O Ovo e o Cachecol
1 Único
Notas iniciais
Estava frio, gélido como nevasca. Ali rondavam seres inacreditáveis. E um deles, ao tropeçar nos próprios pés, viu o ovo. Abandonado em uma floresta densa e escura. Parecia tremendo de frio, caído na neve, solitário. Não poderia simplesmente deixá-lo. O ser levantou-se, sacudiu a neve em sua capa e pegou o ovo com cuidado, enrolando-o em um lenço, e aproximou do próprio cachecol. Assim, passou a andar meio curvado, tentando esquentar o pobre ovo perdido.
Três dias sob o cachecol da criatura inacreditável de três olhos e chifres, fizeram com que o ovo chocasse. E dele... Saiu a mais inesperada criatura: Uma pequena bola de pelos azuis, com dentes de vampiro e pequenos toquinhos na cabeça que talvez viessem a ser chifres algum dia. E então... A criatura inacreditável, vendo tão doce e gorduxinha criatura, sentindo o frio lhe perfurar, lhe deu seu cachecol e partiu em busca do fim da floresta. E, apesar de cruel, a criatura inacreditável fez o certo. O pobre ovo era um devorador de seres vivos. E não tardaria a devorá-lo sem dó nem piedade.
Dias depois, ainda sem encontrar o fim da densa floresta, a criatura inacreditável, enquanto continuava a vagar pelas trilhas, se depara com seu amigo-de-três-dias-ovo. Ou era isso que acreditava ser, pois a criatura estava bem diferente. Havia aumentado consideravelmente de tamanho. Seus dentes, então, já não cabiam inteiros em sua boca. Nascido para matar, tinha sensibilidades físicas aguçadíssinas. Mesmo ainda muito novo, podia enxergar boas distâncias; tinha uma audição apurada; e um faro preciso. E apesar de ainda não ser capaz de matar todo tipo de criatura, já conseguia ferir gravemente aqueles que o ameaçavam.
A criatura inacreditável se assustou. Apesar de conhecer a criatura, não sabia que cresciam tão rapidamente. O pequeno-grande filhote hesitou por um momento. Examinou com cuidado a criatura em sua frente, que tinha chifres tão grandes e pontudos, como lanças. E, percebendo que sua presença não era bem-vinda, a criatura inacreditável começou a se afastar lentamente... Até que ouviu algum barulho suspeito de galhos se movendo, logo atrás de si.
O barulho repentino havia assustado o filhote. Seus olhos se tornaram vermelhos e brilhantes, como rubis. Seus pelos eriçaram. Seus músculos todos contraíram-se. Em pouquíssimos segundos, a criatura se moveu num tranco rápido, provando sua astúcia e velocidade. Não houve tempo de reação. A criatura inacreditável não poderia fazer nada para impedir a ação assassina, e sabia disso. Um pulo poderoso fez com que o filhote parecesse voar, cortando o ar e quebrando alguns galhos em sua frente, que se desfizeram, como se fossem feitos de cinzas. A criatura inacreditável havia aceitado o seu destino. Afinal, o único culpado ali era ele mesmo. Teve somente o tempo para fechar seus olhos. O filhote estava apenas cumprindo com a sua natureza. Era isso e mais nada.
Mas então... Um altíssimo gemido, seguido de uma leve resistência, com num fraco choro... E de repente o silêncio toma conta do local. A criatura inacreditável abriu seus olhos, com medo de sequer entender o que havia acontecido. Lentamente, ele examinava o local. O filhote havia sumido. Confuso, tornou a procurar em volta de si e, pouco atrás de onde estava vindo há um momento atrás, encontra os pelos azulados das costas do filhote. Lentamente, ele estava se virando, até que passasse a encarar a criatura inacreditável nos olhos. Não havia ódio em seu olhar.
Eram olhos... Ternos e calmos. Porém, sangue escorria dos cantos de sua mandíbula. E, ao olhar com mais cuidado, reparou um estranho ser embaixo de suas patas. Possuía uma pele escamosa e roxeada, que lhe pareceu uma forte carapaça, que fora totalmente dilacerada pelo filhote, como se fosse frágil demais. Foi então que entendeu. O filhote havia lhe salvado. A criatura inacreditável ficara incrédula. Não conhecia nehum tipo de reação que lhe parecesse adequada ao momento que pudesse usar. Não era da natureza do filhote. Algo estava errado.
Voltando de suas indagações sem resposta alguma, a criatura inacreditável começou a escutar um estranho e misteriozo zumbido. Levou pouco tempo para perceber que era do filhote que aquele som vinha. E o zumbido aumentava, mais e mais, até que algo inesperado aconteceu: O filhote vomitou e saiu correndo, adentrando a mata.
Indeciso, a criatura inacreditável se aproximou da cena que não pôde presenciar. De fato, o filhote havia acabado com uma criatura tão forte quanto perigosa, mas resolveu poupá-lo. Foi então que, prestando mais atenção, ele reparou no que o filhote havia vomitado... Entre uma estranha gosma esverdeada e alguns pedaços de carne estava... Seu cachecol. Não poderia ter certeza, mas... Quem sabe... Talvez seu aroma que estava no cachecol... Tenha influenciado em algo naquela peculiar e incomum mente assassina. Não poderia ter certeza, mas algo lhe dizia que aquilo não havia acabado. E... Como se estivesse sendo controlado, ele tentou seguir os rastros do filhote, saindo da trilha. Um tolo, talvez, porque provavelmente o filhote não lhe pouparia novamente.
Alguns minutos depois... Uma breve luz entrou no seu campo de visão. Uma luz azulada... Era o brilho do sol, que refletia nos pelos lisos e brilhantes do filhote que, em minutos, aumentara ainda mais de tamanho. O sol levantava-se, preguiçoso, de uma enorme montanha, que estava no fim de um longo campo. O filhote, além de salvar sua vida, havia lhe mostrado a saída, afinal, o que fez com que a criatura inacreditável fosse preenchida por diversos sentimentos que há tempos havia esquecido. E... Sem nenhum olhar a mais, o filhote desapareceu novamente nas sombras da floresta.
Chegava a ser insano, mas... De alguma forma, a inacreditável criatura se via agora como da primeira vez em que vira o ovo: No frio, solitário e abandonado. Estava na exata divisão entre o campo e a floresta. Alto, magrela e tolo. Era esse tipo de criatura que ele era, afinal de contas? Quem sabe. O que importava é que faria o que sentia que era o certo, mesmo que colocasse sua própria vida em perigo. Decidido, ele adentrou novamente a floresta misteriosa.
Estava cego, provavelmente. Dominado por algum tipo de sentimento, algum tipo de desejo. Havia se sentido na obrigação de voltar. Tolo mesmo, será? Ou era apenas seu instinto selvagem falando mais alto? Estaria louco se nomeasse esse sentimento de instinto materno? “O que importa agora?”, pensou a inacreditável criatura. Sendo assim, passou a caminhar mais rapidamente.
Enquanto seus pensamentos enfeitiçavam sua mente, ele não percebeu o grave erro que cometera. Lembrava-se, então, do porquê de não ter saído de lá antes. Ele não conhecia a floresta. E estava perdido novamente. E completamente sozinho. Ele era o que era. Uma criatura inacreditável.... Inacreditavelmente tola.
Não havia tempo para pensar novamente. Precisava ser rápido. Noite após noite, o clima da floresta estava se tornando cada vez mais rigoroso e, naquelas condições, talvez não fosse possível escapar ileso novamente. Teria de lutar se quisesse ver a luz do sol novamente. Foi então que ele escutou algo se agitar por trás de uma enorme árvore, cheia de espinhos, à sua esquerda. Aterrorizado e enfraquecido, a inacreditável criatura enrolou-se em seu cachecol melequento, que fora vomitado, como se aquele simples pedaço de pano fosse protegê-lo, apesar de ter consciência de que poderia servir apenas como de tempero para seu gosto na boca de alguma criatura.
Derrubando a árvore e abrindo seu próprio caminho, um enorme ser, com 20 vezes o seu tamanho se aproximava, marcando sua presença. Porém, ao ver tal criatura, teve a certeza de que havia perdido totalmente a consciência do racional... Pois algo lhe dizia que era ela o que procurava.
Com mais cuidado, examinou o imponente ser, que pareceu ter ignorado sua presença. Quem sabe simplesmente fosse insignificante demais para ser notado. Não... Algo estava errado. Seu aspecto era... doentio. O azul de seus pelos desbotara. Seus olhos estavam vermelhos e inchados. Metade de seus dentes pareciam ter apodrecido ainda dentro de sua boca. Percebeu então que o ser não andava. Estava na verdade cambaleando, como se não conseguisse se manter em pé com firmeza. Tudo o que presenciava em silêncio feria profundamente o que a criatura inacreditável sentia. Ele estava atordoado. Atônito. Como se estivesse presenciando algo impossível. Aquela poderosa criatura... Como ela havia se tornado tão fraca? Tão solitária? Tão indefesa? Tão... Tão parecida com aquele ovo que encontrou, abandonado na neve.
Faziam apenas alguns dias desde que havia cometido a loucura de salvar uma criatura de outra espécie, mas ainda era como se pudesse sentir aquela imensa criatura, num pequeno ovo, aquecido pelo seu cachecol. E, antes que pudesse cumprir seus pensamentos lamentáveis, o ser caiu ao chão. Sem pensar duas vezes, a criatura inacreditável corre em direção à sua cabeça, abraçando-a. Como se pudesse salvar aquele ser com um abraço. Como se pudesse salvar sua vida novamente... Envolvendo-o em seu cachecol.
Ele sabia. Sabia que mesmo que a morte tenha vindo lhe visitar mais uma vez, a vida deveria continuar, assim como quando perdeu sua família e, agora, o que havia sobrado dela. E era assim que as coisas funcionavam desde sempre.
Em pequenos gemidos, a inacreditável criatura ouvia cada vez mais seu próprio choro. E cada vez menos a respiração daquele incrível animal, que tomara, de maneira tardia, como sua própria cria... E... Num último suspiro... A criatura vomita sangue e, no mesmo instante, seu pelo, antes azul e enfraquecido, torna-se um cinza totalmente apagado. Agora não se ouvia mais nenhum som. Apenas o choro da criatura inacreditável perpetuava... Até mesmo o vento havia se calado, em luto.
Não tinha certeza de quanto tempo havia se passado... Não parecia importar mais... Mas... Sabia que não poderia ficar mais ali. Outras criaturas viriam. E se lamentar simplesmente não adiantava. Não mais... Quando se colocou num caminho qualquer, perdido novamente... Tropeçou em seus próprios pés... E foi como se voltasse no tempo. No meio do sangue que a criatura falecida havia vomitado... Um pequeno ovo. Frágil. Abandonado e... Solitário, na neve.
Foi então que percebeu: O ser que salvara, e que o salvou, era como uma fênix. Nascia. Vivia de maneira rápida e breve. Envelhecia. E então morria, para que pudesse renascer novamente. Era o seu ciclo, até então desconhecido. Uma bizarra fênix, que tinha aspecto de uma bola peluda azul que vivia no frio.
Como se visse sua própria imagem renascendo, a criatura inacreditável estava decidido como nunca antes. Tomou o frágil, mas não mais solitário, ovo em seus braços... E envolveu-lhe em seu cachecol. Talvez tenha sido o destino que o havia guiado, ou apenas sua tolice, mas ele encontrara novamente a saída da floresta. E, num dia constante de caminhada, atravessara o campo, encontrando uma pequena cabana de madeira.
Assim que adentrou a casa, cobriu o ovo com uma manta maior, que estava limpa. E, enquanto preparava sua sopa... Escutou um barulho muito curioso... Percebeu que vinha do ovo.
“Tec... Tec... Tec...”
E a vida tornava a continuar.
“Minha vida? É tudo uma repetição com detalhes diferentes.”
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