Era hora do jantar e a única coisa que eu queria era escapar daquela conversa constrangedora.

Minha mãe – como eu havia previsto. – não acreditara em nenhuma palavra de Bernardo. Bom, para mim tanto fazia, eu acreditara. Mas ela estava sendo irritantemente contra a minha confiança naquele – segundo ela – moleque pretensioso e mentiroso.

Não pude dizer nada contra a pretensão, já que ele era assim mesmo. Mas mentiroso Bernardo nunca fora. Mamãe chegara ao limite quando o defendi e agora apenas o som dos talheres nos pratos soava na sala de jantar.

Papai estava aqui. Ele vinha pelo menos três vezes por semana. Eu me surpreendia com isso, ele geralmente estava com trabalho demais.

-O que eu não entendo é como você pode perdoá-lo com tanta facilidade. – disse mamãe entre dentes.

Suspirei largando o garfo com um estrépito.

-Mãe, será que, por favor, podemos deixar isso para lá?

-Não, não podemos. – ela disse com a voz aguda. – O que você tem na cabeça para aceitar uma desculpa tão esfarrapada?

-Ângela, a Agatha sabe o que faz. – interferiu meu pai. Sorri agradecendo.

-Você lembra o que aconteceu da outra vez? – ela olhou feio para meu pai e insistiu com a voz ainda mais aguda. – E agora do nada ele volta achando que pode...

-Mãe! – interrompi começando a ficar nervosa. – Quer parar? É a minha vida e eu posso muito bem cuidar dela sozinha.

-Agatha, nós somos a sua família. Não tem essa de vida pessoal com a gente. – disse Felipe com um sorriso.

-Haha. Muito engraçado.

Passou-se mais um momento de silêncio até que minha querida mãe não se aguentou e fez a pergunta que mais estava perturbando-a.

-Você não vai voltar com ele, vai?

Bati as mãos na mesa fazendo toda a força do mundo para não dizer algo que me faria arrepender-me.

-Não mãe. Eu não vou. Eu só quero ser amiga dele, isso é permitido?

-Agatha. Chega. – papai chamou minha atenção.

Suspirei em contrariedade.

-Posso ir pro meu quarto?

Ele me olhou com preocupação, mas deixou. Ouvi mamãe protestar, mas meu pai disse para ela me deixar. Tirei meu prato da mesa e antes de ir para o quarto fui escovar os dentes.

Eu não estava com nenhum pingo de sono então peguei meu livro e continuei da parte em que havia parado. Era incrível como ler aquela história era tão vívido para mim, como se eu estivesse lá. Ou talvez porque eu quisesse estar lá.

Fechei o livro me sentindo meio anormal. Eu queria mesmo viver num livro quando havia um garoto que eu sempre amara querendo ficar comigo?

Talvez eu precisasse de terapia afinal de contas.

O som do toque do meu celular me fez pular. Peguei-o e atendi.

-Alô?

-Oi Agatha! – era Ariane.

-Oi Ane! Como você está?

-Eu estou bem e você?

-Hã, estou bem, mas você não vai acreditar no que aconteceu hoje. – contei tudo o que aconteceu desde o telefonema estranho de minha mãe.

-Ah! Eu não acredito nisso! E você acreditou?

-Claro que sim. – respondi meio na defensiva.

-Sério? – sua voz era de desapontamento. – Depois de tudo o que você passou por causa dele, e você ainda cai na desculpa dele?

-Eu não caí na desculpa dele. Eu senti que era verdade. – e também sentia que iria ser muito julgada por acreditar nele.

-E... você não está pensando em voltar com ele, não é?

-Não, Ane. – respondi. Estava começando a me cansar dessa pergunta. – Eu não o amo mais.

Ela ficou um momento em silêncio.

-Uau. Nunca achei que a ouviria dizer isso. Desde quando?

-Eu sei lá. Desde que perdi algumas memórias, eu acho.

-Nossa. Que estranho. Por que você acha que...

-Agatha! Abre aí! – disse uma voz do nada.

Olhei para a porta de meu quarto, mas ainda estava fechada.

-Na janela! – disse a voz novamente. Fui até a janela tapando o celular com a mão para Ariane não ouvir. Olhei para baixo meio desnorteada, era Bernardo. Ele sorria como um bobo.

-Hmm. Ane, eu te ligo mais tarde tá? Mamãe está me chamando.

-Ah tá bem, então. Tchau.

-Tchau. – desliguei o celular e olhei furiosamente para Bernardo. – O que está fazendo aqui?

-Bom, não tinha muita coisa para fazer na casa do meu tio então...

-Eu não disse a você para não fazer nada estúpido? – repreendi-o.

-Ah, para com isso. – ele desdenhou com seu meio sorriso. – Então, quer fazer alguma coisa?

-Sabe que horas são? – perguntei sarcasticamente.

-Não, na verdade vendi meu relógio por que meus pais não me dão mais dinheiro. – ele fez cara de coitadinho.

-Ótimo, volte para casa, então. – cortei-o com a voz ácida.

Ele ficou com uma expressão meio desapontada.

-Sério. Eu estou começando a achar que você me quer mesmo longe.

-Eu não disse isso. – retruquei.

-Tá legal, me desculpa. – ele se apressou a dizer. – Pode me deixar entrar, então?

Olhei para ele tentando não cair naqueles olhos azuis profundos. Suspirei completamente derrotada.

-Tudo bem, mas é por sua conta e risco. Meu irmão está em casa. – avisei-o.

-Como se eu me importasse. – ele murmurou baixinho.

Ele subiu rapidamente pela minha janela. Não era alto, ele só precisou escalar pela escada que havia ao lado da casa. Ele se esgueirou para o meu quarto caindo com um baque.

Olhei para a porta segurando a respiração. Ninguém deveria ter ouvido, senão já estariam aqui.

-Seu quarto continua a mesma coisa. – ele comentou olhando à volta. Apenas olhei-o sem saber o que dizer. Ele se encaminhou até minha cama sentando e pegando meu livro. – Vai me dizer que gosta disso?

-É eu gosto. – disse pegando meu livro de volta. Eu odiava quando as pessoas me julgavam por gostar de Crepúsculo. – Algum problema?

-Não, não tenho preconceito nenhum. – ele sorriu ironicamente. – Alguns dos meus melhores amigos gostam disso.

Não pude deixar de rir.

-Eu senti muito a sua falta. – ele disse de repente. Abaixei a cabeça sentindo meu rosto formigar. Esses assuntos não eram muito apropriados para dois adolescentes sozinhos num quarto à noite. Eu tinha que estabelecer alguns limites por aqui.

-Mas agora você voltou e podemos ser amigos novamente.

De repente ele era o Bernardo arrogante de novo.

-Amigos? Para com isso, Agatha. Você sabe muito bem que nós somos muito mais do que amigos!

-Nós éramos muito mais do que amigos. – corrigi pacientemente.

Ele levantou-se da cama e chegou bem perto de mim, de modo que tive que olhar para cima para ver seus olhos.

-Acha mesmo que eu vou acreditar nessa história de que o “tempo passou”?

-Não vejo porque não acreditar. – minha voz estava fria como gelo. – É a verdade.

-Está enganada.

-Não, eu não estou! – ri em descontrole.

-Então eu vou provar. – e aí sua boca estava na minha. Bernardo me puxou para ele com força e eu resisti. Empurrei-o para longe e ele me olhou assustado com o que fizera.

Eu tremia dos pés à cabeça, um calor estranho passou pelo meu corpo. Era estranho por que eu congelava de frio o tempo todo. A raiva provavelmente desencadeara tudo. Mas no momento isso era o menor dos problemas, por que eu queria mesmo era matar Bernardo.

-Você perdeu a cabeça? – perguntei entre dentes. Ele não disse nada. Apenas me olhou meio assustado. – Sai daqui.

-Agatha, me desculpa. – ele se aproximou.

-Não. Sem essa.

-Eu não quis...

Com uma força meio descomunal, levei minha mão ao seu peito e empurrei-o.

-Vai embora.

Bernardo me encarou nos olhos por um bom tempo e depois saiu pela janela, sem nada a dizer. Passei as mãos em meus cabelos nervosamente. Tentei respirar uma, duas vezes. Mas, não tive sucesso em ficar calma. Sentei-me em minha cama tentando compreender o que eu estava sentindo. Não consegui.

Eu só queria saber por que isso me incomodava tanto.

Quantas vezes Bernardo já me beijara? Eu perdera a conta. Então por que parecia tão errado que ele tivesse feito isso?

Quer dizer, tirando o fato óbvio de que ele me agarrara contra a minha vontade, eu não tinha motivos para me sentir tão ultrajada e até... Até culpada. Era estranho o modo como eu me sentia, como se estivesse traindo a mim mesma. Ou talvez fosse culpa por ter convidado-o a entrar quando minha mãe era claramente contra meu contato com ele.

Fiquei algum tempo sentada, apenas olhando para o nada. Pensei em ligar para Ane para contar o que havia acontecido, mas achei que não aguentaria ouvi-la falando sobre como ele era errado para mim e que eu deveria cortar minha relação com ele. Não. Já bastava minha própria raiva do que acontecera, eu não precisava de mais repreensão.

Eu só queria poder entender por que tudo havia mudado tão drasticamente dentro de mim. Por que eu tenho certeza de que se há um ano atrás Bernardo tivesse vindo até mim e explicado toda a história, eu teria me jogado em seus braços mais feliz do que nunca. Então, o que mudou? O que eu mais queria era Bernardo. Então por que, de algum modo, isso parece não ser mais o suficiente?