O Outro Lado do Espelho
2 De amizades iniciadas
No dia seguinte na escola tivemos uma daquelas provas surpresa que só serviam para deixar os alunos apreensivos logo no primeiro horário, e depois que passou a turma se dividiu em grupos para discutir sobre a prova e ver o quão ferrados ficaram. Como sempre eu sobrei nas conversas e decidi ficar no canto enquanto o professor de matemática nos ignorava para ler seu livro do Harry Potter.
_ O que você marcou na 6? — Uma voz masculina baixa me tirou de meu momento de devaneio e, ao olhar para cima, me deparei com os olhos fundos do menino dos portais.
_ Hã? — Ele apenas ergueu uma sobrancelha e continuou esperando – Ah a 6… acho que coloquei… B.
_ B. — Ele concordou e se sentou na cadeira na frente da minha de forma séria – Foi o que pensei. Você é a garota que se mudou para aquela casa grande, não é?
_ Acho que sim. É a casa perto do rio.
_ Eu sei. Me chamo Lucas.
_ Anna. — Não era comum garotos falarem comigo e era mais incomum ainda que parecessem realmente querer manter uma conversa, afinal meu cabelo cacheado castanho sempre preso para trás e olhos quase negros não atraíam ninguém nem mesmo para uma relação de amizade.
_ Então Anna, o que achou da casa? Diziam que era uma casa assombrada, cheia de almas de escravos.
É ele realmente acreditava em coisas estranhas. Não sabia nada sobre essa lenda local e ele logo tratou de me contar tudo o que diziam, não poupando detalhes. No máximo achei divertido todo aquele falatório em cima de uma casa que no final era simples até demais. Contei a ele sobre as passagens secretas, e ele me contou sobre o antigo quilombo que havia do outro lado do rio, quilômetros para dentro do Amazonas. Contei sobre minha vida antes da mudança, sobre meu padrasto mosto, sobre minha mãe autoritária, e ele me contou como seus pais morreram e sobre sua avó que assava bolo de cenoura em um fogão a lenha. Quando dei por mim já éramos algo próximo de amigos.
_ Vai fazer o quê no sábado?
_ Nada, minha mãe vai dar aulas particulares e meu irmão vai pescar então estou sozinha em casa.
_ Tem uma parte do rio que é mais rasa e sem muita corrente, quer ir nadar?
Claro que eu queria, mas não sabia se poderia ir. Lucas me convenceu a ir depois de alguns argumentos convincentes sobre eu não ter nada melhor pra fazer, então combinamos. Sábado às 10 da manhã.
…
No sábado Ben estava arrumando uma mochila pequena com água e biscoitos – tudo o que ele achava que ia precisar – enquanto eu arrumava uma com toalha e roupas leves sobressalentes. Ben estava realmente empolgado com a pescaria e não parava de falar sobre como o vizinho – um homem de meia idade cujos filhos foram estudar na capital – era um ótimo pescador. Eu não ouvia nada…
_ Anna? Você está me ouvindo?
_ Tô sim. Ben é que… Acho que tenho um amigo agora.
_ É? — Ele deixou a mochila pra lá e veio correndo até mim – Finalmente! Qual o nome dele? É com ele que vai sair? Isso não é amizade, é um encontro.
Revirei os olhos e tive que explicar umas quatro vezes para ele entender que não era um encontro. Ben pegou uma pulseira de barbante e contas coloridas e deixou em cima da mesa da copa.
_ A dona Larissa me deu, mas é feminino. Ela disse que serve para dar boa sorte.
Fiquei olhando aquela pulseira um pouco antes de pegá-la e ir até o espelho, onde amarrei meu cabelo em um rabo de cavalo usando a pulseira. Ficou meio frouxo e estranho, mas eu gostei… Olhei meu reflexo naquele velho espelho do século passado com atenção. Não me lembrava de ter o rosto tão oval nem de meu cabelo ser tão escuro, mas devia ser apenas a iluminação. Deixei esses detalhes para lá e saí da casa deixando um Ben bastante animado para trás.
…
Benjamin colocou a mochila nas costas e foi pegar a vara de pescar no quarto do segundo andar, mas quando passou novamente pela copa tinha algo estranho em cima da mesa. Ele não se lembrava se Anna tinha pego a pulseira da mesa ou não, mas ali estavam duas contas coloridas iguais às que tinha na pulseira que ele lhe deu. Aquilo deixou-o um pouco chateado já que ele pensou que ela tinha gostado do presente, mas parecia que não… Senão ela não teria arrebentado o barbante. Ele pegou as duas contas e as colocou no bolso, então passou em frente ao espelho e arrumou a franja do cabelo quase negro e saiu da casa.
O reflexo de Ben no espelho acompanhou-o com o olhar até que ele tivesse saído, então se virou e voltou para a sala.
…
_ Como foi o dia meu amor? — Mamãe perguntou a Ben com um sorriso de canto, então Ben engoliu a colherada de comida que tinha na boca e sorriu de volta.
_ Legal. O peixe que peguei está na geladeira.
_ Eu vi! Muito bom, você até limpou ele pra mim.
_ Ah é que o seu Mauro me ensinou a limpar também. — Ben sorriu mais abertamente e abaixou os olhos para o prato de arroz com carne moída e salada que comia.
Enquanto Ben falava de como tinha sido seu dia fiquei pensando no meu. Lucas e eu brincando na água rasa, ele me ensinando a nadar “cachorrinho” — que por incrível que pareça eu não sabia – e do lanche gostoso de pão com patê de atum que comemos. Foi um dia muito bom e eu até consegui me bronzear um pouco, mas é claro que mamãe não perguntou nada sobre mim. Nada além de…
_ E os estudos Anna? Como está a escola?
_ Normal… Tenho um trabalho sobre a ditadura no Brasil para a semana que vem.
_ Já terminou?
_ Não.
Fim. Nem mais uma palavra. Já tinha esquecido quando foi a última vez que minha mãe me chamou de “meu amor”. Foi só depois de termos jantado e Ben ter lavado a louça que o telefone tocou, sendo incrivelmente para mim. Era Lucas, que parecia bastante animado.
_ Eu achei um livro incrível! Vou levar pra você amanhã, é sobre portais.
_ Hmm não sei não… Você sabe que temos aquele trabalho de história pra fazer ainda né?
_ Sei, mas não tem problema. Você lê quando puder. Me diverti muito hoje, quer sair amanhã?
Pensei bem sobre isso e não, não queria. Mas falei que sim por que gostava da animação tímida daquele menino de olhos fundos e achava que poderia ser divertido, então marcamos em um parque do outro lado da cidade. Quando desliguei mamãe estava atrás de mim com um livro sobre a história do Brasil nas mãos.
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