O Outro Lado Da Lua

31 Perdendo o controle


-Agatha, olha pra mim. – Jacob me pegou pelos ombros. – O que você tá sentindo?

Minha cabeça estava quase explodindo de dor, meus ossos pareciam estar desconjuntando-se, e minha pele parecia estar em contato com puro ácido. Eu estava me desfazendo em pedaços da maneira mais dolorosa possível.

-Aaahhhhh! – meus gritos ecoavam floresta adentro fazendo vários pássaros voarem assustados. – Mas que droga! Aaahhhh!

-Calma Agatha. – disse Jacob. Sua voz estava atemorizada. – Vai passar, já vai passar...

Caí no chão, arquejando.

Imagens estranhas invadiam minha mente tornando a dor muito pior.

Meus pais se separando, eu chorando atrás da porta vendo meu pai sair de casa... Bernardo subindo no avião prometendo jamais me esquecer... Jacob saindo de moto me deixando sozinha na chuva...

Coloquei as mãos na cabeça como que para tirar as lembranças ruins dela.

-Droga, você vai precisar de mais espaço. – rosnou Jacob.

Ele tentou me tirar do chão enquanto eu me contorcia em minha tortura.

-ME SOLTA! – berrei. – Tira a mão de mim! – Nem eu mesma entendia minha raiva, minha repulsa por Jacob. Eu só queria correr e me afastar de todos, eu sentia que poderia quebrar uma rocha sem esforço algum.

O calor continuava irradiando de mim, queimando as últimas réstias de sanidade, arrancando de mim tudo o que eu conhecia deixando para trás algo sombrio e desconhecido.

-Eu preciso te levar pra outro lugar! – Jacob ignorou meus esforços e me pegou no colo. Ele correu rápido demais e eu via as árvores passando por mim em um borrão vermelho.

Chegamos numa clareira com um incrível espaço aberto.

Ele me soltou no chão, e o calor chegou a seu ápice, eu sentia todos os meus ossos movendo-se de uma maneira perturbadora.

Algo me puxou pelo umbigo, forçando tudo para fora. A transformação ocorrera num segundo. Um segundo lento, confuso e tortuoso.

Antes de ver qualquer coisa, eu senti meu novo corpo. A maneira como ele se movia. Como tudo parecia de repente menor. E por último, mas com certeza mais importante, a dor se fora. Eu já não estava me rasgando em pedaços, mas ainda não estava em meu normal.

Abri os olhos focalizando Jacob com um olhar assustado e um tanto admirado. Ele deu um passo à frente e um som arranhou o fundo de minha garganta.

-Calma. – ele me avisou. – Sou eu. Eu sei que é confuso, mas se você me deixar...

O som saiu de novo, dessa vez mais ameaçador.

Lá no fundo eu sabia que não tinha motivo algum para ter essa reação. Mas meu instinto me dizia para não pensar, para agir rapidamente garantindo minha própria segurança... Movi-me para trás, meus pés ou o que fossem, se moveram com precisão. Isso não passou despercebido aos olhos de Jacob.

-Olha, eu vou me transformar só para nós conversarmos normalmente tá bem? – ele tinha as mãos no ar como um ladrão que enfrentava a polícia.

Ele explodiu no ar e eu rosnei ameaçadoramente. Ele era mais forte, eu podia ver isso.

Agatha, eu não quero te machucar. Agora você pode ver tudo o que eu penso, tem alguma ameaça em mim?

Em sua mente, Jacob lembrava de nossas conversas e nas tardes na praia, em sua garagem perto do Camaro...

Aquilo despertou um pouco de lucidez em mim, como se eu tivesse saído de um transe. Aquele era Jacob. Era óbvio que ele não me faria mal algum.

Jacob! Jake como eu faço para voltar, eu não quero mais... – supliquei, um choro fraco saiu de mim.

Calma, assim que você se acalmar, vai voltar à forma humana. É difícil na primeira vez, mas depois você vai se acostumar.

Eu não queria me acostumar, eu iria embora e tudo ia voltar ao normal. Eu sabia.

Jacob se assustou um pouco com a parte de ir embora, porém não disse nada sobre isso, tampouco eu.

Foi preciso várias horas para eu voltar a mim mesma. E nessas horas Jacob ficou o tempo todo comigo. Dizendo palavras tranquilizadoras. Afirmando que tudo iria passar em breve. Mas levou muito tempo para eu acreditar nele. A confusão na minha cabeça era grande demais para eu pensar direito. Eu tinha muito medo dessa nova forma, como se tudo a volta fosse quebrável, como se eu fosse perder quem eu sou de verdade se me aprofundasse nesse novo corpo incrivelmente forte.

Às vezes eu voltava a sentir aquele impulso de sair correndo e não voltar. E toda a vez Jacob me impedia de perder o controle. Ele me fazia voltar.

E então, a minha temperatura começou a cair. Não tanto, mas o suficiente para eu me sentir eu mesma. E num estalo rápido eu voltei. Jacob suspirou aliviado, mas eu estava longe de me sentir assim.

Por que eu estava completamente nua.

Jacob pareceu perceber isso um segundo depois de mim e virou o rosto dizendo que ia pegar alguma roupa com os Cullen. Ele saiu trotando e eu me escondi atrás de uma árvore.

Tudo bem, se acalma Agatha. Respirei fundo tentando me lembrar das técnicas de ioga para conseguir plena calma. Minha mãe fizera aulas há algum tempo e me arrastara junto com ela. Só agora eu agradecia a ela por isso, mesmo que ela não soubesse.

Pensar em minha mãe me deixou angustiada. Eu morria de saudades dela, de meu pai, meu irmão, de Ane...

Alguns minutos depois ele voltara com um forte cheiro de água sanitária.

-Agatha? – ele chamou.

-Hã... Jacob será que você poderia jogar as roupas atrás dessa árvore? – Eu batia de leve com a cabeça na árvore nervosamente, me sentindo uma completa idiota por estar nessa situação.

-Ah, c-claro. Aqui estão. – Jacob jogou uma muda de roupas no chão, ao meu lado.

Vesti-me rapidamente, eram roupas confortáveis. Jean e camiseta. Mas o cheiro era muito forte. Saí detrás da árvore e encarei Jacob, que também vestia as roupas dos Cullen. Elas ficavam meio pequenas nele.

-Você tá bem? – sua voz demonstrava preocupação.

-Acho que sim. – eu não sabia o que sentir ao certo. A transformação havia despertado algo em mim. Uma raiva acumulada que eu sabia que não era nada saudável. Eu ainda tremia dos pés à cabeça, mas sabia que era por medo agora e não por que iria me transformar de novo. – Obrigada por... Por me ajudar. – olhei para o chão. – Eu não sei o que teria acontecido se você não tivesse me ajudado a me controlar.

-Eu sei pelo o que você tá passando. – ele se aproximou e pegou a minha mão. – E eu prometi fazer tudo ficar mais fácil pra você. – ele encarou meu olhar surpreso. – Eu não me esqueci.

-Eu sei. – sussurrei.

Ele sorriu.

-Vem cá. – ele me puxou pra seu abraço confortável e seguro. – Você vai ter que pedir ajuda ao Sam – ele disse assim que nos separamos. – Ele vai te ensinar tudo o que você precisa saber. E os garotos vão te apoiar. Eu queria poder estar lá, mas eu tenho que... – ele olhou para trás e havia dor em seu rosto. – Sinto muito.

-Você não precisa pedir desculpas. – tranquilizei-o. De qualquer maneira, eu não pretendia ficar para o treinamento lobisomem. Mas decidi que não era importante Jacob saber disso agora. – Tudo bem. Tenho que ir agora. – eu disse sem vontade.

-Tem certeza? – ele me olhou preocupadamente. – Você está mesmo bem?

-Estou sim. – assegurei.

-Tá bem. Eu te levo até a fronteira. – ele disse. Mas quando chegamos, Jacob tinha uma expressão muito estranha no rosto. Como se estivesse em um conflito muito grande. Como naquela noite que ele apareceu no meu quarto. Ele não queria me deixar partir e ficava repetindo que sentia muito por não poder ficar comigo e me ajudar. Depois de algum tempo, ele me deixou ir.

•••

-Ah, aconteceu, não foi? – foram as primeiras palavras de Sue ao ver-me entrando pela porta.

-Como sabe? – levantei uma sobrancelha.

Ela analisou-me espantada.

-Você está... Diferente.

Pendi a cabeça de lado sem entender.

Eu com toda a certeza estava diferente, mas achei que fosse interiormente. O que havia de errado com meu corpo?

-Agatha, como foi? Você está bem? Onde você estava? – ela jorrou perguntas.

Eu não queria mentir, mas ela não podia saber que eu fora na casa dos Cullen. Pensando bem, era Sam que não deveria saber... Ah dane-se, eu daria o fora daqui mesmo...

-Eu fui ver Jacob. – ela iria falar algo, mas a interrompi. – Eu sei, eu não deveria. Mas, eu queria saber como ele estava e Seth também... E Leah. – acrescentei sem muita convicção.

-E como eles estão?

-Estão bem. Os Cullen estão tratando-os muito bem. É claro que Leah não aceita comida, muito menos roupas. Caramba, ela é tão teimosa... Mas ela tá caçando animais e fome com certeza ela não vai passar. – tagarelei.

Ela levantou as sobrancelhas.

-Tudo bem, e como foi a transformação? – ela sentou-se no sofá.

Estremeci lembrando da dor cruciante. Eu tenho certeza que Sue sabia exatamente como doía, mas eu não precisava e nem queria comentar nada sobre esse assunto.

-Eu tive sorte por estar com Jacob, ele me ajudou muito. – ergui os ombros. – Eu tô bem.

Ela pareceu desconfortável.

-Você não se sente fora de controle, nem nada parecido?

Pensei nisso por um momento para responder com completa sinceridade.

Eu não era nenhuma louca com problemas de controle de raiva. Eu sempre fora muito boa em esconder sentimentos e controlá-los. Era verdade que minha raiva reprimida às vezes explodia e coitado de quem estivesse presente. Mas eu geralmente controlo tudo o que eu sinto. Agora mais do que nunca essa minha habilidade teria de ser posta em prática frenquentemente.

-Olha, eu me descontrolei com Jacob quando estava, bem... Como lobo. Mas eu tô bem. Não sinto nada muito diferente além da força anormal. – ri sem jeito.

-Tudo bem... – dava pra ver que ela continuava preocupada. – É melhor chamar Sam. Contar sobre sua transformação.

-Não! – eu quase gritei. – Quer dizer, ele não pode saber. – normalizei minha voz ao ver a expressão assustada de Sue.

-Por quê? Ele é o Alfa. – ela disse como isso resolvesse toda a questão. Eu não dava a mínima para quem era o Alfa, Beta ou o que fosse.

-Eu não quero entrar para a matilha, Sue. Eu vou embora daqui, você sabe. – parecia que eu havia dito isso mil vezes até agora.

Ela suspirou.

-Agatha, por que você não considera mesmo ficar? Afinal, você querendo ou não faz parte disso.

-Não eu não faço. – respondi brandamente. – Eu nunca quis isso.

Ela me olhou decepcionada.

-Achei que você estivesse gostando daqui.

Era verdade, eu estava. Mas sem Jacob eu não via motivo algum para continuar. Eu tinha minhas prioridades e em nenhuma delas incluía ficar em um lugar onde eu não pertencia apenas porque eu me transformara numa coisa gigantesca e sem controle.

-Me desculpe, Sue. Mas eu não vou abandonar a minha família.

-Tudo bem. Eu entendo, é um direito seu. – ela não parecia tão compreensiva quanto suas palavras.

-Obrigada. – eu disse mesmo assim. – E eu queria pedir para você não contar a ninguém sobre minha transformação.

-Bom eu não acho que eu precise contar nada. – ela disse me analisando de novo.

-O que quer dizer?

-Se olhe no espelho, Agatha. – ela disse simplismente.

Não entendi o que ela quis dizer. Fui até o corredor onde havia um espelho de corpo inteiro.

-Ah! – exclamei ao ver a estranha no espelho.

Aquela não era eu.

Abismada, observei as curvas da garota no espelho. Eu nunca tivera muito corpo, eu era magra, sem atrativos.

A garota do reflexo tinha a cintura bem marcada, seios fartos e um quadril que daria inveja a muitas garotas fúteis da minha escola. Eu estava mais alta também... Como eu não havia percebido isso?

Eu estava tão preocupada com minhas alterações psicológicas que me esqueci completamente do resto.

Era estranho estar diferente, mas como eu não havia percebido todas as mudanças antes de olhar-me no espelho, era melhor eu evitar meu próprio reflexo por enquanto. Eu não gostava muito de mudanças.

Notas finais
HAAAAAAA FINALMENTE! kkkkkkkkkkkkk
Agatha Lobo tá na área ijdiajdsijisdjisj