O Oráculo Perdido
1 A Próxima Grande Profecia
Notas iniciais
Essa história se passa depois dos acontecimentos de "Heróis do Olimpo". Gaia foi derrotada e Rachel fez uma nova profecia. Sem mais, vamos à história!
Para quem já havia sido socado, chutado, xingado, mordido e transformado em porquinho da índia, essa era uma modalidade nova de violência: Percy estava quase morrendo de tédio na aula de Introdução ao Estudo dos Oceanos.
Por sorte, era o penúltimo dia de aula, o penúltimo dia em que Percy teria que aguentar a sessão que parecia feita para maltratar meninos com déficit de atenção.
O professor falava de um jeito tão monótono que fez Percy imaginar se não seria um monstro. Mas ele parecia normal, e depois de tantos anos de treinamento, o menino conseguia enxergar muito melhor pela Névoa... Não. Sem coisas fantásticas, ele se lembrou. Sem monstros, sem Névoa.
Há dois anos ele não voltava ao Acampamento Meio-Sangue. Quando Gaia foi derrotada, a deusa primordial profetizou uma calamidade ainda maior por vir, e Percy disse em alto e bom som: “estou fora”. Desde então, ele tentava viver sua vida do jeito mais comum possível, deixando tudo e todos para trás.
Seu celular vibrou. Nem todos, ele se corrigiu, vendo que se tratava de sua namorada, Annabeth. Ela ainda tentava fazer parte dos dois mundos, frequentando tanto a faculdade de arquitetura quanto o acampamento em Long Island, mas, por respeito a Percy, nunca mencionava o aspecto fantástico de suas vidas.
Ainda mais depois que o Oráculo do acampamento, Rachel Elizabeth Dare, revelou algo tão horrível. A próxima Grande Profecia. Percy não achava provável que essa também se referiria a ele, mas era sempre melhor se prevenir.
Sacudindo a cabeça para livrar-se de tantos pensamentos incômodos, esforçou-se para ler a mensagem que piscava na tela de seu celular. Aparentemente saíra um documentário sobre alguma coisa chatíssima, e ela queria encontrar-se com ele para poderem assistir juntos (traduzindo, ela iria tentar forçá-lo a assistir e ele provavelmente dormiria nos primeiros cinco minutos).
Com um meio-sorriso, ele respondeu a mensagem, marcando o encontro para o dia seguinte, à noite. Era bom ter uma vida calma, pra variar um pouco. Sem deuses, sem titãs, sem monstros pra encher o saco. Ele nunca mais voltaria para a vida perigosa e problemática que enfrentara durante tantos anos.
Naturalmente, Percy não sabia o quanto estava enganado.
Ao voltar pra casa, Percy sempre passava pelo Museu de Arte Metropolitana, mas nesse dia em questão, decidiu parar e verificar como estava o museu. Ele tinha algumas lembranças daquele lugar, a principal sendo a vez que ele sem querer empurrara a valentona da escola, Nancy Bobofit, na fonte do hall. Bons tempos.
Olhando sua fachada neoclássica – basicamente muito quadrada e muito branca –, ele entrou no museu, olhando a fonte. Não havia ninguém por perto, então ele se sentou no beiral e passou os dedos pela água límpida, sentindo um leve aperto no peito. Sempre se sentira bem na água, então por que agora ela lhe dava uma tristeza tão grande?
Parecia até outra vida. Com apenas 12 anos, Percy descobriu ser um semideus, e foi em uma missão para recuperar o raio perdido de Zeus. Ele bem que podia ter mandado Zeus ir para aquele lugar, mas na época não lhe pareceu apropriado. Ou talvez o seu eu de 12 anos apenas não conhecesse a expressão.
Estava tão distraído que quase pulou para trás quando uma certa bruma começou a se formar rapidamente à altura de sua cabeça. A névoa se solidificou, mostrando a Percy uma colina familiar, onde se via um pinheiro enorme e saudável, com um dragão enroscado próximo ao seu tronco, soltando aros de fumaça para o céu enquanto roncava. E no centro da névoa via-se um homem aparentando uns 40 anos, com o cabelo castanho crescido e a barba mesclada de fios brancos. Ele não se afastou, mas Percy sabia que se ele aparecesse de corpo inteiro na imagem, suas pernas seriam a parte de baixo de um grande cavalo branco.
Olhando para os lados para certificar-se se algum mortal os vira (ou se a Névoa os estava enganando; aparentemente estava), Percy se inclinou na direção da imagem.
– Percy. – o centauro falou de um jeito estranho, quase com incerteza.
– Quíron. – Percy respondeu, tornando a olhar em volta e voltando-se para cochichar à imagem na névoa – Eu pensei que tinha-
– Ah, sim, eu me lembro bem do que você disse, meu caro semideus!... Um alto e sonoro “estou fora” e vários xingamentos dirigidos ao Sr. D. Porém, em certas circunstâncias... – Quíron parecia agitado, o que era bem preocupante. Geralmente o diretor de atividades passava uma imagem de calma e serenidade a todo o momento.
– É a profecia?
– Infelizmente. – O centauro suspirou. – Nós não temos certeza, mas todas as pistas apontam para isso. A Grande Profecia teve seu início.
– Como você pode ter tanta certeza?... Aliás, espere um minuto. Porque você está contando isso tudo pra mim? – sussurrou Percy de volta.
– Porque, mais uma vez, nós precisamos de todos os reforços que pudermos obter. Apesar dos novos meio-sangues reclamados, a maioria ainda é jovem e inexperiente, eles não têm experiência de verdade com monstros. Não como vocês.
– Eu desisti. – argumentou. – Não vou mais voltar. Não quero mais ser um herói.
– Sem a sua ajuda a civilização seria destruída incontáveis vezes. Nós sabemos disso, e somos gratos, mas...
– Não. Nós resolvemos anos atrás que essa profecia não se referia a mim. Você mesmo concordou! Eu não escolho essa profecia. Eu só quero ter uma vida normal! – dito isso, Percy abanou a mão dentro da névoa para interromper a conexão da chamada de Íris. Enquanto a imagem se dispersava, ele viu a expressão no rosto de Quíron, uma imagem que expressava a mais profunda traição já cometida por alguém a ele.
Sentindo-se mal, Percy voltou pra casa a pé, subindo as escadas do novo apartamento onde morava com sua mãe e seu padrasto. Abrindo a porta, deu de cara com a mãe dormindo no sofá, o notebook quase escorregando do colo. Sorrindo levemente, Percy pegou o notebook, colocou no chão e foi pegar uma coberta para ela.
Sally Jackson, de acordo com Percy, era a melhor pessoa do mundo. Quando Percy era menor e não conseguia controlar o seu “fedor de semideus” (o que era meio ofensivo, na verdade), Sally se casou com um mortal fétido e horrível para protegê-lo de monstros. E então, quando Percy aprendeu a se defender, Sally transformou o padrasto em estátua de pedra (muito legal, no conceito de Percy) e começou a viver sua própria vida. Por sorte, o cara que ela se apaixonou era bem sossegado em relação a toda essa questão de ter um enteado semideus.
Percy foi para seu quarto, jogando a mochila de qualquer jeito no corredor, e se jogou na cama de barriga para cima, fechando os olhos. A única coisa que queria no momento era fugir de seus próprios pensamentos, que o atazanavam feito pássaros da Estinfália (contra os quais ele já lutara; eles não eram legais).
De repente algo sacudiu seu ombro, e ele pulou da cama, abrindo os olhos como se fosse ver o pior monstro de todos os tempos. Do alto, com cara de riso, estava uma menina loira de olhos tempestuosos, olhando com cara de quem estava segurando a risada.
— Annabeth! – Percy bufou. — Você me assustou!
— É bom te ver também, cabeça de alga. — ela sorriu, e apenas a visão do sorriso dela o fez esquecer todos os pensamentos, tudo o que o vinha incomodando nos últimos dias. Era a mesma sensação de beber néctar. Incomparável.
Quando foram juntos ao Tártaro, Percy realmente achou que os dois morreriam, mas a pior parte foi quando voltaram. O baque da realidade. Os dois heróis tinham constantes pesadelos, mesmo quando estavam juntos, e incontáveis feridas que os remédios do acampamento não podiam tratar. Se Percy não tivesse ido pessoalmente ao Hades, teria afirmado que esse era o inferno, bem ali.
Mas felizmente os dois sobreviveram, à parte alguns traumas, e ainda estavam juntos, apesar dos problemas.
— O que você tá fazendo aqui? Achei que só viria amanhã, pra assistir o documentário. — não que ele estivesse reclamando.
— Mudança de planos. — de repente ela pareceu tensa. Todo o humor fugiu de seus olhos, e seus ombros caíram. — Aconteceu uma coisa...
— Ah, sei. Algo no acampamento. Quíron me contou. — Percy prosseguiu em contar tudo o que Quíron havia dito a ele, enquanto Annabeth prestava atenção.
— É pior do que me disseram! Percy, se isso for verdade, se a profecia realmente tiver começado...
— Mas eles sabem que eu não posso ajudar. — repetiu. — Annabeth, eu já fiz coisas demais por eles. Eu preciso saber como é ter uma vida normal!
— Agora você sabe. — ela o acusou. — Você já viveu dois anos sem nenhuma responsabilidade para com o Olimpo. Mas Percy, você não pode fugir do seu sangue para sempre!
— Espere um pouco. Foi você quem disse que ia respeitar a minha decisão, e...
— Eu sei o que eu disse. — Annabeth respirou fundo. — Eu sei, e também sei que nós concordamos que era pouco provável que essa profecia seria completa no nosso tempo. Mas aconteceu algo.
— E aposto que esse algo vai me fazer querer voltar correndo para os deuses, não é? — zombou Percy.
— Percy, isso é sério. — Annabeth replicou, a voz subitamente tremendo com o desespero. — Rachel foi sequestrada. Quíron não queria te falar assim, ele achou melhor te preparar antes, mas já que isso não deu resultado... Está aí. As missões foram canceladas, sem um Oráculo para guiar os heróis para as profecias, e se a Grande Profecia começou... O mundo está correndo um sério perigo.
Notas finais
Obrigado pela leitura, e nos vemos no próximo capítulo!
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