O Outro Lado

3 No fim, a morte por opção


Notas iniciais
Parte mais dramática da história.
Na pobre opinião da autora, o melhor capítulo.

Voltamos a investigar Kira, e como havia dito, Matt estava me ajudando. Isso, no entanto era uma coisa que me incomodava um pouco.

Era bom ter ao lado alguém que você sabe que pode confiar a vida, mas se as coisas seguissem como antes, poderíamos acabar morrendo. Eu sei que alguns podem dizer que eu levei toda a máfia à morte, então o que seria mais um; no entanto, é diferente quando suas ações levam à morte mafiosos que você conhece há três anos, e quando podem levar à morte um amigo de toda uma vida.

Near e os outros investigadores já sabiam que eu estava vivo, mas isso era inevitável. Não dá para ser muito discreto, quando se tem uma cicatriz que cobre metade do rosto. Para disfarçar um pouco deixei o cabelo mais comprido, depois que ele cresceu novamente. Eu havia perdido parte do cabelo no incidente com a bomba também. Sinceramente, por muito tempo eu evitei encarar o espelho.

Era apenas mais uma noite tediosa. Matt e eu estávamos sentados no apartamento vigiando monitores e escutas.

_ Mello, posso perguntar uma coisa?_ ele olhava direto para mim.

_ Você sabe que pode._ isso era um mau sinal, ele nunca pedia permissão, independente do que fosse fazer ou falar.

_ Seu olho esquerdo está cego, não está?

Fiquei um instante em choque com o impacto da pergunta. Passada essa reação, respirei fundo e olhei para minha própria mão.

_ Matt, há quanto tempo você sabe?

_ Desde que você tirou as faixas. Eu já imaginava que seu olho não ia sair intacto do estrago que você fez em si mesmo. Você até consegue disfarçar, já que está aparentemente normal, mas falta algo nele. É difícil perceber, mas eu posso notar.

Às vezes me esquecia que aquele cara era o número três da Wammy’s, ficando atrás apenas de Near e eu, mas ele é bom, tenho que admitir.

Eu tinha ficado cego do olho esquerdo, assim como eu praticamente não tenho mais sensibilidade na parte queimada da minha pela. Matt fez um ótimo trabalho cuidando de mim, mas nem tudo dava para salvar.

...

Lidner havia me passado a informação de que Near e o falso L iam se encontrar. Meu cérebro funcionou a mil, e com a ajuda de Matt cheguei à conclusão que me levou a desenvolver o plano do seqüestro de Takada.

Matt e eu ficaríamos na linha de fogo. Para mim, já esperava a morte. Matt provavelmente seria preso por cumplicidade no seqüestro, mas com a ajuda de Near e bons advogados, ele não ficaria lá muito tempo. Não havia outra forma de fazer aquilo. Dos filhos do velho mundo, eu sempre seria o vice campeão. Near era o único que no momento possuía condições e recursos para deter Kira. Tudo o que podíamos fazer, era apostar todas as fichas naquele plano.

...

Enquanto dirigia o caminhão, vi pela televisão a notícia da morte de Matt. O corpo dele ainda estava jogado no chão, atingido pelos tiros dos seguranças de Takada. Lamentei a morte dele, não era para ser assim. Apertei meu crucifixo, pedindo a Ela que ele estivesse em paz. Era tudo o que eu podia fazer por ele agora. Só espero que Near consiga terminar com tudo, senão Matt terá ido em vão.

Estacionei no vão das ruínas de uma igreja. Tinha certeza que ia morrer, escolhi morrer perto Dela, já que Ela não vai estar no lugar para onde eu vou.

Agora só me restava esperar. Pensei em Matt e no que ele significava para mim. Ele não era só meu amigo, era meu irmão. O irmão de sangue que nunca tive; o irmão que pude escolher, o irmão que levei à morte. Foi o único com quem mantive contato depois que saí do orfanato, o único que sabia todos os meus passos, todos os meus crimes. Ele nunca me traiu. Quando sobrevivi à explosão, peguei meu telefone e disquei para o único a quem confiaria minha vida. Só consegui dizer seu nome antes de desmaiar, ainda assim ele veio até mim, ele me salvou. Depois ele pôs a vida dele em minhas mãos e eu simplesmente deixei que o matassem. Eu chorei e novamente eu rezei.

_ Mãe Maria, não sei para onde Matt foi, mas cuide dele esteja onde estiver; ele não merecia ter morrido; faça com que tudo isso acabe logo. Queria poder ver o Matt uma vez mais, mas acho que isso não vai acontecer nunca mais...

De repente lembranças vieram a minha mente. Minha vida, minha infância, as brigas com Near, minha fuga, os passos errados, meu caso com Lidner, a explosão, a dor da recuperação, a perseguição, a decisão pela morte. A última coisa que veio a minha mente foi a imagem de Matt ainda criança, nos tempos do orfanato, sorrindo enquanto acenava para mim da janela do quarto.

Senti a primeira pontada no peito, seguida de uma das piores dores que eu já havia sentido na vida. Levei a mão ao peito, apertando com força. Logo depois veio a falta de ar. Não bastasse a dor horrível, eu ia sufocar também. Num instante tudo ficou em silêncio. Minha cabeça havia tombado sobre o painel do caminhão, meus olhos estavam abertos, meu crucifixo pendia sobre o volante. A última coisa que vi, até mesmo com meu olho cego, foi uma luz branca, em seguida a escuridão.

“Let it be, let it be

Let it be, let it be

There will be an answer, let it be.”

(deixe estar, deixe estar

deixe estar, deixe estar

Haverá uma resposta, deixe estar.)

“And when that night is cloudy

There is still a light that shines on me

Shine on until tomorrow, let it be.”

(e quando a noite é sombria

ainda há uma luz que brilha em mim

brilhando até o amanhã, deixe estar)

Notas finais
E aí gostaram do capítulo?
Mereço review?