O Outro Lado Da Lua
36 Uma estranha em minha própria casa
Notas iniciais
Não precisam se preocupar, tudo vai se resolver. Continuem acompanhando, hein?
Sintam-se abraçadas por mim, beijos!
-Eu estava com tanta saudade de você! – Ariane me envolveu em seu abraço apertado. – Me promete que nunca mais vai dar um susto desses em mim!
-Ai. – gemi. – Ane. Costelas.
-Ah, desculpe. – ela beijou minhas bochechas me fazendo piscar. – Como você está?
Eu não sabia direito. Eu estava quase bem fisicamente. Tirando as dores de cabeça e meu corpo dolorido. Mas sabia que Ane se referia ao lado emocional.
-Acho que estou bem. Quer dizer, é muito ruim não lembrar direito das coisas, mas acho que vou ficar bem.
-Eu sei que vai. – ela pegou minha mão sorrindo. – Afinal, você superou um coma! Não é para qualquer um!
Rimos juntas por um tempo. Depois de se recuperar, Ane ficou séria.
-Você não lembra de nada... De quando estava em coma? – sua voz falhou quando disse “coma”.
Lembrei das imagens e dos rostos que eu vi... Um deles reaparecera em meu sonho ontem à noite...
-Eu acho que eu meio que escutava as coisas. Só que muito pouco. – dei de ombros. – Mas mudando de assunto, minha mãe disse que eu estou em uma escola interna junto com você. Lá é legal?
-Bem, eu gosto de lá. Você é que não pareceu se adaptar muito no começo, mas como você só passou uma semana lá... Com certeza vai gostar quando voltar.
-Hmm. Acho que sim. – murmurei. O celular de Ane deu um bipe e ela sorriu ao ler uma mensagem de texto.
-Que sorrisinho é esse? – perguntei brincando. Ela corou um pouco.
-Bem, você não lembra. Mas, nós conhecemos um garoto bem legal na escola. O Kevin.
-Ahan. E... – sorri maliciosamente. Ela corou mais ainda.
-E... Eu estou namorando ele! – ela riu e eu dei um gritinho ao abraçá-la. Passamos o restante do dia falando sobre o relacionamento dela. Eu não lembrava mesmo dele, mas senti que o tal do Kevin devia ser um legítimo príncipe encantado. Eu não podia estar mais feliz por Ane. Ela era o tipo de garota que sempre esperara pelo cara certo e agora finalmente tinha encontrado-o.
Duas semanas depois...
-O que você vê no cartão? – perguntou a psicóloga que estava cuidando de mim, Dr. Luciana.
Olhei fixamente para o borrão de tinta. Tentei ver algum padrão ali. A resposta veio imediatamente.
-Um lobo. – respondi com a voz monótona. O que um lobo tinha a ver com meu estado?
Ela anotou algo em seu caderninho. Aquilo me irritou um pouco.
-E agora? – ela ergueu outro cartão. Sua voz de tédio era nauseante.
Olhei novamente com o mesmo entusiasmo.
-Hã... Eu sei lá. Um carro?
Ela me avaliou ajeitando os óculos quadrados.
-Você não acredita no teste. – não era uma pergunta.
-Eu vi na internet que esse teste é meio desacreditado... – ri.
Ela sorriu um pouco.
-Você tem uma personalidade intrigante.
Fiz uma careta. Isso era sinônimo para “estranha”.
-Já posso ir? – perguntei. Aquilo era sessão de tortura e não de terapia.
-Antes me responda algo. Como anda seu sono?
-Como assim?
-Você tem dormido bem?
-Sim. – respondi duvidando que meus recorrentes pesadelos com florestas fossem relevantes.
-Nada anormal...? – ela insistiu.
-Não. – Será que sua profissão consistia em ser tremendamente irritante?
-Hmm. – ela anotou algo mais no caderno. Tive que me segurar para não atirar aquilo na parede. – Pode sair.
-Tudo bem. Tchau. – Saí da sala o mais rápido possível. Terapia era mesmo preciso? Afinal de contas, eu já estava muito melhor e já conseguia me lembrar de mais coisas. É claro que meu acidente ainda era uma incógnita. Mas quem queria lembrar de rachar o crânio? Estava mais preocupada com o fato de já fazer duas semanas que eu acordara e eu ainda não poder ir para a escola. Eu precisava muito de alguma normalidade. Passar meu tempo entre consultas médicas e terapia não era a minha melhor visão de vida saudável.
Desci as escadas do saguão e fui até o carro de meu pai.
-Como foi? – ele perguntou assim que entrei.
-Pra variar uma chatice. Quanto tempo eu vou ter que ir nisso?
Ele riu.
-Na verdade, eu acho que você não precisa mais ir. Mas sua mãe... Bom, você sabe.
Encarei a janela, emburrada. Mamãe estava mais paranóica do que nunca. Minha vida não estava sendo nenhum mar de rosas desde que acordara. Todos me tratavam como se eu fosse especialmente quebradiça. Mamãe não largava do meu pé. Eu não podia nem ir ao banheiro que ela estava lá!
Também não podia fugir para a casa de Ane por que ela estava na escola. Nos fins de semana ela trazia minhas matérias atrasadas. Eu as fazia apenas para me manter no ritmo da escola, já que eu tinha certeza que ia acabar tendo que recuperar nas férias de final de ano. Que ótimo.
-Eu falo com Ângela, tudo bem? – ele sugeriu. Abri um largo sorriso.
-Sério?
-Sério. Mas você tem que me ajudar. – ele avisou. – Tem que obedecer a sua mãe. Ela só quer seu bem.
Encarei o rosto passivo de meu pai. Era impossível não fazer o que ele pedia. Eu sempre me entendera mais com ele do que com minha mãe. Ela era meio histérica às vezes.
-Ok, ok. – me rendi sorrindo.
Chagamos em casa e como prometido, meu pai falou com mamãe para me tirar da terapia. É claro que ela negou, relutou, gritou, mas por fim concordou. Eu dei um abraço apertado de agradecimento nos dois e fui para meu quarto quando papai foi embora dizendo que voltaria para o jantar.
Olhei a volta com certo incômodo. Meu quarto estava exatamente do jeito que eu gostava. Arrumado simetricamente, iluminado com meu abajur – que emitia uma luz levemente rosada. Minha cama tomada por meus ursos de pelúcia, a prateleira cheia de livros... E ainda assim eu não conseguia me sentir em casa. Aqui era meu refúgio, meu mundo particular... Ou costumava ser. Era como se depois do acidente eu estivesse tentando ver por uma névoa espessa. Como se tudo o que eu conhecesse de repente não fosse mais tão conhecido assim.
Meus olhos focalizaram os livros na parte superior direita da prateleira. Os quatro livros ali sempre foram meus preferidos. Eu não lera nenhum deles desde que voltara. Até isso mudou.
Bom, pensei enquanto escolhia um livro, talvez isso me fizesse sentir melhor. Passei o dedo indicador pelos títulos escolhendo... Peguei Amanhecer e fui até a minha cama acomodando-me. Comecei a ler.
Ri comigo mesma ao ler sobre Bella estar nervosa com os olhares especulativos dos habitantes de Forks. Duas horas depois eu já havia chegado ao segundo livro, que era de Jacob. Eu sempre gostara de ler a história pelo seu ponto de vista. Achava maravilhoso ver o mundo pelos olhos dele, afinal era o meu personagem favorito. Continuei lendo por mais um tempo até sentir sede. Soltei o livro e fui de pés descalços até a cozinha.
Ouvi mamãe no telefone e evitei fazer barulho. Ela parecia alterada. Parei na soleira da porta para ouvir.
-Pare de ligar para cá! – ela dizia asperamente, mas em um tom baixo. – Você não vai falar com ela, desista!
Franzi as sobrancelhas. Quem será que estava do outro lado da linha?
-Bom, então nós iremos expulsar você! – ela disse e dois segundos depois bateu o telefone no gancho.
-Quem era mãe? – perguntei ao entrar. Ela arfou de susto.
-Desde quando você escuta a conversa dos outros? – ela se alterou.
-Desde quando você grita com as pessoas no telefone? – ri.
Ela cerrou os olhos e começou a pegar uns ingredientes no armário e bater as portas de um modo meio engraçado. Não havia sinal de que ela iria me responder então perguntei novamente.
-E então?
-Então o quê? – suas mãos tremiam ao mexer numa panela.
Ri sarcasticamente. Minha mãe era tão péssima mentirosa quanto eu.
-É sério isso? Você não vai me dizer com quem estava gritando? – eu disse pegando um copo de água.
-Por que você não vai ao mercado para mim? Acabaram os tomates. – ela disse como se sequer estivesse me ouvindo. Fitei-a abismada. Ela iria mesmo ficar fazendo mistério?
-Tudo bem... – disse como se esperasse que ela surtasse a qualquer momento.
Ela me deu o dinheiro e eu troquei de roupa. Como quase não saía de casa, eu raramente usava algo que não fosse moletons e pantufas. Estávamos no fim do verão, mas eu me vestia como se fosse inverno. Não entendia porque eu estava sempre com frio. Olhei para minhas unhas ruídas; elas estavam roxas de frio. Suspirei. Depois daquele acidente idiota tudo estava estranho.
Enquanto saía pelo portão do pátio, vi minha mãe espiar nervosamente pela cortina da sala de estar. Qual era o problema dela, afinal?
Enquanto andava pelo caminho conhecido, me permiti vaguear um pouco. O único som era os dos meus passos. O silêncio era bom, eu não tivera muito isso nas últimas duas semanas. Cheguei ao mercadinho, comprei o que mamãe pedira e estava atravessando a rua para voltar para casa quando ouvi alguém chamar meu nome.
Virei para trás automaticamente. Não havia ninguém na rua exceto três garotinhos jogando futebol. Fiquei alguns segundos fitando-os. A cena parecia-me familiar; os dois garotos tomavam a bola do terceiro menorzinho, mas não era de uma maneira maldosa. Eles se divertiam.
Rindo comigo mesma, continuei o caminho para casa. Pude avistar que no portão, havia três pessoas; minha mãe, Felipe, e – eu não podia acreditar – Bernardo.
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