

Amor e dor aprendendo a morar no mesmo lugar.

— Sua mãe fazia panqueca? — Seth perguntou.

Elena pensou em Renée.

— Fazia.

— Era boa?

— Péssima.

Seth sorriu.

— Igual a minha.

— Provavelmente pior.

— Impossível.

— Você não conheceu minha mãe.

— Você não conheceu a panqueca da minha.

Elena riu.

Jacob também.

E, pela primeira vez desde o acidente, o quarto de Seth ouviu uma risada que não parecia uma traição aos mortos.

Parecia uma homenagem.

Seth ficou sério novamente.

— Elena?

— Hum?

— Quando você chorava pela sua mãe, alguém ficava com você?

Ela demorou.

— Às vezes.

— E quando não ficava?

— Eu abraçava minha irmã.

Seth olhou para ela.

— Posso abraçar você?

Elena abriu os braços.

Seth saiu da cama.

Correu até ela.

E se jogou em seu colo.

Elena o abraçou.

Forte.

Uma mão sobre os cabelos.

A outra em suas costas.

— Eu quero minha mãe.

As lágrimas de Elena caíram.

— Eu sei, meu amor.

— Quero meu pai.

— Eu sei.

— Quero os dois.

Elena fechou os olhos.

— Eu também queria.

Seth chorou.

— Dói.

— Eu sei.

— Faz parar.

Foi ali que Elena quase quebrou.

Porque conhecia aquele pedido.

A esperança impossível de uma criança de que algum adulto pudesse apertar um botão e fazer a dor desaparecer.

Beijou os cabelos dele.

— Eu não consigo fazer parar.

Seth chorou mais forte.

Elena também.

— Mas posso ficar aqui enquanto dói.

Os braços pequenos apertaram seu pescoço.

— Até passar?

Elena olhou para Jacob.

Ele chorava em silêncio.

— Até você dormir.

— E amanhã?

— Amanhã, se doer, a gente cuida do amanhã.

— E depois?

Elena respirou.

Não faria uma promessa sobre o futuro inteiro.

Não prometeria que nada ruim aconteceria.

Não prometeria salvar Seth de todas as dores.

Prometeria apenas o que realmente podia cumprir.

— Depois a gente vai vivendo um dia de cada vez.

Seth ficou quieto.

— Você fica agora?

— Fico.

— Promete?

Elena fechou os olhos.

Dessa vez, a palavra não era apenas a voz de Charlie.

— Prometo ficar agora.

Seth assentiu.

Era suficiente.

Pouco a pouco, o choro diminuiu.

Os soluços ficaram espaçados.

O corpo pequeno tornou-se pesado contra Elena.

Até adormecer.

Ela permaneceu sentada no chão.

Mesmo quando as pernas começaram a doer.

Mesmo quando o braço ficou dormente.

Não se mexeu.

Jacob ficou observando.

Elena não tentara substituir Rebecca.

Não tentara salvar Seth.

Não dissera que entendia tudo.

Apenas ficara.

Quando teve certeza de que ele dormia profundamente, ergueu os olhos.

— Pode colocá-lo na cama? — sussurrou.

Jacob aproximou-se.

Abaixou-se.

Ao pegar Seth dos braços dela, seus dedos tocaram os de Elena.

Nenhum dos dois se afastou imediatamente.

Jacob colocou o sobrinho na cama.

Cobriu-o.

Seth se mexeu.

— Mamãe...

Jacob fechou os olhos.

Elena puxou o cobertor até os ombros dele.

— Dorme, pequeno.

Os dois saíram.

Jacob deixou a porta entreaberta.

Elena levantou os olhos.

Ali não estava o empresário.

Nem o patrão.

Nem o homem das regras.

Apenas um irmão que acabara de perder a irmã.

Jacob olhou para a porta de Seth.

— Eu não sei como ajudá-lo.

A confissão saiu baixa.

— Não tente consertar.

Ele franziu a testa.

— Como?

— Você está tentando consertar Seth.

— Não estou.

Elena apenas o encarou.

Jacob suspirou.

— Está bem. Talvez.

— Horários. Psicóloga. Babás. Refeições. Sono. Você está procurando a coisa certa para fazer porque, se encontrar, talvez ele pare de sofrer.

— E isso é errado?

— Não.

Elena se aproximou um pouco.

— É amor.

Jacob ficou quieto.

— Mas algumas dores não precisam de alguém tentando consertá-las o tempo todo.

— Então do que precisam?

Elena olhou para a porta.

— Companhia.

Jacob olhou para Elena por muito tempo.

— Como você sabia que não devia subir na cama?

Ela sorriu levemente.

— Eu não sabia.

— Então por quê?

— Porque todo mundo está tentando chegar até ele.

Olhou para a porta.

— Talvez ele precise decidir quando quer chegar até alguém.

Jacob respirou fundo.

— Você tem certeza de que estudou Gastronomia?

Elena sorriu.

— Quase reprovei em confeitaria.

— Isso não responde.

— Era uma informação pessoal.

Inclinou a cabeça.

— Estamos criando intimidade.

Um pequeno som escapou de Jacob.

Elena arregalou os olhos.

— Você riu.

A expressão dele mudou imediatamente.

— Não.

— Riu.

— Não ri.

— Eu ouvi.

— Elena.

— Foi uma risada.

Jacob começou a andar.

Ela o acompanhou.

— Pequena, mas perfeitamente identificável.

— Vá dormir.

— Vou contar para Sue.

Jacob parou.

Virou-se.

— Não ouse.

Elena sorriu.

— Então admite.

Ele tentou manter a expressão séria.

Tentou mesmo.

Mas depois daquela noite, das lágrimas de Seth, das lembranças de Rebecca e das panquecas queimadas...

Jacob sorriu.

Elena apontou imediatamente.

— De novo!

— Boa noite, Elena.

— Você está sorrindo!

Ele abriu a porta do quarto.

— Jacob!

— Boa noite.

— Eu vou contar para Sue!

Jacob olhou por cima do ombro.

— E eu conto para Billy que você conversava com o retrato dele.

Elena congelou.

— Isso é golpe baixo.

— Funciona?

Ela apertou os olhos.

— Funciona.

— Ótimo.

— Chantagista.

— Boa noite, Elena.

— Boa noite, senhor Black.

A porta se fechou.

Elena permaneceu no corredor.

Ainda sorrindo.

Depois olhou para a porta de Seth.

O sorriso tornou-se mais triste.

Mais terno.

— Boa noite, pequeno.

Dentro do quarto, Seth dormia abraçado ao dinossauro.

Talvez sonhasse com Rebecca.

Talvez com Salomon.

Talvez com panquecas queimadas cobertas por calda demais.

Elena esperava que fosse isso.

Porque aprendera cedo demais que os mortos não voltavam.

Mas o amor encontrava maneiras estranhas de permanecer.

Numa fotografia.

Numa receita ruim.

Numa voz guardada na memória.

Numa criança repetindo uma expressão que a mãe costumava usar.

Ou na risada que surgia no meio do choro e fazia alguém perceber que sorrir não significava amar menos quem morreu.

Do outro lado do corredor, Jacob apoiou a cabeça na porta do quarto.

Fechou os olhos.

Durante alguns segundos, não pensou no hospital.

Não pensou no funeral.

Não pensou na empresa.

Nem no telefonema que destruíra sua vida às uma e sete da manhã.

Pensou em Elena aos seis anos.

Uma menina quase da idade de Seth.

Sem pai.

Sem mãe.

E compreendeu, talvez pela primeira vez, que por trás da mulher que ria, discutia com ele, colocava passas em sua comida e conversava com o retrato de Billy havia uma história que ele ainda não conhecia.

Uma história feita de uma ausência muito parecida com aquela que agora preenchia sua casa.

Naquela madrugada, Elena não fizera Seth esquecer a dor.

Não fizera Jacob esquecer Rebecca.

Não salvara ninguém.

Apenas ficara.

E, naquela casa em que todos haviam descoberto da maneira mais cruel que algumas pessoas não podiam ficar para sempre, a presença de Elena Swan pareceu, por algumas horas, a coisa mais próxima de uma promessa que nenhum deles tinha medo de acreditar.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.