O Orgulho e a Soberba

7 Os novos raios solares


Notas iniciais
Os primeiros fios estão sendo atados!

Em poucas semanas de muita dedicação e esforço, Aurélio havia conseguido finalmente aprender o preparo do chocolate. Não possuía o talento nato, mas em troca tinha os ideais, motivos que davam um toque a mais no doce.

Mandou para Ema uma pequena caixa de bombons com uma carta. Nela ele dizia tudo. Detalhava saudoso a infância da filha e como deixou que o afeto e o instinto de proteger fizesse que ele cometesse o maior erro: esconder o mundo da filha.

Dona Agatha olhava admirada os últimos detalhes da montagem de um bombom.

—Deseja um? _ perguntou Aurélio sorrindo ao ver os olhos gulosos.

—Mas, posso?

— Sim, aqui_ disse entregando o que tinha acabado de preparar.

O sabor do chocolate em nada se assemelhava com os quais dona Agatha estava acostumada. Era mais saboroso e possuía mais gosto de Cacau .

—Aurélio, por que você não prepara mais um pouco e deixa eu comercializar aqui na casa de chá? Dividimos os lucros certinho! Creio que será um sucesso! E, afinal, qualquer novidade é boa para os negócios.

O filho do Barão concordou. Por que não fazer esse negócio? A família não estava boa de rendas e isso parecia uma ótima oportunidade para aumenta-las.

—Negócio feito dona Agatha!

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Julieta olhava intrigada alguns documentos. O nome Xavier era constante em vários deles. Pensou em estar confundindo os papéis e por isso decidiu colocar os óculos. Buscou na gaveta, sem querer esbarrou as mãos na carta de Aurélio.

O ultimo encontro e contato dos dois foi na trilha. Ambos estavam muito ocupados no trabalho.
—Julieta..?

A voz de Susana do outro lado da porta fez com que Julieta disipasse os pensamentos.

—Pode entrar!_ respondeu colocando os óculos no rosto e guardando de volta a carta.

—É sobre a venda daquelas fazendas...

—Sim, Susana! Estou ouvindo, continue!_ Julieta olhava os documentos conferindo os cálculos. Esperava que a assessora fosse responder que tudo estava bem encaminhado, como era de costume.

—Parece que um fazendeiro local está igualmente interessado nelas e não medirá esforços para consegui-las...

Julieta lentamente levantou os olhos. Será que era o homem que constantemente aparecia nos papéis?

—Deixe-me adivinhar, seria por acaso um senhor chamado Xavier?

A expressão de surpresa de Susana não foi impercebível.

—Sim, suponho que tenha lido o nome dele em alguns desses documentos... _ Susana relutou em falar_ A questão é Julieta, que ele não joga limpo nas negociações e já está articulando a compra das terras.

—Não perderemos mais tempo. Vamos logo para a fazenda Córregos d'Água, temos negócios a tratar. Nenhum homem me intimida, e Xavier não será o primeiro!

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O trabalho de Aurélio na fazenda estava muito bem. Todos os cavalos estavam sadios, treinados e até mesmo os mais ariscos se encontravam dóceis.

—E como está o dia Aurélio? _ perguntou senhor Fagundes se aproximando

—Excelente! Já avancei bastante no treinamento do Trovoada_ disse apontando para o puro sangue que se alimentava no estábulo ao lado.

—Você e o seu pai ainda estão no Hotel?

—Sim, senhor. Mas por que a pergunta?

—Tenho um pedaço de terra Aurélio que nem uso, e meus filhos não fazem questão de usar também. Eles dizem que é muito distante e próximo da mata. Eu tinha montado uma pequena chácara mas nunca nem usei. E como você sabe, grande parte de tudo que conquistei foi com os conselhos de seu pai...

—Por favor- interrompeu o filho do barão prevendo o rumo da conversa- não continue! O senhor já fez demais me oferecendo esse emprego! Eu e meu pai já nos sentimos muito gratos

—Mas não pode ser! Herdou a teimosia do senhor Barão! Vamos Aurélio, aceite!

—Apenas com uma condição! O preço equivalente á terra será descontado no meu salario por mês.

Senhor Fagundes arredou o pé. Não via necessidade naquela relutância, mas vendo que era a única opção, aceitou a condição.

—Então está feito! Vamos para dentro assinar o contrato e a terra será sua!

Perto do final da tarde, Aurélio se dirigiu a chácara. O local que se tornaria o novo lar dele e de sua família.

Como senhor Fagundes disse, a chácara era distante mas possuía uma beleza. Envolta pela mata Atlântica nativa, parecia uma pintura impressionista.
Aurélio se agachou e tocou a terra. Logo pôde notar que o solo era fértil. E pela primeira vez depois de tanto tempo, teve um vislumbre do que estava para acontecer. Era o começo daquilo que seria a volta da família Cavalcante aos tempos de fartura e glória.

Adentrou a pequena chácara feita de pedras e ornamentada por madeira trabalhada. Na pequena sala de estar, havia um sofá colocado diante uma mesa de centro. No canto da parede, uma estante de livros encontrava-se do lado de uma janela onde os pequenos raios de sol atravessavam. Caminhou para a cozinha, e virando-se encontrou dois quartos. Ambos possuíam uma cama de casal e as janelas estavam fechadas por grossas cortinas cor de vinho.

Na pequena escrivania que o quarto principal possuía, Aurélio começou a fazer alguns cálculos. O salário que ganhava menos o que seria descontado por mês , as alimentações , gastos pessoais além dos investimentos que buscava realizar no pedaço de terra... Tudo parecia um embaralhado de números.

Decidiu ir para a Casa de Chá, talvez com um bom gole de café conseguiria colocar os pensamentos em ordem.

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Na curta negociação em que esteve presente com Xavier, Julieta já havia conseguido traçar o perfil e personalidade do ardil negociante. E além disso, havia colocado o próprio nome na lista negra do mesmo.

—Poderíamos fazer bons negócios..._ começou Xavier

—O senhor disse bem, "poderíamos"_ interrompeu Julieta com um ar de superioridade_ mas não iremos! Sejamos as claras, o senhor não passa de um pequeno proprietário enquanto eu possuo um império do café! Qualquer relação econômica com o senhor não me acrescentaria em nada. Ademais, eu sei que o senhor não detêm uma boa reputação perante ao comércio o que se torna mais um motivo para eu recusar a sua oferta.

—A senhora pode estar tomando uma atitude precipitada. E talvez, uma da qual irá se arrepender profundamente.

A voz de Xavier misturava ódio e ameaça. Nunca havia sido esnobado. Muito menos por uma mulher. Era uma afronta que inflamava o seu ego masculino.

Olhando bem para a expressão impassível de Julieta, e para o pequeno fazendeiro que ela havia salvado de suas ganâncias e malfeitorias, ele jurou no intimo do ser que a destruiria. Nem que fosse pela mira de uma arma.

Julieta ergueu a sobrancelha. E quando Xavier foi embora, o fazendeiro se aproximou.

—Lhe agradeço muito senhora, mas devo adverti-lá que aquele moço não é de confiança. Recomendo que tome cuidado!

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A casa de chá estava lotada. Vários clientes queriam o famoso chocolate. Havia noivos que queriam para ser o recheio do bolo de casamento. Outros que queriam para as esposas grávidas. E alguns para os filhos.
Assim que Aurélio chegou, Dona Agatha gritou o seu nome.

—Aurélio! Pelo amor de Deus faça mais chocolates! Isso aqui está um caos!

—Não entendo Dona Agatha! Como o chocolate fez tamanho sucesso?!

—Pois eu te explico: Está maravilhoso! E houve uma forte propaganda.

—Propaganda? De quem?

— Eu papai! _ respondeu Ema que vinha sorrindo de trás de um grupo de clientes.

Aurélio se virou, surpreso. Olhava encantado para a filha. Ema havia chegado no vale e feito propaganda do doce que ele tinha feito. Seu coração se aqueceu, havia ela o perdoado?

—Ema minha filha, o que você está fazendo aqui? Pensei que estava em São Paulo...Eu lhe mandei tantas cartas...

—Não se preocupe papai!_ Ema interrompeu sorrindo_ Está tudo bem! Eu vim para cá depois de receber sua carta e bombons. Afinal, não podia mais ficar com mágoas do senhor. O tempo que estive em São Paulo me fez repensar em várias coisas e entender que o senhor e vovô apenas queriam o meu bem mas não souberam como fazê-lo. Chegando aqui, vi que Dona Agatha estava vendendo o seu chocolate e não pude deixar de sentir orgulho. Por isso, conversei com todos sobre ele e nem precisou de muito esforço para que virasse um sucesso como dizem.

Aurélio abraçou a filha. Estava tão contente e ansioso em contar-lhe tudo o que aconteceu e saber de como foi a experiência em São Paulo.

— Eu lhe prometo que não guardarei mais segredos contigo minha filha! E peço desculpas pelo o que eu e seu avô fizemos...

—O passado já é passado. Mas agora vamos, temos muito chocolate para fazer!

Ambos foram para a cozinha e começaram o preparo. Ema se lembrava ligeiramente dos procedimentos, mas vendo o pai logo conseguiu pegar o ritmo e preparar sozinha os chocolates.

—Precisamos dar um nome para esse chocolate, alguma sugestão?_ perguntou Aurélio sorrindo enquanto terminava de montar um bombom.

Ema riu

—Acho que é o senhor quem deve escolher

—Que tal, chocolate Ema?

—Chocolate Ema?

—Sim! Ou você acha melhor outro nome? Deixe-me ver...

—Não pai_ interrompeu Ema rindo_ Amei o nome! Chocolate Ema! Está decidido!

Com o nome do doce já decidido e conhecido pela população, não demorou muito para que outros comércios e cidades vizinhas requisitassem o chocolate. Ema , que somente pretendia fazer uma visita á família, teve que alongar a estadia no vale para poder ajudar o pai. Ela e Aurélio, e até mesmo o Barão, estavam empenhados em expandir os negócios.

Na pequena chácara Aurélio e Barão dividiam um quarto enquanto Ema ocupava o outro.

As pequenas economias juntadas foram usadas para o plantio de Cacau e investimentos em equipamentos e embrulhos para os produtos. Como Aurélio era formado em Botânica, ele possuía uma noção de como cuidar da terra e das pragas e instâncias que ela podia sofrer. Então, era o responsável do plantio e da colheita. Ema do preparo e das vendas. Enquanto o Barão auxiliava nos cálculos e contratos.

Um dia chegou uma correspondência de um pequeno comércio de São Paulo que pretendia comercializar os chocolates Ema. Como Aurélio não podia viajar porque necessitava cuidar das plantações e ainda trabalhava pro Senhor Fagundes, pediu que Ema fosse e o Barão a acompanhasse para não ficar sozinha. A filha aceitou de bom grado, estava com saudades de Ernesto e ansiosa em poder tomar a dianteira nos novos negócios da família.

Chegando lá contou as boas novas para Ernesto e os amigos. E como notou que seria rentável negócios em São Paulo, decidiu ficar mais algumas semanas por lá com o avô.

Nesse meio tempo, Aurélio se dedicava a várias coisas. Lia alguns livros de administração, vários sobre o plantio de vários gêneros alimentícios, entre outros. Cuidava dos negócios locais e trabalhava na fazenda.

Julieta também estava atarefada. Enquanto expandia as terras, aumentava a inimizade com Xavier. Ainda tinha o filho, Camilo, que agora estava com uma ideia maluca de se casar com Jane Benedito. Não que a moça não fosse boa, refletia Julieta, mas a família dela era muito "escandalosa" como a mesma tinha percebido em um desastroso jantar que teve na companhia deles.

Um dia, quando foi para a casa de Chá de Dona Agatha, ficou sabendo do chocolate Ema.

—Pelo visto Aurélio realmente está cumprindo a promessa que me fez..._ falou em voz baixa ao notar a imensidão que o negócio do filho do Barão havia atingido.

—Julieta?

A voz de Aurélio a fez virar para trás para o observar. Ele abaixou os olhos e viu em suas mãos uma pequena caixa de bombons. Sorriu.

—Já experimentou? Espero que goste!

Julieta permanecia quieta. Era a primeira vez , depois de um bom tempo, que eles se viam.

—Não, ainda não. _ disse ao conseguir raciocinar as palavras direito_Mas só ouço elogios. Confesso que não conhecia esse seu lado gastronômico.

—Creio que há muita coisa em mim que você ainda não conhece. Mas me permitiria um dia, uma visita á minha nova casa?

—Nova casa?

—Sim, é uma chácara pequena mas não deixa de ser meu lar.

Julieta sorriu. Estava curiosa em conhecer o novo lar de Aurélio. E uma visita não faria mal, pelo contrário. Ela precisava espairecer as ideias e preocupações que lhe viam atormentando.

—Está feito! O dia que o senhor achar conveniente...

Aurélio riu.

— Não precisamos dessas formalidades e a porta da minha casa sempre estará aberta para você.. Se não estiver ocupada, podemos ir agora mesmo para lá.

Julieta pensou em confrontá-lo mas não sentiu vontade. Concordou com a cabeça.

Logo depois de Aurélio entregar as encomendas de Dona Agatha, ambos saíram rumo á chácara. Pela relutância de Julieta em andar de cavalo com Aurélio, ele aceitou ir no carro da mesma, guiando o caminho para o motorista.

Já era quase tarde quando chegaram. Julieta observava admirada a beleza do lugar. A chácara estava mais bonita depois de pequenas reformas de Ema.

Aurélio ofereceu vinho para Julieta. Ela aceitou.

—Então Aurélio, como aconteceu tudo isso? _ Julieta perguntou sorrindo enquanto bebia um pequeno gole de vinho.

Aurélio se sentou ao lado para lhe explicar a história.

—É um pouco longa

—Não se incomode, eu tenho todo o tempo disponível á escutá-la.

Aurélio sorriu. A noite tingia de azul escuro o céu. A noite que estava ainda só no início.

Notas finais
Espero que tenha gostado! Aviso que talvez futuramente irei realizar modificações nos capítulo para melhorá-los! Críticas construtivas são muito bem aceitas! ♥