O Orgulho e a Soberba
3 A cachoeira
Notas iniciais
Julieta ainda estava aturdida. Mesmo respirando o ar puro da cachoeira e sentindo a brisa dela, não conseguia se livrar dos pensamentos que a levava para Aurélio. Pensou em voltar, lhe dizer algumas verdades. Porém, quais seriam as verdades?
Estava enfurecida. Quem ele achava que era para bagunçar seus sentidos e sentimentos?
Levou as mãos ao rosto em uma tentativa de amenizar o calor. Notou que não estava com a pistola e nem com a pequena bolsa.
—Não acredito que deixei tudo na trilha!_ resmungou
Se lembrava de ter jogado a bolsa no chão em uma tentativa de segurar melhor a arma. A arma que abaixou sob o toque de Aurélio. Mal pôde continuar os pensamentos quando levou um susto com um grito.
—Julieta!_ O filho do Barão gritou saindo por de trás das folhagens.
Carregava na mão a pequena pistola.
—Creio que a senhora esqueceu isso..._ disse oferecendo a arma.
Depois de passado o susto, Julieta olhava surpresa para ele. Não esperava que fosse atrás dela e muito menos para devolver a arma com que tinha sido ameaçado.
Pegou sem agradecimentos.
—Esperava um obrigado_ disse aborrecido o filho do Barão
—Mas é mesmo um petulante! O senhor vive me seguindo, e ainda vem querer cobrar agradecimentos do que não passou de sua obrigação?_ a Rainha do café ironizou.
—Não acredito que mesmo depois de tudo que passamos a senhora acredite que lhe persigo!
—Então foi mero acaso nos encontrarmos na trilha? Ou irá dizer que foi o destino?
Aurélio se irritou. Aquela mulher conseguia brincar com suas emoções.
—Desculpe-me! O erro foi meu. Era para ter lhe mandado uma carta pedindo autorização. Porque, afinal, todo lugar em que a senhora vá, já lhe pertence!
Julieta se enfureceu. Não iria receber aquela afronta sem revidar.
—Que disparate! Quem o senhor acha que eu sou? O que espera de mim?!
Os olhos dela vibravam uma mistura de sentimentos que pareciam indecifráveis para Aurélio. A noite já tingia o céu. E os respingos dos últimos raios de sol iam de encontro com Julieta, realçando sua fúria. Destacando sua beleza perante aquela natureza exuberante ao fundo. A cena se parecia uma bela pintura. Pintura a qual os olhos de Aurélio não conseguiam desgrudar.
O silêncio dele observando-a lhe pareceu a última gota do afronte. Bateu com força em seus ombros. Empurrava o corpo rígido de Aurélio para longe como se empurrasse consigo todos os sentimentos que sentia bater no peito.
—Pare, Julieta!_ repetia em vão o filho do Barão enquanto tentava segurar-lhe os braços.
Estavam ambos na beira da lagoa da cachoeira. O pequeno momento de fúria de Julieta foi o suficiente para que tropeçassem e caíssem na água. Soltaram um grito ao sentir a água fria em seus corpos.
Mesmo que estivessem no raso, estavam totalmente molhados.
—EU NÃO ACREDITO!_ resmungou Julieta tentando se levantar. O vestido estava cheio de areia e encharcado.
—EU QUE NÃO ACREDITO! A SENHORA ME AGREDIU!_ respondeu Aurélio se levantando.
Julieta riu em tom de deboche.
—O SENHOR BEM QUE MERECEU...._ começou a resposta porém logo parou ao ver a situação de Aurélio.
Estava com o paletó cheio de areia, o cabelo bagunçado e molhado. Não conseguiu segurar a risada. Colocou as mãos na barriga na tentativa de conter a dor do riso.
Aurélio ficou sem entender, mas logo percebeu que Julieta estava rindo dele. Olhou para sua roupa e percebeu que o paletó estava cheio de areia e lama. Quem dirá como estava o resto. Uma verdadeira desordem, pensou.
—Saiba que a senhora não está melhor do que eu! _ disse rindo ao ver as mechas do cabelo de Julieta bagunçadas e o vestido cheio de areia.
Ambos riam um do outro e depois de sim mesmo. Não sabiam se era algum efeito da fúria anterior ou qualquer outra coisa.
Aurélio se aproximou e endireitou uma pequena mecha rebelde do cabelo de Julieta. O simples toque lhe pareceu suficiente para relembrar a sensação de calor. Ele estava ali de novo, tão próximo dela.
—Você fica linda quando sorri...._ olhava encantado aquele belo rosto_ eu não pensava que era possível ficar mais bonita! Fico contente de ter ouvido a sua risada sincera e mais ainda de saber que cooperei com ela...
Julieta se sentia perdida naqueles olhos azuis que contrastavam com o céu escuro. Pareciam o porto seguro para aquela tormenta que estava em seu coração. Conseguia confiar em suas palavras.
—Há um momento estávamos brigando..._ comentou aturdida.
—E agora estamos debaixo de um céu estrelado. Em pé numa lagoa gelada. Todos sujos de areia e lama. Creio que , o que sentimos, seja maior do que aquilo que somos...
—E o que somos?_ perguntou Julieta se aproximando da respiração de Aurélio. Sentia o controle se esvair. Olhava com atenção aquela boca que tanto amava. Queria prestar atenção nas palavras que dela sairiam.
—Uma mulher e um homem apaixonados. Orgulhosos, porém apaixonados.
Os lábios se encontraram. A Rainha do café podia sentir através das vestes coladas, a musculatura do homem que tanto lhe desejava. Passou as mãos em seu cabelo. Puxava-o para si. Não queria que aquele momento acabasse.
Aurélio segurou sua cintura. Sentia a paixão e o amor arderem no peito. Beijou o rosto de Julieta. O que a fez pensar que o trajeto de beijos da trilha fosse se repetir. Porém, não. Aurélio tentava sua boca, queria enlouquecê-la da mesma forma que ela lhe enlouquecia.
Julieta não se segurou. Puxou delicadamente o seu lábio inferior. Beijava-lhe com inquietação. Não sabia se era o efeito da lua que estava linda no céu, ou daquela beleza natural que os rodeava. Ou ainda, daqueles lindos olhos azuis. Mas, naquele momento, não se importava com a causa. Apenas se preocupava em beijar os lábios de Aurélio. Sentiu um arrepio percorrer o corpo. Um calor que parecia incendiar. Passeou na boca de Aurélio.
Parou para respirar. Sabia que o rosto estava corado. Entretanto, não se importava. Antes que pudesse falar algo, uma rajada de vento frio atravessou seus corpos. Julieta cruzou os braços na tentativa de se aquecer. E logo saiu rapidamente da água, sendo seguida por Aurélio.
Quando pararam na pequena margem, encarava ele duvidosa. O que era aquilo, afinal, que sentia bater dentro do coração?
O filho do Barão retirou o paletó. O limpou e colocou no chão. Enfim, olhando pros olhos curiosos de Julieta, perguntou algo que não era novidade que ambos queriam. Algo que necessitavam.
—Podemos conversar?
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